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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

CPMF e Honestidade

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Outubro, 2011


Sei que minhas convicções sobre a volta da CPMF são discutíveis. Devo ser um dos poucos brasileiros “a favor” desse imposto – que considero o mais justo e inteligente jamais instituído no mundo das finanças públicas. A Contribuição sobre Movimentações Financeiras só atinge quem tem dinheiro, e na exata proporção do dinheiro que possui. Nada mais perfeito para resolver o problema da Saúde entre nós. Desde que os recursos passem ao largo dos ladrões e da má-fé política que sempre os rastreou desde a criação no governo FHC.

Nada obstante justa e perfeita, a CPMF tem inimigos poderosos. O vulto das operações bancárias, sobre as quais incide, permite que a alíquota seja sempre fixada muitíssimo abaixo de “um por cento”, o que não impede que empresários nutram simpatia bem maior pela Cofins, de alíquota em torno dos “oito por cento”. Sabem a razão? É que a CPMF possui taxa pequenina mas não dá para sonegar...

Conheço hospitais públicos por dentro. Ali se celebra, todos os dias e todas as noites, o triunfo da miséria humana. Leitos de CTI, por exemplo, em número sempre abaixo da demanda, obrigam, não raro, à escolha de “quem vai morrer”. Imaginem todos os leitos e respiradores ocupados e a chegada de uma pessoa jovem em estado desesperador. Óbvio, leva-se para o quarto – ou seja, para morrer – um paciente idoso ou com menor probabilidade de recuperação. É mal menor, mas é terrível.

Pelo interior do país, o SUS elege Hospitais Regionais, “de referência”, para procedimentos fora da capacidade técnica dos nosocômios das cidades menores. Estabelece, entretanto, LIMITES mensais estreitos (faltam verbas) para tais eventos. Resultado: bem antes do fim do mês o “limite abonável pelo SUS” se esgota nos hospitais de referência, que passam a informar às cidades circunvizinhas a inexistência de vagas.

– Pelo amor de Deus, é caso gravíssimo! Tenho aqui um acidentado de 20 anos com fratura de crânio; não temos tomógrafo nem neurocirurgião!
– Não temos vaga.
– Ele morrerá se não for operado dentro de quatro horas!
– Não temos vaga, já disse.

Se é família de classe média, vai “se virar” e correr com o paciente para uma Clínica Neurológica particular. Se é família pobre, muito provavelmente sepultará o acidentado no dia seguinte.

Há poucos dias a TV mostrou um acidentado percorrendo 80 km, em busca de socorro, na baixada fluminense. Claro, morreu. Fratura de crânio exige cirurgia rápida.
Não estou, pois, falando em tese. Este é apenas um exemplo do que resulta a anemia financeira do SUS.

 Como ficou claro, falta quase nunca é de quarto vago ou de cama na enfermaria. A expressão “falta vaga” é eufêmica. A falta é de “margem abonável”. Se o hospital atender não receberá do SUS, impedido que estará, inclusive, de implantar no Sistema os atendimentos feitos extralimite. Ou seja: o SUS, além de não abonar, jamais será informado de que houve o atendimento.

Não é por outro motivo que o hospital, quase sempre endividado – devendo a fornecedores, devendo luz, água, Bancos – recusa o paciente. Quando vira caso policial ou jornalístico, demite-se de baixo para cima até onde o interesse político permite.

Querem outro exemplo? Alguém conhece Pronto Socorro, público, com cobertura pediátrica? Se tem, gostaria de conhecer esse lugar abençoado onde criança possa ser salva, principalmente à noite. A realidade é que não é fácil encontrar pediatra disposto a passar noites em claro para ganhar o que o SUS paga aos médicos.

 Quando Adib Jatene criou a CPMF, um ledzinho azul piscou na escuridão do túnel. Só que Jatene não podia ter nas mãos aquela dinheirama toda, resolver o problema da saúde no Brasil, e tornar-se – quem sabe! – presidenciável! Não era tucano, ora bolas! Providenciaram uma regulamentação:
– O dinheiro da CPMF teria que ir, primeiro, para as mãos do Ministro da Fazenda que o repassará à Saúde segundo os critérios, tais, tais e tais. Pronto! Jatene ficou a ver navios. E a ver navios, com a população brasileira, seguiram todos os Ministros da Saúde que o sucederam.

