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domingo, 27 de junho de 2010

O Milagre da Copa


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Foto: Moses Mabhida Stadium, Durban, África do Sul

A África do Sul jamais será a mesma no imaginário das pessoas. De repente um país não muito exposto internacionalmente é revelado ao mundo, pela TV, na imagem de um povo alegre e bom a esbanjar simpatia, essa percepção magnética em que as almas se identificam.

É a primeira Copa do Mundo na África, inundando os lares globais em cores, danças e sorrisos de uma gente bonita com sua rica diversidade étnica e cultural.

O futebol é esporte que suscita reações apaixonadas. Torcer com serenidade nem sempre acontece. Mas os africanos do sul, se ainda não são mestres na arte futebolística, mostram-se campeões do fair-play. Tanto os atletas quanto o público.

Na última terça-feira, vimos que a festa da torcida continuou, no Free State Stadium, da cidade de Bloemfontein, mesmo diante da desclassificação dos Bafana Bafana (Denominação da Seleção Sul Africana), na inútil vitória sobre a França. Continuou a festa nas arquibancadas e do lado de fora do estádio.

Sem dúvida um momento de triunfo da velha máxima, o importante não é vencer, é participar, erroneamente atribuída ao Barão de Coubertain, criador das olimpíadas modernas. Em verdade, consta a frase ter sido dita pelo bispo da Pensilvânia, em exortação aos atletas que competiram nas Olimpíadas de Londres, em 1908.
Assim deve ser entre povos civilizados. Assim vimos que aconteceu na civilizada África do Sul.

Na preocupação geral, nervosa, com o horário dos jogos, às vezes penso que mais de quinhentos anos se passaram e, de novo, as atenções do mundo voltaram a apontar na direção do “Cabo das Tormentas”. Não mais agora por obra do desafio incógnito das vagas aos épicos navegadores dantanho. Mas pelo magnífico espetáculo, em terra firme, com que se apresentam ao mundo os sul africanos nesta festa do futebol mundial.

Até bem pouco, não se tinha mais que Johanesburgo, Cidade do Cabo e Pretória, como referências distantes dessa grande nação meridional. Imagens extraordinárias nos introduzem agora a Durban, Port Elizabeth, Nelspruit, Rustenburg, Polokwane e Bloemfontein, esta última, aliás, com o poético significado de "fonte das flores", nas línguas africâner e neerlandês - dois, dos muitos idiomas oficiais do país.

Sem dúvida, a pátria de Nelson Mandela, do bispo Desmond Tutu, de Thabo Mbeki e do cirurgião, pioneiro dos transplantes cardíacos, Christian Barnard, passa, com todos os méritos, ao chamado mundo moderno. Seja pelo cenário cosmopolita de suas principais cidades, pela arquitetura deslumbrante de seus estádios, mas, sobretudo, pelo entusiasmo aceso e civilizado de seu povo.

Já se vê, o futebol pode mais que unir pessoas ao redor do mundo. O futebol é também capaz de desmoralizar preconceitos, afirmar realidades, superar equívocos. Antes mesmo do fim do torneio, ele insere a África do Sul no concerto das nações evoluídas, mesmo não se podendo negar o muito que por lá ainda reclame avanço em educação, saúde, combate à criminalidade e à corrupção. Problemas, aliás, presentes em estados mais prósperos.

O futebol é capaz de “dar um tempo” na dura realidade da vida, capaz de convidar à dança e à festa, porque, afinal, a felicidade é às vezes o esquecimento da dor.
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(Publicada em 24.06.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Insegurança e Abusos

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Seria injusto com o país e, sobretudo, com seu sistema previdenciário se todo aposentado neurotizado pela insegurança dominante tirasse passaporte javanês e fosse à cata de melhores padrões no “além-mar”. Mas a convivência promíscua com facínoras nos quintos destes infernos “d’aquém”, às vezes eriça na gente pruridos de migração.

A mim, por exemplo, já não seduz o antigo prazer de viajar ao Rio de Janeiro. Não dá mais. O Rio é, seguramente, o espaço do planeta com maior percentual de celerados ao metro quadrado. Um mecânico da Lapa me jura que dois minutos são suficientes para que um simples alicate, esquecido na porta da oficina, desapareça... a qualquer hora do dia ou da noite.

Ultimamente, para ir ao Rio, muitos já não usam a Linha Vermelha. Preferem a confusão de coletivos da enrugada Av. Brasil. É o Planalto que recomenda o antigo trajeto.

