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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Um Carinho Especial

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Novembro, 2011


Estive fora no dois de novembro. Para mim, nunca foi uma data qualquer. Desde criança já ia com meus irmãos e meus pais ao cemitério, no Finados, levar flores à “sepultura do vovô”. Sempre chovia, o campo-santo (que, em Leopoldina está mais para “morro-santo”) virava uma desordem lamacenta, um tremendo transtorno. Na volta, invariavelmente, o cuidado de minha mãe:
– Não entrem com os pés sujos... Deixem os sapatos aí fora!

Ainda hoje, quando não me desincumbo da visitinha à derradeira morada dos meus convocados ao alto, começa a trilar aquele desconforto renitente do dever não cumprido. A gente se condiciona à ideia de que nossos entes queridos estão lá, ávidos de atenção, prontos a nos acudir. O fato é que precisamos ilusões para viver. Se forem mais que ilusões, melhor: a fé elimina incógnitas filosóficas. Mas se o imperativo da razão nos abjura a utopia, surgem tormentos a reclamar escolhas, ainda que imprecisas e provisórias.

Lembro muito aquela cena do filme, Zorba, o Grego, em que o personagem de Antony Quinn, dá as costas à mulher amada ao constatar sua morte. Afasta-se do cadáver e diz:
– Não é mais ela!

Ali, Zorba espanca a dor num rompante de racionalidade, mas nunca é tão fácil ao ser humano dispensar o amparo providencial das ilusões. Faz-nos bem acreditar na perenidade da alma por uma razão bem clara: nascemos para viver; não nascemos para morrer. O Criador parece ter-nos infundido a convicção de que a morte é um despropósito a ser resolvido. Um dado acidental da criação.

Mas se vocês pensam que com este papo melancólico estou a fim de arruinar nossa Conversa de hoje, estão enganados. Escolhi apenas o introito à história de um sujeito que leva a morte na brincadeira. Ou, pelo menos, parece que leva. Vejam só: aconteceu a primeiro de novembro do ano passado.

Sem mais nem menos, apareceu aqui em casa – em rápida passagem pela cidade − um desses parentes distantes que a gente conhece de ouvir falar e nunca imagina andar por perto. Logo na apresentação descobrimos nele um cara legal, prosa agradável, casado com uma prima, com quem também perdemos contato. A fama do sujeito, na família, é de ser meio escorregadiço na maionese, parafusos intracranianos meio frouxos. Preconceito, talvez, por sua veia artística, constando ter trabalhado no circo quando jovem. Hoje, segundo diz, cria peixes ornamentais numa chácara em São Paulo. Passa dos cinquenta e está viúvo há uns dez anos.

Minha prima, a ex-esposa dele, foi artista plástica de renome, mulher muito bonita, elegante, produzia óleos inspirados. Do casal sempre se soube viver muito bem, “um feito para o outro” – se me socorre o rifão batido.

Pois bem, era véspera de Finados e, por delicadeza, mas também pelo prazer que nos daria, minha mulher e eu o convidamos a passar a noite em nossa casa, descansar, e viajar no dia seguinte. Caía a tarde e o destino dele, Campinas, em São Paulo, implicava dirigir setecentos quilômetros à noite. Muito perigoso – argumentamos.

Ele agradeceu o convite, mas não ficaria porque tinha um “compromisso inadiável” para a manhã do dia seguinte, no cemitério de sua cidade: “dar uma mijadinha na sepultura da Dinah”...
-Êpa! O quê!
Tivemos que rir, claro. Que brincadeira mais escrachada de maridão saudoso de sua amada!... Ponderado, todavia, ele nos confiou sua história.

Certo dia – disse – assim, meio irresponsavelmente, eu e Dinah combinamos que o primeiro de nós a falecer receberia, todo ano, do que ficasse vivo, “uma mijadinha na sepultura”... Nada de levar a urina num frasco e derramar lá; não, isto não é mijar. O trato era verter o xixi in natura...
Pelo sim, pelo não – aduzia ele − agrada-me vir cumprindo esse compromisso com ela nos últimos anos e é, exatamente, o que farei amanhã.

Objetamos quanto ao pudor público, o constrangimento diante de tantas pessoas em visita ao campo-santo no finados...
−Sem problema, disse ele. Uso uma capa tipo sobretudo. Dá para disfarçar bem. E acreditem, faço isto num gesto de carinho, do fundo de minha alma! Carinho muito sincero, tá.
Pareceu emocionar-se. Ficamos pensando na boa ideia do ilusionismo com o sobretudo.

Caspita! Sorte da prima, que morreu primeiro. Para ela, mulher, certamente seria mais complicado.


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(Publ. a 27.10.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

José Américo Barcellos

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Outubro, 2011

As presentes notas biográficas falam com emoção de um amigo, recentemente falecido, com o qual mantivemos algumas décadas de agradável convivência. José Américo Barcellos, radialista e dentista na cidade de Leopoldina, embora um pouco mais velho, me honrou com sua amizade desde os tempos do velho Colégio Leopoldinense, de histórica memória, e do mestre muito querido do Zé, o inesquecível, Prof. Geraldo de Vasconcelos Barcelos, com suas aulas superlativas no Gabinete de Química. Cito, propositalmente, apenas o Prof. Barcelos, com escusas aos outros grandes professores do célebre educandário, porque sou testemunha da marcada influência que aquele cultíssimo educador exerceu sobre a formação do nosso José Américo. Ele sempre citava o “Barcelão”.

Certa vez, participando de um programa dele na Rádio Jornal, Zé Américo me perguntou, de microfone aberto, se eu sabia que o palmito era uma poderosa fonte de proteína. Fui sincero e disse que não estava seguro disto. Ao que ele retrucou:
- Então o Prof. Barcelos só lecionou isto em minha classe. Ensinamento – prosseguiu ele – que confirmei, depois de adulto, numa matéria de jornal que falava do desenvolvimento da toxina botulínica (que é um complexo protéico) em latas de palmito industrializado. E concluiu José Américo:
– O Barcelão, lá atrás, já me havia ensinado isto!
Notável, seu culto ao velho mestre e poeta Geraldo de Vasconcelos Barcelos.

Mencionei radialista e dentista. Radialista em primeiro lugar porque antes de graduar-se em odontologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, ele já ocupara o microfone da ZYK-5, Rádio Sociedade Leopoldina, ainda estudante do Colégio Leopoldinense. Principalmente em transmissões esportivas.

“Zé Américo”, como veio a se tornar amplamente conhecido pela quase totalidade da população leopoldinense, nasceu no dia 10 de julho de 1932 na cidade mineira de Dom Silvério, filho de Luiz Torres de Barcellos e de Da. Lygia Domingues Barcellos.

A vinda da família para Leopoldina, na década de 30, coincide com a chegada, a esta cidade do Padre, depois Monsenhor, José Domingues Gomes, religioso de cultuada memória, que vinha a ser irmão de Da. Lygia. Assim, Luiz Torres de Barcellos chegou a Leopoldina em companhia do cunhado, sacerdote, tornando-se, depois, funcionário da Concessionária Ford, do Sr. Acácio Serpa.

