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sábado, 11 de maio de 2013

Minha Cura


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Maio, 2013


Com o seu sinistro olhar o feiticeiro mede-o.
– Olha, Roque, você me vai dar um remédio.
Eu quero me curar do mal que me atormenta.
– Tenho ramos de arruda, urtigas, água benta,
uma infusão que cura a espinhela e a maleita,
figas para evitar tudo que é coisa feita...

(Menotti Del Picchia – Juca Mulato)

Aos vinte e três anos, já residindo no Rio de Janeiro, apareceu-me uma ziquizira dos diabos na cabeça. Mais exatamente no cabelo, a preciosa matéria prima engomada do meu topete elvispresleyano! Apavorado, procurei médico e o diagnóstico declinado foi uma “possível psoríase”. Conceito hermético que só fez aumentar meu desespero.

Tratando-se de uma doença autoimune – lecionou-me o esculápio – vá usando este sabonete antisséptico até melhor avaliação.

Meus cabelos se soltavam aos tufos. Marineide, nossa cozinheira na pensão da Glória, prolatou sentença terrível: – Ele tá com pelada! Doença horrorosa. Faz a cabeça ficar desértica e repulsiva como os costados de um cão sarnento.
Credo em cruz! Fiquei triste com a Marineide, mesmo sendo a danada capaz de fritar batata doce como só Da. Lira, minha avozinha querida, costumava fazer.

Dona Ruth, a octogenária dona da casa, aconselhou-me um homeopata famoso, Dr. Molica, com consultório em Copacabana. Procurei saber: consultas a partir das sete da manhã, ordem de chegada. Fui lá. “Senhas” esgotadas!
–Isto não é assim não, explicou-me a secretária. Antes das seis já tem gente na fila pra pegar vaga. Volte amanhã.

Voltei. Cinco da madrugada. Consultório lá em cima, mas a fila se formava na portaria do prédio, esticando-se pela calçada do Cinema Metro, na Av. Copacabana. Andou às sete, com a chegada do médico.

Mas valeu. Às nove eu já era um paciente esperançoso aviando a latinidade da minha receita na farmácia homeopática da Rua São José, no Centro. Já saí dali com cinco vidrinhos contendo bolinhas de açúcar encantado. Ou bento, se preferem.

Tomava as bolotinhas com neurótica pontualidade. O cabelo, entretanto, continuava a descer-me pelos ombros. Angustiado, apelei para outro dermatologista. A receita foi nova marca de sabonete antisséptico.
Pintou feriadão, me mandei para Minas. Na fazenda, Neneco Passarim, o carreiro de boi, aconselhou-me procurar o Preto Velho, Horácio, mandingueiro entendido em ervas e benzedor emérito. Corri nele.

O velho assuntou sem emoção minhas brechas cimeiras, pigarreou arrastado e declarou:
– É cobreiro! Vamo benzê isso. Vá pra trás daquela porta, ali –  apontou-me a porta que dava, da sala onde estávamos, para o quarto dele. Encantoei-me lá como uma vassoura, rente às dobradiças.

– Agora vou fazê a reza – declarou. Quando eu pruguntá, “O quê que eu te benzo”, cê responde: “Cobreiro”.  Entendeu?

– Entendi, Horácio.

Dito isto ele se ajoelhou com uma das pernas, apoiou os cotovelos na outra e passou a orar guturalmente:
– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz.... O quê que eu te benzo?
–  Cobreiro – eu respondi.
– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz.... O quê que eu te benzo?
– Cobreiro – respondi novamente.
– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz.... O quê que eu te benzo?
– Cobreiro – segui replicando.
– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz.... O quê que eu te benzo?

– Cobreiro..... Cobreiro.....Cobreiro..... Cobreiro....

Não sei quantas vezes pronunciei a palavra Cobreiro. Foram muitas. Tantas que, dias depois, meu cabelo parou de cair. E não caiu mais. A não ser modicamente, anos afora, como convinha a meu legado genético.

Sei lá o que me curou. A homeopatia do Dr. Molica? Os sabonetes dos alopatas? Ou foi a benzeção do Horácio?

