sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O embaraço da fazendeira

Novembro, 2009


Publ. a 20.11.2009,

em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena



-Felizmente não é tumor, não, Da. Mariquita. A senhora está é grávida de três meses.

-Grávida, doutor! Que absurdo! Sou viúva há cinco anos, nunca arredo pé de minha fazenda, não tenho amante, não tenho namorado, vivo sozinha e Deus, cuidando dos meus bois, dos meus roçados... Como posso estar grávida?

-Isto eu não sei, Da. Mariquita. Sei é que seu exame deu positivo. Diga-me uma coisa, trabalham muitos homens em sua propriedade?

-Trabalham, claro, mas são operários rurícolas, pessoas muito simples, com as quais não me relaciono pessoalmente. Por favor, doutor, não será por aí.

-Perdão, Da. Mariquita, não quis ser inconveniente. Estamos diante de uma ocorrência que a senhora não entende e eu tento ajudá-la. Diz a senhora, então, que em sua casa não entram homens, certo?

-Não, não entram... Bom, exceto o Apyacá.

-Quem é o Apyacá?

-O Apyacá, doutor - o senhor nem imagina! - é um rapaz indígena que nem aculturado foi. Mentalmente limitado, foi agregado à fazenda pelo meu ex-marido para ajudar a cozinheira nas tarefas mais pesadas, que numa Casa Grande são muitas. Mas, veja, eu sou a patroa e ele, meu empregado. Por favor, o senhor não pode admitir o absurdo envolvimento meu com um infeliz serviçal como aquele.

-Claro que não, Da. Mariquita. Só me diga uma coisa: onde mora o índio.

-Destinei um quarto a ele na própria sede da fazenda, doutor. Antes ele dormia no paiol de milho, mas com o falecimento de meu marido, senti-me mais segura trazendo-o para dentro da casa.

-Sim, entendo. O quarto dele, na Casa Grande, ficaria distante ou próximo ao quarto da senhora?

-Eu preferi colocá-lo num quarto mais próximo, sabe doutor, inclusive para facilitar a transmissão das minhas ordens a ele, dos meu pedidos, etc. Não temos interfone.

-Sim, sim. A senhora diria “muito próximo”?

-Bastante próximo. Na verdade, o quarto dele é parede-meia com o meu.

-Há uma porta, Da. Mariquita, entre os dois quartos?

-Claro que não, doutor. Que sentido faria uma porta, em meus aposentos, dando para dentro do quarto de um empregado!

-Calma, Da. Mariquita, desarmemos os espíritos. Há uma realidade diante de nós a reclamar compreensão. Se ainda uma vez me permite, essa parede que separa o seu dormitório, do dormitório do serviçal Apyacá, é uma parede íntegra, compacta?

-Eu não diria isto, doutor. A fazenda, como o senhor sabe, é muito antiga. A divisória que separa meu quarto do dele tem rachaduras, sim, frestas, algumas até bem dilatadas. Na verdade, só não mandei, ainda, arrumar aquilo por absoluta falta de tempo. Coisa simples, qualquer pedreiro tapa aqueles buraquinhos na hora.

-Entendo, entendo. E a cama em que a senhora dorme, fica encostada nessa parede rachada?

-Sim, fica bem colada à parede. Impossível outra arrumação. Do outro lado está o guarda-roupa, do outro a janela...

-Tudo bem. Sendo assim, Da. Mariquita, é correto concluir que, durante o sono, a senhora pode, eventualmente, encostar-se na parede onde existe a fenda, certo?

-É, eu não excluiria esta hipótese.

-Pois bem, então vamos pensar juntos. Da. Mariquita, é consabido que gravidez não cai do céu. Ela, digamos, converge para a mulher a partir de um homem. Necessariamente a partir de um homem. Neste seu caso, diante de todos os fatos e condições que acabamos de checar, a senhora não admitiria a hipótese - pelo amor de Deus, não me leve a mal - de que uma possível convergência condutora, noturna, proveniente do silvícola Apyacá, possa ter-se insinuado em seu quarto através da fissura da parede?

Neste ponto Da. Mariquita balança negativamente a cabeça, pensa um pouco e zanga-se em voz baixa, quase que para si mesma:

-Ahhh, índio safado!


