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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Condenação de Jobson

Janeiro, 2010

(Publicada em 28.01.2010 em
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)



No meu tempo de faculdade esteve em moda ler Pitigrilli. Não me lembro em qual de seus livros topei uma frase que guardaria: “Ver um ser humano julgando a outro, é espetáculo que me mataria de rir se não me causasse pena”.

Dizem os jornais que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) acaba de julgar o atleta Jobson, da equipe do Botafogo, nos termos do artigo 244 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, condenando-o a ficar 2 (dois) anos sem jogar futebol. Motivo, doping.

O passe do jovem atleta, que ainda pertence ao Brasiliense, clube onde foi revelado, seria adquirido pelo Cruzeiro de Belo Horizonte, por R$4 milhões de reais. Claro, o Cruzeiro desistiu da contratação.

Ou seja, numa penada exaustiva, de 3 votos contra 2, o STJD, praticamente liquidou com a carreira promissora de um pobre rapaz de 21 anos em razão de sua doença. Ele usa drogas.

Doença! A OMS (Organização Mundial de Saúde) reconhece a dependência química como uma doença de caráter progressivo, incurável. Pode, no entanto, ser controlada. Do mesmo modo, embora não com tanta facilidade, como se controla o diabetes, a alergia, a epilepsia, a pressão alta, etc.

Não são poucos os exemplos de atletas, do futebol e de outras modalidades esportivas que, diagnosticados em alguma doença não incapacitante, puderam seguir na profissão e no esporte. Registros de arritmia cardíaca, AIDS e até esquizofrenia já repercutiram publicamente sem incidência da apenação atroz que agora se pratica. De uso de drogas, também.

Compreende-se que a ingestão de substâncias químicas que melhoram o desempenho de atletas é doping, constituindo-se em prática intolerável por desvirtuar a ética desportiva. Há que ser fiscalizado e punido em nome da lisura nas competições.

Só que a prática abusiva do doping deve ser apurada com lucidez. Nem toda evidência química é prova de que o atleta se dopou para melhorar desempenho. O exame laboratorial atesta a evidência química. Se ela é conseqüência do ânimo de dopar-se é outra coisa a ser apurada.

Mesmo porque, no caso do jogador Jobson, a droga usada (crack) não melhora o desempenho atlético. Ao contrário, compromete-o seriamente ao interferir na capacidade pulmonar do atleta.

Espera-se que o ser humano encarregado de julgar possua discernimento para separar o atleta saudável que usa uma substância química “para melhorar seu desempenho”, do atleta adoecido cujo exame antidoping acusou evidências de uma doença. Não se sentencia com um carimbo. O juiz que assim procede faz tábula rasa de sua condição de pessoa humana com domínio do raciocínio abstrato e da instrospecção.

O tal artigo 244 do Código Brasileiro de Justiça desportiva acerta quando cuida de punir o doping. Falha, entretanto, quando estabelece penalização “de carimbo”, inafeiçoável a casos específicos em que alguma substância condenável entrou no organismo do atleta, não com ânimo de fraudar o esporte, mas pela circunstância de uma enfermidade.

Os números da condenação (3 contra 2) estão a demonstrar que o próprio tribunal que “puniu a doença de Jobson” não o fez pela unanimidade de seus membros.

E vejam o paradoxo: a pena prevista no citado artigo 244 é “Suspensão de 120 (cento e vinte) a 360 (trezentos e sessenta) dias e eliminação na reincidência”.
Ou seja, bem interpretada a letra desse infeliz dispositivo aplica a “suspensão” (pena menor), a quem não é doente. Isto é, em quem “consegue não reincidir”. Já o atleta doente, que dificilmente ficará na primeira transgressão, a este a lei reserva a “eliminação”...
Não vem ao caso sugerirmos aqui a pena que julgamos correta. Estabelecimento de um prazo para tratamento? Talvez. É uma tarefa desafiadora para os legisladores do esporte.

Dizemos, apenas, que liquidar a carreira de um menino pobre, de 21 anos, a quem Deus concedeu a chance rara da virtude atlética, apenas porque ele passa por uma doença que pode ser tratada e controlada, é atitude de uma estupidez crassa.


