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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Maria Sumiu

***

Faz tempo, passou Maria
Em frente à minha janela,
Eu que sempre falo em versos
Em versos não falo nela.

Meu fraco é falar de mar,
Falar de espera e de mágoa,
De lágrimas de se afogar
Como a lua dentro d’água.

Maria foi uma vaga
Em noite sem lua cheia,
Tudo indica que no escuro
Maria virou sereia.

*******

Na Dívida Ativa

***

Quero, neste Carnaval,
Reprimir minha alegria
Vou botar terno e gravata
E arquivar a fantasia.

Não quero o calor do samba,
Melhor uma ducha fria
Atiçar os meus problemas
Dando papo à minha tia.

E, à noite, quando eu voltar
Nem passo pelo chuveiro,
Enfio uma roupa suja,
Vou dormir no galinheiro.

Se espirrar não é Saúde
Por favor, digam: -Enfermo!
E debitem o mau humor
À ganância do governo


********

sábado, 28 de janeiro de 2012

Se Drummond Fosse Sambista


***

Amanhã será domingo
E, depois, segunda-feira
Ninguém diz o que será
Se os outros dias que vêm
Forem todos de esperar
Rosa que demora tanto
Sem razão pra não voltar.
Eu choro, menino, eu choro
Meu destino foi chorar
Foi Rosa pisando em mim
Até Rosa me deixar.


*******

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Canal de São Simão

***

Na areia, bateia
Mateira morreu na teia
Das duas caras do rio.
No chão que o Jaó campeia
Não se ouve mais um pio.
Por amor à lua cheia
O canal galgou ladeira
Meia galga, galga e meia
Sepultou Vila Mateira
No ventre da maré-cheia.
A aldeia se foi num trago
E a lua mudou pro lago
Como se fosse sereia.


**********
(1974)

Cirurgia

***


Oito dias após a terceira cirurgia o médico, cuidadosamente, retira-lhe o curativo

e ordena:

-Vá abrindo os olhos devagar, sem pressa, não se aflija... Com calma, com calma...

E, oferecendo-lhe a palma da mão, pergunta:

-Pode ver alguma coisa? Vê minha mão?

-Não, doutor, apenas uma sombra... Um vulto. Um vulto de mulher!

Abatido, o cirurgião recolhe o braço, cerra demoradamente o punho

e murmura:

-Meu Deus, ele continua cego para a realidade!


***********

Amada de Antigamente

***

Lembrança que não despega
Companheira renitente
Ilusões postas de lado
Reinstaladas na mente...

Amada de antigamente
Amada provincial
Se ainda lembra da gente
Menos mal, menos mal.

Amada por um momento
Num baile de carnaval
Se ainda brincas com o tempo
Menos mal, menos mal.

Mas quando a deprê baralha
O ancestral e o atual
Meu país é uma província
E a saudade é federal. 

**********
(1985)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Persona Non Grata

***


Ei, tu que vais enganado!
O espaço reivindicado
Exauriu-se antes de ti.

Na lacuna moribunda
Da tarde em que tu chegaste
O sol havia se posto
E a noite te dispensava.

A mesa, porém, já posta
De apreço desguarnecida
Negava ao adventício
Uma cadeira escondida.


*********

O Caruncho

***


Sonhei que era um caruncho.
Um célere caruncho de bicanca em riste
Atravessando em diagonal intrépida
O lençol branco da cama.
Acordei e fui conferir:
Caruncho, segundo o Aurélio,
É designação de inseto coleóptero
Que perfura, sobretudo, madeira e cereais
E cuja maioria é xilófaga...
O que, trocando em miúdos,
É muito pouca merda, meus senhores.


*********
(Publicada em 11.11.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Violeiro

***

Vai, violeiro, vai
Escolhe o acorde e o tom
E manda pra ela um beijo
No queijo de uma canção.

Vai, violeiro, vai
E abre do coração
Coisas que só devia
Abrir pro teu violão.

Vai, violeiro, vai
Diz pra gente da paixão
Que chega a fechar teus olhos
Na volta do teu refrão.

Vai, violeiro, vai
De roda só tem amigo
Canta pra gente saber
Ou finge não ser contigo.


