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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Conversa Mineira – Livro de Crônicas

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Lançado com grande sucesso em maio último, na Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho, o livro de crônicas, “Conversa Mineira e outras histórias”, só alegrias vem dando ao autor.



Disponível a R$19,90 na Livraria Central e na Banca de Jornais do calçadão da Rua José Silva, 145, Leopoldina, MG, e, no Rio de Janeiro, no Largo do Machado, 29/701, telefones (21) 2285.8081 e (21) 2557.4064, mais de duzentos exemplares foram vendidos nas duas primeiras semanas.

A edição reúne crônicas variadas, quase todas num estilo de bem humorado gosto interiorano, publicadas em blogs e jornais. Inclui, ao final, anotações históricas interessantes sobre Leopoldina, a cidade mineira do autor.

Pedidos podem, ainda, ser feitos pelo endereço eletrônico: jmacrod@hotmail.com

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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Leopoldina Merece

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Maio, 2012

É bom a gente dar ênfase às coisas boas da nossa cidade. Nós, os fiscais do cotidiano, os cronistas, jamais contamos até dois ao nos agarrarmos a episódios negativos para tema de nossos escritos. É que a má notícia causa impacto, atrai leitura. Mas não custa, vez ou outra, esquecer o pirotécnico e falar de coisas boas. Então vai aí uma agradável constatação:

-Existe um público leitor em Leopoldina.

Já se disse que o baixo número de jornais vendidos na cidade não apontaria para uma sociedade informada e que o moderado comparecimento de pessoas a eventos culturais seriam indicativos de um público refratário a investimentos in abstracto.

Não foi o que presenciamos na sexta-feira, dia 4 de maio, quando do lançamento, na Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho, do livro de crônicas “Conversa Mineira e outras histórias. Um grande número de pessoas lá esteve, prestigiando o evento, o que muito nos lisonjeou. Não houvéssemos providenciado uma tiragem maior, teria faltado livro.

“Conversa Mineira” é uma apanhado de crônicas bem humoradas, incluindo, em seu final, quatro artigos com anotações históricas sobre Leopoldina e região.

Desejo abraçar, ainda uma vez, a cada amigo(a) que lá esteve – Muitíssimo agradecido! – e dizer que deixei os livros que sobraram à disposição do público, na Livraria e na Banca de Jornais do calçadão da Rua José Silva, em Leopoldina. No Rio de Janeiro, no Largo do Machado, 29 sala 701.

Sai pelo preço de custo, apenas arredondado para facilitar o troco. Não se cogita de ganhar dinheiro com livro: a ideia sempre foi de um presente a Leopoldina.
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(Publicada no LEOPOLDINENSE OLINE, maio de 2012)

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Propósito da CCL

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Janeiro, 2012

O jornal LEOPOLDINENSE vem de fazer uma enquete entre seus leitores com a seguinte pergunta:

- Qual seria o administrador ideal para o hospital de Leopoldina?

As respostas obtidas dão bem a medida do quanto a população leopoldinense anda atenta às dificuldades que afligem nossa Casa de Caridade. Luiz Otávio nos pede uma análise dos números e nós, pelo muito que amamos nosso Hospital e as pessoas que ali trabalham, entendemos útil toda troca de ideias sobre a saúde da população. É algo que fala de muito perto às pessoas de bem desta cidade. Eis o resultado da pesquisa:

Uma Empresa Especializada 85 votos
41,87%
O Supremo Conselho(Provedor) 35 votos
17,24%
O Município 32 votos
15,76%
A Associação Médica 28 votos
13,79%
O Estado 18 votos
8,87%
Tanto faz 5 votos
2,46% (Total de votantes: 203)

Os quase 42% dos votantes que optaram por “Uma Empresa” na administração do Hospital fazem uma boa escolha, no meu modo de ver. Não que isto vá resolver todas as dificuldades existentes; não vai. Mas seria a melhor forma de administrar a instituição. Diríamos, até, que a história demonstra que foi.

-Por que não resolve? Porque qualquer Empresa especializada em Administração Hospitalar nomeará, necessariamente, um “Administrador” que continuará sendo o ALVO da má-fé política, interna e externa, que sempre infelicitou o Hospital .

Politica interna, porque nem todos, dentro da CCL, desejam que ela seja tecnicamente bem administrada – tê-la mais complacente com o erro interessa a alguns; politica externa, porque os Prefeitos, na condição legal de “Gestores da Saúde no Município”, sempre lutaram (e lutarão) para ter à frente do Hospital um “homem deles”... E a arma nessa guerra é, e será sempre, o corte nas verbas: principalmente (mas não apenas) calote no pagamento das mensalidades do Pronto Socorro, sabidamente uma responsabilidade legal da Prefeitura, da qual o Hospital jamais conseguiu se livrar.

Todos se lembram das diversas ocasiões em que a Prefeitura suspendeu o pagamento das mensalidades do PS, até durante vários meses, na tentativa de defenestrar o Provedor. Por várias vezes o Hospital se viu à míngua dos mais elementares recursos para o pronto atendimento (ataduras, esparadrapos, antibióticos, desinfetantes etc.) por falta desses créditos.

Aliás, no dia em que o Ministério Público debruçar-se com especial carinho sobre o que os prefeitos de Leopoldina e seus Secretários de Saúde fazem com o Hospital, e aplicarem o “remédio” adequado, um coral de anjos entoará aleluias nos celestiais recessos.

Bom, mas quanto à enquete, devemos concordar com os 41,87% dos leitores votantes. É bem provável que se algum dia o Hospital vier a funcionar dentro de padrões mínimos de eficiência e confiabilidade, será sob égide de uma administração profissional.

Os 17,24% de leitores que optam pela continuidade do atual sistema, com um Provedor eleito pelo Supremo Conselho, certamente se louvam no aspecto HONESTIDADE, dos escolhidos. De fato, não consta ter passado pelo Hospital um Provedor sobre o qual haja recaído qualquer acusação de improbidade. Invariavelmente, os Provedores do Hospital são criticados apenas por aqueles que desejam seus lugares!

Os 15,76% que acreditam na administração “Municipal”, dão um voto que, em tese, tem sentido. Ou seja, sendo o Prefeito o gestor da Saúde, colocaria lá um “homem dele”, pondo fim à eterna celeuma. Qualquer Prefeito adoraria isto.
O problema é a irresponsabilidade do empreguismo político.

Todos ainda se lembram da fatídica Medida Liminar que colocou o Hospital, por alguns meses, nas mãos do Prefeito. Ao ser reinstalado na Provedoria, por decisão do TJMG, José Valverde Alves revelou-me ter encontrado o quatro funcional que deixara inflado em cerca de 45%, com a admissão de 82 (oitenta e dois) novos funcionários, apaniguados... Pode, uma coisa desta?
Infelizmente o político honesto existe, mas esta não é a regra; é a exceção.

Em verdade, falta aos votantes o dado fundamental: a honestidade dos Provedores eleitos pelo Conselho, paradoxalmente, alimenta a crise com a Administração Municipal porque impede o uso da Instituição como cabide de emprego. É que são mais de 200 (duzentos) postos de trabalho, dentro de uma cidade pequena como a nossa, a não render dividendos políticos para o Alcaide de plantão! Isto incomoda que só vendo!

Os 13,79% que optariam por um Administrador indicado pela Associação Médica, também votaram com inteligência e boa-fé. Sem dúvida, a Associação Médica é uma grande e leal colaboradora do Hospital. Até automóvel para o Hospital fazer rifa ela já doou, reformou segmentos do Hospital etc.