(20.11.2009)

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Falando de cadeira

Novembro, 2009


Publ. em 12.11.2009, em

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/


Obama chamando Luiz Inácio de "o cara", Sarkozi no papel de francês simpático, Haiti sob nossa responsabilidade, destino político de Honduras nas mãos da diplomacia brasileira e, como se não bastasse, inimigos figadais do Oriente Médio transitando cordiais pelos corredores de Brasília... Sei não.

Confesso que me assustam essas injunções políticas internacionais, como resultado da propalada ascensão do Brasil no concerto das nações. Ainda não me adaptei à ideia. Medo do novo? Talvez. É humano reagir a mudanças. Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futuro. De repente, canhões de luz começam a cruzar os céus e estão dizendo que é o futuro. Que ele chegou, que o Brasil deu certo. E agora?

Se há uma coisa que me apavora é imaginar-me rico. Faz tempo, numa confusão com papeis de aposta, acreditei por alguns minutos que ganhara a Mega Sena acumulada. Entrei em pânico. Teria que mudar de cidade, de país, internar-me numa bolha, providenciar refúgio para meu filho, para meus netos, esconder meus irmãos e suas famílias, arranjar um procurador que fosse ao mesmo tempo brasileiro e honesto para cuidar da minha fortuna, sumir do mapa. Cheguei a eleger Cascais, em Portugal, como meu possível refúgio. Ficaria quietinho lá, entocado naquele pedacinho maravilhoso do mundo, e nem meu vizinho ilustre, Felipe Scolari, jamais saberia de meu passaporte brasileiro. Eu o evitaria, nas ruas e nos restaurantes.

Por alguns minutos vivi esse marajá em apuros. O que pensei ser “um jogo” premiado era, de fato, o “resultado do concurso”, misturado com meus jogos. A realidade acudiu-me a tempo. Continuei pobre e sem grilos. É muito bom! O Eike Batista não sabe o que está perdendo.

Mas “o dado concreto” é que, agora, com o Brasil fazendo bonito no mundo e o brasileiro sem motivo para o “complexo de vira-lata” do Nelson Rodrigues, já começo a me situar fora do meu elemento. Não tenho prateleira altiva onde acomodar tantos ufanismos: Brasil campeão na produção de grãos, na produção de carne, nas reservas petrolíferas, na aprovação internacional do nosso guia, no futebol, no vôlei, na tecnologia das águas profundas, nos velejadores das águas rasas, quê mais, quê mais? Esta “potência emergida” está me deixando desnorteado.

Em nome do tal assento permanente na ONU já aceitamos descascar abacaxi no Haiti e esfolar a ética na crise institucional de Honduras... O Obama avisou: liderança internacional inclui responsabilidades. Já vimos que inclui também algumas quizumbas.

Está aí o Shimon Peres querendo amarrotar o tapete do nosso próximo convidado. Adivinhem quem vem para o jantar? O persa Mahmoud Ahmadinejad. Só para vocês sentirem o drama, vejam como escrevem o nome dele lá no Irã: محمود احمدینژاد.

Num riacho assim de piranhas não seria melhor nadar de costas? Sabemos que o Amorim e o Top-Top não são bobos. Porém Alá é mais sábio e podia nos poupar dessas coisas complicadas. Nem bem arredamos pé do Caribe e já vamos assinar o ponto numa pendenga de dois mil anos! Êta cadeirinha danisca, essa do Conselho!

Trasantontem, o repórter Alex Rodrigues da Agência Brasil disse que Nelson Jobim vê como uma estratégia de afirmação da relevância do país no cenário global, a presença de tropas militares brasileiras no Haiti. Disse ele: “é dever de uma nação que tem responsabilidade com a região, e não apenas consigo mesma, e uma necessidade estratégica de relações e de afirmação de um Estado que se pretende protagonista mundial” (...) “se o país almeja integrar o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), deve atuar como protagonista nas Américas”.

Pelo visto a América já não é tudo. E muita soberba deixa a gente, aqui em Minas, acanhado que só vendo.


