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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Festa no Interior (José Anzolin) #


Foto: José Anzolin - Ano 1944 - Acervo de Sebastião Anzolin *** Verso da foto: Bilhete escrito por José Anzolin, da Itália, ao pai. (A dificuldade na escrita deve ser vista como natural em um jovem agricultor daquele tempo de precaríssimas escolas rurais e cujos pais, imigrantes, nem sempre falavam o português dentro de casa. Considere-se, ainda, as condições emocionais e de urgência com que um soldado em guerra deva ter rabiscado rapidamente algumas palavras ao pai, talvez de pé, sob uma tenda de campanha)
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Abril, 2010

Nada a ver com babados, xotes e xaxados da reluzente canção popular que todo mundo conhece. Quero falar da festa que promovemos, a 10 e 11 de abril, no meu interiorzinho mineiro, Leopoldina, para festejar os 130 anos da imigração italiana para a região e os 100 anos de fundação, em 1910, da chamada “Colônia Agrícola da Constança”, um espaço de produção rural que o governo mineiro criou, naquela época, para que os imigrantes europeus pudessem trabalhar e viver.

Já falei deste evento quando publiquei o convite, aqui no Blog, com permissão da nossa amável Maria Helena, e só volto hoje ao assunto para dizer que a reunião foi um sucesso. Descendentes de imigrantes, vivendo hoje nos lugares mais diversos deste país, compareceram às dezenas para abraçar velhos amigos e parentes. Foi bonito vê-los reunidos lá na roça, ouvindo boa música, saboreando pratos típicos e dançando a tarantela em volta da singela Capelinha de Santo Antonio de Pádua, o padroeiro da Colônia Constança.

Todo mundo sabe que nos primeiros anos da república o Brasil procurou atrair o imigrante europeu como alternativa para suprir a falta de mão de obra no campo. Na verdade a coisa não ia economicamente bem lá para as bandas da Europa, que estava “assim” de gente desejosa de vir “fazer a América”. Não seria por falta de convite.

As Colônias para imigrantes foram muitas por este Brasil a fora, principalmente no Sudeste e no Sul. Em regra não ficavam muito distantes das sedes dos municípios. No caso da minha Leopoldina, “Constança” foi uma enorme fazenda que o governo de Minas desapropriou, dividindo-a em dezenas de pequenos lotes de terra, de tamanho suficiente para manutenção de uma família. Essas propriedades foram financiadas, a longo prazo, aos adquirentes.

Vieram portugueses, espanhóis, alemães. Para a Zona da Mata Mineira, entretanto, o número de italianos foi acentuadamente maior. Talvez metade – ou mais – da população leopoldinense de hoje tenha algum ancestral italiano.

Minha ascendência é um tanto lusitana, mas eu jamais perderia aquela festa. Todo homem guarda no sapato a poeira da sua aldeia. Passei a vida no Rio de Janeiro sem jamais ter descolado coração desse meu pedacinho de mundo. Meu avô paterno residiu na Colônia Constança. Na escolinha, ao lado da Capela, minha mãe foi professora. Fiz ali o primário, aprendi o catecismo e recebi a primeira comunhão.

Ali brinquei de pique-esconde, de rodar arco, de jogar pelada, bola de gude (que a gente chamava de bilosca), de galopar a cavalo. Mas, também, ouvi histórias. Muitas histórias! Ouvi histórias da Segunda Guerra Mundial, “casos da campanha da Itália”, contadas pelo ex-pracinha, José Luiz Anzolin, o grande brasileiro “Zé Anzolin”, terceiro filho do imigrante italiano, veneziano, Basílio Anzolin, a quem a brutalidade da ditadura Vargas mandou ir lutar contra a pátria de seus pais... Uma ignomínia!

Tive o privilégio de, ainda criança, ouvir do bravo Zé Anzolin histórias da frente de batalha, das mortes, do destemor ante o perigo, do ódio indizível na queda de um companheiro, da vigilância incansável à noite, dos ferimentos. Da sua quase perda dos membros inferiores por congelamento e falta de circulação sanguínea, e dos tratamentos que lhe foram ministrados por médicos americanos.

Quando ouço Elis Regina nos versos daquela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant...

“Lá vinha o bonde no sobe e desce ladeira / e o motorneiro parava a orquestra um minuto / para me contar casos da campanha da Itália / e de um tiro que ele não levou / levei um susto imenso nas asas da Pan Air...”

O “motorneiro”, para mim, será sempre o Zé Anzolin! Meu herói, Zé Anzolin! O herói brasileiro, José Luiz Anzolin! Nascido a 26 de julho de 1915, na casinha de seus pais, na Colônia Constança. Um jovem agricultor, um “italianinho” tirado aos 25 anos da lavoura para integrar a Força Expedicionária Brasileira na Itália. Teve a sorte de voltar vivo, palmear pelo resto da vida o cabo de sua enxada e criar família.

Faleceu no dia 15 de outubro de 1965. Repousa com a dignidade merecida, junto a outros heróis da FEB, no Mausoléu dos ex-Pracinhas, na cidade do Rio de Janeiro.
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(Publ. em 29.04.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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