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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

LEOPOLDINENSE Online

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Janeiro, 2011

Nem parece verdade! O jornal LEOPOLDINENSE Online chega à marca de 1.000.000 (Um milhão) de acessos. Ou seja, um milhão de vezes alguma notícia sobre Leopoldina foi lida, no Brasil ou no mundo. Alguma imagem tocou a sensibilidade do leitor. Alguma mensagem comercial foi vista. Alguma emoção foi vivida. A cidade aconteceu, a cidade foi lembrada.

O LEOPOLDINENSE recebe, em média, 3.000 (Três mil) acessos por dia. Ainda admitindo que uma mesma pessoa possa fazer mais de um acesso, havemos de convir que é muita gente lendo o jornal por esse mundão de Deus.

É fácil imaginar o que isto representa em termos de difusão da vida de uma cidade, do conteúdo transportado pela opção midiática em sede de valores culturais, históricos e sociais. O que pode significar isto em termos comerciais. O quanto vale nossa realidade oferecer-se ao alcance de quem, num determinado instante, onde quer que esteja, precise ou deseje correr os olhos sobre Leopoldina.

Cerca de dois bilhões de pessoas, no planeta terra, têm hoje acesso à Internet. Algo próximo a 30% da população global, a teor da Estatística Mundial da Internet (Internet World Stats). Na Europa, mais da metade da população está ligada à rede mundial de computadores. No Brasil somos quase 80 milhões de usuários, o que corresponde a um altíssimo percentual de nossa população atual, de cerca de 190.732.694 habitantes (números de 2010).

Depreende-se daí o quanto é importante, hoje, um jornal como o LEOPOLDINENSE Online. Equivale simplesmente a estar presente neste mundo civilizado, comunicativo e participante que nos rodeia. Nossa época é a da informação em tempo real. Virou propósito das pessoas receber, gerar e dar circularidade às notícias para que elas atinjam o maior número possível de interessados.

As regras jornalísticas permanecem imutáveis. Quanto mais insinuante, mais inusual, mais tende – e com redobrada força, na Internet - a informação a circular, a procurar leitores. É absolutamente inócuo, nos dias que correm, querer controlar a informação. São muitos os caminhos, no próprio âmbito da Grande Rede, e a informação logrará sempre cumprir sua vocação de espalhar-se no seio da sociedade.

É neste mundo de transparência absoluta, no qual estamos irreversivelmente inseridos, que órgãos de imprensa como o LEOPOLDINENSE Online, com suas aberturas cosmopolitas, ganham foros de agentes imprescindíveis da modernidade. Muito por conta de que estão eles a subsidiar - dentre outros - o direito inalienável dos cidadãos ao amplo conhecimento (publicidade) dos atos da vida pública, para que possam exercer seu papel de árbitros e fiscalizadores.

O LEOPOLDINENSE mostra, portanto, ao que veio. Um milhão de acessos; um milhão de leituras. Um número quase vinte vezes maior que a própria população de Leopoldina! Quem foi que disse que jornal de interior não é lido?

Já escrevi isto e repito: É, para mim, motivo de vaidade ter participado da fundação deste Jornal. Parabéns, Luiz Otávio, pela marca expressiva! Parabéns, João Gabriel. Parabéns, Luciano. Parabéns, Maria José. Tem muita gente lendo vocês, meus amigos. Vocês estão provendo Leopoldina de um jornal do qual a cidade pode se orgulhar.
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(Publicado no suplemento do jornal LEOPOLDINENSE de janeiro de 2011)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sépia Virgínia

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Janeiro, 2011



Uma dessas pessoas que sempre nos dizem coisas amenas e simpáticas me disse que sonhar colorido é bom. Quando alguém diz que um acontecimento assim é bom, não interessa bom pra quê, não é mesmo. Pode ser bom para a saúde, para os planos,  para o espírito da pessoa – sei lá. Afinal não sou chato ao ponto de questionar benefícios. É bom, ponto final. Que pintem logo as obsequiosas mercês.