(12.11.2009)

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NOVO CÓDIGO CIVIL - Considerações superficiais


Fevereiro, 2003

Publicada no Jornal LEOPOLDINENSE


Entrou em vigor o Novo Código Civil Brasileiro, no dia 11 de janeiro de 2003. Substitui o antigo, que vinha de 1916. Vamos falar aqui, de maneira bem simples, sobre algumas novidades já que não dá para falar de tudo numa crônica.


O Código Civil interessa a todos porque ele regula as relações entre pessoas de um país. Reúnem-se nele as normas de direito comum, na esfera privada.


Deu-se que nos últimos 80 anos, com o evoluir da sociedade, o Código de 16 foi ficando superado, insuficiente, e leis especiais vieram surgindo para regular novas categorias de relações sociais impondo, cada lei, sua lógica específica como aconteceu com a legislação do trabalho, com a lei do inquilinato, com o estatuto da mulher casada, com a lei do parcelamento do solo urbano, com o estatuto da criança e do adolescente, com o código de defesa do consumidor, etc.


Com o velho Digesto Civil em agonia, ou se continuava assimilando esses particularismos jurídicos ou se editava um novo ordenamento. O emérito jurista Orlando Gomes, dentre outros, lembrava então que nos países de maior tradição codificante a preferência vinha sendo pela primeira opção. Ou seja, o contrário do que o Brasil fazia. Assim, além do respeitável mestre Miguel Reale, autor do projeto agora transformado em lei, e do professor Ricardo Fiúza, seu relator na Câmara, não foram muitos os defensores da nova codificação.

Só que agora não cabe mais discussão. Entrou em vigor o novo Código Civil, cumprindo saber até onde ele interfere na vida de cada um de nós.


Importantíssimo sublinhar que, no espírito da nova lei, o SOCIAL passa a prevalecer sobre o INDIVIDUAL. Ou seja, foi substituído o sentido individualista do código anterior pelo sentido social da nova codificação, com prevalência dos valores coletivos sobre valores individuais.


O rigor dogmático e formal do código revogado passa a dar lugar a critérios éticos como eqüidade, boa-fé e justa causa, levando a uma maior flexibilidade na interpretação da norma pelo juiz, mas em redobrado aumento de sua responsabilidade, investido que fica de mais largo arbítrio. Adrenalina adicional para quem já tinha medo de sentença...


Diante disto, antes do tribunal que julga questões a ele submetidas, já é bom que as pessoas se conscientizem de que algumas astúcias que antes davam certo, agora estão gatilhadas na lei para dar errado. Um exemplo são as cláusulas ambíguas nos contratos. Aquelas onde as coisas não ficam muito claras. Pelo novo código esse feitiço vira contra o feiticeiro porque há dispositivo específico mandando interpretar cláusula ambígua sempre em favor do devedor da obrigação.


Outra boa regulagem veio para a correção monetária. Se você quer receber seu crédito futuro com atualização da moeda, escolha um único índice. Não tente jogar com vários indexadores na esperança de, depois, aplicar o que lhe for mais favorável. O tribunal decidirá pela aplicação do multiplicador menos oneroso.


Também a lei do espertinho está revogada: contrato que preveja vantagem demasiada para uma das partes não se sustenta em juízo. É o princípio da equidade.


Boa novidade que o Código também traz é o chamado estado de perigo: dá-se quando alguém se vê premido por uma séria necessidade, pessoal ou familiar. Doença, por exemplo. Não se pode comprar o que ele possui na bacia das almas, nem amarrá-lo impunemente a uma dívida escorchante. Nos dois casos a lei salvará a vítima, anulando o negócio.


Mais um instituto novo, é o da lesão: incide quando há no contrato deveres desproporcionais. Aqueles contratinhos de adesão, manjados, com letrinhas miúdas, que comerciantes, financiadores e oportunistas de plantão sempre colocam à frente do consumidor. Constatado que é lesivo, vira pó.


Também, com todas as letras, esclarece o novo Código o que se entende por abuso de direito: o direito de cada um deve ser exercido dentro de limites éticos, da boa-fé e dos bons costumes.

Há um artigo aplicável ao enriquecimento sem causa - o 884. Vantagem obtida indevidamente deverá ser devolvida.