Na recente tentativa de reativar a CPMF, o Congresso passou a entender que o governo é que não poderia colocar a mão naquela “baba”. Seria muita grana à disposição de quem poderia desequilibrar o jogo nas eleições seguintes. Pronto! A CPMF não passou no Congresso.

É claro que a possibilidade (ou seria a certeza?) de desvio de grande parte do dinheiro existe. Somos uma nação de corruptos. Mas vamos fiscalizar, vamos denunciar! O que não é razoável é negar à nossa gente essa possibilidade real, efetiva, de financiamento da saúde pública. Por isto sou a favor da volta da CPMF. Para mim, a solução para a Saúde, no Brasil, passa pela combinação de duas palavras: CPMF e honestidade.
O resto é jogo sujo. Independente do lado em que se ponham os contendores.

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O DVD e meu Ansiolítico

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Setembro, 2011


Confesso que não me sinto bem, hoje. Estou com raiva. Muita raiva. Mesmo ciente do alerta de Guimarães Rosa, para quem ter raiva de alguém, ou de alguma coisa, equivale a autorizar que esse alguém ou essa coisa passe a governar nossas ideias e nosso sentir, não consigo dominar meu ódio a esses aparelhinhos bestas de rodar DVD.

Imaginem vocês que não vejo filme em casa há uns quatro meses. Meu antigo “reprodutor de DVD” pifou e só ontem comprei outro, para ruína do meu dia de hoje. Disse à minha mulher que eu mesmo o conectaria à TV e me danei.

Alguém aí já tentou conectar um aparelho de rodar DVD à TV? Conseguiu? Eu não consegui. E olha que sou considerado na família um cara habilidoso, desses que a esposa nunca diz que precisa “chamar um homem” pra fazer isto ou aquilo. Consertar cabos de eletrodomésticos, trocar interruptores (troco sem desligar a luz), disjuntores, torneiras, substituir resistência de chuveiros elétricos, trocar lâmpadas queimadas (complicadíssimo, não!)...  É só a patroa convocar que: − Yes, I can!

Pois o maldito aparelhinho de DVD conseguiu tripudiar sobre todo esse meu cabedal de habilidades. Apelei para o Manual que, aliás, não prima pela clareza: são 29 páginas de letrinhas microbianas e gráficos torcicolosos. Peguei os óculos porque uso lentes 3.7 para perto. Não deu pra ler. Confirmei com minha mulher (ela, de óculos) se minhas lentes estavam limpas. Estavam, mas realmente não dava pra ler. Apelei para a lupa dos meus netinhos brincarem. Ah, finalmente! 

Primeiro estes três cabos: vermelho, branco e amarelo. No diagrama está o painel “A”, onde se lê “TV”, com entradas (buracos) assinaladas com “L”, “R” e Video. Consta ainda a palavra Imput. Imagino ser o equivalente de nosso verbo imputar em sua acepção inglesa de enfiar, atochar... Bom não ser absolutamente cego num segundo idioma, não é mesmo.

Já no diagrama “B”, lê-se a palavra “Televisor” (no “A” é “TV”, lembram!) Passo a lidar, então, com a distinção de dois conceitos que sempre imaginei indistintos: TV e Televisor! Mas vamos em frente. Tenho que imputar (Imput), no esquema “B”, o cabo verde no orifício (que eles chamam de tomada) “Y”; o cabo azul no orifício “Pb”; e o cabo vermelho no orifício “Pr”... Ixe! Nada de imagem, nada de som.

O que será Y, o que será Pb e o que será Pr, meu Deus? Se este último “r” fosse maiúsculo, me remeteria ao PR de Minas, Partido Republicano, que levou o mineiro de Viçosa, Artur Bernardes, à presidência da república. Mas claro que a coisa não passa por aí.

Observo que no desenho “A”, existe um alerta que ali é Vídeo Out e Audio Out; no esquema “B”, diz que é para Component Video Out... Certamente haverá diferença importante entre esses dois entes técnicos. Acabo descobrindo − imaginei. “Hay que pensar em positivo” – dicen los hermanos.