Esta noite sonhei ter inventado um novo e radioso tom de sépia. Oops! Sonho colorido. Em linguagem cinematográfica não muito atual, um sonho em tecnicolor. Meu sépia era supinamente belo e a ele dei o nome de Sépia Virgínia, associando-o a este sublime nome de mulher que tanto me fascina desde a adolescência. Não por acaso meu sonho o terá tomado para definir a graça virginal do intocado matiz, sua luminescência estreme e genuína.

Devo confessar que sempre desejei ter uma filha que se chamasse Virgínia. Vencida, porém, em branco minha etapa reprodutiva dei de planejar, faute de mieux, ter em casa uma fêmea de arara azul à qual atribuir o luminoso nome. Tratando-se, entretanto, de pássaro ameaçado de extinção, como de fato é, passei a considerar a necessidade de drumondianas “milícias protegendo a arara”, o que me dissuadiu da quimera.

Mas voltando ao sonho cuja memória ainda me acossa, acabara de criar assim a maviosa nuança do Sépia Virgínia e não podia deixar que meu cérebro se desocupasse da tonalidade antes de registrá-la em algum lugar, com pincel e tinta. Enfrentava, porém, ainda no sonho, um duro questionamento. Certo personagem onírico, que não pude distinguir se homem ou mulher, me desancava a criação objetando, de um púlpito barroco, em severo discurso, que as cores primárias seriam apenas três – o azul, o amarelo e o vermelho. Que a combinação entre elas, ou delas com as cores secundárias, era uma rematada impostura, um plágio odioso da própria obra divina, uma apropriação indébita pela qual eu haveria de pagar na justiça, dos homens e de Deus!

Procurei defender-me do inflamado tribuno buscando convencer, a ele e ao distinto público (muita gente na plateia do meu sonho!) que meu opositor trazia à baila uma enorme tolice, pois quem junta uma ou mais cores e chega a certo resultado é um inventor, tanto quanto também o é quem junta um determinado número de parafusos e cria um motor movido a margarina.

De mais a mais – acrescentava eu, numa atitude segura de quem manjava de leis – os direitos hereditários do Divino Criador sobre cores fundamentais, ou seja, Jesus de Nazaré, falecido há muito mais de 70 anos, já estariam prescritos e Seu invento caído no domínio público... E arrematava:
Se passou ao domínio público não se pode falar em plágio!  

Como os exemplos ilustram, argumentei ainda que a mesma coisa já ocorrera com o belíssimo tango argentino, Por una Cabeza. Sua passagem ao domínio público permitiu fosse o mesmo tomado para tema do filme Perfume de Mulher, sem que Hollywood precisasse pagar uma micra de direitos autorais aos descendentes de Carlos Gardel e Le Pera .

Fim de papo, portanto! Inventei um novo tom de sépia, prodigiosamente belo, e só me falta reproduzir o extasiante matiz numa lâmina de porcelana ou metal para levá-lo a registro naquele prédio cinza, ao lado da Universidade do Brasil, na Avenida Pasteur, no Rio. Meus direitos autorais estarão assegurados. Um desdobramento seguinte seria levar minha nova e prodigiosa cor aos pássaros – em sonho vale tudo – sugerindo a Deus Pai, que a tudo preside e referenda, a criação de uma nova espécie de saíras indizivelmente belas, na cor Sépia Virgínia.

Ante tantos devaneios, uma angústia me comprimia o peito: e se eu não conseguisse, ao cabo de certo tempo – ou, quem sabe, por toda a vida – reproduzir num papel, numa parede ou num objeto qualquer, a minha cor? Se eu não conseguisse demonstrá-la? Afinal nunca fui pintor.
Minha mulher é! Mas não sei por que cargas d’água neste sonho ela não aparece em meu socorro!
Meu soberbo Sépia Virgínia poderia vir a não ingressar no mundo!

Sem saída diante da situação subi à tribuna com uma fala contraditória. Colocava em cheque toda a minha noite de criatividade estética.