No capítulo dos Direitos Reais o novo Código acabou com o anacrônico instituto da Enfiteuse (quem já pagou Laudêmio de até 5% sobre valor de escritura em compra de imóvel, sabe o que é isto). Criou, entretanto, o instituto da Superfície, análogo à Enfiteuse, porém mais comunicativo e com vedação de despesas extravagantes por ocasião das alienações.


Esse direito de superfície se refere a superfície de terreno, que pode ser cedida pelo proprietário, por escritura pública e prazo determinado, a alguém que nela queira construir ou plantar. Observe que não é arrendamento, pois ninguém arrenda terra para edificação. É novíssima categoria de direito real que tende a proporcionar nova dinâmica ao aproveitamento da propriedade imóvel.


Em outra parte, nas disposições gerais dos contratos, importou-se do código alemão o princípio da boa-fé objetiva que torna inexigível obrigação que não se compadeça com boa-fé e a probidade.


Até aí tudo bem, mas o novo Código Civil ao tratar das obrigações de indenizar, no art. 927, dá expansão talvez ampla demais ao princípio da responsabilidade objetiva: casos em que um dano causado a terceiro considera-se indenizável independente da culpa do autor.


Trata-se de tendência doutrinária moderna que alguns dispositivos da codificação revogada já abrigava. Compreende-se, por exemplo, que a família de um operário, morto ou incapacitado no trabalho, não deva depender da comprovação de culpa do patrão para alimentar-se e seguir vivendo. De igual modo, a pessoa transportada em relação ao transportador, o motoboy em relação ao fabricante de pizza, e assim por diante.


Sob tal óptica (jurídica), o princípio da responsabilidade objetiva é perfeitamente defensável. Mas ele não se sustenta sob visão econômica, já que os economistas nos ensinam que não existe refeição gratuita... Isto é, recursos não dão em árvore. São fruto do trabalho honesto de alguém.


Preocupa então a amplitude escancarada do art. 927 porque toda atividade humana envolve algum risco. Até a Santa Missa passa pelo temerário balanço do incensório, que pode desprender-se das frágeis correntes e atingir alguém (Já aconteceu, na Catedral de Leopoldina, com o Bispo Dom Delfim Ribeiro Guedes, segundo me informa o então coroinha, Dr. Galba Rodrigues Ferraz, hoje decano dos advogados de Cataguases). O recipiente com incenso voou, desprendendo-se das frágeis correntes, indo atingir um fiel.


De repente temos o direito transformado em “Espada de Dâmocles” pronta para descer sobre cabeças honestas de cidadãos que constróem, que edificam o país, qual afronta velada aos que colocam seu capital, sua intelectualidade e seu suor na atividade construtiva, para gerar empregos, impostos e riquezas!


Imagino que Responsabilidade objetiva aplicada a torto e a direito possa induzir ao recolhimento de algumas virtudes empreendedoras.


Mas a marcha do direito no compasso das conquistas sociais é irreversível. Certamente que o risco inerente à atividade produtiva virá a ser totalmente bancado, num futuro próximo, pela sociedade como um todo, a beneficiária direta da produção daqueles que se abalançam na vida a alguma coisa mais digna que a especulação e o ócio. Ou seja, espera-se que, um dia, o governo assuma a integral securitização desses riscos para que os custos não sejam repassados ao consumidor final.


Viver deixará de ser tão perigoso.


(20.02.2003)

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Em tempo de mensalão


Novembro, 2005

Publicada no jornal LEOPOLDINENSE


Vi a entrevista do Lula no programa Roda Viva da TV Cultura. A impressão que fica é que o nosso presidente tornou-se um homem sem a prerrogativa da verdade. Evita entrevistas por isto: não pode dizer a verdade. A verdade o constrange tanto quanto os botões arrochados do terno que já lhe magoam o manequim extrapolante. Nosso presidente é, hoje, um homem comprimido pela verdade e pela roupa. Por obra do PT, Lula se tornou um refém da inverdade. Está lidando com ela como o malabarista de circo lida com o fogo que finge engolir.