Deu nos jornais que a Segurança da Presidência da República há de mister conduzir a comitiva presidencial apenas por caminhos que ofereçam opções de “escapatória”, no caso da ação organizada de bandidos. Ou seja, o presidente não trafega pela Linha Vermelha porque ela não tem retornos nem saídas, entendem?... A não ser “a nado”. E, convenhamos, nadar na lama de Ramos em direção às favelas do Complexo da Maré melhora bem pouco a sorte de um acuado.

Vivemos, portanto, num país onde a Presidência da República planeja os deslocamentos do presidente em função do crime. Crime de bandidos comuns, dos fora-da-lei.

O diabo é que não apenas a meliância informal atormenta, hoje, o brasileiro. Gatunos existem “dentro-da-lei”, praticando furto com disfarce de “subtração legal”.

Desde Roma Antiga que os exemplos ilustram. Vejam o drama de um brasileiro comum, nome, endereço e CPF:

Meses atrás, foi a Belo Horizonte a trabalho. De volta, lhe chega, via postal, multa de R$102,15 aplicada na descida da Av. Raja Gabaglia, estando ele a 71 km/h, quando a velocidade ali “permitida” é 60 km/h.... Mal refeito do susto, um dia depois, outra Notificação de segunda multa de R$102,15 referente à sua volta para casa, quando passou pela mesma avenida a 72 km/h... Tudo explicadinho na Notificação: dia, hora, local, foto do carro, velocidade permitida, velocidade medida, dados do veículo, endereço, pontos perdidos na carteira, tudo.

Ora, o carro multado é do tipo médio, com dois anos de uso, dificílimo de ser mantido a 60 km/h. Principalmente de morro a baixo, como ocorre na Raja. Característica, aliás, da média geral dos carros nacionais e importados, com comercialização permitida no país. Quanto ao local, é uma avenida de acesso à Capital, com duas pistas bem conservadas, separadas por canteiros, sendo fácil supor que se todos por ali trafegassem a 60 km/h causariam um mega engarrafamento em toda BH! Seguramente, ninguém anda a 60 km/h na Raja Gabaglia... Ninguém!

São nestas particularidades que a meu ver - e salvo melhor juízo - o oportunismo arrecadatório deixa o “bum-bum” de fora. É óbvio que os radares são posicionados em pontos estratégicos, com “ânimo de faturamento”! Está claro para todo mundo que eles se prestam ao um negócio compartilhado, de industrialização de multas de trânsito, entre poder público municipal das grandes cidades e certas empresas particulares que operam os aparelhos. Em BH, o “Consórcio Particular”, dono da engenhoca, fatura R$51,50 por multa aplicada... E nós estamos nas mãos desse pessoal!

A 11 de abril, último, a mesma “vítima” foi a Juiz de Fora. Na volta, multa de R$127,69, com fotografia e tudo, “provando” que ele transitou - como um bólido - pela Av. Brasil daquela cidade, a 72 km/h, em trecho onde a velocidade “permitida” também é 60 km/h...

A 4 de maio nosso “contribuinte forçado” vai a BH sepultar um cunhado. Colaborando com a depressão, antes da missa de 7º dia, lhe chega multa de R$102,15 constando do boleto que às 16:00h do infausto dia ele procurara cemitério, a 66 km/h, em rua macabra onde a velocidade permitida era 60 km/h...

Enterro é um susto atrás do outro. Regressando à sua cidade, no mesmo dia do funeral, foram DUAS, não UMA multa: outra Notificação explicou que às 22:48h, daquele mesmo dia 4, o radar o surpreendeu saindo de BH a 73 km/h, num trecho favelizado da periferia. Valor: R$102,15.

Em cada uma das multas acima, a anotação de 5 pontos na carteira do “real infrator”. Entenderam? Do “real infrator”... Eles querem que o infrator coloque um nome qualquer. É bom para o “poder público” que o sujeito distribua os pontos entre familiares e continue “contribuindo”.

Se me é lícito supor, eu supondo estou que estamos diante de uma tragédia moral. É paradoxal que se possam impor limites irreais de velocidade a carros cuja tecnologia não corresponda a tão baixos desempenhos. Trata-se de lesão escandalosa ao “consumidor”, já que o Governo permite e até estimula fabricação e comercialização desses carros. Autêntica arapuca cujo gatilho dispara com a malandra colocação dos radares/arrecadadores nas grandes retas ou nas chamadas “pendentes longas”. Quanto mais “bem colocados” maior lucro darão à Empresa Particular que os explora, com total desvirtuamento da conotação pedagógica da multa.