– A lei não pode admitir – discursei enérgico – que uma criação artística não demonstrada seja declarada existente. Trata-se – e minhas palavras assumiam um tom didático – do “princípio da tangibilidade do invento”... Saibam os senhores que, noções abstratas à parte, tudo mais que não se materialize diante de nossos olhos deve ser considerado ausente do universo das coisas tangíveis. Ou o Sr. Pintor demonstra seu Sépia Virgínia ou a cor será considerada inexistente!

Diabos! Era o criador detonando sua própria criação! Acordei sobressaltado com atitude tão danosa a meus interesses. Comentando com minha mulher, ela admite tudo não passar de fruto da velha mania que tenho de querer ser “mais realista que o rei”...

– Ela está errada, e eu vou provar isto num outro sonho, assim que possível. 


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(Publicado em 27.01.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Prevenção de Desastres

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Janeiro, 2001

"Grandes navegadores devem suas reputações
às grandes tempestades." (Epicuro)

Em post desta última terça-feira, Maria Helena Rodrigues Rubinato de Souza comentou com muita propriedade, em seu Blog do Globo Online, a falta de sistemas preventivos de acidentes no país:

“Parece que no Brasil o sistema de alarme sofisticado levará muitos anos para ser instalado. Pergunto: já que a tecnologia ainda é sonho distante, que tal usarmos celulares para avisar padres e prefeitos e eles voltarem a usar sinos para avisar os moradores do perigo iminente, ao receberem as mensagens, ainda que cifradas, dos operadores do novo radar?”

De fato, andamos ao sabor de improvisações. O exemplo mais marcante disto me pareceu o ocorrido na cidade de Areal, RJ, também fortemente atingida pela tromba d’água que assolou a região serrana do Rio. O prefeito de Areal teve a felicidade de ser informado que uma “cabeça d’água” vinha descendo, arrasando tudo, pelo extenso vale do Rio Preto. Gravou rapidamente um aviso aos moradores da beira do rio (no caso, significativa parte da população de Areal), colocou-o num carro de som, e, com isto, acabou por salvar dezenas de vidas. A inundação diluviana derrubou e arrastou muitas casas em Areal, mas não levou gente.

Sem dúvida, dispomos hoje de tecnologia suficiente para não dependermos tanto da sorte (no caso, sorte de receber e interpretar do modo adequado uma notícia) e de adotar com sucesso medidas heróicas como esta. Nada obstante, a providencial gravação de uma fita cassete a ser rodada pelas ruas de uma cidade em tempo crítico, se cotejada com o avanço tecnológico já alcançado pelo Brasil, soa como algo comparável aos românticos sinais de fumaça dos índios americanos nos filmes de John Wayne.

O Rio Preto desce das cercanias de Teresópolis correndo por vales muito estreitos e gargantas pedregosas, ao longo de uns bons quarenta quilômetros, entre a Br-116 (trecho Teresópolis/Além Paraíba) e a cidade de Areal. Trata-se de um vale paradisíaco, densamente habitado, com construções (indústrias, comércio e residências) perigosamente edificadas à beira do rio.

Foi foi dessa região, do município de São José do Vale do Rio Preto, RJ - cidade que se orgulha de possuir o nome mais extenso do Brasil - que partiu o aviso para o prefeito de Areal. Aviso que, felizmente, chegou na hora certa ao ouvido da pessoa certa e mereceu a improvisada, porém inteligente, providência do “grito” à população.

O mais desejável, no entanto - e de todo possível no atual estágio de civilização que, afortunadamente, vivemos - é que avisos dessa natureza sejam passados de maneira mais técnica, mais segura e mais profissional. É claro que podemos equipar nossa defesa civil com instrumental contemporâneo. O que tem faltado é governo no pedaço.

Trata-se de atribuição do Ministério da Integração Nacional, através do Sistema Nacional de Defesa Civil – SINDEC e da Secretaria Nacional de Defesa Civil – SEDEC. A missão estatutária desses organismos é reduzir desastres e efeitos dos mesmos, sobretudo mediante ações de prevenção e preparação para emergências, nos três níveis administrativos – federal, estadual e municipal.