Sobre a cassação de parlamentares que receberam dinheiro de Delúbio, via indireta - isto é, Delúbio mandou que apanhassem a grana com Valério - minha visão é a do direito penal. Toda conduta para ser considerada delituosa há de ser “típica”. Isto quer dizer que ela tem que estar prevista em lei, como crime. E com todas as letras. É o "princípio da reserva legal": não há crime sem lei (anterior) que o defina. Sendo assim, se o sujeito foi buscar dinheiro com o tesoureiro, seja para encaminhá-lo a prefeito do interior seja para o que for, e a ele foi dito que os recursos estavam com terceiro... Qual o crime? Onde está escrito que, na mão de terceiro (Valério) ele não podia pegar dinheiro? Não está escrito em lugar nenhum? Então, absolvido! Entre o próximo.


O senador Suplicy viveu dois minutos de glória quando o protocolo lhe deu tempo para falar com Bush. Falou sobre renda mínima, seu tema predileto. No lugar dele eu talvez fosse menos cordial, dizendo ao homem mais poderoso do mundo o seguinte: "Presidente, sou José Ninguém, represento coisíssima nenhuma em minha pequena cidade e na vida de um modo geral. Seja bem-vindo a este país e não se preocupe muito com a aparente influência de Hugo Chavez por estas bandas. Há entre nós uma única pessoa com saco e sub-cultura para ouvir o venezuelano: o nosso presidente. Mas não se exulte. A disposição para ouvir V. Exa. é menor ainda!"


Já a Senadora Heloísa Helena tem decepcionado. Teve a infeliz idéia de vestir camiseta com inscrição Fora Bush, na oportunidade da visita do presidente americano, a 6 de novembro. Tiro no pé. Condenou-se a impressionar não mais que o segmento eleitoral rasteiro do "bota pra quebrar". Demonstra ser ave de vôo curto. Se tivesse a dimensão correta da história brasileira e de sua inserção na geopolítica das Américas e do mundo, talvez não lhe faltasse sensibilidade para o real sentido da presença de um presidente Americano no Brasil.


Encontraram pegadas do valerioduto numa subsidiária do Banco do Brasil, a Visanet. Do jeito que a gente temia: era dinheiro nosso! Do contribuinte. Agora é só ir encurtando a linha que vem o resto... Todo furto deixa rabo e ladrão é burro por princípio. Se não fosse, não seria ladrão.


Não procede a má-vontade do presidente Lula com os jornalistas. Jornalista ganha pra ser chato; governante ganha pra ser chateado, porque a ele foi confiada a gestão da coisa pública de cujo destino o jornalista é informante e fiscal.


E vem Da. Lúcia Hippolito teorizar as vantagens da Super Receita. Para mim, um pouco além do que teorizam os circunspetos, há os que trabalham e se encanecem mais cedo preocupados em manter de pé suas empresas, seus negócios, produzir bens e gerar empregos. Penso que num país já afogado em impostos e atolado no desemprego de seus jovens, qualquer governo que enxergasse um palmo à frente do nariz deveria estimular empreendedores em vez de buscar "aperfeiçoar" o garrote vil dos achaques e da suborno/arrecadação sobre eles.


Ninguém pensou no que eu, diante das lágrimas e das orações do deputado Sandro Mabel, negando que tenha oferecido 30 mil reais a uma deputada para que ela mudasse de partido, garrei a maginá. E se em vez de troca partidária, a verba oferecida à congressista lastreasse, de fato, algum outro tipo de proposta indecente à sua excelência e, ela, como justa reprimenda, resolveu vingar-se no campo do aliciamento político? Um prato feito para a atriz Denise Fraga contar mais uma paródia familiar na TV.


Por último, tomem nota. Toda essa crise iniciada com as denúncias de Roberto Jefferson aponta para duas pessoas que, contraditoriamente, devem estar tranquilas: Delúbio e Valério. São homens cujos critérios negociais o Brasil passou a conhecer. Eles dispõem agora da mais valiosa de todas as moedas: a informação. Ante ela, reputações, carreiras e, principalmente, o poder se curvam.