O menino, José Américo, desde os doze anos, costumava dirigir o carro do tio, Pe. José Domingues, acompanhando-o nas viagens de celebração nos distritos de Leopoldina. Tornou-se ainda coroinha nas missas celebradas pelo Padre, ocasiões em que recitava invocações e orações em latim, circunstância que sempre relatava em família com muito orgulho.

Portanto, residindo em Leopoldina desde a infância, o nosso Zé Américo cursou o primário no “Grupo Escolar Ribeiro Junqueira”, conhecido como “Grupo Velho”, hoje Escola Estadual Ribeiro Junqueira. Primeiro e Segundo graus ele os cursou no então “Colégio Leopoldinense”, rebatizado por sua vez em Escola Estadual Professor Botelho Reis depois da estadualização, na metade dos anos 50.

Graduou-se Zé Américo em Odontologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora; graduou-se em Ciências, Física e Biologia pela Faculdade de Filosofia Santa Marcelina de Muriaé; tornando-se, por último, Professor no Programa de Saúde – Anatomia e Escultura Dental, pela Universidade do Trabalho, de Belo Horizonte.

Na área da saúde, paralelamente a seu consultório odontológico particular, na cidade, foi dentista do SESI, ao longo de 25 anos, e prestou serviços odontológicos à SAMSA – Sociedade de Assistência Médica e Social de Argirita, durante 10 anos; por concurso, em 1978, fez-se dentista do Centro de Saúde Dr. Irineu Lisboa, em Leopoldina; e, por duas ocasiões, prestou assessoria à Secretaria Municipal de Saúde de Leopoldina, nos períodos 1993/1996 e 1997/1999.

No concurso de dentista para o Posto de Saúde, Zé Américo foi aprovado em primeiro lugar. Aliás, lembrava ele que, ao inscrever-se nesse certame, foi avisado por alguém que a vaga já estava definida, tinha dono, e que o concurso seria um jogo de cartas marcadas. Deu-se, entretanto, que José Américo obteve uma pontuação tão superior aos demais concorrentes, que acabaram criando uma vaga a mais: uma pro tal “apadrinhado”, que se confirmou existir, e outra para ele, o primeiro colocado no concurso.

No magistério, Zé Américo lecionou Ciências, Física, Biologia e Química na Escola Estadual Professor Botelho Reis, de Leopoldina; lecionou Biologia no Ginásio Espírito Santo, também nesta cidade; exerceu o cargo de Vice-Diretor da Escola Estadual Professor Botelho Reis; e, ainda em nossa terra, fundou, no ano de 1969, um Curso Preparatório para Exames Vestibulares, do qual era o Diretor. A este último curso ele denominava “Escolinha” e as aulas eram aos sábados e domingos, sem custo algum para os alunos. Ali ele ensinava, já naquela época, radioatividade e possibilitou que os alunos tivessem acesso ao microscópio. O prazer dele era ensinar e compartilhar conhecimentos.

Seria, entretanto, na área do jornalismo radiofônico que o nome de Zé Américo calaria mais fundo na alma leopoldinense, com sublinhada inclusão das camadas mais populares dos municípios e localidades adjacentes. Foi homem de rádio por excelência. Sabia levantar a notícia, dizê-la ao microfone de maneira clara e atraente para o grande público.

Dominava como poucos o dom de cativar o ouvinte, repartindo com ele a informação. Suas falas – sempre de improviso – eram permeadas de humor e respeito ao público ouvinte. Quando se socorria em algum vocábulo mais erudito, ele prontamente o “trocava em miúdos” para que todos entendessem. O mesmo fazendo se a “louçania” provinha da boca de algum entrevistado. Era o rádio em sua tarefa básica de divertir e informar.

Se levava ao ar alguma denúncia, era no cumprimento de seu dever profissional, de jornalista e cidadão, mas sempre com o microfone democraticamente aberto para quem desejasse “responder” ou “esclarecer” o fato. Um homem ético, portanto, incapaz da incidência no erro das atitudes inflexíveis ou rancorosas.

As poucas vezes em que o poder político subtraiu-lhe o microfone coincidiram com momentos em que fatos comprometedores reclamavam “versão oficial” que omitisse a verdade. A paixão do velho radialista pelo microfone não era maior que sua honra. Sempre que necessário perdeu o microfone, para manter dignidade. Essa ninguém lhe tascou!

Em sua vida particular sempre foi pessoa acessível e muito simples. Nada mais fácil que chegar a ele e falar com ele. Nas primeiras horas do dia costumava transitar pela Praça João XXIII, nas imediações do Ponto de Taxi fronteiro à Rádio Jornal, quando não se detinha por longos papos nas cadeiras comunicativas do Bar Lamarca. Estar por ali era para ele como tomar o pulso da cidade. Parodiando o antigo colunista Ibraim Sued, ao dizer que “em sociedade tudo se sabe”, Zé Américo frequentava a “República do Lamarca” (denominação dada por ele ao local), esquina onde “a vida leopoldinense é passada a limpo”, e fervilha – talvez até um pouco além da conta...

Para se ter uma ideia do grau de informação daquela esquina, imaginem que há alguns anos, o autor destas linhas combinou com o Otto Valentim (o ex-craque botafoguense, Otinho) a compra de um imóvel que o mesmo possuía em Leopoldina. Acertamos o negócio por telefone, à noite: eu, em minha casa de Leopoldina e ele em seu apartamento do Rio. No dia seguinte, antes do meio dia, Otinho chegava, direto do Rio, ao Cartório do Adilson Velasco, onde já o aguardávamos. Assinamos a escritura e fomos a pé até o Banco do Brasil, na Pça. Gal. Osório, onde o preço do imóvel seria transferido para a conta do vendedor...

Pois não é que, ao passar pelo Bar Lamarca, sem que interrompêssemos a caminhada, pessoas nos davam “parabéns pelo negócio”! Pensei comigo:
- Como eles ficaram sabendo, meu Deus? Haveria uma “escuta”, algum microfone de alta impedância plantado dentro do Cartório?...
Tem-se aí o “grau de informação” reinante na “República do Lamarca”.

Zé Américo sabia das coisas. Sabia que naquela esquina nada passa despercebido. Sem falar que todos os políticos profissionais de Leopoldina têm olheiros plantados naquelas cadeiras. São os “rêmoras”, ou peixe piloto, aqueles miudinhos que acompanham os tubarões para lambiscar migalhas no banquete voraz do predador.

O bom jornalista sabe de suas fontes. Pela Rádio Cataguases Zé Américo chegou a totalizar 381 transmissões esportivas, como repórter e apresentador; pela Rádio Leopoldina foram 62 transmissões esportivas, locais e regionais, Das mãos dele saíram 32 campeonatos regionais de futebol, organizados.

Nos anos 80, por sua atuação na Rádio Cataguases, o nome de Zé Américo firmou-se como influência marcante nas cidades de Leopoldina, Cataguases, Juiz de Fora, Muriaé, Além Paraíba, Miraí, Recreio e Visconde do Rio Branco. Deu-se, aliás, no programa intitulado “Esportes com Zé Américo”, naquela emissora, que nosso biografado atingiu seus mais altos índices de audiência, inclusive com a montagem, ao vivo, nos estúdios do programa, de vários campeonatos regionais – claro, com a participação, “no ar”, de todos os interessados.