Antes do fim do dia  – pensava eu  – terei atochado corretamente todos estes conectores para que possamos, a patroa e eu, revermos o filme Notorious, de Alfred Hitchcock, com cenas filmadas no Brasil e inclui um diálogo entre Gary Grant e Ingrid Bergman no qual não chego a ser citado pessoalmente, mas há uma alusão à terra onde nasci – Leopoldina, MG. O que também me promove. Já pensou? Minha província nos lábios da Ingrid Bergman!

Ávido de respostas, fui à página 32 do Manual onde está o capítulo, Guia para Solução de Problemas. Li com atenção para perceber que eles chamam de “problemas” as ocorrências infaustas surgidas depois que o aparelho é conectado; exatamente o que eu não estava conseguindo fazer. Soquei, com malignidade, a mesa.

Minha mulher convidou-me a desistir. Pressentiu que o DVD corria risco de ser estraçalhado num ataque de ira, antes mesmo que eu passasse à maldição do Controle Remoto, cujas instruções, aliás, ocupam a maior parte do Manual. Convenceu-me que colocar aquele troço para funcionar era algo inteiramente fora dos limites de nossa aptidão. (Com esse “nossa” buscava ela, inteligentemente, dividir com o doido sua perigosa frustração). 

Sugeriu que chamássemos um técnico que, inclusive, depois de atrelado o aparelho ao televisor, nos proporcionasse um cursinho intensivo de manejo do impenetrável objeto.

Guardiã atenta do meu sistema circulatório, minha esposa já discursava de copo d’água e comprimidinho ansiolítico à mão. Ela sabe o quanto uma derrota para o mundo das coisas intricadas me faz mal. Seria tão mais simples girar controles! Juro que, se pudesse, trancava num beco úmido, para conviver com ratos, baratas e samambaias brotando das paredes, todos os criadores dos botões digitais. Como castigo adicional a obrigação de lerem “Os Sertões”, de Euclides da Cunha... Veriam como é bom sacanear os outros na promoção de topadas.

Ah, sim, o técnico disse que só poderá vir na próxima semana, mas nenhum problema. Fã do Hitchcock, eu que já sou meio gordo posso também ficar bonachão de um momento pra outro. O efeito do comprimidinho é rápido.

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(Publicado em 22.09.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

Rido de Barros Oliveira

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Na foto: Rido de Barros, jan. 2003, na sede da BMPL.


Agosto, 2003


Rido de Barros, como era mais conhecido, foi o idealizador e fundador da Banda Musical Princesa Leopoldina, uma instituição leopoldinense sem fins lucrativos que visa atrair para a carreira musical e ensinar música gratuitamente a jovens talentos de nossa cidade, trabalhando a priori com crianças e adolescentes dos segmentos menos favorecidos da sociedade.

Nascido no distrito de Barra Alegre, município de São José do Ribeirão Preto, RJ, aos 11 de março de 1943, era filho o filho mais velho dentre os oito que teve o casal, Odir Barros de Oliveira e Venizia Julia Benvenute de Oliveira.

Seu pai, Odir, foi farmacêutico em Nova Friburgo, RJ, cidade onde Rido residiu desde menino.

Ainda jovem tornou-se sócio e músico clarinetista da Banda de Sâo José do Ribeirão Preto. Depois, em Nova Friburgo, passou a integrar os quadros da famosa Banda Euterpe Friburguense, chegando a Conselheiro da Euterpe.

Vindo para Leopoldina no início dos anos 60, casou-se com a leopoldinense, Maria da Conceição Fajardo Oliveira, com quem teve os filhos: Fernanda, que é casada e tem um filho; Reinaldo, casado com dois filhos; e Juliana, solteira.

Além de seu trabalho na Banda Musical Princesa Leopoldina e de gerir uma propriedade rural – na qual tornou-se o primeiro grande criador de suínos sob técnica apura, no município – Rido tomou em suas mãos o aperfeiçoamento de nossa Casa de Cursilhos e a reforma da Capela do Asilo Santo Antonio.

De suas obras, entretanto, a que mais o emocionava era, sem dúvida, a Banda Musical Princesa Leopoldina.
Essa instituição foi criada em 1998, quando Rido liderou um grupo de amigos – ele, seu cunhado Nelito Barbosa Rodrigues, Ronald Alvim Barbosa, Rodrigo Arantes Queiroz e José do Carmo Rodrigues - e com eles, depois de algumas reuniões, logrou ver formada essa importante agremiação musical de utilidade pública.