(30.11.2005)

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Nascido em Piacatuba

Janeiro, 2009

Publicado no jornal LEOPOLDINENSE


Se a história não for original estará pelo menos returbinada na geografia insólita onde reaparece. São comuns os vestígios de déjà vu nas surpresas que a vinda nos reserva.


A sexta-feira desmaiava numa tarde calma de sol poente avermelhado anunciando frio, sumindo aos poucos lá por detrás da Serra do Itamaraty, quando, transitando por uma rua de bairro leopoldinense, a mulher do Alfredo foi despertada para o almoço do dia seguinte ao ver um açougue aberto.

- Pare o carro aí, amor. Temos que comprar galinha. Sua cunhada, goiana, chega amanhã cedo e já telefonou dizendo que vai preparar uma Galinhada com Pequi, para nós.


Alfredo, piacatubense de carteirinha e papel passado, que já morou em Goiás e não pode ouvir falar em Galinhada com Pequi, parou numa freada de arrastar pneus.

- Galinhada com pequi é manjar dos deuses do Olimpo. Maravilha! Será que ela vai trazer o rebate de Licor de Pequi em garrafa arrolhada com sabugo de milho?


Era a primeira vez que Alfredo entrava naquele açougue.

- Dois frangos, por favor!

- Frango, não querido: “Galinha!” – gritou a mulher, da janela do carro.


Vamos com calma, mulher – diz o marido, voltando-se, em voz baixa. Não percebe que eu mexo com política e, se peço galinha, amanhã o pândego desse açougueiro pode me enrolar num duplo sentido espalhando pela cidade que “O Dr. Alfredo só come galinha”? Político tem que desenvolver raciocínios frívolos para não cair nas armadilhas do populacho. Vamos combinar que, para efeito de galinhada, frango e galinha passa a ser a mesma coisa, tá.


Pedido confirmado, produtos pesados e na sacola, foi a pergunta:

-Quanto lhe pago pelos dois frangos, senhor?

-Nada - foi a resposta do açougueiro.

-Como nada? O senhor é um comerciante de carnes, eu estou comprando um item da sua oferta. Isto tem um preço e eu devo pagar. Por favor, quanto é?

-Nada - insistiu o açougueiro.


Não entendi, amigo, o senhor está me fazendo doação de dois frangos, e nós mal nos conhecemos? Aliás, resido em outro bairro e nem me lembro se algum dia comprei carne em seu açougue. Gostaria de entender a razão deste gesto sem dúvida simpático, mas que me deixa confuso.

-Meu gesto nada tem de inexplicável, Dr. Alfredo. Estou apenas sendo gentil com um “irmão de vida anterior”, que pela primeira vez me visita nesta encarnação.

-Hã, como?


-Sim, Dr. Alfredo. O senhor é conhecido na cidade. Eu faço “regressões” e, numa delas, descobri que o senhor foi meu irmão, no Arraial da Piedade, atual Piacatuba, numa geração anterior à presente. Nós brincávamos juntos, na Praça da Cruz Queimada e também naquela rua de calçamento emborcado para o meio. Pode crer nisto. Fomos irmãos de sangue em nossas vidas anteriores.


Confuso, Alfredo não atinava com o que dizer. Apertou com calculado afeto a mão de seu 12º irmão (na encarnação atual, já tinha 11) e saiu para passar os frangos à patroa que, de dentro do carro, ali do lado de fora, a tudo assistia.


Encontrou-a recurvada sobre o painel, com as duas mãos à cintura como quem busca segurar o riso.

-Qual a graça?

-Ora, qual a graça! Pensa que não ouvi tudo? Você é um sujeito vaidoso, Alfredo, quase um esnobe, que se diz apaixonado por Sidney na Austrália, vidrado no portento e no luxo de cidades européias e americanas só alcançáveis nas mensagens com power point slides da Internet, e não percebeu o que o açougueiro acabou de lhe dizer?


-Nada tão engraçado - diz o marido com cara meio abobada. Ele disse, apenas, que foi meu irmão numa geração passada. Não vejo graça. Limito-me a respeitar o credo das pessoas. Se esta é a verdade e a convicção dele, não tenho autoridade filosófica para contestar. Que ele fique com elas.