Consta que uma fase de grande estresse pode ocasionar queda súbita de cabelos. De fato, ali pelos vinte e poucos anos eu sonhava ser dono do mundo. Só depois, com as topadas da vida,  “os sonhos, um por um, céleres,” voaram.

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(Publicado a 24.05.13 em http://www.bloghetto.com.br/ )

O Bananal do Magela


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Abril, 2013


Filho de ruralistas, Magela esteve perto de realizar um sonho. Deixar a vida de serventuário da justiça carioca, mudar-se para um sítio e cuidar da plantação de bananas.

Necas de levantar todas as manhãs, pegar ônibus, enfrentar engarrafamento e costurar processos. Às favas com advogados reclamando andamento dos feitos, da lerdeza na expedição de ofícios, delongas na conclusão dos autos ao juiz...  Ora, ora – pensou – são mais de doze milhões de habitantes, no Rio, ávidos de encontrar bananas, madurinhas, nas feiras e nas mercearias. O negócio é plantar banana.

Um sitiozinho na Serra do Mar, recentemente recebido por herança do sogro, vinha a calhar. Magela havia lido e deglutido que bananeiras plantadas com técnica são altamente rentáveis, já a partir do segundo ano. Aprendeu também que a Região Serrana, onde entrou a ser feliz proprietário do “Sítio Madre Ceres”, possui clima bastante apropriado ao cultivo da apreciada fruta.

Portanto, adeus prateleiras empoeiradas, dossiês mal enjambrados, soltando as folhas e as capas, adeus papelada, adeus carimbos, adeus tramitações melífluas! Vamos nessa! Ar puro, paisagem, canto de pássaros, arrulho de cachoeira e trabalho compensador nas atlânticas faldas serranas.  Demitiu-se na esteira do sonho.

Só que a realidade escapou um pouco aos cálculos do Magela. Faltou, por exemplo, programar a “colocação” do produto.  Quando veio a primeira safra de bananas nosso novel agricultor alugou caminhão, encheu-o até onde pode e desceu a serra na direção do Rio de Janeiro. Parou no Mercado São Sebastião onde pensava vender toda a carga de uma só vez... Deu zebra!

– Não negociamos de improviso, amigo, temos nossos fornecedores – disseram-lhe.

– Ih, por esta eu não esperava. Terei que vender estas bananas, direto, nos supermercados – pensou o Magela.

Mas o obstáculo continuou:

– Impossível a negociação, meu senhor. As compras deste supermercado são programadas pela sede, com antecipação e fornecedores tradicionais.

Putz! – lamentou. Vender pequenas quantidades, em quitandas, não dá. Não vai compensar o diesel do caminhão.
Já sei – decidiu. Vou com esta carga para a Central do Brasil vender bananas a granel para o público.

Em frente ao Panteão Duque de Caxias subiu na carroceria e começou a apregoar bananas “a preço de banana”. Juntou gente. Foi virando ôba-ôba! Em poucos minutos encostou o primeiro veículo policial de pisca-alerta ligado... O segundo... O terceiro já era um camburão...

– Documentos da viatura e a “autorização” para venda de produtos alimentícios em via pública.

– Não tenho autorização alguma – confessou o transgressor.

– Pois então puxe esse caminhão daqui senão o senhor será preso por comércio ambulante ilegal – bradou a autoridade.

Enfezado, o Magela se desesperou:

– Não posso vender, mas posso dar as bananas! Alô minha gente – passou a berrar:

– Bananas de graça! Bananas de graça! Bananas de graça!

E, de cima do caminhão, atirava bananas às pencas na cabeça dos atarantados populares da Central.

Encurtando conversa. O Inquérito Policial por “perturbação da paz pública” deu uma dor de cabeça danada ao agricultor/réu, mas veio a ser arquivado sem maiores consequências. Talvez a Promotoria tenha se sensibilizado com o drama do ex-serventuário.

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(Publicado a 19.05.13 em http://www.bloghetto.com.br/ )

João Bolinha


Abril, 2013

Nesse turbilhão de incitamentos que é a vida, sempre soube que um dia acabaria contando a história de João Bolinha.