A cidadania, para dizer o mínimo, está precisando “chamar a polícia”. Mesmo sabendo que existem leis canhestras que aparentam abonar esses truques. Evidentemente, leis que não valem porque acima delas paira uma Constituição que positivou como Fundamento do Estado a dignidade da pessoa humana! E, além de um notável Código de Defesa do Consumidor, contamos agora com um novo Código Civil que trata muito adequadamente o abuso de direito. Leis estas que advogados, promotores e juizes já começam a acionar.

O Diretor do DENIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes), informa que as JARIS (Juntas Administrativas de Recurso de Infração), entupidas de processos, “não julgam multas de 3 anos atrás”! A conclusão, no jornal “Estado de Minas”, de 17/09/03, é que Minas deixa, com isto, de “arrecadar” R$60 milhões... Ou seja, a sanção por ato ilícito agora é tributo.

E o indefeso cidadão, como fica? Paga e não bufa porque ele não pode vender o veículo nem com ele transitar sem o documento. Havendo multa pendente de julgamento o Certificado não é expedido! Se isto não é abuso, o que seria um abuso?
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(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 30.10.2003)

Eloy Rodrigues Neto


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Foto
: Eloy, vereador, na tribuna da Câmara Municipal.


(Estas notas biográficas foram feitas para publicação no LEOPOLDINENSE de 30.04.2007)

O LEOPOLDINENSE registra, com pesar, o falecimento do amigo e concidadão muito querido, Eloy Rodrigues Neto, ocorrido às 11:40h da manhã de terça-feira, 17 de abril de 2007 corrente, no Hospital Monte Sinai, em Juiz de Fora.

Eloy, que completaria 73 anos a 7 de junho próximo, fora internado poucos dias antes em decorrência de complicações decorrentes do Mal de Parkinson, após uma queda no interior de sua residência, nesta cidade. O sepultamento se deu às 9:00h do dia 18, no cemitério de Leopoldina.

Leopoldinense muito estimado por todos, Eloy nasceu na “Boa Sorte”, filho de Olyntho Gonçalves Netto e de Mariana Rodrigues Netto. Era neto de Elisa Martins Neto e João Ventura Gonçalves Neto, que foi Juiz de Paz em Leopoldina e um dos administradores da “Colônia Constança”, nas primeiras décadas do Século XX.

Mauro de Almeida Pereira, em seu livro “Os Almeidas, os Britos e os Netos em Leopoldina”, na página 25, registra que João Ventura Gonçalves Neto era filho de Pedro Gonçalves Neto e Maximiana Ferreira de Almeida e seus avós paternos foram João Gonçalves Neto e Mariana Flauzina de Almeida, filha do lendário Manoel Antônio de Almeida, um dos primeiros proprietários da Região da Mata onde depois apareceria o Arraial do Feijão Cru.

Por parte de João Rodrigues Ferreira Brito, seu avô materno, também descendia dos primeiros povoadores de Leopoldina. Na sua ascendência, no século XVII, pode-se chegar a João de Almeida, natural da Freguesia do Espírito Santo de Óbidos, Lisboa, Portugal e a Francisco de Oliveira Braga, outro desbravador português.

A avó de Eloy, Elisa Martins, era filha de João Rodrigues Martins e Teresa Vargas, também de família de fundadores de Leopoldina.

Desde muito jovem Eloy trabalhou no comércio, vindo a dirigir uma empresa de prestação de serviços de assessoria a prefeituras do Estado de Minas Gerais.

Na vida pública, elegeu-se vereador por mais de uma legislatura. Foi Secretário da Prefeitura Municipal de Leopoldina, com notável atuação administrativa por vários anos.

Disputou eleição majoritária para Vice-Prefeito em 1982 e, para Prefeito, em 1988. Como vice, compôs chapa com Dalmo Pires Bastos, numa eleição vencida pelo Dr. Joaquim Furtado Pinto. Como candidato a Prefeito, Eloy contou com o estimado farmacêutico Jair Lacerda como seu vice, mas a eleição foi vencida pelo também farmacêutico, Osmar Lacerda França.