A partir de 1987, Zé Américo, assumiu a gerência comercial e administrativa da Multisson Rádio Jornal de Leopoldina, onde se destacou com os programas de jornalismo político, “Flagrantes”, “Fio da Navalha”, “Ponto Crítico”, “Detalhes”, “Integração” e, seu último sucesso de público ouvinte: o “Roda Viva”.
Entre 1989 e 1992 e no ano 2000, trabalhou na Prefeitura Municipal de Leopoldina, como Assessor de Imprensa,

A Rádio Jornal de Leopoldina, antiga ZYK-5, experimentou, na diretoria arrojada de José Américo, sua fase áurea. Realizou transmissões diretas, do Maracanã e do Mineirão, durante 6 anos consecutivos, de jogos do campeonato carioca e mineiro. Dependendo da importância do “clássico”, a cobertura da Rádio incluiu, algumas vezes, transmissões de jogos realizados no interior paulista.

Também no jornalismo escrito a presença de José Américo mostrou-se substanciosa em suas passagens pelos jornais “Nova Fase”, “Gazeta de Leopoldina”, “Folha de Leopoldina”, “Jornal Ilustração” e “Correio da Cidade”, de Cataguases. Mercê de sua simpatia e comunicabilidade, grande traquejo social e notável facilidade de improviso ao microfone, não foram poucas as vezes em que foi solicitado a conduzir eventos políticos, sociais ou culturais.

Felizmente, em muitas oportunidades José Américo logrou colher o reconhecimento de seu trabalho. Exemplo disto foi a Feira Estadual de Ciências, promovida pelo Colégio Central, de Belo Horizonte, em que alcançou classificação com seu aparelho de física denominado “Paradoxo Gravitacional”.

Em 1985 conquistou o troféu “Destaque Imprensa”, pela Rádio Super B-3, de Juiz de Fora, e, naquele mesmo ano, a Liga de Futebol de Juiz de Fora promoveu um campeonato regional para disputa do “Troféu José Américo Barcellos”, o qual, aliás, veio a ser vencido pelo Nacional Atlético Clube, de Muriaé.

A Câmara Municipal de Cataguases concedeu-lhe o título de Cidadão Cataguasense. Para seu maior orgulho, também o legislativo leopoldinense, como não poderia deixar de ser, atribuiu ao filho dileto – que apenas por acaso não nascera em Leopoldina – o título de Cidadão Leopoldinense.

Nosso maior nome da imprensa falada de Leopoldina tornou-se ainda detentor da “Medalha Ordem do Mérito Legislativo” do Estado de Minas Gerais, a ele outorgada pela Assembléia Legislativa de Minas, no dia 3 de dezembro de 1999.

José Américo Barcellos casou-se, aos 10 de janeiro de 1959, com Da. Wanda Bela Barcellos, falecida há cerca de três anos. O casal teve um único filho, o hoje engenheiro, Helder Bela Barcellos, casado com Walkiria Thomé Barcellos, que deram a José Américo e Wanda as netas, Letícia, de 20 anos e Lara, de 16 anos.

No dia 5 de setembro de 2011 faleceu na Casa de Caridade Leopoldinense esse grande exemplo de homem público e cidadão de nossa terra. Seu passamento cai como sombra e silêncio sobre o céu de Leopoldina. Para o redator destas notas uma enorme perda pessoal.

Inúmeras vezes participamos, na Rádio Jornal, sempre com muito entusiasmo, dos programas do Zé Américo. Seus convites, constantes e a simpatia com que ele nos apresentava a seu público e nos introduzia aos debates, era enorme. Mencionava, quase sempre, a figura de meu falecido sogro, o médico Dr. Lélio Lara, a quem Zé Américo sempre devotou grande carinho.

A lacuna deixada por José Américo Barcellos no coração dos amigos e na vida leopoldinense veio atestar, sim, que algumas pessoas são de fato insubstituíveis. No caso dele, muito especialmente insubstituível para seu extremoso filho, Helder com a esposa Walkíria, para as netas, Letícia e Lara, mercê da figura ímpar que foi, de esposo, pai e avô. Sem o Zé a cidade de Leopoldina não é a mesma.
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sábado, 22 de outubro de 2011

CAMG - Cidade Administrativa de Minas Gerais #

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Outubro, 2011

Sou mineiro um tanto ou quanto devagar. Ainda não conhecia a “Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves”, que o nosso ex-governador, Aécio – aliás, tão (ou mais) acariocado quanto eu – inaugurou em 2010. Estive em Beagá neste fim de semana e fui lá conferir.

É um baita conjunto arquitetônico, projetado por Oscar Niemeyer para sediar o Governo de Minas. A bem dizer, a décima quarta obra do famoso arquiteto a enfeitar Belo Horizonte, desde o conjunto arquitetônico da Pampulha, projetado nos anos 40 e principal cartão postal da cidade.

Não é que agora, setenta anos depois e com 102 anos de idade, Niemeyer resolve despachar para o primeiro mundo das maravilhas também a área norte de Belo Horizonte, cometendo ali a prodigiosa Cidade Administrativa mineira, com o Palácio Tiradentes ao centro, o maior prédio suspenso do mundo!

Do conjunto faz parte, ainda, dois edifícios, o Minas e o Gerais – confesso que achei esses nomes meio brincalhões, meio dupla sertaneja, mas deixa pra lá – sede de dezoito secretarias e vinte e cinco órgãos públicos, antes distribuídos em dezenas de endereços espalhados pela capital, centralizando a gestão, segundo dizem com grande economia de dinheiro público.

Nota dez até na ecologia do projeto: as águas da chuva escorrem para os dois lagos artificiais da parte externa do conjunto e servem para irrigar os jardins do entorno. Não se desperdiça água tratada.

Gostei muito de “conhecer pessoalmente” a portentosa sede do governo do meu Estado. Só uma particularidadezinha me fez filosofar de boteco. Caminhando pela sinuosidade dos jardins externos, e mesmo sem a certeza de que também eles sejam traços do grande Oscar, lembrei-me da conhecida declaração de amor de Niemeyer à linha curva: “Amo a linha curva, livre e sensual. A linha que encontro nos rios e montes de meu país, nas nuvens do céu, nas ondas do mar, no corpo da mulher amada (...) Das curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.

São, de fato, curvas todas as alamedas que circundam a “CAMG” - Cidade Administrativa de Minas Gerais. Do estacionamento ao Palácio, curvas. Do Palácio aos edifícios administrativos, curvas. Do estacionamento a esses, curvas. Para contornar o lago, curvas... Claro, uma beleza diante da qual também temos que nos curvar.

O problema é que na hora de caminhar sob a canícula do verão, os funcionários públicos mineiros acabam rendendo tributo indevido ao arquiteto franco-suíço, Le Corbusier que, ao contrário nosso Niemeyer, amava a linha reta. Constroem atalhos sobre a grama com a sola dos sapatos...

Achei um pouquinho irônico isto, mas nada demais. É só colocar umas lajotinhas ali, na rota dos apressados, que a grama cresce de novo. Interessa é que o projeto arquitetônico é bonito que só vendo. por mineiro, não.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE e, aos 20.10.2011, em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Empréstimos a Aposentados

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Outubro, 2011

Não sei se foi o primeiro a descobrir, mas Guimarães Rosa disse que “viver é muito perigoso” e que “viver é aprender a viver”. Se assim é, nós, os de vida rodada, não devemos nos fechar aos bons conselhos. Sempre se tira algum proveito deles. Principalmente nesse Brasil “dificultoso” onde tem muito sabichão querendo passar os outros para trás. Olho vivo neles! Mesmo a televisão, sempre estrepitosa em anúncios de “ganhos fáceis”, ontem alertava para investidas inescrupulosas às rendas dos aposentados.