De fundamental importância pra o projeto foi o apoio financeiro da Cia. Força e Luz Cataguases Leopoldina, obtido por Rido, para a compra de uniformes, instrumentos, etc, e a própria sede da Banda, em compartimento da Usina Cultural da Hidrelétrica, na Rua Lucas Augusto, 36.

Quem o acompanhava nas apresentações da Banda, percebia que ele mal podia conter a emoção de ver aqueles meninos pobres em suas belíssimas execuções.

Rido faleceu aos 60 anos, no dia 24 de agosto de 2003, às 9:30h, na Casa de Caridade Leopoldinense, vítima de uma fatal pancreatite. Como anotado no jornal LEOPOLDINENSE de 30 de agosto de 2003, Leopoldina perdia um amigo, um benemérito, um insubstituível homem de bem.
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Obs. Nas fotos, oportunidade em que a Banda Musical Princesa Leopoldina participava de evento festivo nas ruas centrais da cidade; embaixo, Rido de Barros ladeado por Nelito Barbosa Rodrigues e pelo então presidente da Banda, José do Carmo Rodrigues, o jovem músico Tiago e um irmão de Rido, de camisa branca.
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(Publicado no LEOPOLDINENSE de 30 de agosto de 2003)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Full of Life, now

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Full of Life Now
by Walt Whitman
(1819-1892)

Full of life now, compact, visible,

I, forty years old the eighty-third year of the States,

To one a century hence or any number of centuries hence,

To you yet unborn these, seeking you.
When you read these I that was visible am become invisible,

Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me,

Fancying how happy you were if I could be with you and become your comrade;

Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)

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Cheio de Vida, Hoje
Cheio de vida, hoje, compacto e visível
Eu, com quarenta anos de idade, no ano oitenta e três dos Estados,
A ti, dentro de um século ou muitos séculos,
A ti, que não nasceste, procuro.

Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,
Agora és tu, compacto e visível, quem intui os versos e me procura,
Pensando como seria feliz seu eu pudesse ser teu companheiro;
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas muita certeza de que eu estou contigo.)


Nota de JCR: Nestes versos, “Cheio de vida, agora”, Walt Whitman nos manda – a nós, pessoalmente – sua mensagem emocionada. Ele se reporta a este momento entre ele e nós, hoje e aqui, diante de seus versos. Você e eu não éramos nascidos, e ele nos procurava!... Hoje, nós o procuramos!...
Sua bênção, Walt Whitman! Somos felizes, sim, como se você, nosso companheiro, entre nós estivesse.
(De fato, não temos certeza de que você esteja entre nós)

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(Publicado no LEOPOLDINENSE de 29.11.2003)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Lugares #

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Novembro, 2003

Há uma coisa em Leopoldina que me incomoda bastante. Não ocorre apenas aqui. O problema é que quando acontece em nossa terra, mexe com a gente. São alguns designativos de logradouros que caem no esquecimento ou são substituídos, a meu ver, desnecessariamente. Falo só dos lugares da minha infância.

Alguém, por acaso, sabe que aquela área onde está, hoje, o Posto Imperial, a Aramil e o Hotel Santo Antonio, na saída de Leopoldina para o Rio de Janeiro, logo depois do Posto da Polícia Federal, tinha o lindo nome de Ponte Cheirosa - desde quando por ali existia apenas uma bela casa, com eira e beira, no terreno onde está edificado o hotel? Era a casa de Da. Manoela, sogra do Sr. Ranulfo Matola. A ponte devia ser cheirosa por causa das flores de açucena.

Quem vinha a cavalo, à cidade, ou de carro de boi, tinha ali o bebedouro dos animais. A estrada rural, paralela à BR, passava dentro d’água. O fundo do riacho era compactado, não atolava de jeito nenhum. Nem os pesados carros de boi, nem os animais.

Incomoda-me ouvir chamarem aquele lugar de Caiçaras.
Sei que o DNER acabou com a ponte, substituindo-a por manilhas, e que os irmãos, Paulinho e Chiquinho Resende, construtores do Posto Imperial, encanaram o riacho, que passa debaixo do Posto de Gasolina e do prédio deles. Mas chamar aquela região de Caiçaras é apelar para designativo sem nenhuma tradição local.