Eloy foi homem de muitas lutas, trabalhador incansável, homem de invulgar seriedade, religioso e pai dedicado de uma grande e maravilhosa prole. Era casado com Maura do Vale Neto, natural de Itamaraty de Minas (MG), falecida em 03.09.2005.

Deixa os filhos, Elomar do Vale Neto Santos, casada com Pedro dos Santos Sobrinho, que lhe deu os netos, Talita e Gabriel; Maria do Carmo Vale Neto Machado, casada com José Geraldo Almeida Machado, que lhe deu os netos, Lívia e Rafaela; Eloy do Vale Neto, casado com Erlane F. Reis Neto, que lhe deu os netos, Lis, Ígor e Lina; Antonio Augusto Vale Neto, casado com Patrícia C. Brito Neto, que lhe deu os netos, Bruno e Mariana; Humberto do Vale Neto, casado com Patrícia M. C. F. Neto, que lhe deu os netos, Luísa, Sofia e Sávio; Marcelo do Vale Neto, casado com Iara Pussente C. Neto, que lhe deu os netos, Lara e Pedro; Luciano do Vale Neto, casado com Roberta de O. Fajardo Neto, que lhe deu os netos, Raíssa, Bernardo e Thúlio.

Leopoldina perde um de seus cidadãos mais queridos e exemplares.
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A Bola da Copa


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Foto: Bola Adidas, tipo JABULANI (Internet)

Nós, brasileiros, acostumados a vencer sempre, ou quase sempre, somos exigentes no futebol. Só aceitamos vitória. Mesmo quando nosso time não é o melhor, coisa que temos muita dificuldade para enxergar. Não estou dizendo que seja o caso, agora.

Já vimos que a Itália tem um bom time e a Alemanha também. O Brasil jogou uma partida insossa contra a fraquinha Coréia do Norte e ainda levou um gol, apesar de vencer por dois a um. Mesmo assim não nos conformamos que Itália e Alemanha possam estar, de fato, melhores. Parecem melhores, mas, no fundo, nossa fé é que as aparências nos estejam enganando e que, na hora certa, o Brasil prove que é o maioral e saia campeão pela sexta vez.

Até aí, nada errado: somos torcedores. E, torcedor, não tem compromisso com as obviedades. Mesmo porque, no futebol, o óbvio é muito relativo. O Kaká, por exemplo, é um craque óbvio, mas nesse primeiro jogo, contra a Coréia do Norte, não fez nada mais que ocupar o lugar de alguém que por ali jogasse pelo menos o feijão com arroz de um reles come-e-dorme. Que o Senhor dos crentes não permita a volta da lesão no púbis que obsedou nosso craque meses atrás.

Agora, sacal mesmo são as tais de vuvuzela, vocês não acham? Quem teve a idéia daquela coisa, meu Deus! Imaginem que já tem rede de televisão oferecendo transmissão com filtro para reter o pandemônio acústico das irritantes cornetas. São os mitos artificiais da expressão popular criados pela beócia midiática. Não, não, menos. Aí eu já estou pegando pesado.

Mas a bola “jabulani” é dureza! Outra invenção de moda. Quem, infeliz, terá parido aquela “coisa” e convencido os organizadores da Copa a adotá-la? É complicar, de graça, a vida de dezenas de atletas impondo-lhes de véspera um “objeto de trabalho” com o qual eles não estão familiarizados. Para quê? Qual o proveito? Tática promocional para o fabricante ganhar hexalhões de dólares na venda mundial do apetrecho? Só pode.

O resultado é o que vemos. Já nos primeiros jogos, dois goleiros foram grotescamente traídos pela trajetória ou pelo tempo da bola. Atletas não conseguem cobrar direito um escanteio. O “levantamento” passa batido sobre o fuzuê da grande área, para sair na lateral oposta. Dezenas de passes errados, evadidos pelas laterais; lançamentos em profundidades agudas, que nem alas alados conseguiriam alcançar... Não dá!

Fico imaginando se o objetivo não seria o nivelamento por baixo, dos contendores, como acontece na Fórmula 1, onde a superioridade avassaladora de um carro (ou de um piloto), passa a exigir mudanças para re-equilibrar a farsa do “circo” . É claro que uma bola de “comportamento” diferente, diminui a distância entre quem sabe jogar e quem não sabe. Tomara que não apareçam com uma bola oval! Aquela que o Armando Nogueira dizia “não ser bola, ser maldição”...