A parte tecnicamente afeta à medicina, no Hospital, entretanto, já é de responsabilidade do Diretor Clínico – sempre um médico. E não consta que a CCL tenha problemas imputáveis à administração dessa área técnica. O problema existente sempre foi administrativo-financeiro. Qualquer mudança a fazer, só terá sentido se for para agregar proficiência técnica à parte de gestão. O que não é, exatamente, tarefa para um médico, como não o seria para um físico nuclear, para um comandante de Boeing, para um sociólogo ou para um poeta. Administrar hospital é tarefa para um bom Administrador Hospitalar. A Fundação Getúlio Vargas – para só citar um exemplo – ministra cursos na área; quem quiser especializar-se, está lá.

Por último, 8,87% votaram pela Estadualização. O número baixo de votantes por certo se explica na inviabilidade da fórmula e por tudo que se sabe de hospitais públicos, de uma maneira geral. No caso da nossa Casa de Caridade, algo inteiramente fora de cogitação.

Interpreto, pois, a pesquisa do LEOPOLDINENSE como muito positiva ao indicar a melhor fórmula de dar boa gestão ao nosso Hospital: entregá-lo a uma empresa especializada. É fazer isto e procurar apaziguar os corações exaltados por interesses contrariados.

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(Publicado em janeiro de 2012 no jornal LEOPOLDINENSE Online)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Foi Assim #

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Dezembro, 1965

Nasci à beira de um rio de águas vagarosas, ao qual chamavam Rio Pardo. No pequeno vale contíguo à planície denominada Vargem Linda, no sopé da encosta, meu pai construiu, com suas próprias mãos, sobre esteios de braúnas centenárias, nossa casa, simples, mas tão extraordinariamente bela e agradável que os anos ali vividos nós os guardaríamos na memória como um tempo submerso no azul de um céu muito limpo e pródigo nas mais preciosas dádivas da natureza.

Vargem Linda não chegava a ser grande. Uma pequena chácara de alqueire e meio, como sempre ouvi dizer. Dela, meu pai extraia o sustento da família com pequenas culturas de arroz, feijão e milho.

Tínhamos também uma vaca muito bonita e grande, chamada Princesa, de pelo queimado, brilhante, chifres altos cor de grafite, que nos brindava todas as manhãs, a meus três irmãos e a mim, com o leite forte de suas virtudes zebuínas. Meu pai possuía um cavalinho castanho, o Guarany, que o levava a trote por toda a parte.

Professora rural do lugar, minha mãe, Da. Pequetita, ensinava às crianças pobres a ler e a escrever. No início da década de 1940 a região da Vargem Linda era muito pobre de recursos e as pessoas muito simples. Todos trabalhavam na lavoura e eram poucos os que sabiam assinar o nome. Nem mesmo os proprietários das terras, em sua maioria, puderam frequentar escolas primárias. O mundo civilizado devia parecer distante, quase inalcançável para eles.

Minha mãe tornou-se particularmente estimada de toda a população por ser mestra dedicada, exigente e muito cuidadosa do aprendizado e da saúde de seus pequeninos alunos. Era um tempo em que a simples e elementar ideia de alfabetizar as crianças contava com poucos adeptos. Os menores eram úteis na ajuda aos pais na lavoura, atividade compreensivelmente prioritária, pois representava em muitos casos a própria sobrevivência.

Importantíssimo, portanto, que as professoras se dirigissem às residências e, lá, convencessem os adultos da relevância do aprendizado, da necessidade de equacionar o problema e alfabetizar os filhos. Para os meninos e meninas que não podiam comprar cadernos, minha mãe costumava fazer, com linha de costurar e papel de embrulhar pão, os cadernos com que pudessem anotar as aulas.

Tal como se descreve no início da criação, Deus há de ter visto que tudo aquilo era muito bom, pois parece ter inundado de bênçãos nossas vidas e determinado que, ao final, tudo viesse ter à trégua e à paz.
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Quintino e o Wando

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Fevereiro, 2012


A morte do cantor Wando me trouxe lembrança de um estouvado companheiro de trabalho, no Rio de Janeiro, o também falecido jornalista Luiz Quintino. Esse foi um cara que se destacava. Chefe de redação da empresa em que trabalhávamos, gozava da justa fama de sério, competente e equilibrado. Era casado com Vanira, mulher adorável com quem tinha dois filhos já moços.

Residia num bom apartamento da Zona Sul do Rio, levava vida profissional e social dentro dos padrões e manifestava, sempre, grande carinho pela esposa e até pela sogra. Versado em elogios abundantes, tinha na sogra sua grande beneficiária.

Lembro-me da ocasião em que buscava trocar o apartamento da família. Dizia enfático:
– Só me serve imóvel com terceiro quarto que seja “muito bom”, para minha sogra. Não abro mão de tê-la morando comigo. Minha mulher é maravilhosa, mas quem “adivinha meus pratos preferidos” é minha sogra.

Pois foi este homem de vida conjugal nos eixos que, a partir de certo dia, passou a incluir a própria secretária, Olivinha, nos confetes coloridos de sua verve. Moça casada e bem mais jovem que o chefe, talvez enfrentasse problemas em casa. Percebíamos que Quintino tornara-se seu confidente e, aos poucos, sua companhia invariável nos almoços. Rapidinho o namoro ficou óbvio.

Da parte do Quintino, rarearam os louvores à esposa e à sogra. As qualidades de Olivinha ganharam preponderância em seu apostolado.

Pelo sim, pelo não, eu – o colega ao lado − decidi a tudo ver e ouvir em silêncio obsequioso. A situação era desconfortável para mim, na condição de também amigo da esposa, Vanira, pelos muitos anos de convivência com o casal. Uma distância prudente do imbróglio era-me recomendável.         

Deu-se, por aquela época, que o cantor Wando fazia grande sucesso na casa de espetáculos “Asa Branca”, nos Arcos da Lapa. A imprensa repercutia:
– Imaginem, ele arremessa calcinhas de lingerie para as fãs!
Wando emplacava seus grandes “hits” românticos. Quintino foi, com Olivinha, ao show.

Se faltava algum tênue empuxo a inundar de paixão o coração do ragazzo, o show do Wando seria a gota d’água. O homem já não conseguia trabalhar; grudou na Olivinha.
Claramente envolvido no lirismo da canção “Moça” (Só podia ser: assobiava aquilo o dia todo!), passou a desconsiderar os limites do recato.
– Era casado? Dane-se!
– A moça era casada? Dane-se, novamente!
– A moça era muito mais nova? O Wando resolve:

“Moça, dobre as mangas do tempo
jogue o teu sentimento, todo em minhas mãos...”

“Dobre as mangas do tempo” é garimpo poético de fina extração, não acham? Pois o bom Wando, mineiro de Cajuri – povoado que fica ali, pertinho de Viçosa – disse mais, naquele show:

Brega, minha gente, é não viver um grande amor.

Quintino tomou boa nota e, certamente, viveu. Deu um galho danado, mas viveu.

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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Catástrofe da Treze de Maio

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Janeiro, 2012


Cá de Minas Gerais, onde estou, o desmoronamento dos três prédios da Av. Treze de Maio, a 25.01.2012, no Rio de Janeiro, ressoou como se ocorrido aqui em frente.