O Hotel Caiçaras nada mais foi que um projeto inacabado e logo demolido que praticamente não funcionou, ou funcionou por muito pouco tempo. O construtor, Sr. Fued, foi assassinado durante a obra. O negócio de bar e hotel naquele lugar claramente não tinha futuro. Nos anos 50 aquele ponto ficava muito distante da área urbanizada de Leopoldina, que começava na ponte sobre o Feijão Cru, na Rua João Neto. A Quinta Residência e o Arraial do Sapo se resumiam a, no máximo, quatro ou cinco casas. Era roça mesmo. Os restos dos alicerces do Hotel estão sepultados debaixo da balança da Polícia Rodoviária.

Outra pergunta: E o bairro que vai da Polícia Rodoviária até a lanchonete Seta? Por acaso alguém sabe que a localidade sempre foi denominada Bairro Santo Antonio, também conhecido como Bairro da Onça?

Agora um doce para quem souber que o local onde fica a lanchonete Seta, também na saída para o Rio de Janeiro, onde vão construir agora um posto de gasolina em frente, denomina-se Água Espalhada. As pessoas simples que ali residiam, na minha infância, diziam “Água Espaiada”...

Outro doce para quem souber que onde está o trevo da BR-116, no pé da Serra da Vileta, início da estrada para Juiz de Fora, sempre foi conhecido como Placa, embora parte da área maior, tradicionalmente referidaa como Constança. Ou seja, a Placa ficava na Constança. Era alusão à primeira placa de propaganda (outdoor) ali colocada, se não me engano anúncio da antiga concessionária Ford, do Sr. Acácio Serpa.

Estamos entendidos, portanto. O Sítio Puris, (onde fui criado), na altura do marco n°771 da BR-116, fica na Onça, próximo à Água Espalhada. Compra briga comigo quem disser que eu sou do Caiçaras. E olha que não é pela beleza do nome Onça, não, pois também é verdade que, num passado não muito distante – até 1950, mais ou menos – referiam-se, também, àquele lugar, entre a Onça e a “Água Espaiada”, como Cubu. Curva do Cubu. Sítio do Cubu.

Feio, não é? Mas Cubu nada mais é que uma bolacha de fubá, assada no forno de lenha. Devia ser pelo formato do morro, ao fundo. A Curva do Cubu é aquela fronteiriça à divisa do Sítio Puris (dos Machado Rodrigues) com o sítio pertencente aos herdeiros do Sr. Francisco Barreto Faria Freire. Um pouco antes dela, nas proximidades da jazida de saibro do sítio do Sr. Francisco Monteiro (ex sítio do Augusto Timbiras), situava-se a Fazenda da Onça, sobre os alicerces da qual passou, e ainda passa, a estrada Rio/Bahia – aberta lá pelo início dos anos 1940.

Como escreveu o poeta Ovídio, nomina sunt odiosa. Sim, às vezes os nomes são importunos.
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(Publicado no LEOPOLDINENSE de 29.11.03 e, revisto, aos 16.09.11

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Casamento a Prazo

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Setembro, 2011


Quando jovem estagiário num escritório de advocacia, meu primeiro susto foi quando lá apareceu um casal pedindo que eu os casasse. Entendi que desejavam providências na documentação a ser levada ao Cartório do Registro Civil, para os proclamas. O advogado titular me acudiu:

– Zé o que eles querem é um Contrato de Prestação de Serviços Domésticos. Um deles (ou ambos) deve ser impedido, legalmente, de casar-se.

– Como é que é?

Tive conhecimento, então, de um “instituto” do Direito de Família que não constava das leis: o “Casamento por Contrato”. Soube depois que era prática bastante usual pelo interior do país. Pessoas legalmente impedidas de casar valiam-se de um “contrato de prestação de serviços domésticos” com alguma alusão oblíqua à vida em comum e... pronto! Passavam a pisar o mundo na condição de casadas.

Como os usos e costumes são fontes do direito, os tribunais vieram dando guarida a situações de fato, até que o novo Código Civil, de 2002, ocupou-se de regular a chamada União Estável. Hoje, tão legalmente válida quanto o próprio casamento. 