A queixa não é minha, não. Quando jovem, na minha roça profunda, fui um “player” apenas esforçado, em time de fazenda. A bronca é de quem sabe o que fala. O “gol-quipa”, Júlio César disse que se trata de uma bola “horrorosa”. Já o “centrefor”, Luiz Fabiano, e o “arfo”, Júlio Batista, informam que ela ganha trajetória imprevisível após o chute, fazendo “roscas” não encomendadas.

Tem gente que gosta de complicar, não é mesmo. No caso do introdutor dessa bola “jabulani”, só pode ser alguém que não gosta de futebol.
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(Publicada a 17.06.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

A Moça

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Junho, 2010

Gosto de música. O canto coral e o balé também me emocionam. Por acaso, ouvindo hoje uma sinfonia de Gustav Mahler, lembrei-me de uma bela mulher com passagem sem a mínima importância por minha vida.

Virginia Mahler – este seu nome – abrasileirada americana de Ohio, aguardava os primeiros raios de sol em sua varanda de frente para o mar, onde havia cadeiras de vime e duas redes. Seu cantinho preferido, entretanto, era a mureta que contornava o alpendre, onde podia sentar-se exposta aos olhares passantes, recostada nos ladrilhos da pilastra. Parecia gosto dela, reinar com naturalidade calculada sobre olhares e desejos convergentes.

Adoravelmente distraída, ocupava-se dos pés, da pele, das unhas – sua missão indeclinável e luminosa das manhãs de sábado. As pernas elegantes e sóbrias estendidas sobre o assento expunham uma tez alva e delicada, dando saber ao sol de ontem, um colorido sadio de pêssegos amadurecidos. Mãos sempre ocupadas dos cabelos claros e longos, submissos às repetidas intromissões da escova e dos dedos inquietos a voltá-los, ene vezes, com recorrente glamour.

Ao lado, perigando cair a um simples toque, um tubinho de (possível) protetor solar de formato especial, que a distância entre minha varanda e a dela não permitia distinguir com precisão. Mas pronto sempre chegava a vez de tomá-lo com delicadeza, derramar um pouquinho na palma da outra mão, e distribuir a benignidade do íntimo conteúdo pelos ombros perfeitos, pelos braços e ao longo das pernas olimpicamente torneadas. Também pelos joelhos supremos e pelos pés primorosamente esculpidos. Era Virginia Mahler sem qualquer aviso da intromissão de meus olhos inebriados.

Dali a pouco a moça se erguerá com nobreza e apanhará sua bolsa e virá por nossa rua em direção ao mar, com seu andar muito próprio. Como de costume, me dirá bom-dia ao passar, para que lhe conteste no mesmo augúrio, só eu avisado pelo poeta do quanto irá “de carinho preso no cerne do meu bom-dia”. 

Meus olhos necessariamente lhe seguirão os passos, no deleite de um caminhar personalíssimo, de impreciso encanto. Que passos seriam esses, em que flutua Virginia Mahler? 

Sem que se dê conta, é possível viver da emoção pela emoção, do fascínio que nos proporcionam as expectativas inviáveis, nutridas a cumprimentos cordiais e sorrisos reticentes.

Um dia correu a notícia de que a moça se mudara. Deixara o marido e, não sem algum escândalo. fora viver em São Paulo, com uma amiga, sua ex-aluna de balé...

Curioso! Nunca me havia ocorrido que Virginia lecionasse dança! Ou que tivesse a mínima ligação com música. Não nos teria faltado assunto. Mas agora é duas vezes tarde.

Reconsiderando o encanto no andar de Virgínia, entro a perscrutar ambiguidades que expliquem como a tal amiga possa ter entrado na história. São Paulo é uma cidade enorme. Certamente são muitas por lá as pessoas que se esfumam, envolvidas em dúvidas e mistério.

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(Publicada a 10.06.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

Soluções de Serralheria

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Junho, 2010

Ando abismado com o que vem acontecendo com a juventude brasileira. Como sou dado a pequenas práticas solidárias, transformei-me num subidor de morros. Conheço por dentro as chamadas “comunidades menos assistidas”.

Trago notícias. Reformulei todos os meus antigos conceitos – ou preconceitos - sobre jovens que se drogam e sobre jovens que praticam o tráfico de drogas. Aprendi que são vítimas sociais, brasileirinhos bons e aproveitáveis. Um desperdício o país deixar que morram fumando crack. Claro, não estou falando de bandidos natos, que são raros. Estes, só os vejo pela imprensa.