É que a Av. Treze de Maio foi, de fato, e por muitos anos, a minha rua, a rua do meu trabalho, do meu dia-a-dia, além da rua do Teatro Municipal, do Banco do Brasil – Agência da Cinelândia, do Cordão do Bola Preta, do antigo IAPB, no Edifício Darke, e da Cia. Siderúrgica Nacional, no histórico Edifício Municipal.

Fronteiriças aos prédios que desabaram, minhas janelas de escritório, no 18° andar do número 13, abertas sobre a cúpula do Teatro Municipal, divisavam aqueles prédios que caíram no primeiro plano da paisagem, tendo a Baia de Guanabara ao fundo, o Pão de Açúcar e a Ponte Rio/Niterói.

No térreo de um deles, funcionava uma padaria com pães especiais que, à noite, costumava levar para casa, para deleite do meu filho.

Presenciar, pela TV, a remoção daquele entulho me comove e me atesta situar-se ali um pedacinho do Rio a integrar, silenciosamente, meu sentimento de lar.

Opinar prematuramente sobre as causas da tragédia não é apropriado. Se, de saída, entretanto, foram descartadas as hipóteses de explosão, algum outro episódio terá comprometido fatalmente as estruturas da edificação  maior, que levou, em sua brutal implosão, as duas menores.

Sabe-se que o concreto não perde resistência com o tempo – ao contrário, torna-se mais rijo − a menos que ferragem exposta à ferrugem o comprometa, o que é raro. Obras desastradas, de acréscimos, surgem, então, como causa mais provável da tragédia.

A propósito, vivi experiência bastante elucidativa da questão. Na década de 80, contratei empresa para abrir um buraco na parede e instalar condicionador de ar em meu apartamento de 10° andar.

Aos dois pedreiros que chegaram pela manhã, indiquei a parede a ser furada e fui trabalhar. Cismado, porém, resolvi almoçar em casa para conferir o andamento da obra. Que susto! Só a metade direita do buraco estava aberta; a outra, a duras penas, eles tentavam, roer a marteladas...
– Está muito duro, Doutor, é concreto armado!

Foi fácil logo ver que na ponta das talhadeiras estava uma pilastra do prédio. Aflito, gritei que parassem com aquilo... Devo ter pronunciado, naquele instante, a ordem mais importante da minha vida...

Obras feitas por “curiosos”, sem qualquer planejamento técnico, são comuns. Moradores, proprietários e síndicos precisam estar atentos. Contratar pedreiro indicado pelo porteiro é uma temeridade.

Também não pensar que a simples regularização da obra no CREA garante segurança. Dão apenas notícia de que “há um engenheiro responsável”. O que não é tudo. É bom saber se o engenheiro, de fato, projetou e – importantíssimo – se passa por lá. Porque Conselho não fiscaliza obra: ele existe para defender a classe profissional por cujos interesses zela. Conselhos são autarquias que funcionam mais como burocracias cartorárias, vorazes, sobretudo na coleta de suas próprias receitas, em anuidades, taxas e multas.

O ideal seria fiscalização municipal eficiente, acompanhando reformas e exigindo manutenção.  Infelizmente, esta é outra área em que, pelo menos nas grandes cidades, a corrupção campeia solta. Dinheirinho para aprovar, dinheirinho para não multar, dinheirinho pra isto, dinheirinho pra aquilo. E, cuidado, hem! Melhor contratar despachante “do ramo”, que coloque a grana na mão da pessoa certa. Se não...

A imprensa publicou duas fotos comparativas do prédio maior, responsável pelo desastre da Treze de Maio – antes e depois das reformas que sofreu ao longo dos anos. Na foto mais recente, aparecem obras de ampliação nos andares superiores e inúmeras janelas suplementares,  abertas na empena cega do prédio. O vulto dos acréscimos assusta pelas possíveis toneladas de cimento, areia e tijolos ali colocados posteriormente ao cálculo das estruturas. As aberturas caóticas das janelas sugerem possíveis danos aos pilares. Tudo, portanto, obra irregular.

É rezar pelos mortos.


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(Publicado, em 30.01.2012, no Leopoldinense Online)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Malfeitos, estragos relativos

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Janeiro, 2012


O calcanhar de Aquiles da democracia brasileira está em que pessoas honestas, cultas e talentosas demonstram pouco apetite pelo poder, ao contrário dos medíocres e pilantras − obstinados pela ocupação de espaços políticos em que se protejam e negociem novas velhacarias. 

Juntando-se isto à notável empatia das massas pela pândega dos segundos, chegamos à demeritocracia renitente em que vivemos. Uma boa reforma política se impõe e estaria na hora de começarmos a pensar nela.

O problema é que o governo Dilma parece dar sinais de estropiamento. Anda borocoxô, em inegável marcha lenta. E olhem que Lula chegou a profetizar isto, quando da queda do Palocci. Ele disse para quem quisesse ouvir:
– Se o Palocci sair da Casa Civil o governo não vai andar.

Andar, sair do lugar, hoje como nunca, seria dar andamento às reformas. Tributária, previdenciária e política. Nesta última, bom seria se caminhássemos na direção de escolhas menos aleatórias, num molde de democracia mais imune a bandidos travestidos de políticos e mais tutora dos interesses da nacionalidade. 

Até lá, certamente, teremos que atravessar (a nado de peito), um mar de melhores leis, aprimoramento cultural e mais patriotismo.

Expectador à margem do poder, acima de quem é a favor e acima de quem é contra, favorece-me o olho limpo. Observo que os antipetistas, ou antigovernistas, não percebem todas as nuances da tragédia. Os muitos e sérios percalços por que passou o PT, no governo Lula e, agora, na dança dos ministérios, com Dilma, comprometeu, sim, a imagem do partido.

Pena que as credenciais da oposição para capitalizar em praça pública essas perdas situacionistas são, no mínimo, problemáticas. Entra em cena um implacável relativismo. É que, ao desmoralizar-se na esteira dos “malfeitos”, o PT não cai abaixo de seus contendores: nivela-se a eles.  


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(Publicado em 21 de janeiro de 2012 no jornal LEOPOLDINENSE)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Relendo Três Notícias

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Fevereiro, 2009


Se vivo, Dom Hélder completaria 100 anos

Da biografia de Dom Hélder Camara, consta que ele foi o antepenúltimo filho do guarda-livros e maçom convicto, João Eduardo Torres Câmara Filho, e da professora Adelaide Rodrigues Pessoa Câmara. Nasceu no dia 7 de fevereiro de 1909, um domingo de carnaval, em Fortaleza, Ceará. Dos 13 filhos do casal, cinco morreram em 29 dias, em consequência de uma epidemia de crupe, hoje conhecida como difteria. O menino Hélder recebeu a primeira comunhão aos 8 anos de idade e, aos 14, entrou no Seminário da Prainha de São José, Fortaleza, onde fez os cursos preparatórios, depois filosofia e teologia.

Em 15 de agosto de 1931, aos 22 anos, ordenou-se sacerdote e, em seguida, foi nomeado diretor do Departamento de Educação do Estado do Ceará. Cinco anos depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Durante 28 anos, colaborou com revistas católicas, organizou o 36º Congresso Eucarístico Internacional, fundou a Cruzada São Sebastião para atender moradores das favelas cariocas e o Banco da Providência, destinado a ajudar famílias na faixa da miséria.