Daí que, sem compromisso com a melhor exegese do direito e atento apenas ao que percebo no âmbito da sociedade que me cerca, estive pensando numa melhora, ainda maior, nas regras do casamento: dar-lhe uma cláusula de PRAZO. 

É certo que a união de duas pessoas que se amam (nos dias fluentes, independente de serem elas do mesmo sexo) se materializa num contrato matrimonial, um contrato como outro qualquer. Opss! Seria mesmo um contrato como outro qualquer? Nem tanto. É um contrato em que a justiça costuma, não poucas vezes, meter o bedelho, seja para defender a mulher, seja para proteger filhos menores, seja para calibrar gargantas largas na divisão do butim separatório.

Antigamente, ou seja, até a Lei do Divórcio, de 1977, o contrato de casamento deveria valer “até que a morte os separe”. Costumes menos ortodoxos, todavia, se impuseram. Veio o divórcio, no princípio sujeito a condicionantes quanto ao tempo de casamento ou de separação, para agradar segmentos conservadores que a ele se opunham, ao final estabelecido sem restrições. 

Com efeito, em 2010, através da chamada Emenda 66, todos os entraves ao divórcio foram para o espaço: a separação prévia tornou-se desnecessária e quem quiser casar-se agora, para divorciar-se daqui a dois minutos, está liberado. Ou seja, nisto o Estado não se intromete mais. A responsabilidade é toda dos cônjuges.

Estive pensando se, diante de tanta liberdade e de tanta instabilidade nos matrimônios, não poderíamos aperfeiçoar ainda mais o instituto do casamento introduzindo o Contrato de Casamento por Prazo Determinado. Algo similar, por exemplo, ao contrato dos atletas de futebol com os clubes. 

Ora, se as estatísticas provam que, decididamente, os casamentos modernos não são para sempre, qual a razão de seguir-se insistindo nessa hipocrisia de contratar, e até jurar, o reverso do previsível? Se ninguém mais é capaz de sustentar uma conexão emocional que supere os tropeços mínimos da vida a dois, por que não estabelecerem, os nubentes, um prazo para seus casamentos? Deu certo, prorroga. Deu errado, tchau no vencimento! Não precisa divórcio. 

– Filhos? Se forem “nossos”, despesas rachadas. – Bens? Comunhão parcial; apenas os resultantes do esforço comum pertencerão a ambos. Aliás, já é assim. Jogo limpo!

Tenho certeza que isto faria mais felizes as pessoas, livres de compromissos mirabolantes, desconectados da realidade hodierna. Lembram o Raul Seixas: “Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo...” Maluco, porém beleza. 

Acabaria também o constrangimento que os homens sentem, até de admitir para si mesmos, alguma simpatia por mulheres casadas. Eu, por exemplo, gostaria de estar à vontade para topar com a simpática Renata Vasconcelos na Ponte Aérea e perguntar:
– Seu contrato com o maridão termina quando? Ao que ela poderia retrucar com justa repulsa:
– Assinamos por vinte anos! E eu, agravando a inconveniência:
– Estou disposto a assumir a multa rescisória...

Não seria um show de liberdade responsável? Se você gostou da ideia, ótimo. Vamos procurar, juntos, um deputado federal honesto (Ih, sujou!) que leve a plenário meu projeto de Casamento por Tempo Determinado. Não duvido, até, de um significativo aumento na durabilidade das uniões. Querem um exemplo?

Ruy Castro, no livro “Ela é Carioca”, conta que a modelo e socialite Ionita Salles Pinto, com seus 20 anos, em 1967, era uma das mulheres mais belas e desejadas do Rio de Janeiro, quando conheceu Jorginho Guinle na boate Le Bateau. O incorrigível playboy, simpático, mas baixinho e feinho que só ele, pediu-a em casamento na mesma hora. Vejam a perfeição da proposta feita à moça pelo conquistador magistral:

– Ionita, tenho 52 anos e você tem 20. Dê-me dois anos de sua vida. Para você, isso não é nada. Para mim, é uma vida inteira.

Proposta óbvia de casamento a prazo, igual à minha. Ela topou. Foram tão felizes que a união durou a eternidade de sete anos! Evidência de que este meu projeto tem pé e tem cabeça.