Por favor, aceitem isto como um dogma: não existe só gente má usando e vendendo droga em nossas cidades. São pobres-diabos sem quaisquer perspectivas na vida. Uns atolados no vício, a caminho da morte, outros “se virando” para sobreviver. Jovens que “estão” marginais.

Repressão ao tráfico de drogas tem que ser feita nas fronteiras e nas estradas, buscando interceptar carregamentos no atacado. E, sempre que possível, com eliminação dos financiadores do tráfico. Colocar polícia atrás do varejo, nos morros, é ingenuidade igual a tentar acabar com formigueiro matando formiga com o chinelo.

O governo tem que agir com urgência para não permitir que um enorme contingente de nossa juventude, de todas as classes sociais, morra no uso do crack. É verdade que já virou epidemia. É verdade que mata. É verdade que a chance de recuperação do jovem pobre é mínima. A mãe desesperada que amarra o filho numa corrente – como a imprensa do país acaba de noticiar − está fazendo o que pode para salvá-lo. Meu antídoto seria:

1. Recrudescer a ação da Polícia Federal no combate à entrada e ao trânsito das drogas;

2. Investir todo o dinheiro possível (e também o impossível) nas Forças Armadas para que todo jovem brasileiro seja chamado ao serviço militar. Dali, além de soldado alfabetizado, que ele saia preparado para o exercício de uma profissão.

Esta é a medida emergencial efetiva para enfrentar o problema na proporção em que ele hoje se apresenta. Educação via escola virá depois. Por agora é preparar o terreno como na agricultura. Primeiro o peso e a potência do trator. Amainadas as charnecas, o maquinário e as ferramentas mais leves.

Tirar da cabeça que professoras primárias, em escolas públicas depredadas, vão desentortar esse pepino. Jamais! A solução está nos quartéis. É na sudorese, no enquadramento, na disciplina, na sola da botina, na porrada, que o jovem pimpão vai entrar na linha e “tomar tenência na vida”...

Porque, infelizmente, a sociedade moderna não ajuda na formação de homens de bem. Andei lendo Zbigniew Brzezinski, em entrevista dada a Nathan Gardels, editor da Revista NPQ, de Washington, sob o título "Fracos Baluartes do Ocidente Permissivo". Ele diz:

"...A televisão substituiu a família, a escola e a igreja − nessa ordem − como principais instrumentos de socialização e transmissão de valores. Ao substituir essas três instituições, anteriormente decisivas na transmissão e continuidade de valores, a televisão foi guiada por seu equivalente da lei de Gresham: má programação expulsa boa programação, já que o maior apelo comum não é ao que há de mais nobre no homem comum, mas aos seus mais baixos interesses lascivos, seus medos mórbidos e ansiedades. A televisão tornou-se, assim, um instrumento de disseminação de valores corruptores, desmoralizantes e destrutivos.

E conclui: “Precisamente os valores que foram considerados destrutivos e desintegradores por todas as sociedades e todas as religiões, através de toda a história civilizada – ganância, devassidão, violência, autogratificação ilimitada, ausência de freios morais – são a ração diária, bem produzida, servida a nossos filhos”.

Zbigniew falou da TV, mas nós podemos completar o pacote com revistas, jornais, cinema, internet e... a propaganda. Sem dúvida, a propaganda!

A juventude que aí está ficou sem limites. Pai e mãe não mandam nada e são tratados por “tu” ou por "você". Sexo é para ser praticado livremente (faz bem à saúde); depois “os coroas” criam os netos! Disciplina é coisa de milico e de velho careta. Vizinho deve denunciar pai que “agride” filho. O resultado? A rua, a turma, o ócio, a irresponsabilidade, o vício, o crime.

Olha, meus pais me deram muitos cascudos e chineladas. Ou seja, passaram a mim a educação (meio áspera, sim) que receberam. Mas me tornei – suponho, ninguém é bom juiz em causa própria − um indivíduo socialmente viável. Ensinaram-me até onde vão meus direitos e onde começam minhas obrigações. Passaram-me princípios.

Insisto na disciplina. O jovem tem que ser disciplinado. Obedecer a limites rígidos. Do contrário, é o que se vê por aí. Soluções de serralheria pra todo lado: juventude atrás das grades, superlotando prisões; famílias atrás das grades, confinadas em casa.
Haja serralheiro.
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(Publicada a 03.06.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)