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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Foi Assim #

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Dezembro, 1965

Nasci à beira de um rio de águas vagarosas, ao qual chamavam Rio Pardo. No pequeno vale contíguo à planície denominada Vargem Linda, no sopé da encosta, meu pai construiu, com suas próprias mãos, sobre esteios de braúnas centenárias, nossa casa, simples, mas tão extraordinariamente bela e agradável que os anos ali vividos nós os guardaríamos na memória como um tempo submerso no azul de um céu muito limpo e pródigo nas mais preciosas dádivas da natureza.

Vargem Linda não chegava a ser grande. Uma pequena chácara de alqueire e meio, como sempre ouvi dizer. Dela, meu pai extraia o sustento da família com pequenas culturas de arroz, feijão e milho.

Tínhamos também uma vaca muito bonita e grande, chamada Princesa, de pelo queimado, brilhante, chifres altos cor de grafite, que nos brindava todas as manhãs, a meus três irmãos e a mim, com o leite forte de suas virtudes zebuínas. Meu pai possuía um cavalinho castanho, o Guarany, que o levava a trote por toda a parte.

Professora rural do lugar, minha mãe, Da. Pequetita, ensinava às crianças pobres a ler e a escrever. No início da década de 1940 a região da Vargem Linda era muito pobre de recursos e as pessoas muito simples. Todos trabalhavam na lavoura e eram poucos os que sabiam assinar o nome. Nem mesmo os proprietários das terras, em sua maioria, puderam frequentar escolas primárias. O mundo civilizado devia parecer distante, quase inalcançável para eles.

Minha mãe tornou-se particularmente estimada de toda a população por ser mestra dedicada, exigente e muito cuidadosa do aprendizado e da saúde de seus pequeninos alunos. Era um tempo em que a simples e elementar ideia de alfabetizar as crianças contava com poucos adeptos. Os menores eram úteis na ajuda aos pais na lavoura, atividade compreensivelmente prioritária, pois representava em muitos casos a própria sobrevivência.

Importantíssimo, portanto, que as professoras se dirigissem às residências e, lá, convencessem os adultos da relevância do aprendizado, da necessidade de equacionar o problema e alfabetizar os filhos. Para os meninos e meninas que não podiam comprar cadernos, minha mãe costumava fazer, com linha de costurar e papel de embrulhar pão, os cadernos com que pudessem anotar as aulas.

Tal como se descreve no início da criação, Deus há de ter visto que tudo aquilo era muito bom, pois parece ter inundado de bênçãos nossas vidas e determinado que, ao final, tudo viesse ter à trégua e à paz.
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Maria Sumiu

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Faz tempo, passou Maria
Em frente à minha janela,
Eu que sempre falo em versos
Em versos não falo nela.

Meu fraco é falar de mar,
Falar de espera e de mágoa,
De lágrimas de se afogar
Como a lua dentro d’água.

Maria foi uma vaga
Em noite sem lua cheia,
Tudo indica que no escuro
Maria virou sereia.

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Na Dívida Ativa

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Quero, neste Carnaval,
Reprimir minha alegria
Vou botar terno e gravata
E arquivar a fantasia.

Não quero o calor do samba,
Melhor uma ducha fria
Atiçar os meus problemas
Dando papo à minha tia.

E, à noite, quando eu voltar
Nem passo pelo chuveiro,
Enfio uma roupa suja,
Vou dormir no galinheiro.

Se espirrar não é Saúde
Por favor, digam: -Enfermo!
E debitem o mau humor
À ganância do governo


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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Quintino e o Wando

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Fevereiro, 2012


A morte do cantor Wando me trouxe lembrança de um estouvado companheiro de trabalho, no Rio de Janeiro, o também falecido jornalista Luiz Quintino. Esse foi um cara que se destacava. Chefe de redação da empresa em que trabalhávamos, gozava da justa fama de sério, competente e equilibrado. Era casado com Vanira, mulher adorável com quem tinha dois filhos já moços.

Residia num bom apartamento da Zona Sul do Rio, levava vida profissional e social dentro dos padrões e manifestava, sempre, grande carinho pela esposa e até pela sogra. Versado em elogios abundantes, tinha na sogra sua grande beneficiária.

Lembro-me da ocasião em que buscava trocar o apartamento da família. Dizia enfático:
– Só me serve imóvel com terceiro quarto que seja “muito bom”, para minha sogra. Não abro mão de tê-la morando comigo. Minha mulher é maravilhosa, mas quem “adivinha meus pratos preferidos” é minha sogra.

Pois foi este homem de vida conjugal nos eixos que, a partir de certo dia, passou a incluir a própria secretária, Olivinha, nos confetes coloridos de sua verve. Moça casada e bem mais jovem que o chefe, talvez enfrentasse problemas em casa. Percebíamos que Quintino tornara-se seu confidente e, aos poucos, sua companhia invariável nos almoços. Rapidinho o namoro ficou óbvio.

Da parte do Quintino, rarearam os louvores à esposa e à sogra. As qualidades de Olivinha ganharam preponderância em seu apostolado.

Pelo sim, pelo não, eu – o colega ao lado − decidi a tudo ver e ouvir em silêncio obsequioso. A situação era desconfortável para mim, na condição de também amigo da esposa, Vanira, pelos muitos anos de convivência com o casal. Uma distância prudente do imbróglio era-me recomendável.         

Deu-se, por aquela época, que o cantor Wando fazia grande sucesso na casa de espetáculos “Asa Branca”, nos Arcos da Lapa. A imprensa repercutia:
– Imaginem, ele arremessa calcinhas de lingerie para as fãs!
Wando emplacava seus grandes “hits” românticos. Quintino foi, com Olivinha, ao show.

Se faltava algum tênue empuxo a inundar de paixão o coração do ragazzo, o show do Wando seria a gota d’água. O homem já não conseguia trabalhar; grudou na Olivinha.
Claramente envolvido no lirismo da canção “Moça” (Só podia ser: assobiava aquilo o dia todo!), passou a desconsiderar os limites do recato.
– Era casado? Dane-se!
– A moça era casada? Dane-se, novamente!
– A moça era muito mais nova? O Wando resolve:

“Moça, dobre as mangas do tempo
jogue o teu sentimento, todo em minhas mãos...”

“Dobre as mangas do tempo” é garimpo poético de fina extração, não acham? Pois o bom Wando, mineiro de Cajuri – povoado que fica ali, pertinho de Viçosa – disse mais, naquele show:

Brega, minha gente, é não viver um grande amor.

Quintino tomou boa nota e, certamente, viveu. Deu um galho danado, mas viveu.

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