Portanto, companheiros jubilados da idade provecta , não sejamos presas ingênuas nas mãos de gananciosos. Cuidado com ofertas de crédito consignável em folha de pagamento; aqueles empréstimos ou financiamentos cujas prestações serão descontadas dos proventos de sua aposentadoria. Não interessa se quem oferece a “facilidade” é um Banco, uma Financeira, ou uma Loja Comercial... Desconfie mineiramente! Quase sempre é bom para eles; e, para você, uma fria.

A agiotagem instituída detesta verbalizar a taxa de juros em que empresta o dinheiro. Ou, quando o faz, omite que os “juros baixos” apregoados, serão “juros compostos”, ou seja, calculados sobre o saldo devedor e lançados, mensalmente, para que você pague juros-sobre-juros...
-É “rúim” de dizerem isto, hem!

Desconfiar, sempre, do fácil e do barato. Milton Friedman, economista de olho limpo, que viveu 88 anos no século passado e mais 6 anos no atual, declarou que “não existe refeição gratuita”. De uma forma ou de outra a conta sempre chega porque nada cai do céu. Portanto, se as coisas têm preço, confira! Os profissionais da usura estão ai mesmo para realizar ganhos em cima dos distraídos.

Quem recebe através de Banco vive assediado com oferta de empréstimos: haja ouvido para o telemarketing, haja paciência para o lixo postal. Oferecem créditos em conta-corrente, direto no Caixa Eletrônico, Cartões de Crédito, viagens a prazo, os cambaus. O importante para eles é que façamos dívidas. Querem juros, taxas, spreads...

Quando o governo decide “aquecer o mercado” com facilidades no crédito pessoal, está utilizando um instrumento de política econômica, teoricamente legítimo. Entretanto, se numa ponta incrementa vendas, beneficiando o comércio e a indústria, na outra pode levar o drama pessoal a consumidores menos avisados – ainda que lhes propicie alegria no primeiro instante. Um raciocínio simples e equivocado leva as pessoas a supor que se as prestações mensais cabem nos proventos está ali a melhor forma de realizar passeios caros, consumir produtos do apelo midiático, trocar de carro, etc. A onerosidade da aventura é secundária.

Experimentem conferir “empréstimos pessoais” no Google. Temos lá ofertas com taxas ditas “baixíssimas”, 2%, 2,5% , ao mês, por aí. Parece pechincha, não é? Mas calcule um empréstimo de 100 mil reais, por exemplo, a 2,5% ao mês. A juros compostos, já no primeiro mês o emprestador aumentará o saldo da dívida em R$2.500,00! No mês seguinte, outro lançamento de juros; e mais outro, e mais outro...

Se a necessidade do dinheiro é premente, tudo bem. Convém, mesmo assim, “simular” o negócio para se ter uma ideia concreta da extensão do compromisso. Mesmo diante de instituições sérias, nunca ficar no plano das abstrações. Os emprestadores costumam dar muita ênfase à rapidez e à dispensa de cadastro limpo. Claro! Você vai autorizar o desconto na sua folha de pagamento! O lado deles está garantido.

Agora, se você já caiu no alçapão, amigo aposentado, talvez convenha procurar um advogado. O novo Código Civil Brasileiro não dá guarida à má-fé nas contratações. Todo contrato oneroso além do razoável pode ser discutido num processo: prove ao juiz que você não foi suficientemente informado da encrenca em que se metia (quase nunca se é) e sua chance de não pagar a parte extorsiva da dívida será grande.

Nada de ter vergonha. Se o agiota (travestido de Banco, Financeira, Casa Comercial, ou o que for) foi suficientemente astuto para pegar você pelo pé, seja esperto o bastante para não aceitar passivamente a extorsão.
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(Publicado em 13.10.2011 em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Casa de Caridade Leopoldinense – História #

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Julho, 2002

C.C.L. – UMA INSTITUIÇÃO CENTENÁRIA

Estes 20 dias do mês de julho de 2002 marcam os 100 anos do lançamento da pedra fundamental do prédio em que hoje funciona a Casa de Caridade Leopoldinense, na Rua Padre Júlio, 138, Leopoldina, MG.

A aritmética do tempo não demonstra diferença importante entre 100 e 99 anos, ou entre 100 e 101 anos, mas o sistema decimal é pródigo nesses arredondamentos em zero que tão bem se prestam a marcos de conquistas e a festivas comemorações. Em todo caso, 100 é um número realmente charmoso e referindo-se a UM SÉCULO de existência de obra tão importante para uma comunidade, como é caso do nosso Hospital, convém mesmo comemorar. Ao articulista que a módica criatividade discursiva o amarra à concretude dos registros históricos, boa maneira de honrar a efeméride será oferecer aos leitores suas anotações sobre a centenária instituição. Vamos lá.

A idéia de construção da Casa de Caridade Leopoldinense parece ter surgido na cabeça do vitorioso e lúcido advogado Gabriel de Paula Almeida Magalhães. Se não teve ele a exclusividade da iniciativa, foi certamente quem lhe dispensou a decisiva acolhida.

A República ainda não havia completado cinco anos, em setembro de 1894, quando, integrando a Comissão de Saúde de nossa Câmara Municipal, os médicos Joaquim Custódio Guimarães Júnior e Joaquim Antonio Dutra, fizeram votar a Lei Municipal nº24/1894, que destinava fundos do orçamento daquele ano (20 contos de réis) e do ano seguinte, de 1895 (10 contos de réis), para auxílio na criação de um Hospital. Era presidente da Câmara, portanto Chefe do Executivo Municipal (equivalente, hoje, a Prefeito), o Sr. Lucas Augusto Monteiro de Castro. A cena nacional estava conturbada, com o Presidente da República, Floriano Peixoto, terminando aos trancos seu grave quatriênio, depois da invasão federalista no Rio Grande do Sul, revolta na Fortaleza de Sta. Cruz e a “Revolta da Esquadra”, comandada por Custódio de Melo e, depois, Saldanha da Gama.

Em Leopoldina, já com os recursos disponíveis, mas inúmeros desafios a enfrentar, sobretudo o de encontrar prédio adequado, somente a 03/08/1896, pelo esforço de Gabriel de Almeida Magalhães, Octávio Ottoni e Lucas Augusto, pôde ser inaugurada a Casa de Caridade Leopoldinense num imóvel residencial da (atual) Rua Manoel Lobato (*).

A Gazeta de Leopoldina, em seu nº10, de 09/08/1896, noticiou a cerimônia de inauguração com elogios às contribuições dos Drs. Gabriel Magalhães e Octávio Ottoni, tendo feito uso da palavra, tão logo o primeiro presidente da Instituição, Tenente-Coronel Manoel Lobato Monteiro Galvão de São Martinho (Vice-presidente da Câmara Municipal), declarou “instalada a Casa de Caridade”, os Srs., Augusto Teixeira, redator da Gazeta, Gama Fernandes, do Jornal O Mediador, e o reverendo Cônego Angelim, vigário desta Freguesia. Significativamente, o primeiro vice-presidente do Hospital foi o médico Joaquim Antonio Dutra que, naquele ano, desempenhava a Presidência da Câmara, chefe, portanto, do Executivo Municipal. Os primeiros Estatutos foram aprovados em assembléia de 07/03/1897.