O governo acaba de anunciar a criação um Centro Nacional de Prevenção de Desastres que deverá “mapear todas as ocorrências graves de chuvas nos últimos 20 anos, reformular o sistema de alerta em áreas de risco e aumentar a rede de radares que, junto com um supercomputador, irá prever mudanças climáticas com mais eficiência”.
Povo da minha terra! Será que esse “mapeamento” e essa “prevenção” de mudanças climáticas dependem mesmo da criação de um novo ente administrativo? Confesso que não me sinto confortável vendo municípios acenarem com mortes e prejuízos e o governo responder com mais uma possível sinecura... Claro que eu torço pra que não seja nada disto.

Não bastassem as dúvidas, o Ministério de Ciência e Tecnologia informa que o aparato só estará funcionando daqui a quatro anos! Antes tarde... Há outro dito, sempre repetido, segundo o qual o sol nasce para todos. Talvez não para os dorminhocos. Os encarregados de nossa segurança, no governo, precisam perder o hábito de dormir até mais tarde e só despertar nos momentos de dor e desespero.
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(Publicado aos 20.01.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Na Piedade

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(REFRÃO)

Quem quiser me ver,
Vai na Piedade!
Quem quiser me ver,
Vai na Piedade...

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Um homem não renega
Sua realidade,
Eu sou de Piacatuba,
Antiga Piedade.

(Refrão...............)

Cresci, fui pra longe
Pra grande cidade,
Mas continuo um cara
Lá da Piedade.

(Refrão...............)

Conheci o amor
E a felicidade,
Mas ser feliz direito
Só na Piedade

(Refrão...............)
No chão que eu nasci
Fujo da saudade
Por isso para me ver
Vai na Piedade.

(Refrão...............)
Enxurrada escorre
Ai, que novidade!
Pelo meio da rua,
Lá na Piedade.
(Refrão.............)

A cruz queimada, a igreja,
Dão a identidade,
Da hoje Piacatuba,
Antiga Piedade.

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Morte do Sô Gervásio

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Janeiro, 2011

Os irmãos, Sinval e Lazinho não tinham o direito de fazer com o pai o absurdo que fizeram. Imaginem! Levar o velho de 78 anos para uma noite de orgia numa Casa de Raparigas em Uberaba! Um homem do respeito e do conceito do Velho Gervásio! Que eles levem uma vida depravada e libidinosa de solteirões sem juízo, tudo bem, mas carregar o pai para a devassidão em que vivem! Convenhamos, era só o que faltava.

Santana da Cangalha inteirinha ficou sabendo! Expuseram à maledicência do povo a intimidade de uma pessoa de bem, de um cidadão respeitado e íntegro, levando também ao ridículo sua virtuosa esposa, Da. Miloca, mulher já entrada em anos, mãe infeliz desses dois irresponsáveis!

Justo o Velho Gervásio, exemplo que sempre foi de esposo e homem temente a Deus, membro fervoroso da Congregação do Santíssimo, penitente das procissões da Virgem da Abadia! Mácula indelével! Razão assiste a padre Antero quando verberou, do púlpito da Matriz, a ocorrência de indução sacrílega à fornicação. E foi o que houve.

Os safados negam a prática libertina que teria vitimado o pai, mas não explicam o fato de ter o mesmo chegado em casa já morto e enrijecido num banco de caminhonete empoeirada, por eles conduzida. Dr. Odivar, o delegado, foi categórico: o defunto veio de longe. De Uberaba, talvez. Só não abriu rigoroso inquérito para não atormentar, ainda mais, a vida da honrada viúva, também idosa, que já anunciava para o mês vindouro a Santa Missa pelas Bodas de Ouro do casal.

Vencido o luto, entretanto, alguma providência se impunha. Defuntos em Santana da Cangalha sempre foram sepultados na posição retilínea. Urna especial para enterrar finado torto, na vexatória postura de sentado, esta seria a primeira vez. E, prouvera aos céus, a última.

A verdade era uma só: Sinval e Lazinho, dentro da irresponsabilidade e dos valores devassos que cultivam, decidiram “dar uma alegria” ao pai. Por libertinos e levianos, a noção que possuem de alegria está vinculada a prostíbulos. Não entrava na cabeça do par de cafajestes que o pai fosse feliz levando uma vida regrada, obediente aos sagrados preceitos da fé, sem nunca ter dado um “pulinho fora”, preso por meio século a uma única mulher e a trabalhos rurais duríssimos. Enorme desperdício de vida para um pai tão bom – pensavam os depravados. Ele merecia alguns instantes de felicidade.