**********

Independente da Hora

***


Independente da hora
Do dia ou do lugar
Você devia ligar
Você devia ligar.

Eu vou saber esperar
Me vestirei de esperança
Pois tudo perde importância
Se você pode voltar.

Independente da hora
Do dia ou do lugar
Você devia ligar
Você devia ligar.

Me faria tão feliz
E tanto de eu nem saber
Atinar com o que se diz
Quando se está tão feliz.

Independente da hora
Do dia ou do lugar
Você devia ligar
Você devia ligar.

********

Deus Tempo

***


Insondável é o tempo
das profundezas do qual
tudo surgiu
se estiola
se vence
se evola.

Consumirá as estrelas
fará dos astros
poeira
errática
na escuridão abissal.

Sobre o nada reinará
Deus Tempo
a presidir noite oca
gélida, sem fim
sem começo
sem noção.

**********
(2011)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Aos Cuidados do Mar

***


Vê, caminheiro, como te servem amigas estas flores,
Amarelas, vivas, furta-cores,
Olores de madrugada no rigor da estrada.
Erga teus olhos desvanecidos
E não te abstenhas
De reverenciá-las com um sorriso.
Esquece tua noite,
Aplaca a frustração cabisbaixa
Dos teus olhos aflitos.
Espera o dia, ó trôpego carregador de sonhos,
Em que as flores prevalecerão.
Nuvens negras desertarão o azul
E uma possibilidade de primavera inquietará
A invernia dos tristes.
Numa ilha ideal que os passarinhos elegeram
Um poeta demenciado
Sepultará na areia, aos cuidados do mar
Fragmentos roídos de penas e malfados.


*******

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Praias de Minas Gerais



***

Eu vim de Minas
Eu vim das serras
Eu vim de onde
O olhar se perde

E o azul esconde
O que é lonjura ou céu.

Mas além, depois dos longes
Aguaram-se os meus projetos
Constou remota a esperança
Melaram planos em aberto.

Por isto, ideais que eu tinha
Agora não tenho mais
Meus sonhos pulcros de moço
São praias de Minas Gerais.

São praias de Minas Gerais!
Praias de Minas Gerais!

********
(1985)

Canção Suprema

***


Um dia hei de compor uma canção suprema,
De verter raios de sol pelas palavras
E tisnar os instrumentos
Com arenito dos astros.

Uma canção de ouvir em noites cálidas,
Na intimidade dos anelos mais gratos
e das lucubrações silenciosas.

Portadora de harmonia soberana
E acordes de empréstimo
Às criaturinhas delicadas da natureza,
aos pássaros cantores
E aos pequeninos insetos trinantes.

Uma serenata de aguçar o brilho sutil
nos olhos espantados
Dos répteis
E das aves noturnas.

Que toque de muito perto a santidade dos projetos divinos,
Aqueles em que Deus haja infundido os mais claros
Sinais de Sua precedência.

Excelsos acordes que ouvidos humanos jamais alcançaram
Hão de comover, no céu, o próprio Menino Deus e Santa Terezinha de Lisieux,
Mãe de humildade e doutora da Igreja.
Acordes sob os quais se reunirão os anjos
E as almas que se salvaram pela música.

Uma canção em razão da qual todos venham a pedir silêncio,
Todos... sem exceção e sem qualquer aviso
De que eu a compus, exclusivamente, para você,
Mulher.

***************
(1985)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Mãe d’Água

***

Quis esta sorte, violeiro amigo,
Levar meus olhos àquela ribeira
Onde Mãe d’Água que você não viu
Por mim foi vista pela vez primeira.

Mãe d’Água, Mãe d’Água!
Mãe de leite, mãe de criação,
Mãe de ternura,
Mãe da redenção.

Mãe d’Água, Mãe d’Água!
Que nos redime na paz e na dor,
Mãe deste pobre,
Mãe do Imperador.

Mãe d’Água, Mãe d’Água!
Mãe d’Água, Mãe d’Água!
Mãe d’Água, Mãe d’Água!

**********
(1965)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Voar, poeta

***

Saudade qualquer
flutua imaginosa
nuvens de algodão.
No silêncio cor de rosa
desse terno, desatento
coração.