Ressalvo que o “Bolinha”, do João, nada tinha a ver com obesidade. O apelido lhe foi pespegado pela enorme habilidade que demonstrava com uma bola no pé, fazendo “embaixadas”. Produzia de cem embaixadinhas para mais, sem deixar a peteca, no caso a bola, cair. Repetia a façanha com laranjas, tampinhas de garrafa e outros descartáveis sólidos. Daí que, desde os tempos secundários, “pra qualquer um na rua”,  era o Bolinha!

Mineiros do interior, aos dezoito anos buscamos escolas superiores no Rio de Janeiro. Um cortiço na Glória nos protegia das intempéries e fazíamos refeições em restaurante estudantil contíguo à Faculdade Nacional de Filosofia, no Castelo. Aliás, filosofia veio a ser a escolha do Bolinha.

Fisicamente, meu amigo não era alto nem atlético. Mas fazia um sucesso danado com as garotas. O que mais sobressaia nele, além do talento malabarístico com a bola, era a lucidez. Sempre nos passava, a nós seus amigos, a impressão de que aprendera mais, lera mais, informara-se primeiro, sabia tudo.

No restaurante da Faculdade, certa vez, Bolinha protagonizou o incidente notável que pretendo relatar.

Um amplo refeitório, onde cerca de sessenta estudantes almoçavam. Batia forte o verão carioca, naquele recinto agravado por emanações calóricas, multibalsâmicas, vindas da cozinha e pelo burburinho de rapazes e moças manejando talheres em salvas de metal. O famoso “bandejão”.  

Servidas nossas porções, sentamos, Bolinha e eu, na primeira mesa disponível e iniciaríamos o repasto quando uma bolota de papel-toalha, embebida em água, veio espocar dentro da refeição do meu colega, emplastando-lhe de feijão a camisa.

Brincadeira de mau-gosto ou provocação desafiadora?  Conferiu-se logo. Bolinha de um salto pôs-se de pé sobre a mesa e, erguendo a bandeja acima da cabeça, obteve silêncio da plateia liberando um vagido selvagem próximo àquele que, cinco anos depois, o psiquiatra de John Lennon, Arthur Janov, definiria como grito primal.

Fez-se silêncio e ele discursou com superioridade: 
−Colegas, atenção! Alguém arremessou ao meu prato esta bucha de papel molhado... (Pausa) Não vou perguntar qual o filho-da-puta fez isto porque sei que aqui neste espaço de ensino superior não convivemos com bastardos.
Sei que aqui dentro só temos verdadeiros homens!

Então eu pergunto:
− Quem atirou esta bolota na minha comida é HOMEM?

Ih! A respiração geral deu uma travada na expectativa do desdobramento, que veio rápido. Em mesa próxima, um sujeito forte, aparentando ser praticante de lutas marciais, pôs-se de pé e confessou em voz alta:

− João, eu atirei a bola. Nunca fui com tua cara. Falam que tu és inteligente, culto... Mas eu sempre te vi como um bestalhão, metido a ser o tal e a ganhar namoradas de todo mundo. Mas eu gostei da tua reação agora, ô cara. Tu és corajoso e “cabeça” pacas. Não estou mais a fim de briga. Quero ser teu amigo. (E baixando a voz) Peço desculpa pela merda que fiz.

Houve aplausos não muito convictos. Mas João Bolinha teve a elegância de caminhar até o avexado agressor e dar-lhe um abraço. Aí, sim, muitos aplausos.

Por estas e por outras, Bolinha tornou-se líder estudantil e o perdi de vista. Só vim a saber, tempos depois, que se metera na Guerrilha do Araguaia, para onde deslocou-se em 1973, à procura da namorada, Maria Selma, codinome “Ceacé”, guerrilheira e também ex-aluna de Filosofia na UFRJ. Parece que, denunciado por camponeses cooptados pela repressão, João teria sido preso na selva, torturado e entregue ao CIEx.

Passou à história como desaparecido político. 

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(Publicado a 03.05.13 em http://www.bloghetto.com.br/ )