Mentiram à mãe que Velho Gervásio necessitava exames médicos, meteram-no na caminhonete da fazenda e viajaram para Uberaba, cidade grande onde o vício e o pecado imperam na madrugada boêmia.

Para espairecer o espírito, sempre a bebidinha. O local escolhido era acolhedor, suavemente iluminado, mulheres lindas e simpáticas, se desmanchando em gentilezas com o simplório Gervásio. Adredemente conversada pelos biltres, a lourinha, Marybel Tatoo, entrou a desincumbir-se de sua parte, tão logo os moços se ergueram da mesa:
-Té já, pai, fique à vontade com Bebel, ela é gente finíssima...

O velho era inexperiente, mas não era tolo. Entendeu o mimo. A moça o convidou para “subir”... e lá foi o respeitável cidadão cangalhense à vida. Burro velho não pega marcha? Pega, sim, depende muito de quem o maneja. O homem estava nas mãos da Bebel!..

Que só desceu na manhã seguinte, um tanto aflita, pedindo aos filhos que fossem lá em cima buscar o velho.
- Ele mudou de cor e não quer acordar – explicou ela.

Subiram os dois pândegos e - bom cabrito não berra - voltaram com Sô Gervásio dependurado pelas axilas:
-Valeu Bebel, ele vai ficar logo bom – acalmou-a Sinval. E, quebrando pro lado a cintura: Estou de mãos ocupadas, pegue “o seu” aqui no meu bolso. Oops! Eu falei “pegar o dinheiro”, sua sacana!... Arrastaram o estropiado para o estacionamento: Velho Gervásio estava mortinho da silva. Transitara direto dos carinhos da linda Marybel para o éter.

- Vamos dar o fora com ele, rápido, mano, antes que alguém veja, chame a polícia e isto vire reportagem de jornal e de TV. Vire escândalo. Pra todos os efeitos papai “vai morrer” em casa...
- Eu dirijo. Bota o chapéu na cabeça dele e o abrace firme. Temos estrada pela frente – decidiu Lazinho. Se mandaram com o extinto.

A chegada em Santana da Cangalha só se deu à tarde. Não faltou quem presenciasse os dois irresponsáveis descerem do carro e entrarem em casa, afobados, carregando o pai, duro e retorcido. O veículo empoeirado, de portas abertas, denunciava algum mal-feito. Logo, logo, toda a prestimosa vizinhança acorreu à casa enlutada.
- O Sô Gervásio morreu! Onde? Como? Ele sofria de algum “incômodo” grave?

Quem pergunta quer saber, e não foi difícil à sociedade cangalhense levantar toda a verdade, repisada nos botecos e nas esquinas:
-De fato, os dois safados levaram o pai para um puteiro! Imagine quantos comprimidinhos de excitação pecaminosa não enfiaram no coitado! Todo mundo sabe que aquilo mata. Com filhos assim ninguém precisa inimigos. Quem é capaz de coisa assim, é capaz de tudo! Sem falar na longa impiedade do sequestro de cadáver, ao ponto do velho grimpar as juntas na posição de sentado! Um tripúdio sobre o direito que toda pessoa tem de ir dignamente à cova, com o corpo na estendida fleugma da praxe mortuária!

E agora - sussurrou Lazinho ao irmão. Com toda essa zoeira na rua, que médico vai querer assinar o atestado de óbito do papai?
-O Dr. Magaref - acudiu Sinval. Não tem outro. Mesmo a gente sabendo que aquele turco ladino vai vender caro o laudo: uma boa grana pra assinar o atestado, outra grana preta pra não desmoralizar nosso pai dando, como causa mortis, “surra de xica”. Fazer o quê?
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Os Sessenta do Luiz

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Janeiro, 2011

Meu amigo Luiz Otávio Meneghite torna-se um sexagenário aos cinco de janeiro de 2011. Como sou versado no “assunto”, pois já alcancei esse marco há tempos, não digo que seja uma má idade. São consideráveis as conquistas preciosas a tal altura da vida. Principalmente no campo das experiências, se não somos desatentos ao mundo que nos rodeia.