-Mas não foi só isto que ele disse, seu distraído. Disse mais: disse que foi seu irmão NUMA GERAÇÃO ANTERIOR, em Piacatuba, percebe? Na geração presente, ninguém precisaria dizer, todos nós sabemos que você nasceu em Piacatuba. A novidade que passa a constar é que você é um “reincidente”. Nasceu duas vezes, seguidas, em Piacatuba!


-Dá um tempo, não é Alfredo.


(28.01.2009)

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O Tambor

Fevereiro, 2009

Publicado no jornal LEOPOLDINENSE


Dizem que no Brasil o ano começa com o fim do carnaval. Na prática, costuma ser verdade. Pelo menos em um bom número de casos é hábito nacional programar as coisas mais sérias, ou que demandem mais atenção, mais envolvimento, para depois dos feriados prolongados de fevereiro. Feriados esses que, para muitos, se emendam nas férias de janeiro, passadas em algum lugar distante da rotina pleonástica. Realmente, não é grato aos “dispensados do ponto” começar o ano antes do Carnaval.


Isto quer dizer que chegou a hora de encarar 2009. Aos quatro ventos diz a TV que o Salgueiro venceu o carnaval do Rio de Janeiro, num desfile de enredo super original (no carnaval a gente pode falar como falam os jovens) que elegeu para tema sua excelência o Tambor. Ele mesmo, o Tambor: uma caixa e um couro esticado.


Conhecido desde as mais remotas eras da humanidade, ele remonta a nossos ancestrais africanos e pré-colombianos, com seus tantãs de madeira, de tábua, de tronco escavado, feitos e moldados a fogo. Muito simples na construção e na execução, os mais diferentes tambores existem entre quase todos os povos do globo. Não há dúvida de que foi no ressoar de um deles, tocado por mão ou por uma baqueta rústica, que nasceu a primeira manifestação musical no ser humano.


Hoje, com tantas Escolas de Samba oferecendo enredos a cidades e até a estados da federação, como via de publicidade e apelo turístico, eis que o Salgueiro volta seu olhar para o próprio umbigo do samba, para as partes íntimas de sua maravilhosa bateria e extrai de lá esse personagem de todos os tempos, de todos os sambas e de todos os carnavais, que é o Tambor.


Certamente que ao destacá-lo, a simpática “vermelho e branco” da Tijuca inclui na exaltação genérica todos os componentes da família musical da percussão, de epiderme esticada, como o bongô, o bumbo, o atabaque, o tarol, a caixa, a conga, a cuíca, o pandeiro, o repenique, o tamborim, a zabumba, os timbales – essa etnia rítmica que compõe a bateria. Principalmente uma bateria de Escola de Samba.

A exaltação do Tambor foi um achado criativo do carnavalesco Renato Lage. Com ele, o G. R. E. S. Acadêmicos do Salgueiro conquistou uma vitória bonita, originalíssima, na Sapucaí.


Mas agora o carnaval, de fato, acabou. Temos que acertar o passo numa outra batida. Entrar no ritmo de outras maçanetas, vassourinhas e baquetas. Daquelas que ferem o tambor da vida, que dão compasso à existência que nos trouxe até aqui. Viver é seguir na plenitude harmoniosa desse enredo que Deus compôs para cada um de nós. Um escritor indiano, Togore, disse que a vida se revela ao mundo como uma alegria. Tudo é júbilo no jogo sempre renovado de suas cores, na música de suas vozes, na dança de seus movimentos. Assim, nem a doença nem a morte haverão de impor suas verdades enquanto vibrar em nossos corações a alegria repicada de um tambor de carnaval.


Otimismo faz bem. Então, vamos nessa.

-Olha o Salgueiro aí, gente!


(26.02.2009

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Nome de Rua


Setembro, 2000

Publicado na Gazeta de Leopoldina


O assunto desta crônica já foi abordado por mim num outro escrito publicado há tempos, mas não faz mal relembrar porque o jornalzinho em que o publiquei estava longe de ter a circulação da Gazeta.


Trata-se do seguinte. Daqui a algumas semanas estaremos todos escolhendo nosso futuro prefeito e nossos dez vereadores para a Câmara Municipal. O voto para prefeito, numa cidade como Leopoldina, não oferece dificuldade: os candidatos são, sempre, pessoas conhecidas. A escolha é fácil, intuitiva.