Um jornalzinho denominado “O Leopoldinense”, de 13/01/1895, informava que o cólera estava desestimulando a vinda de imigrantes para a região. Tal fato pode explicar, pelo menos em parte, o interesse dos políticos pela instalação do Hospital, sabido que naquela década, posterior à Lei de 13 de maio de 1888, ocorreu certamente a maior crise econômica de todos os tempos, no país, por falta de mão de obra e de moeda circulante para pagamento da pouca que aparecesse. Os imigrantes eram fundamentais para a economia de qualquer região e do país.

UM VULTO QUE LEOPOLDINA NÃO CONHECE

Teve, portanto, o Hospital em sua primeira Diretoria, como vice-presidente, um dos homens mais ilustres da história de Leopoldina, o Dr. Joaquim Antonio Dutra, cuja biografia merecia ser melhor conhecida por aqui. Foi médico, vereador, presidente da Câmara Municipal (Chefe do Executivo), Senador Estadual (1895), o chefe político, enfim, que antecedeu o Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira na liderança do município.

Ainda o jornal “O Leopoldinense” de 01.12.1894 informa que o Dr. Dutra, preocupado com a propagação descontrolada do cólera na cidade, pediu ao Ministro da Viação que interrompesse o tráfego do Trem de Ferro para Leopoldina. Na época não eram conhecidas as formas de contaminação pelo cólera – problema de higiene local, como só depois se soube. Mas talvez por intuição médica não deixou, o Dr. Dutra, de acertar em outra medida, sem dúvida decisiva: contratou o engenheiro Lavaguino para colocar água encanada e esgoto na cidade. Um administrador, portanto, que marcou sua passagem.

Levou-o de Leopoldina a paixão profissional pela medicina psiquiátrica quando o Governo de Minas lhe dirigiu proposta irrecusável para fundar, em Barbacena, o nacionalmente conhecido “Hospital Colônia”. No jornal “Novo Movimento”, de 28.08.1910, lê-se registro de que o Dr. Dutra era, naquela data, o Diretor da Assistência aos Alienados de Barbacena.

Indícios históricos, ainda que não absolutamente claros, sugerem que o então Governador de Minas ao favorecer o Dr. Joaquim Antonio Dutra com recursos para soerguimento de um Hospital de Alienados, em Barbacena, teria buscado, na realidade, afastá-lo de Leopoldina em benefício de lideranças locais mais prestativas a ele, Governador. De uma forma ou de outra, o médico Joaquim Antonio Dutra fez história também em Barbacena e é, hoje, designativo de um dos logradouros centrais daquela cidade.

José Monteiro Ribeiro Junqueira, que sucedeu Joaquim Antonio à frente da política leopoldinense, para aqui veio em 09.09.1894, após concluir seu curso de advocacia em São Paulo, impondo, igualmente, liderança honrada e duradoura.

O SUPREMO PROTETOR

O advogado, Gabriel de Almeida Magalhães - com a esposa, Da. Maria do Carmo Monteiro de Almeida Magalhães, os SUPREMOS PROTETORES, ad aeternum, da Casa de Caridade Leopoldinense – foi outro astro de brilho intenso nos céus da história leopoldinense. Na aurora da república transferiu-se para o Rio de Janeiro onde a família se fixou definitivamente. Seu neto, Rafael de Almeida Magalhães foi Governador do extinto Estado da Guanabara e, mais recentemente, Ministro da Previdência Social.

Há uma passagem curiosa, com o Dr. Gabriel, narrada por ex-colega de faculdade que com ele se encontrou na praça principal de Leopoldina, no ano de 1861.

Está na página 20 do livro “Histórias de um Médico”, de Cassio de Rezende. Relata o Dr. Cássio que seu pai, Francisco de Paula Ferreira de Rezende, mineiro de Campanha, que morreu Ministro do Supremo Tribunal Federal, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1855, deixando a magistratura (era Juiz) em 1861, na cidade de Queluz de Minas (hoje, Lafaiete), partiu a cavalo na direção de Leopoldina à cata de lugar promissor onde sentar banca de advogado. Pensava chegar a São Fidelis, no Estado do Rio. Cansado, porém, com os cavalos estropiados, um escravo como pajem e uma dívida de dois contos de réis, parou em frente ao único hotel de Leopoldina e, antes de apear, negociando com o hoteleiro a hospedagem, alguém lhe gritou do alto do sobrado ao lado:

-“Então, estais aqui?!... E conta Cássio Rezende: ... “volvendo a cabeça, quem meu pai havia de encontrar? Ninguém menos que seu colega Bié, um sujeito que tinha escapado de ser Visconde e que, já naquela época, era milionário. Gabriel de Almeida Magalhães que, no seio da família, tinha apelido de Bié, pelo qual era também conhecido entre os colegas... Em vez de apear no hotel, diz meu pai que deu uma rápida meia volta à esquerda, e foi cair nos braços do colega que ele não via desde a formatura. Tendo contado ao Dr.Gabriel que sua viagem não passava de procura de uma advocacia qualquer, disse-lhe o amigo que estava achado o que o ele queria, isto é, o que lhe convinha era a cidade de Leopoldina. E para convencer meu pai de que tinha razão, mostrou-lhe os seus assentamentos e, então, com um pouco de inveja, verificou meu pai que, enquanto ele partira para Queluz levando dois escravos e de lá saíra possuindo menos do que levara, o Dr. Gabriel, pelo contrário, tendo vindo para Leopoldina logo depois de formado, pouco mais trazendo de seu além do cavalo em que montava e, na garupa, a importância da própria formatura que ainda estava devendo, no fim de pouco mais de cinco anos, tinha pago todas as dívidas e já era tido até em conta de capitalista”.
Anote-se, portanto, que nosso benemérito de 1896, o Dr. Gabriel, já era homem de recursos, 35 anos antes, no ano de 1861.

NOSSO CRONISTA DO SÉCULO XIX

O advogado Francisco de Paula Rezende, pai do Dr. Cássio, é o autor da obra histórica “Minhas Recordações”, dentre outras publicações, verdadeiro repositório da vida leopoldinense nos anos aqui passados, de 1861 a 1892. Também ele fez fortuna em Leopoldina, mas aplicou-a em terras (Fazenda Filadélfia) e lavouras de café... Tendo a abolição, em 1888, acabado com as lavouras pela supressão da mão-de-obra, perdeu ele tudo o que tinha, mudando-se para o Rio de Janeiro, em 1892, em penosas condições, vindo a falecer um ano depois como Ministro do Supremo Tribunal Federal.

O PRÉDIO CENTENÁRIO

O Hospital inaugurado, como dito acima, aos 03/08/1896, numa casa da atual Rua Manoel Lobato (homenagem ao primeiro Provedor da CCL), não oferecia boas acomodações. Imóvel de destinação residencial, mobiliário modesto, embora dele se registrasse “servir para prestar bons serviços médico-cirúrgicos”. Nascia, entretanto, com o Hospital, a necessidade de um espaço mais adequado.