Exerceu funções na Secretaria de Educação, Ministério da Educação e Conselho Nacional de Educação, organizou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM). De 1952 a 64 ocupou o posto de primeiro secretário-geral da CNBB e de 58 a 66 foi delegado do Brasil no CELAM e seu vice-presidente. As duas entidades foram os instrumentos de apoio para a implantação de um modelo de Igreja progressista, que tinha como base a opção preferencial pelos pobres.

A promoção a arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro chegou em 1955, quando estava com 46 anos. No dia 14 de março de 1964, foi indicado pelo papa Paulo VI a ocupar a Arquidiocese de Olinda e Recife.
No dia 11 de abril de 1964, um sábado chuvoso, dom Hélder desembarcou, às 15h30, no Aeroporto dos Guararapes, que se encontrava lotado. Dali, em carro aberto, seguiu para a Matriz de Santo Antonio, onde falou para milhares de pessoas, debaixo de chuva, antes de seguir para o Palácio dos Manguinhos, residência oficial do arcebispo.

Em sua mensagem, publicada na íntegra pelos jornais, dom Helder disse que era "um nordestino falando a nordestinos com os olhos postos no Brasil, na América Latina e no mundo. Um cristão dirigindo-se a cristãos, mas de coração aberto, ecumenicamente, para os homens de todos os credos e de todas as ideologias. Um bispo da Igreja Católica que, à imitação de Cristo, não vem ser servido, mas servir".

Assim foi Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife por 21 anos, e que completaria cem anos no último 7 de fevereiro de 2009. Um pastor adorado por seu povo, que empolgava multidões.

Uma juíza na berlinda

Parece absurdo, mas não é. Notícia veiculada no jornal O Globo, do último dia 10 de fevereiro, informa que uma juíza investigada por corrupção deverá ser promovida pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Trata-se da magistrada, Dra. Ângela Catão, da 11ª Vara Federal de Belo Horizonte, que deverá ser promovida esta semana a desembargadora. Relatório da Operação Pasárgada, que a polícia federal enviará ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) também esta semana, acusa a juíza de corrupção e formação de quadrilha, entre outros crimes.

Ela é investigada pelo suposto favorecimento a prefeitos acusados de desviar verbas do Fundo de Participação dos Municípios. A juíza deverá ser promovida a desembargadora para ocupar a vaga aberta com a aposentadoria do vice-presidente do TRF, Antônio Ezequiel da Silva, no fim do mês passado. Sendo a magistrada com maior tempo de serviço, é a primeira na ordem das promoções.

Ela só não será elevada de posto se declarar que não quer trocar a Justiça Federal em Minas pelo TRF em Brasília. A questão assim colocada no jornal poderá dar às pessoas menos avisadas a impressão de que a promoção é absurda. Não existe, contudo, qualquer condenação à juíza até o momento. O Tribunal não tem, assim, como negar-lhe um direito que não perdeu.

Morre Eluana Englaro

Na segunda feira, 9 de fevereiro de 2009 morreu, na Itália, Eluana Englaro, de 38 anos, que há 17 estava em estado de coma. A alimentação dela foi suspensa na última sexta-feira, dando início a um procedimento de eutanásia, autorizada pela justiça.

Eluana sofreu um acidente de trânsito em 1992. Em novembro do ano passado, seus pais obtiveram na Justiça, em última instância, autorização para deixar a filha morrer. A questão reergueu, na Itália e no mundo, a polêmica sobre a eutanásia. Numa clínica particular da província de Udine, que aceitou responsabilizar-se pelo procedimento, a interrupção da alimentação e da hidratação de Eluana, teve início na sexta-feira. O porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, disse esperar que o caso sirva como exemplo para reflexão.

Agora que Eluana está em paz, desejamos que seu caso, "seja motivo de reflexão serena e de pesquisa responsável dos melhores caminhos que devemos seguir no necessário respeito do direito à vida, no amor e no tratamento atento das pessoas mais necessitadas.” Para quem fala em nome do Vaticano, disse bem menos, o jesuíta Lombardi, do que gostariam de ouvir os que condenam com veemência a eutanásia. É a própria Igreja reconhecendo que, às vezes, é difícil definir o que, de fato, representa um ato de amor.

Pela lei brasileira eutanásia é homicídio. Em desfavor dela pesa, além das disposições penais, o óbice constitucional, que inclui o direito à vida entre os direitos fundamentais da pessoa humana. Também o Código de Ética Médica repudia enfaticamente eutanásia. Legislações de alguns países prescrevem, a seu turno, que a eutanásia passiva, aquela solicitada pelo próprio doente terminal, não é apenada. O tema, como se vê, é polêmico.
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(Publicado em fevereiro de 2009, no jornal LEOPOLDINENSE)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Foguetório

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Janeiro, 2012


Natal, Ano Novo, foguetes espocando pelos bairros. Deitado em minha cama, ontem à noite, atinei-me para a grande dívida que venho acumulando com a sociedade humana, que tão generosamente me acolhe. Gosto de ouvir foguetes e nunca soltei um único foguete!

Devo ser o maior egoísta desta festa que é a vida. Os foguetes levantam meu astral há várias décadas, é um deleite ouvi-los pipocar, mas jamais gastei um único centavo em show pirotécnico! Grande sempre foi meu encantamento com queima de fogos, luzes e emoções de fim de ano sobre o mar do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, sem nunca haver concorrido com um mísero busca-pé. Só hoje, constrangido, me constato esse beneficiário silencioso e contumaz da toarda alheia!

Infelizmente é 31 de dezembro e já não há tempo; o comércio está fechado. Ano que vem pretendo redimir-me. Procurarei saber, de antemão, onde vendem foguetes. Se não me engano até sei de um lugar onde fogos de artifício são vendidos. É no quilômetro zero da Estrada Washington Luiz, saída do Rio de Janeiro para Petrópolis. Lembro-me de uma loja de fogos de artifício naquelas imediações; não sei se ainda está lá, porque a presença, ali próximo, do prédio futurista do jornal O Globo está levando Duque de Caxias para o primeiro mundo, sofisticando a Baixada. Pode ser que a torcida do Flamengo esteja comprando rojão em outro lugar.

Mas seja onde for, comprarei logo algumas dezenas de foguetes. Se o tempo ajudar, na virada do próximo ano, torno ainda mais “público” o resgate de minha dívida social subindo o Morro do Cruzeiro, que é o promontório da cidade interiorana em que nasci, e liquido meus débitos lá de cima.

Se ficar bonito, pode até acontecer de criarmos uma “tradição” tão difundida quanto a Virada do Ano em Copacabana. Pensam que estou brincando? São Paulo já não fica atrás com sua réplica do foguetório carioca na Av. Paulista.

Aceito parceiros que desejem ribombar comigo, foguetes a um novo ano.  “E de pensar realizamos”...  

Ótimo 2012 a todos!

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(Publicado em 05.01.2012 no jornal LEOPOLDINENSE online/)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

E Leopoldina, hem!

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Maio, 2004

Deu no Jornal Nacional: Ubá, nossa vizinha Ubá, continua "dando samba" para o Brasil. Com Ary Barroso o samba tinha balanço baiano, agora o ritmo é internacional. Ubá entrou no ritmo das exportações. De grande "pólo moveleiro" (fabricante de móveis), Ubá agora passou a importante exportadora do produto!

Enquanto isto, Leopoldina ... Ah, nossa querida Leopoldina! Cataguases foi distrito seu, hoje está disparada na frente, orgulha-se de seu Colégio Estadual, projeto de Oscar Niemeyer, paisagismo de Burle Max, mobiliário de Joaquim Tenreiro, esculturas de Jan Zach e mural Tiradentes de Cândido Portinari.