Que é sem palavras pro vento
sem sustos para o trovão
não tem ouvidos pra chuva
nem alma pra solidão.

Voar
no limiar das coisas santas
e tantas!
Ser poeta por castigo
carregar sempre comigo
ilusões perdidas...
Nem sei quantas!


********
(1965)

Juramento

***

Eu juro
Por certa fé que virou brilho nos meus olhos
E certo fogo que é centelha no meu peito,
Juro pela confiança nas sensações que me brotam
Espontâneas,
No milagre da forma, na busca do mais perfeito,
Pelos meus pés sentindo a arte exilada nas palavras,
Juro pela minha sede de poeira e de caminho
E por uma gana quase doida de chegar,
Eu juro
Que se amanhã vos perguntarem se eu venci,
Se já cumpri, se exitei, se cheguei lá,
O conciliador das esperanças vos dirá:
- Não, ele ainda tarda, pois que marcha devagar,
Mas é de estrada e certamente chegará.

********
(1963)


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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Full of Life, now

***
Full of Life Now
by Walt Whitman
(1819-1892)

Full of life now, compact, visible,

I, forty years old the eighty-third year of the States,

To one a century hence or any number of centuries hence,

To you yet unborn these, seeking you.
When you read these I that was visible am become invisible,

Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me,

Fancying how happy you were if I could be with you and become your comrade;

Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)

***

Cheio de Vida, Hoje
Cheio de vida, hoje, compacto e visível
Eu, com quarenta anos de idade, no ano oitenta e três dos Estados,
A ti, dentro de um século ou muitos séculos,
A ti, que não nasceste, procuro.

Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,
Agora és tu, compacto e visível, quem intui os versos e me procura,
Pensando como seria feliz seu eu pudesse ser teu companheiro;
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas muita certeza de que eu estou contigo.)


Nota de JCR: Nestes versos, “Cheio de vida, agora”, Walt Whitman nos manda – a nós, pessoalmente – sua mensagem emocionada. Ele se reporta a este momento entre ele e nós, hoje e aqui, diante de seus versos. Você e eu não éramos nascidos, e ele nos procurava!... Hoje, nós o procuramos!...
Sua bênção, Walt Whitman! Somos felizes, sim, como se você, nosso companheiro, entre nós estivesse.
(De fato, não temos certeza de que você esteja entre nós)

***
(Publicado no LEOPOLDINENSE de 29.11.2003)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Coincidência

***

O melhor que eu tinha a fazer
Era esquecer você,
Abafar o amor no meu peito
E voltar a viver.
Desistir dessa espera sem fim
De quem, hoje, até se lixa pra mim.
Quero apenas mandar um recado
À tua inconsciência:
Se algum dia
Os bons tempos passarem
E a dor for o teu fim,
Um sentimento de culpa, talvez
Se pintar com insistência.
Vai lembrar que em tua busca do amor
O amor que não deu
Estava dentro de mim,
Coincidência...
Eu sempre fui teu.

*********
Letra: josé do carmo
Música: dhaal
Gravada em CD – Top Music
Performance: dhaal

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Minha Cidade

***

Tu raiaste manhã iluminada
o despertar gentio, porém cidade
Ateneia ungida num poema de domingo.
Os primeiros raios de sol te brindaram as serranias
no instante inaugural em que o encanto se exprimiu possível.
Árvores nos bosques providenciaram sombras acolhedoras
e as flores silvestres bendisseram à brisa
bálsamos requintados.
Correntes nos riachos se detiveram em limpidez de espelho
restituindo à delicadeza dos céus
os gestos seminais da flor recém surgida.
Bênçãos de luz velavam a tepidez dos ninhos
e a brisa confiava à folhagem e aos ramos
segredos bons de guardar.
Vagas de pétalas compassivas cobriram teu chão
mantilha de astros
nas vertentes, nos flancos e nas brenhas.
Pássaros canoros trinavam mil acordes
na clave retorcida dos galhos.
Deus há de ter visto que tudo era bom
porque decretou, em seguida, de primavera todos os teus dias
e de luar todas as noites.
E que todos os caminhos que de ti partissem
levassem à felicidade, por todos os tempos
até que os tempos se cumprissem.

*************