Com o passar do tempo, o crescimento da cidade passaria de fato a exigir maiores investimentos "em benefício dos doentes e em proveito da prática profissional dos médicos". Cogitou-se, pois, da construção de novo prédio, com mais espaço e funcionalidade, o que veio a ser feito no topo da colina central da zona urbana, vizinho à Matriz, em local arejado e descortino de ampla paisagem, tendo ao fundo a Serra dos Puris.

Foi assim que, aos 20 de julho de 1902, lançou-se a Pedra Fundamental do novo prédio, onde se acha ainda instalada a Casa de Caridade Leopoldinense, na Rua Padre Júlio, 138.

Consta que os recursos para a construção teriam sido oferecidos por pessoas da sociedade leopoldinense, além da ajuda votada pela Câmara Municipal, referida no primeiro parágrafo, acima. Existem, nos arquivos da C.C.L, escrituras antigas de doações de imóveis urbanos e legados valiosos, em favor do Hospital, prática que há muitos anos não se vê repetir.

Com muitas reformas, adaptações e acréscimos ao longo de um século é este o prédio que ainda hoje abriga o nosso Hospital.

BENEFICÊNCIA PORTUGUESA DE LEOPOLDINA

Que não se confunda a data de lançamento da Pedra Fundamental deste prédio, aos 20/07/1902, com a inscrição do marco granítico existente na porta principal da Casa de Caridade, onde se lê: "S.P.B. - PEDRA FUNDAMENTAL - LEOPOLDINA 1.12.1889".

Aquela pedra faz alusão à fundação da Sociedade Portuguesa de Beneficência, em Leopoldina, instituição da qual a Casa de Caridade Leopoldinense passou a ser sucessora, em meados de 1917.

Assembléia Geral da S.P.B., realizada em 25.03.1917 decidiu pela liquidação da Beneficência em Leopoldina. Nomearam, em ata, Comissão para indicar o estabelecimento pio que receberia o Fundo Social daquela instituição, mediante concessão de favores aos seus sócios. A escolhida foi a C.C.L.

No termo de absorção dos sócio da Beneficência Portuguesa, escreveu-se cláusula segundo a qual a C.C.L se obrigaria “a transportar do local em que está, para o seu prédio, a pedra fundamental da Sociedade Portuguesa de Beneficência, dando-lhe colocação condigna”.
Historicamente, seria o texto mais feliz se houvesse informado o endereço da Beneficência Portuguesa, em Leopoldina. Apenas quando manda “transportar do local em que está, para o seu prédio”, atesta, indiretamente, que não funcionava no local onde hoje está o Hospital.

O Hospital guarda, ainda hoje, esse documento, datado de 25 de maio de 1917, assinado pelo Provedor da C.C.L., Ignácio de Lacerda Werneck, e pelos membros da Comissão nomeada pela S.P.B, Raphael Domingues, Antonio Joaquim de Macedo Sá e João Xavier Lopes.

A Sociedade Portuguesa de Beneficência - SPB, com sua pedra fundamental lançada no dia 01/12/1889 – exatos 15 dias após a proclamação da República, antecedeu em 6 anos a fundação da C.C.L. Extinta em 1917, esteve entre nós por 28 anos.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

A primeira Mesa Administrativa da C.C.L., em 1896, ficou assim constituída:
PRESIDENTE: Tenente Coronel Manoel Lobato Galvão de São Martinho, vice-presidente da Câmara Municipal; VICE-PRESIDENTE: Dr. Joaquim Antonio Dutra, médio, e então presidente da Câmara Municipal; TESOUREIRO: João Luiz Guilherme Gaide; SECRETÁRIO: Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira.

Já no primeiro capítulo dos Estatutos originais da C.C.L. seus idealizadores inscreveram os grandes e perenes objetivos da entidade:
"a) Prestar socorro médico-cirúrgico, no respectivo Hospital, aos doentes pobres que os reclamarem, dando preferência aos do Município de Leopoldina; b) Tratar, mediante retribuição, enfermo não-indigente; c) Fornecer medicamentos e outros socorros aos indigentes".

Felizes, podemos avaliar que, apesar dos percalços, a Casa de Caridade Leopoldinense, ao longo de todos os anos, meses e dias dos dois séculos que se seguiram à sua criação, vem guardando absoluta fidelidade aos princípios e objetivo de seus bravos fundadores. Nosso Hospital dispensa dedicação quase que exclusiva à população menos favorecida da cidade e dos municípios vizinhos.

Cerca de 90% de nossos atendimentos são voltados, hoje, aos segurados do SUS. Atendimento às vezes deficiente, sim, porque é muito deficitário e nem sempre repõe sequer a cesta dos medicamentos consumidos. A chama, no entanto, permanece acesa, no coração de nossos médicos, no coração de nossas enfermeiras, porque a vida continua e Leopoldina precisa do seu Hospital muito amado.

Olhos postos na esperança de melhores dias, reconheçamos a necessidade cívica, a necessidade moral imperiosa, a necessidade cristã, de somarmos esforços de apoio ao Hospital. Que ninguém se exima alegando ser "obrigação do Governo", porque não é! A Lei ressalva que a obrigação de o Governo prover a saúde não exclui a obrigação dos cidadãos, das empresas e das instituições. A C.C.L. vem se ressentido dessa moderada sensibilidade das pessoas em tal sentido, além do proverbial desencontro Prefeitura/Hospital que, no fundo, ao contrário do que muitos pensam, nem sempre é fruto de desavenças meramente pessoais entre Provedores e médicos/prefeitos.

É que as “Santas Casas” padecem de uma realidade paradoxal: ostentam natureza jurídica de instituições privadas ao mesmo tempo em que são, de fato, “instituições públicas”, mercê de uma avassaladora submissão ao Convênio Oficial (SUS) e extrema dependência dele. Como resultado funesto dessa existência ambígua, condenam-se à obrigação civil, intransferível, de pagar sempre pelos insumos necessários a suprir o direito constitucional que os pacientes têm de não pagar pelo tratamento que recebem.

Além do que, a Saúde Pública, dita descentralizada no plano federal, em âmbito municipal resulta inteiramente centralizada na pessoa do Prefeito que detém, pelas mãos bonifrate do gestor que escolhe, o condão de discernir prioridades e imputar pagamentos, podendo assim, com a faca e o queijo, ir deixando que essas instituições híbridas se desidratem no purgatório astral de suas próprias contradições, advogando ao vento reposições de verbas sempre canalizadas para destinos eleitorais mais promissores...

Gestores e prefeitos estão em boa companhia. Na sentença de um dos “pais da Pátria Americana”, John Randolph, constituinte na Convenção de Filadélfia, citado por Roberto Campos e José Guilherme Merchior,“O mais delicioso dos privilégios é gastar dinheiro dos outros.”

É uma questão apaixonante e complexa. Sob outra perspectiva, alguém poderá sustentar que a crise dos Hospitais se resolveria simplesmente com a ampliação adequada dos atuais limites do SUS. Só que, a ser isto verdade, seria verdade inócua, destinada ao limbo, porque a sociedade brasileira não quer, ou ainda não tem como, bancar as benesses da Constituição de 88 com a criação de novos impostos.