Muriaé também foi distrito seu, um horror de geografia, enclave quase inviável entre o rio e o barranco vermelho ... Disparadíssima na frente!
Será que Laranjal ainda nos engole para depois pegarmos poeira de Argirita e Recreio?

As grandes cabeças, os grandes empreendedores responsáveis pelo desenvolvimento de Ubá, Muriaé e Cataguases têm nome, endereço e CPF. É só conferir. Alguns deles foram, providencialmente, levados à Prefeitura por seus concidadãos.

Alguma coisa sempre esteve errada, com Leopoldina. Temos uma elite tradicional, um povo clara e reconhecidamente culto. Temos posição geográfica mais favorável. Precisamos começar a dar sorte.

Você, eleitor, escolherá seu prefeito em outubro. Pelo amor de Deus, pense em alguém que você julgue em condições de diagnosticar e resolver os problemas da cidade. A escolha é toda sua. Não dou opinião. Em primeiro lugar porque não sou dono da verdade. Em segundo, porque penso que opinião é como escova de dentes: cada um usa a sua. Mas capricha, amigo!
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(Publicado em 31.05.2004 no jornal LEOPOLDINENSE)

Veneno de cada dia

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Maio, 2004


Li, ontem, um artigo sobre a toxidade de certos alimentos. Lembrou-me o caso dos navios de soja vendidos à China, há alguns anos, e devolvidos. Bastou que uma pequena quantidade de grãos contaminados por agrotóxicos, misturados a toneladas contidas num navio, fossem detectados pela vigilância chinesa para que os barcos tivessem que voltar ao Brasil com suas cargas infectas.

O episódio nos deu a prova do quanto nós, brasileiros, somos diariamente envenenados às refeições. Não é de hoje, que os mega produtores de alimentos nos envenenam.

Ou será que os produtos que nós ingerimos passam por fiscalização igual à chinesa? Claro que não. A gente engole o que esses irresponsáveis mandam para nossa mesa. Fubá de milho contaminado; óleo, leite, bifes etc., de soja contaminada; farinha de trigo contaminada por raticidas e pelos de ratos (exames do Instituto Adolfo Lutz sempre acusaram); morangos contaminados (a Globo mostrou que produtores de morango do sul do Brasil não arriscam comer o que colhem); batatas inglesas, campeãs dos defensivos sistêmicos, mandados pela raiz ao interior do produto para que as pragas o rejeitem; tomates superenvenenados (quanto mais bonitos mais temíveis); melancias nas quais turistas estrangeiros, avisados, nem tocam (um produtor de melancia, em Ceres, Goiás, me disse que a pulverização do agrotóxico é semanal, mas, se chover, passa e incidir no dia seguinte a cada chuva).

E a carne? Meu Deus! Nos velhos tempos já deu até marchinha de carnaval: "Comeu carne de boi, falou fino”... O Brasil não controla o hormônio atochado no gado de corte. Criadores, claro, gostam de lucro. Se podem tocar hormônio na orelha do boi pra ele dobrar de peso na metade do tempo, não contam até dois. O resultado? Bom, não provo a relação causa e efeito entre comer carne e falar fino. Só sei que é notável o naipe de sopranos no país, e que o Brasil é campeoníssimo em canto lírico nas cidades sopraninas de San Francisco, Amsterdam e Milão.

E nem adianta fugir da carne vermelha. A carne branca, do frango, também tem hormônio. Muito! E, aqui entre nós, hem: hormônio de galinha.


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(Publicado em 31.05.2004 pelo jornal LEOPOLDINENSE)

domingo, 27 de novembro de 2011

O Paradoxo da Saúde

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Novembro, 2000

Agora que conhecemos a opção das urnas, os telescópios baixam objetivas na realidade corrente. No nosso caso, o foco é a Casa de Caridade Leopoldinense. Como diria Chico Buarque, num verso de bom gosto, pode ser que "venha aí bom tempo".

Dois médicos do Corpo Clínico do hospital foram eleitos, respectivamente, Prefeito e Vice-Prefeito de nossa cidade. O Dr. José Roberto Oliveira e o Dr. Guilherme Junqueira Reis. Passados apenas alguns dias da apuração, comentários sobre composição de Governo não vão além do terreno indemarcado das especulações. Pode, todavia, vingar raciocínio itinerante segundo o qual o Dr. Guilherme viria conciliar suas funções de Vice com a responsabilidade da Saúde. É previsão alvissareira.

O médico Guilherme Junqueira Reis, pela segunda vez, vice-prefeito de Leopoldina tem uma respeitável folha de bons serviços à nossa DRS, já foi Provedor da Casa de Caridade Leopoldinense, já foi Secretário de Saúde e está, hoje, à frente do Asilo Santo Antonio, onde realiza um bom trabalho.

É, de longe, uma das inteligências mais agudas desta cidade, um homem probo, amigo, de finíssimo trato, muito equilibrado e sereno em seus posicionamentos.
Podem amanhecer das mãos dele − evidentemente, dentro do ideário do Prefeito José Roberto − dias menos nublados no horizonte da CCL.

É indispensável que Prefeito, Vice-Prefeito, Vereadores, todos, nos ajudem a "pensar" o Hospital, com a certeza de que, para ele, não existe remédio vindo de fora. Empréstimos, reforços de verbas ... é tudo bobagem. Temos que viabilizar, domesticamente, o Hospital.

Como sabemos, as entidades hospitalares, filantrópicas, neste Brasil, pós Constituição de 1988, resvalaram para a inviabilidade empresarial. Quebrados, vão esticando a própria agonia com o leite ordenhado de uma pedreira chamada Sistema Único de Saúde.

Se a situação comportasse humor poder-se-ia dizer que os constituintes de 88, ao assegurarem direito à saúde para todos os cidadãos, esqueceram-se de inscrever norma pétrea na "Carta Magna" segundo a qual toda despesa maior que recursos existentes, ficaria "obrigada" a gerar saldo positivo ...

Um absurdo não maior que deixar, como deixaram, os recursos fora dos cálculos.
Prevaleceu o insidioso populismo econômico de sempre. Nas palavras, sempre recorrentes, do ex-presidente do Banco Central, professor Gustavo Franco, da PUC-RJ: "É o lado kitsch da política econômica". Um mundo de conquistas sociais absolutamente inconsistentes, sem respaldo correspondente nos meios que as viabilizem, tipificando a definição do kitsch, tão bem escolhida pelo José Guilherme Merquior: "O agradável que não reclama raciocínio".
E salve-se quem puder!

Legislativo, legisla; Tribunal aplica. Saiu num jornal de Brasília decisão reconhecendo direito a um segurado do SUS de internar-se e tratar-se em qualquer instituição (mesmo particular), independente da existência de vaga. Viva!
-Será o triunfo do bem, no Arrnagedon? Ou apenas mais um espasmo kitsch, com seu meritório de efeito ao qual racionalidade não se aplica?
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(Publicado em novembro de 2000, no jornal PROJEÇÃO)

Lula e Hu Jintao

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Novembro, 2004


Doze de novembro de 2004 bem que poderia ser instituído como o dia nacional da mentira piedosa. Domingo, último, sonhando fazer "negócios da China", Lula curvou-se à imposição do presidente chinês, Hu Jintao, de visita a Brasília, e declarou que a China é uma “economia de mercado”.