Um pouco contraditório, no caso, é esse prefixo “sex”, que em “sexagenário” traduz apenas o número “seis”, mas nunca escapa à sugestão de “sexo”, em português, ou “sex” em inglês, noção um tanto ou quanto irônica a partir dessa tal idade, em qualquer idioma... Ainda bem que varia um pouco de pessoa para pessoa, concedendo certa vantagem aos de vida regrada, como no caso do caricato personagem do Chico Anísio, o futebolista “Qualhada”, que sempre defendia sua “boa forma” física com o refrão: - Não bebo, não fumo, se pópo...

Mas eu não desperdiço a honra do convite da família Meneghite, para comparecer a este caderno especial, apenas para brincar com meu amigo aniversariante. Quero, também, falar muito sério de nossa amizade e de uma vitória.
Quando cheguei de volta a Leopoldina, na segunda metade dos anos 90 - fissurado em jornalismo com sempre fui - minha primeira atenção foi para a “Gazeta de Leopoldina”.

Lá estava o Luiz Otávio no comando. Por aqueles tempos nossa “tradicional folha informativa” passava por uma excelente fase, sob condução desse destacado jornalista. Falo da qualidade dos conteúdos do jornal, da regularidade, do grande número de assinantes e de leitores avulsos adquirindo o jornal nas bancas e, como conseqüência natural, anunciantes. Ou seja, o Luiz Otávio produzia um jornal à altura das tradições de Leopoldina. Mais importante ainda, um jornal que a cidade estava lendo.

Ora, nada melhor para a classe política que dispor de um jornal que é lido. O olho grande dos “meninos” cresceu para cima da Gazeta. Os caras nunca tinham feito outra coisa na vida que não fosse panfleto bissexto de vésperas de eleição. Papeluchos de espalhar nas ruas com a ajuda do vento! Não deu outra: mexeram de um lado, mexeram do outro e tiraram a Gazeta das mãos do Luiz Otávio.

Na ocasião, delicadamente, tentamos fazer ver que aquilo era um erro. Eles iriam perder um trabalho árduo de recuperação da Gazeta, já que não existia, em Leopoldina, alguém com o tutano do Luiz Otávio para manter a qualidade alcançada pelo jornal. Fiz até uma crônica intitulada “A Gazeta é uma Flauta”, comparando-a com uma flautinha do Altamiro Carrilho que certo fazendeiro simplório, hipnotizado pela música do mestre, teria comprado a peso de ouro na ilusão ingênua de poder extrair dela as mesmas notas com que Altamiro o encantava.

Inútil! Como quem degola uma galinha de ovos de ouro, subtraíram a Gazeta ao Luiz Otávio e –dentro do previsto – por incompetência, desamor e burrice, acabaram com ela. Leopoldina perdia o mais antigo jornal do interior brasileiro, ainda em circulação. Um prejuízo histórico!

O mal veio, entretanto, para o bem. Foi quando tive a honra de ser útil à minha cidade, criando com o Luiz Otávio, em meu escritório da Rua Barão de Cotegipe, 52, o jornal LEOPOLDINENSE. Pensamos juntos: a “Gazeta” irá continuar. Só precisamos de outra denominação para ela. Quem pensar que foi tranqüilo, engana-se. Passaram a pipocar ações na justiça de Leopoldina (uns oito processos) tentando fazer o Luiz Otávio desistir de jornalismo limpo na cidade. Perderam todas as demandas já em primeira instância. Serviu para os idiotas criarem vergonha na “palhaça” e se recolheram à própria subalternidade.

O resultado de todo essa luta aí está. Um jornal bem feito, correto, vigilante e conforme à lei, exercendo o papel que cabe à imprensa livre desempenhar numa sociedade moderna. É claro que não consegue agradar à banda podre da política. Sentem-se incomodados. Infelizmente para eles, jornal foi feito para informar, instruir, fiscalizar – nunca para esconder e falsear a verdade. Em sua nobre missão o jornal do Luiz Otávio tem cumprido o seu papel. Seja em sua versão escrita, seja na versão online.