Infelizmente, parece que o remédio será seguir buscando medidas heróicas e paliativas antes que alguém “descubra” que a solução seja municipalizar as Filantrópicas!
Como se vê, o Hospital enfrenta problemas, sim. Problemas, no entanto, que não nos impedem - a nós que amamos este legado de nossos antepassados ilustres - de comemorar estes 100 anos de muita luta e de muitas vitórias em favor dos irmãozinhos humildes que povoam nossos corredores e enfermarias, e que nem de longe admitem ver cerradas as portas de sua velha e gloriosa “Casa de Caridade”!

LIVRO DE VISITAS

A Casa de Caridade Leopoldinense possui uma verdadeira jóia histórica, que é o seu antigo Livro de Visitas.
Aberto em 20/01/1907 com uma bela manifestação do Major Alcebíades Cunha, o livro, já velhinho, maltratado pelo tempo e por certa falta de cuidado em sua conservação, foi encontrado e por nós recuperado. Dentre as dezenas de assinaturas importantes que abriga, anotamos os nomes das personagens mais importantes, algumas nacionalmente conhecidas, aduzindo pequenos comentários como contribuição à memória, sobretudo dos leitores mais novos:

- Em 03/06/1907, logo numa das primeiras páginas, lê-se a manifestação do Sr. Justiniano Matolla de Miranda, “... um tributo de minha saudade à memória de Gabriel de Almeida Magalhães...” atestando que, naquela data, o advogado e grande benemérito da Instituição já era falecido. Justiniano será, certamente, ancestral dos Matollas, família leopoldinense numerosa e muito querida entre nós;
- Aos 23/03/1908, comparece ao Livro, o Sr. Domingos Sabino, de tradicional família leopoldinense da qual o escritor Fernando Sabino é um dos descendentes;
- Em 29/12/1909, o Sr. Antenor Penido elogia o Hospital com créditos pessoais ao administrador, Francisco de Aguiar;
- Em 21/08/1910, temos as palavras e a assinatura de Olympio Machado de Almeida, importante pater familias do tronco dos Machados, de Leopoldina;
- Em 17/05/1912, palavras de estímulo e as assinaturas de Octacílio Fajardo de Paiva Campos e Famílio Fajardo de Mello Campos, dos tradicionais Fajardos, de Piacatuba;
- Os alunos do “Grupo Escolar” são levados para conhecer o Hospital no dia 21/04/1913, pela diretoria e corpo docente do estabelecimento, assinando o Livro a diretora-substituta, Maria Brígida de Medeiros Castanheira; Professoras, Maria Feliciana Torres; Antonieta Guariglia; Maria Pagano; Odette Tavares; Dulce Botelho Junqueira e o diretor, R. Mattola;
- A 18/11/1921, assina o visitante Jackson de Figueiredo (famoso escritor);
- Aos 03/08/1922, a letra e a assinatura inconfundível daquele nosso advogado que chegaria à Presidência da República, Dr.Carlos Coimbra da Luz, firmando ao lado do importante jornalista, José Dantas;
- A 13/01/1925, quem visita o Hospital e deixa no Livro sua impressão é Manoel Funchal Garcia;
- Em 07/01/1926, a assinatura gloriosa do Dr. Carlos Chagas que, discretamente, se identificou como “médico do Hospital Osvaldo Cruz”... Muito mais que isto! Ele era Diretor do Instituto Bacteriológico Osvaldo Cruz; já havia erradicado a malária na cidade de Santos (1905); já havia concluído as pesquisas para debelar a tripanossomíase do Brasil (1909), a cujo agente deu o nome de Tripanosoma Cruzi, em homenagem a Osvaldo Cruz; já havia ganho vários títulos internacionais e chefiado a campanha contra a “gripe espanhola” (1918); e, no ano anterior à sua estada em Leopoldina, a Universidade de Hamburgo, lhe havia concedido uma medalha de ouro, sendo ainda Magister Honoris Causa das Universidades de Paris e Haward;
- Em 18/06/1927, assina o filósofo e professor, Dr. Lydio Machado Bandeira de Mello como Promotor de Justiça;
- É de 24/12/1928 as assinaturas do Dr. Pompílio Guimarães; Jehú Farias, da Gazeta de Leopoldina; e de Carlos Simões, do Diário Carioca;
- A 01/05/1929, são os vereadores de nossa Câmara Municipal que assinalam no Livro sua visita ao Hospital, a convite do grande médico, Dr. Custódio Junqueira: Vereadores, Artur G. Leão; Justiniano Antonio da Fonseca; Olivier Fajardo de Paiva Campos; Joaquim Machado de Almeida (Quinca Machado); Francisco de Andrade Bastos (Chico Bastos); e Carlos Coimbra da Luz. De certo não imaginavam, esses edis de 1929, que um deles chegaria ao Catete, quinze anos depois...
- No dia 03/10/1929, assinava o Livro da Casa de Caridade Leopoldinense o visitante ilustre, Francisco Campos (o lendário “Chico Ciência”), professor, ministro da justiça no Estado Novo, cuja Constituição elaborou, jurista emérito, reformador do Código Penal, autor do Código de Processo Civil, de inúmeros decretos-leis do Estado Novo, do Ato Institucional nº1, do regime militar de 64. Por ocasião da visita a Leopoldina era Secretário do Interior, de Minas;
- A 09/12/1928, visitou-nos, deixando impressão positiva do Hospital, o Diretor de Saúde Pública, Dr. Raul de Almeida Magalhães;
- A 20/08/1934, a C.C.L. recebia a visita do Governador, Benedito Valadares;
- É de 11/06/1936 a assinatura do visitante, Dr. Antonio Neder, advogado, nascido em Caiapó, ex-aluno do Colégio Leopoldinense, futuro Juiz, Ministro e Presidente do Supremo Tribunal Federal;
- Por esse tempo também por aqui estiveram, assinando o Livro de Visitas, os jornalistas: Mario Martins, “O radical” - depois deputado, senador, escritor; Rubem Braga, “Folha de Minas” – depois, escritor; Chagas Freitas, “Correio da Noite”, Rio, depois, dono de jornais e Governador do Estado do Rio de Janeiro; e Matta Machado, “O Diário”- Belo Horizonte;
- Em 24/10/1929 duas assinaturas ilustríssimas são lançadas, juntas, no Livro: Getúlio Vargas e Benedito Valadares;
- A 18/06/1944, assina o nacionalmente conhecido cancerologista Dr. Mario Kroeff;
- Finalmente, em 13/08/1948, assina nosso Livro de Visitas o Sr. Milton Campos, na época o Governador de Minas, depois deputado, senador e ministro da justiça do governo Castelo Branco, em 1964. Deste ministério, demitiu-se em 1965 recusando-se a assinar o ato de cassação do deputado Tenório Cavalcanti, porque dele – dizia - aceitara apoio em eleição anterior... Castelo não sabia: Milton era “reserva moral” do país!

São muitas, pois, as assinaturas no Livro de Visitas do Hospital - sendo uma dádiva para o observador decifrar-lhe rubricas, nomes e sobrenomes - mas nenhuma outra encerraria com maior dignidade a presente relação.