POLÔNIO (à parte) – Apesar de louco, ainda assim revela método. 


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(Publicado em 15.09.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Político pra Cachorro

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Setembro, 2011

Tido como certo que nenhum político é capaz de dizer uma verdade por inteiro, não deve existir no mundo coisa mais tediosa que uma reunião de políticos. Sem falar que dali resultam, quase sempre, acertos escabrosos que passam ao largo do que realmente importa, que seria o interesse dos cidadãos supostamente por eles representados. Azar da democracia onde as escolhas são feitas nas urnas por um povo incapaz de entender o que vê e o que ouve.

Exato o caso da cidade mineira em que certa reunião partidária incluía na pauta a estratégia oposicionista para evitar a reeleição do prefeito, um populista safado, mas bom de palanque que só ele. Tarefa dificílima. O homem levava a termo um mandato bem avaliado pela imprensa cupincha, apontando as pesquisas para sua, quase certa, “recondução ao cargo”.

A opção dos adversários foi pela ênfase na única medida polêmica adotada pelo alcaide na administração findante, qual fora o sumiço dado à cachorrada que perambulava pelas ruas do centro da cidade. Aliás, “uma vergonha” − era o clamor geral − aquela matilha de cães em trote pelas calçadas, entrando nos Bancos, nas Farmácias, nas Igrejas, para demérito do requinte urbano e até desconforto do pudor público nos episódios explícitos do namoro canino em comitiva.

À falta de estratégia mais digna, decidiu-se por escancarar nos palanques o apelido escrachado que vinha sendo atribuído (ainda a boca pequena) ao "algoz dos indefesos animais"... Em lugar de Toninho da Matilde, seu nome de guerra (referência à genitora dele, primeira taxista da província), toda a oposição passaria a referir-se publicamente a ele como “Toninho Cachorro”.

Tipo do apelido que pega e, diga-se, pegou. Só que sabido não morre de véspera e a resposta também viria pelos palanques e pelo microfone da Difusora local. Sintam o estrago:

- Pois é, amigos, eles descobriram que sou cachorro. Desejo, entretanto, aqui, de público, concordar com os meus pretensos detratores e agradecer o apelido que me atribuem. Eles estão certos! Quando Deus criou o mundo e distribuiu individualidade aos bichos, presenteou o cachorro − esse fiel companheiro que acompanha o homem sobre o planeta há mais de cem mil anos − com uma índole superior. Índole que poderia ser exemplo da afeição absoluta, da verdadeira lealdade e dedicação que os seres, ditos humanos, deveriam guardar por seus semelhantes.

Outra coisa não tenho feito à frente dos destinos desta terra, que não seja a canídea submissão a meu povo, a cega fidelidade ao voto dos que me honram com sua escolha! Serei sempre – proveja Deus! − o dedicado cão de guarda de todos vocês, os verdadeiros donos do poder, que são as mulheres e os homens desta cidade abençoada!

Administrar não é trancar-se no ar condicionado como um gatinho angorá de fita no pescoço. Ao contrário, é campear pelos bairros como um vira-latas; demarcar a área de atuação para melhorias efetivas; ser cão vigia das obras em andamento; sentinela da saúde dos menos favorecidos; é latir alto para horror dos que se opõem aos interesses de nossa gente.

Se meus concorrentes querem ganhar o respeito do povo, que não se estiquem, dorminhocos, em seus gabinetes a catar pulgas com os dentes. Venham para as ruas aprender comigo a ser cão andarilho à caça de solução para o drama das famílias pobres; venham aprender a ter faro para o futuro de nossas crianças desnutridas; visão aguda para as angústias dos doentes e dos velhos... Venham colocar a língua para fora no trabalho... Venham mijar (sim!), venham mijar comigo em cada poste que plantei em nossas comunidades esquecidas e sem luz!

Podem me chamar de Toninho Cachorro. É uma honra ser comparado a tão nobre animal. Só peço a vocês que, ao colocarem seus votos na urna, não esqueçam:

– Quem tem um cão tem um amigo! (Palmas, palmas, palmas...)

Viu. Vá mexer com quem dá nó em filete d’água na bica.

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(Publicado em 08.09.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)