No caso do Vereador é que a opção às vezes empaca. São muitos os candidatos, consequentemente muitos são bons amigos, às vezes mais de um é parente próximo e, quase todos, pedem o voto invocando esta ou aquela condição. Ora, para quem está pensado, apenas, em escolher um “bom candidato”, esse tipo de pedido sempre gera o constrangimento de uma negativa franca (sacrifício de uma amizade) ou uma promessa mentirosa.


Sinceramente, não sei como agir em tal situação. Portanto, não tenho conselhos a dar. A única coisa que sei é o que está na constituição. O Vereador é uma pessoa destinada a elaborar as leis do município, a fiscalizar as contas e os atos do Prefeito. Assim sendo, devo escolher alguém dotado de preparo ou experiência mínima para desincumbir-se dessas tarefas.


Sei também que ninguém é melhor que ninguém, que todas as profissões são dignas e indispensáveis. Para ser justo, até a “ausência de profissão” merece meu respeito num país com o índice de desemprego que o Brasil ostenta. Nem por isto devo escolher aleatoriamente. Não! Isto não. Para consertar a minha geladeira eu chamo um técnico em geladeiras. Para curar meu gatinho de estimação, eu chamo um veterinário. Ou, dependendo da maneira como a sola dos meus pés toca o chão, posso chamar um benzedor... Mas a escolha será minha, e será consciente.


Não vamos nessa de acreditar que vereador só existe para botar nome em rua. Não é, não. E, mesmo que fosse, até para isto seria bom escolher vereador com alguma réstia de luz intracraniana.


Muito a propósito, a história de Leopoldina registra uma passagem interessante que, sob cultivo de um bom Vereador, poderia dar em nome de rua. Vejam: em 1890 baixou em nossa cidade uma epidemia que matou 561 pessoas. Durou um ano. Na época, Leopoldina tinha apenas 5.000 habitantes. Perdemos, portanto, mais de 10% da população. Os médicos não conseguiram identificar a peste. Uns acreditaram ter sido Febre Amarela, outros a deram como Febre Palustre.


No Brasil de então os Drs. Torres Homem e Martins Costa de Giesenger, médicos respeitáveis que escreveram sobre essas febres tropicais, nada disseram. Aqui, o médico que a todos atendia - ou tentava atender - era o Dr. Octaviano Costa. O certo é que a doença ficou inteiramente fora de controle. Dois terços da população fugiu, com medo, abandonando casas lacradas, sem limpeza e sem desinfecção. O Forum ficou acéfalo, sem juiz, sem escrivão, e com todos os funcionários da justiça sumidos. Na prefeitura o último que pegou a direção de Tebas, procurando lugar seguro, fechou a porta.


Enquanto isto, no Largo do Rosário, em casa cedida por herdeiros do Padre Soleiro, foi improvisada uma enfermaria para indigentes. Só que, para desgraça maior das vítimas, não havia quem se dispusesse a trabalhar de enfermeiro, mesmo com oferta de alta remuneração. Foi quando o Delegado de Polícia, sem mais opções, designou o Praça Ildefonso Penaforte como Enfermeiro, e os condenados Nicolau e Cantagalo como Auxiliares de Enfermagem...


Consta que tal foi o espírito de solidariedade e humanidade demonstrados por essas três pessoas com os doentes naqueles dias dolorosos, que o judiciário, no caso dos dois condenados, decidiu pelo perdão de suas penas! Infelizmente, o registro histórico termina aí, não mencionando se o praça, Ildefonso Penaforte, ganhou uma promoção.


Cabe, então, perguntar:

-Alguém sabe dizer onde fica, em Leopoldina, a Rua Ildefonso Penaforte?

-Existe alguma pracinha chamada Praça Auxiliar Nicolau?

-E Rua Auxiliar Cantagalo, existe?


Seria bonito se existissem, não é mesmo? Vejam que, até para colocar nome em rua, é bom que as pessoas tenham alguma coisa dentro da cachola.


(10.09.2000)

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