Nota*: Estamos seguramente informados, dentre outras pessoas, por descendentes do Sr. José Wenceslau de Arantes Junqueira e da Senhora Maria Botelho Junqueira (sogra do segundo prefeito de Leopoldina, Sr. Chico Bastos, e avó do médico Dr. Rodolfo Arantes Junqueira), que foi, exatamente, no imóvel de número 47 (quarenta e sete) da Rua Manoel Lobato (geminado ao de número 57), que teria sido instalada, em 09/08/1896, a Casa de Caridade Leopoldinense. O prédio original foi demolido e, no terreno de ambos, construída uma única casa que leva o n°57 e pertence, hoje, a Francisco Junqueira Barbosa de Miranda e suas irmãs, Déa Junqueira Barbosa, Maria José Junqueira Barbosa e Leonor Junqueira Barbosa.

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(Publicado na Gazeta de Leopoldina de 31.07.2002)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ser ou não ser...

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Outubro, 2011 

Quadro: Eugène Delacroix - Hamlet e Horácio no cemitério

A constatação não é minha. Há tantos anos convivo com o determinado axioma hamletiano, aceitando-o inarredável, que confesso jamais ter empenhado nele um só instante de reflexão. Acabo de ler, entretanto, alguém que pegou Shakespeare pelo pé. O grande vate, pelo menos num momento de sua obra – para ser mais exato, no melhor momento – teria se colocado atrás de seu Hamlet, o príncipe da Dinamarca, no célebre monólogo da tragédia.


Desconfia-se – e eu apenas pego carona na desconfiança – que naquelas reflexões sobre a vida de aquém-túmulo, estaria falando antes o autor que o personagem. De fato, não seriam adequadamente afetas às preocupações de um príncipe herdeiro de um reino, o Reino da Dinamarca, as agruras arroladas como o fardo de uma vida de vicissitudes e misérias.

Parece óbvio que tais lamentos melhor procederiam do espírito de um poeta atormentado que de um príncipe, falsamente tresloucado. Repassemos as lamúrias cedidas pelo poeta ao príncipe, na cena com Horácio e os dois rústicos, magistralmente recolhida, aliás, nos traços de Delacroix:

“Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais / nobre para a alma: suportar os dardos / e arremessos do fado sempre adverso, / ou armar-se contra um mar de desventuras / e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? / Morrer... dormir... mais nada (...) É essa ideia que torna verdadeira / calamidade a vida assim tão longa! /
Pois quem suportaria o escárnio e os golpes / do mundo, a injustiça dos mais fortes, / os maus tratos dos tolos, a agonia / do amor não retribuído, as leis morosas, / a implicância dos chefes e o desprezo / da inépcia contra o mérito paciente, / se estivesse em suas mãos obter sossego / com um punhal?”

Não parece ter havido algo de confessional no reino da Dinamarca? Seja como for, o registro é de uma catarse pessoal perpetrada pelo poeta no ano 1602, data provável do surgimento da peça. Temos aí, pois, quatrocentos e alguns anos de atualidade!

Quão coerente à sua natureza imperfeita mantém-se a humanidade, apesar dos avanços sociais e tecnológicos dos últimos séculos! Ou quão adiantado em seu tempo esteve o poeta William Shakespeare ao esquadrinhar um purgatório de angústias que se comprovariam tão aderentes à condição humana! 

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(Publicado em 06.10.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Carta do Ely

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Novembro, 2003
Arte: Luciano Meneghite

É sempre uma dádiva para quem escreve em jornal a chegada de manifestações positivas da parte dos que lêem. No caso de crônicas sobre temas cotidianos, como é o nosso caso, em regra os assuntos mais leves impressionam a um número maior de leitores, claro. A medida se tem pelo retorno – telefonemas, abordagens pessoais, cartas, e-mails – recebidos pessoalmente ou pelo jornal.

Algumas vezes, entretanto, a gente se surpreende. Foi o que aconteceu com a crônica, “Falar de Coisas”, do número anterior desta GLN. Tomei uma erudita confidência de João Cabral de Melo Neto, sobre o que haveria de essência do autor nos elementos de que trata, e dei de falar de umas tantas... coisas. Não imaginava que tema tão abstrato fosse suscitar reações simpáticas. Muitas!
Uma delas veio em carta de um velho amigo e primo, Ely Rodrigues Neto, aliás, o autor do texto de onde extraí os nomes de quem chamei, na crônica, “gloriosa oposição” leopoldinense, em 1958.

Pródigo em elogios que não mereço, o Ely amplifica exageradamente os méritos do trabalho. É, pois, constrangido pela modéstia que abro aspas para a opinião dele.

“Prezado e perspicaz amigo Zé do Carmo.
Lendo sua coluna “Falar de Coisas” (GLN nº3) verifiquei que João Cabral de Melo Neto foi perfeito quando disse, perguntando sutilmente, se ao falar das coisas que nos envolvem já não estamos falando de nós... E observei que você falou com propriedade na frase inicial do seu valioso e correto trabalho: Ainda não disponho da sabedoria dos velhos, mas já não me constrange a perplexidade dos jovens.
Também são reveladoras do seu conhecimento da história de Leopoldina, da sua rica personalidade e qualidades de arguto observador, até as ilustrações da coluna: colcha de retalhos e instrumentos musicais... Sinto-me como envolto na primeira, e, dos instrumentos musicais, imagino estar ouvindo os sons dissonantes da política partidária local... “ouvido absoluto”?
Parabéns pela interpretação correta, amena, elegante, e construtiva dos fatos, que formam tão bem o quadro perfeito da situação hoje, do cenário político leopoldinense, retratado com humor pela sua coluna, com sua conhecida e admirada sutileza, que vem enriquecendo o conteúdo do periódico.
Ainda bem que, muito antes do Vice José Alencar aplainar os montes e pavimentar a avenida para o Presidente Lula, mesmo sem ter lido Guimarães Rosa, eu demonstrei com palavras e atos, que não sou vocacionado para Vice... Ou “não tenho o perfil de Vice”, como já afirmou um ilustre conterrâneo...
Se minha idade já me credencia a dar conselhos, envio-lhe este: se a vereda que leva à Câmara Municipal lhe parece atraente, siga por ela. Leopoldina está necessitada de tal presente. (...)
Para que esta mensagem não fique tão vazia, como algumas cabeças da política nacional, encerro com uma das muitas recomendações puras do amado titular do Vaticano: Avance para águas mais profundas...
Com amizade e gratidão, Ely.”

Obrigado, Ely, pelas palavras generosas. Tê-lo como leitor é um privilégio. Concordo em que o barco do PMDB deva avançar para águas mais profundas. Mas sou apenas um dos remadores.

A ilustração é obra genial do nosso cartunista, Luciano Meneghite, garoto de talento com tudo para ainda vir a acontecer na grande imprensa deste país. Quanto à “vereda” suspeitada por você, certamente haverá por ali também outra questão pessoal de “perfil’, bastante séria, a considerar. Mas encaro com naturalidade que uma pessoa que haja adquirido algumas experiências na vida possa vir a colocar essas mesmas experiências à disposição da sociedade em que vive.

Agora, aqui entre nós, Ely: minha bola de cristal quando girada para o futuro vem transparecendo a reserva moral que é Ely Rodrigues Neto, eleito Vice-Prefeito em 2004. Você não imagina a nitidez da imagem!...
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de 29.11.2003)