Tudo mentirinha: a China tem economia sob controle absoluto de um governo totalitário e sua rede bancária é oficial.

É um tipo de economia que promove práticas desleais de comércio, como o dumping, que é a venda de produtos por preços inferiores ao custo, aniquilando indústrias concorrentes em países parceiros. Por esta e por outras, não é economia de mercado.

Mas quem precisa vender  avião da EMBRAER, tem muito boi nelore pronto para virar bife nas pastagens do serrado, soja a dar com o pé e coxinha de frango que não acaba mais para oferecer a 1,2 milhões de chineses, faz qualquer negócio...

Parece que Lula ao ouvir a exigência do simpático Hu, virou-se para o intérprete e deu uma de FHC:
¬ Pergunte, rapidinho, aí pro companheiro Jintao em que idioma ele quer que eu diga isto!

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(Publicado em 19.11.2004 no jornal LEOPOLDINENSE)

O Navegante Negro

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Novembro, 2004
Arte: Luciano Baia Meneghite (LUC)

Faz muito tempo! Noventa e quatro  anos! Em novembro de 1910, mais de dois mil marujos, liderados pelo marinheiro João Cândido, apoderaram-se dos navios de guerra ancorados na baia da Guanabara e apontaram os canhões para os principais prédios públicos da capital, exigindo o fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil.

O governo gastara uma fortuna para modernizar a Esquadra, fazendo do Brasil uma das maiores potências navais do mundo, mas o Código Disciplinar da Armada continuava o mesmo da monarquia ... Foi a chamada Revolta da Chibata.

Na noite de 22 de novembro explodiu o movimento com o marinheiro João Cândido, o “Almirante Negro", assumindo o comando do Minas Gerais. Morreu na luta o Comandante Batista das Neves, alguns oficiais e vários marujos. Sem saída, Hermes da Fonseca que assistia a uma ópera quando começaram os canhonaços, encomendou rápido um projeto a Rui Barbosa (que, aliás, tinha apoiado a reinstauração dos castigos) pondo fim aos açoites e concedendo anistia aos revoltosos.

Só que o troco do governo viria depois. "O negro que violentou a história do Brasil", segundo Gilberto Amado, foi preso com mais 17 marinheiros numa masmorra da ilha das Cobras. Quinze morreram sufocados. João Cândido sobreviveu e foi mandado para o Hospital de Alienados, onde os médicos negaram que estivesse louco. Foi a julgamento e absolvido em novembro de 1912, porque a jovem república brasileira já começava a ficar bonita, exatamente pela ação de bravos como ele.

Tanto que “a história não o esqueceu”. João Cândido, com sua Revolta da Chibata, inspirou João Bosco e Aldir Blanc na belíssima canção, "O Mestre-Sala dos Mares". Lembram-se da Ellis Regina?

-Há muito tempo, nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu.
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu.
Conhecido como Navegante Negro,
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar para o mar, na alegria das regatas,
Foi saudado no porto, pelas mocinhas francesas,
Jovens polacas e por um batalhão de mulatas!
Rubras cascatas jorravam das costas dos negros
Entre cantos e chibatas,
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do marinheiro gritava: Não!
Glória aos piratas, às mulatas,
Às sereias!
Glória à farofa, à cachaça,
Às baleias!
Glória, a todas as lutas inglórias
Que através de nossa história
Não esquecemos jamais!
Salve, o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais...
(Mas faz muito tempo!...)

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(Publicado em 19.11.2004 no jornal LEOPOLDINENSE)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Jorginho Guinle

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Março, 2004

Pra esse a cafajestalha tinha que tirar o chapéu. Jorginho jamais trabalhou. Veio ao mundo para possuir o Copacabana Palace e gozar férias. Divertiu-se nababescamente pelos melhores hotéis e cassinos do planeta. 

Tornou-se figura obrigatória em festas nos castelos da Europa, festivais de cinemas e entregas de Oscar.
O colunista americano Earl Wilson, numa aglutinação de Brazil com millionaire, chamava-o de "Brazillionaire". 

Apesar de baixinho, era considerado atraente pelas mulheres, simpático e muito querido por todos. Namorou algumas das mais belas e famosas atrizes de Hollywood.

Ruy Castro nos conta, no livro Ela é Carioca, a "cantada" com que ele conquistou Ionita Salles Pinto, modelo, socialite e empresária, uma das mulheres mais lindas e inteligentes (primeira da classe no Colégio Notre Dame, Rio de Janeiro) de seu tempo.

Fascinado com a sensualidade e a beleza de Ionita, ao se conhecerem na boite Le Bateau, disse-lhe:
"Ionita tenho, 52 anos e você tem vinte. Dê-me dois anos de sua vida. Para você, isso não é nada. Para mim, é uma vida inteira!".             

Cantada tão sincera que ela acabou lhe dando sete anos – observou Ruy Castro.

Acho também que Jorginho acaba de ser "grande" na maneira como escolheu morrer. Reduzido à penúria financeira ("Calculei meu dinheiro para viver 80 anos e cheguei a 88. Me danei!") foi internado no Hospital Público de Ipanema, com aneurisma.

Os médicos lhe teriam dito que o risco da cirurgia seria o mesmo da "não cirurgia". Prontamente ele assinou um termo de responsabilidade dispensando bisturis e foi morrer com dignidade num apartamento do Copacabana Palace (Parece que, no contrato de venda do Hotel, reservara para si direito a um quarto enquanto vivesse).


Jamais Jorginho Guinle se imaginaria aos 88 anos, decrépito, com escaras, em humilhante definhamento terminal, numa enfermaria de Hospital Público. Playboy de alto nível não perde a dignidade nem na hora de morrer.

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(Publicado em 13.03.2004 no jornal LEOPOLDINENSE/)

Feijão Cru – Lenda e Monumento

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Maio, 2004

Leopoldina, saída sul da cidade, esquina de Av. Getúlio Vargas com Av. Jehu Pinto de Faria: quando a antiga BR-4 (Rio-Bahia), ainda de saibro, passava dentro da cidade, por volta do início dos anos 50, ficava ali uma guarita de madeira, da Polícia Rodoviária Federal. O local era então conhecido como "Posto Policial".

A BR, entretanto, mudou sua rota (*), a polícia se foi e, do lado oposto à Jéhu Farias, na Getúlio Vargas, apareceu um bar que ficaria famoso, o "Gato Preto". Famoso talvez pelo nome − realmente inspirado − mas que teve vida breve.

O logradouro, entretanto, nunca mais deixou de ser referido como "Gato Preto". Agora, exatamente a propósito dos festejos dos 150 anos da cidade, a Prefeitura ergue no local um monumento à "Lenda do Feijão Cru": uma trempe, um caldeirão suspenso sobre base onde se pode ler, no bronze, o resumo da conhecida história dos caçadores e seu feijão pagão.

Como a grana municipal é módica, pauperis est numerare pecus, ou seja, "quem é pobre conta suas ovelhas", a obra fica longe de ser majestosa. Mas vale pelo que informa às crianças e certamente emprestará ao local sua terceira denominação.

Podemos até especular sobre a escolha do novo nome do lugar, pelo povão:
-"Panelão"? -"Panela de Feijão"? ...
Só temo por um nome e gostaria de não admitir: "Caldeirão do Hulk"! Se isto acontecer procuro, pessoalmente, o Prefeito e peço para ele passar um trator em cima.