Por isto, nos 60 anos deste bravo e competente jornalista leopoldinense compareço com meu abraço de leitor entusiasmado com seu trabalho, de cidadão comum e sabidamente inexpressivo em minha terra, mas cheio de esperança nas possibilidades deste pedacinho de chão em que nascemos, vivemos e buscamos o melhor para nossa gente. Parabéns nos seus sessenta, pelos bons serviços prestados a Leopoldina, companheiro e jornalista emérito, Luiz Otávio Meneghite.
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(Publicado no Suplemento do jornal LEOPOLDINENSE de 01.01.2011)

Heranças Benditas

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Janeiro, 2011

Nenhuma conversa nesta primeira semana do ano pode escapar à efeméride nacional: a posse da primeira brasileira na presidência da república. Isto não acontece em 121 anos de vida republicana. No que a monarquia foi mais rápida: ainda que interinamente, Isabel assumiu a regência do trono brasileiro em três oportunidades de ausência do pai, numa monarquia que só durou 67 anos.

Agora é torcermos pelo sucesso de nossa primeira presidente (Sei que alguns preferem a forma gênero-desinente, “presidenta”... Acho feio e canhoto.), já que o Brasil deve ser posto acima das eleitorais pendengas e estamos todos na mesma jangada. Jangada, não, barco... O Brasil vem fazendo bonito e já pode ser considerado um barco. Talvez mais: o Brasil seria um navio... Um transatlântico, seguramente.

Que a mineira Dilma não quebre a sequência de bons administradores que tivemos, de Itamar - incluído ele - para cá. O voto do povão é tiririquento, mas temos dado sorte. Dizem que tudo conspira para que o Brasil dê certo. Principalmente a coerência nos objetivos dos diferentes governantes e o bom senso na escolha e manutenção dos instrumentos de política econômica. “Herança maldita” é rifão da boca para fora a reclamar conciliação mais honesta com o passado. Na verdade o receituário tem mudado pouco, para o bem de todos e felicidade geral da nação. Há muito de patrimônio hereditário nessa “sorte”.

Exemplo de felicidade maior que a do Brasil, talvez só em Belo Horizonte. A capital mineira vem sendo contemplada por uma ditosa sucessão de bons prefeitos, nos últimos vinte anos. De 1990 para cá, de Eduardo Azeredo a Márcio Lacerda, passando por Patrus Ananias, Célio de Castro e Fernando Pimentel, a cidade de Belo Horizonte beneficia-se de administrações probas e muito efetivas. O que é uma dádiva neste país de políticos pouco confiáveis.

São modelos de excelência, hoje, em Belo Horizonte, a Saúde Primária (como tal entendidos atendimentos ambulatoriais e clínicas básicas); o ensino infantil, através das UMEI (Unidades Municipais de Ensino Infantil); as incontáveis obras viárias, que dão à capital mineira um trânsito bem mais aceitável que o comum das grandes cidades; a urbanização das favelas através do programa “Vila Viva”, do Pimentel - o qual, aliás, inspirou o programa “Minha Casa Minha Vida” do governo Lula - já retirou milhares de famílias de áreas de risco, dando-lhes um verdadeiro lar. Lembre-se ainda a cultura levada às ruas, ao grande público, pelo FIT - Festival Internacional de Teatro, uma realização de lúcida e profícua inspiração.

Mãos à obra, presidente Dilma. É sua hora e sua vez de bem aprovisionar a trajetória da segunda mulher à frente do Brasil. A primeira passou à história: ficou conhecida como “A Redentora”. A senhora é beneficiária de muitas heranças benditas e não pode decepcionar. Repartido o bolo, mãos à obra e, aos insatisfeitos com seus respectivos nacos de poder, um lencinho para secar lágrimas de crocodilo. Que usem o desconfiômetro e parem de encher o saco.
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(Publicado aos 06.01.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)