Bem a propósito, cabe uma crítica inofensiva e sincera: Se a palavra "revoltados", na placa, pudesse ser substituída por "decepcionados" , acho que ficaria perfeito.
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(*) Até a década de 1950 não existia caminho ou mesmo trilha por onde passa, hoje, a Av. Jehu Pinto de Faria. O espaço, ali, era terreno acidentado, inacessível, da chácara do Orfanato. Aquele acesso providencial à cidade foi obra dispendiosa, realizada pelo DNER, para encurtar o trajeto da BR que − antes do contorno pela Cooperativa de Leite e pelo Trevo para Cataguases – transitava por onde é, hoje, a Rua Nossa Senhora Aparecida, Rua Alan Kardec, Av. Mal. Humberto de Alencar Castelo Branco, Av. Getúlio Vargas e Rua José Peres. Engana-se quem pensa que a Rio-Bahia passava pela Rua Antonio Fernandes Valentim. Jamais passou por ali, embora a estrada existisse para tráfego de pedestres, carros de boi e cavaleiros que, da Boa Sorte, da Constança ou da Onça, demandavam à cidade. Parte da Rua Antonio F. Valentim passava (e passa) por terreno pantanoso, impróprio para o tráfego pesado da BR.
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(Publicado parcialmente no LEOPOLDINENSE de 15 de maio de 2004)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Valeu, amigos!

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Novembro, 2011

Valeu, amigos!
Minha limonada ficou pronta. Não dizem que é a melhor coisa a fazer quando se ganha um limão? Pois bem, tomei o limão em minhas mãos, dividi-o em dois, protegendo o rosto dos jatinhos lacrimejantes da casca, liguei o espremedor de frutas, pressionei uma parte de cada vez sobre o rotor e colhi o caldo, puríssimo, num copo grande. Acrescentei água geladinha, cinco gotas de adoçante para moderar no açúcar, e pus-me, vagarosamente, a degustar o que, antes, era o cítrico acerbo. Delícia, nem tanto, mas já não me marejava os olhos.

Vocês sabem que estou falando de minha assimilação ao fim do “nosso” Bloghetto da Maria Helena. À primeira hora a notícia caiu pesada aqui em casa. Prontamente, no entanto, passei a conjeturar sobre as razões que moveram nossa laboriosa titular do espaço a acabar com ele. Perguntei a mim mesmo:
-Você não achava “uma loucura” a carga que Maria Helena carregava sobre os ombros? Você aceitaria estar no lugar dela, fazer o que ela faz? Não precisou mais! Para mim, o encerramento do Blog estava justificado.

Lamentavelmente justificado.

Estes últimos anos de convívio e trocas, virtuais, com Maria Helena, o cuidado que passei a sentir por ela, não me permitiam indiferença ante a azáfama em que ela se envolvera. Como agravante, o enorme senso de responsabilidade e perfeccionismo por ela dispensados a compromissos assumidos, sempre a exigir empenho e sacrifício redobrados. Chegaria o momento em que, alguma coisa, ela precisaria descartar.

Optou por encerrar o Blog... O custo, para nós, leitores, é severo: nosso espaço de convivência agradável – digamos − entra em recesso. O benefício, entretanto, o justifica: a amiga Lenita, como todos nós, tem limites físicos que a idade impõe, e não pode, apenas com a bengala e a coragem, enfrentar uma alcateia de leões na arena das manhãs, numa pancadaria que toma o dia e entra pela madrugada... Acaba chegando o dia da caça, ou seja, o momento infeliz em que o “bicho pega”.

Vejo-a cortando onde precisa e pode cortar. Digo pode porque sequer nos causará perda irreparável.
Desocuparemos “um cômodo”, mas não precisaremos abandonar a Casa Grande, que é o providencial Blog do Noblat, no qual estamos desde a fundação, e permaneceremos com o mesmo entusiasmo. Portanto, nos veremos sempre por aqui, gente boa.

José do Carmo Rodrigues

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A você, Maria Helena, meu reconhecimento sincero pela acolhida de quase três anos à nossa Conversa Mineira. Deus lhe assegure o sucesso. Sua bondade lhe rendeu créditos em felicidade. Um beijo e o conforto do amigo, jcr.
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(Última Crônica publicada no Blog da Maria Helena que se encerrará dia 20.11.2011)
(Publ. a 17.11.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

sábado, 12 de novembro de 2011

Jovens Descartáveis

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Novembro, 2011


Tem me batido a sensação de que já vivi o bastante. Nasci e cresci num país de terceiro mundo, com um povo descrente de si mesmo, mal dando conta do complexo atávico de ex-colônia dos trópicos. Aquele peso do pecado original de não ser europeu ou americano do norte. Pode ser problema meu, mas sempre me senti mais ou menos assim.

Eis, no entanto, que minha geração amadureceu vendo algumas coisas mudarem. A paixão do primeiro mundo europeu pelo futebol valorizou demais nossos cinco títulos mundiais no esporte. Ao mesmo tempo começamos a aparecer bonito também na fotografia do vôlei, modalidade esportiva que “até os americanos” respeitam e nos esportes olímpicos. Construímos um mercado interno forte, nos tornamos ponteiros na produção de grãos e de carne. Alcançamos avanços tecnológicos importantes.

Ultimamente, já preparadinhos para morrer de vergonha por termos colocado um operário sem cultura formal na presidência da república, eis que o homem vira líder performático internacional, visto lá de fora como um “Pelé” da sociologia política e, internamente, um Padim Ciço Milagreiro, dos fracos e dos oprimidos.

Não bastasse isto, nosso líder é ungido por Deus através das perfuratrizes da Petrobrás. Num passe de mágica, a ex-colônia alcança a fidalguia do hemisfério norte e a fortuna, daqui mesmo, escondida a sete mil metros chão a dentro.

E, convencidos de que a felicidade vem da terra, por pouco não acabamos de vez com o analfabetismo remanescente, legalizando a verbalização das batatas...

De que “ficamos ricos”, até dispensaríamos a prova dos nove, mas ela veio com a velha Europa às voltas com uma crise econômica contagiosa, sendo que, caprichosamente, pelo menos até agora, não se mostrou suficientemente idônea para nos afetar.

Não é de eriçar vaidades? É sim. Os de minha geração que morrerem hoje, morrem realizados. Vimos tudo o que sonhamos ver! Não importa se com os pés um pouquinho descolados da realidade. Mas que vimos, vimos.

Pena que velho vive levando susto da juventude. Quando foi que nós, os encanecidos de hoje − que nos escondíamos de nossos pais para fumar um cigarrinho de tabaco, filado na rua – iríamos imaginar nossos netos invadindo uma Reitoria, em protesto pelo direito, que acreditam ter, de traficar e usar drogas ilícitas dentro do campus da maior Universidade da América Latina?

Ainda bem que não será a essa minoria descartável que a atual geração de “coroas” irá entregar um país, tornado viável e respeitável. As notícias dão conta de que, para a maioria dos estudantes, as aulas na USP seguiram normalmente.

Ótimo, é o Brasil preparando seus herdeiros.
  
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(Publ. a 10.11.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os Direitos da Galinha Mãe #

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Novembro, 2011

Foi o vaqueiro Neneco Passarim que me trouxe ciência do sucedido. Tá lá – ele disse – pra quem quiser ver; o seguinte se deu na Fazenda Filadélfia, confinante com o povoadinho nanico que eles falam Estiva, aqui mesmo em Minas, na estrada que vai dar no comércio de Piacatuba, Vila Nossa Senhora da Piedade − no dizer dos mais antigos.

-Ver pra acreditar! Uma galinha, na propriedade do cumpade Zezim, vinha tranquilamente chocando seus ovos quando uma cadela deu de parir cinco cachorrinhos bem à roda do ninho dela. Ah, pra quê! A galinha virou mãe de cachorro.

Neneco Passarim não mente. De fato, Madame Barrada – que esta era a raça da tal galinha − tornou-se mãe adotiva de cinco filhotes de cachorro. Foi numa das andanças costumeiras de mamãe canina que dona galinha admitiu, sob seu corpo, os filhotes da vizinha e cuidou de proteger maternalmente os bichinhos, passando a reagir com bicadas às intromissões farejadoras de Mlle. Au-au.



Compenetrada, quando algum dos recém-natos ensaiava deixar o aconchego plumoso para mamar, ela esticava o pescoço em gancho e o trazia de volta para debaixo das asas.

Submeti a inusitada questão ao advogado dativo, Dr. Modus Vivendi. Diz ele que, “in casu, não se configura a conduta típica de sequestro de menores” já que, a “inexistência de linha demarcatória inequívoca entre os dois domicílios, não autoriza falar em remoção de incapazes para logradouro diverso daquele em que a parturiente biológica os trouxe à luz”.

Terá havido, no máximo, “lesão despicienda ao exercício do direito ao pátrio poder, por obra da mãe bípede, em desfavor da mãe quadrúpede” − pátrio poder esse, aliás, hoje substituído na terminologia jurídica pelo politicamente correto poder familiar, eis que a primeira fórmula aparentava negar “ao ente feminino sua prerrogativa incontrastável de guarda compartilhada das respectivas crias”.

Entende, porém, o renomado jurisconsulto que “a parte teria dificuldade em acostar a eventual processo judicial, tendente a dirimir dúvidas, conteúdo probatório convincente de qualquer intromissão da parte ovípara no espaço maternal canídeo, exato por ter pertencido a ela, geratriz dos quíntuplos, a escolha do local onde parir sua ninhada”.

Fê-lo – assevera o lúcido causídico – praticamente no âmbito domiciliar da coricocó, e sem o desvelo de preparar, para os nascituros, um berço acolchoado e aquecido por peninhas fofas, delicadas, “como aquele disponibilizado aos recém-natos pela indigitada mãe postiça – a qual restará, via de consequência, imune a reprobatórias inquinações”.

Tais circunstâncias, a todo passo, não teriam o condão – adverte ainda o Dr. Vivendi − de desobrigar Mamãe Cadela do imperativo legal de prestar alimentos à sua prole, ex vi legis (pela força da lei), sob pena das cogentes sanções legais aplicáveis à espécie em comento.

O juridiquês tem a transparência de uma clara de ovo, não acham?

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(Publ. a 03.11.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Um Carinho Especial

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Novembro, 2011


Estive fora no dois de novembro. Para mim, nunca foi uma data qualquer. Desde criança já ia com meus irmãos e meus pais ao cemitério, no Finados, levar flores à “sepultura do vovô”. Sempre chovia, o campo-santo (que, em Leopoldina está mais para “morro-santo”) virava uma desordem lamacenta, um tremendo transtorno. Na volta, invariavelmente, o cuidado de minha mãe:
– Não entrem com os pés sujos... Deixem os sapatos aí fora!

Ainda hoje, quando não me desincumbo da visitinha à derradeira morada dos meus convocados ao alto, começa a trilar aquele desconforto renitente do dever não cumprido. A gente se condiciona à ideia de que nossos entes queridos estão lá, ávidos de atenção, prontos a nos acudir. O fato é que precisamos ilusões para viver. Se forem mais que ilusões, melhor: a fé elimina incógnitas filosóficas. Mas se o imperativo da razão nos abjura a utopia, surgem tormentos a reclamar escolhas, ainda que imprecisas e provisórias.

Lembro muito aquela cena do filme, Zorba, o Grego, em que o personagem de Antony Quinn, dá as costas à mulher amada ao constatar sua morte. Afasta-se do cadáver e diz:
– Não é mais ela!

Ali, Zorba espanca a dor num rompante de racionalidade, mas nunca é tão fácil ao ser humano dispensar o amparo providencial das ilusões. Faz-nos bem acreditar na perenidade da alma por uma razão bem clara: nascemos para viver; não nascemos para morrer. O Criador parece ter-nos infundido a convicção de que a morte é um despropósito a ser resolvido. Um dado acidental da criação.

Mas se vocês pensam que com este papo melancólico estou a fim de arruinar nossa Conversa de hoje, estão enganados. Escolhi apenas o introito à história de um sujeito que leva a morte na brincadeira. Ou, pelo menos, parece que leva. Vejam só: aconteceu a primeiro de novembro do ano passado.

Sem mais nem menos, apareceu aqui em casa – em rápida passagem pela cidade − um desses parentes distantes que a gente conhece de ouvir falar e nunca imagina andar por perto. Logo na apresentação descobrimos nele um cara legal, prosa agradável, casado com uma prima, com quem também perdemos contato. A fama do sujeito, na família, é de ser meio escorregadiço na maionese, parafusos intracranianos meio frouxos. Preconceito, talvez, por sua veia artística, constando ter trabalhado no circo quando jovem. Hoje, segundo diz, cria peixes ornamentais numa chácara em São Paulo. Passa dos cinquenta e está viúvo há uns dez anos.

Minha prima, a ex-esposa dele, foi artista plástica de renome, mulher muito bonita, elegante, produzia óleos inspirados. Do casal sempre se soube viver muito bem, “um feito para o outro” – se me socorre o rifão batido.

Pois bem, era véspera de Finados e, por delicadeza, mas também pelo prazer que nos daria, minha mulher e eu o convidamos a passar a noite em nossa casa, descansar, e viajar no dia seguinte. Caía a tarde e o destino dele, Campinas, em São Paulo, implicava dirigir setecentos quilômetros à noite. Muito perigoso – argumentamos.

Ele agradeceu o convite, mas não ficaria porque tinha um “compromisso inadiável” para a manhã do dia seguinte, no cemitério de sua cidade: “dar uma mijadinha na sepultura da Dinah”...
-Êpa! O quê!
Tivemos que rir, claro. Que brincadeira mais escrachada de maridão saudoso de sua amada!... Ponderado, todavia, ele nos confiou sua história.

Certo dia – disse – assim, meio irresponsavelmente, eu e Dinah combinamos que o primeiro de nós a falecer receberia, todo ano, do que ficasse vivo, “uma mijadinha na sepultura”... Nada de levar a urina num frasco e derramar lá; não, isto não é mijar. O trato era verter o xixi in natura...
Pelo sim, pelo não – aduzia ele − agrada-me vir cumprindo esse compromisso com ela nos últimos anos e é, exatamente, o que farei amanhã.

Objetamos quanto ao pudor público, o constrangimento diante de tantas pessoas em visita ao campo-santo no finados...
−Sem problema, disse ele. Uso uma capa tipo sobretudo. Dá para disfarçar bem. E acreditem, faço isto num gesto de carinho, do fundo de minha alma! Carinho muito sincero, tá.
Pareceu emocionar-se. Ficamos pensando na boa ideia do ilusionismo com o sobretudo.

Caspita! Sorte da prima, que morreu primeiro. Para ela, mulher, certamente seria mais complicado.


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(Publ. a 27.10.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)