(28.01.2010)
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O niver do Galeno

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Janeiro, 2010

Quando cheguei em casa na última sexta-feira o ambiente não era lá, digamos, promissor. Minha mulher estava com o penteado nos trinques e isto, às sextas, quase sempre significa obstáculo à minha bermuda surrada após o banho. 


Tem programa à minha espreita – pensei. E ruim, porque não existe programa bom para quem chega do trabalho na sexta à noite sonhando com uma ducha generosa e aquela esticada básica na rede pra interagir com as estrelas.



– Amor, você não adivinha quem ligou. A Bel. Hoje é aniversário do Galeno e eles estão nos convidando para um chopinho honoris causa



– Chopinho honoris causa! Claro que você agradeceu dizendo que não vamos porque eu estou com suspeita de dengue, não foi?



– Que isto, amor, não diga bobagem, eles são tão gentis, tão gente boa! Eu sei que você acha o papo do Galeno meio cansativo. Mas, afinal, ele é o marido da minha melhor amiga e trata você muito bem. A Bel, por sua vez, é um amor de criatura e só tem elogios para você. Grosseria não irmos. Por favor, rapidinho, tome seu banho e troque de roupa. São 7 horas, marcamos para a meia noite, na casa deles, na Barra da Tijuca.



– O quê! É hoje? Eu vou dirigir 200 km agora à noite, pegando esse trânsito maluco para o Rio de Janeiro? E ainda tolerar o papo do Galeno?



– Não dramatize tanto, amor, vamos dirigindo devagarzinho, com calma. 



– Bota devagarzinho nisto, não é querida! Já pensou o que vamos pegar de engarrafamento nesta sexta de feriadão, daqui de Minas até a Barra, no Rio?



– Não é tão cansativo assim, a gente dorme lá, descansa e volta amanhã ou depois.



– Virgem da Abadia! Dois dias de “colóquio unilateral” com o Galeno? O homem parece rádio, blá-blá-blá, só fala, não deixa ninguém falar, não consegue ouvir, é um surdo funcional! Não é por nada, não, Izilda, mas eu vou fazer uma oração:



– Meu São Judas Tadeu, sei que é difícil até para um santo milagroso como o senhor, mas faça alguma coisa por este seu devoto, ó santinho recluso e enfumaçado da gruta do Cosme Velho!



– Pare com bobagem, meu queridinho, vamos pensar positivamente. Pior será passarmos o fim de semana aqui nesta nossa Minas Gerais friorenta, sem opções de lazer, lendo jornais e revistas de domingo.



– O que me desespera são as perguntas dele, sabe Izilda, uma emendada na outra. E mais: toda afirmação que ele faz vem com desfecho interrogativo, a exigir “sim” ou “não”. É o platusardil (ardil de chato) que ele usa para escravizar as pessoas ao seu discurso. Não dá para fingir que se está ouvindo. O homem é um megachato. Dono da verdade, não dá descanso, não deixa “o inimigo” respirar. 



Você já observou que em todas as histórias o Galeno se dá bem no final? Nos casos dele, todo mundo entra de gaiato. Só ele triunfa. É o “mocinho” do filme. O mundo do Galeno só tem índio e bandido pra ele matar. E já vou eu, mais uma vez, fazer ponta num western spaghetti com meu Giuliano Gemma preferido... 



Já decidi. Eu vou, tá. Vou. Nunca soube dizer não a você. Só que desta vez, Izilda, eu gostaria de ver você sofrendo comigo. Por favor, não fuja pra conversar com a Bel. Participe comigo dos monólogos do Galeno. Ele vai falar sem trégua, lecionar, doutrinar, arguir, contar vantagem, elogiar-se, cortar sua frase ao meio toda vez que você abrir a boca, e, se você conseguir externar alguma ideia, ele vai olhar pro outro lado em sinal de desdém à sua opinião. Quero ver você firme como eu, politicamente correta o tempo todo, tá, só meneando positivamente a cabeça.

–-  Combinado?


Chegamos à Barra antes das onze da noite. Bel veio nos receber à porta, com o que ela alegava ser uma “má notícia”. Só não nos havia telefonado, desmarcando o encontro, porque desejavam demais nossa presença. 
– Galeno não abriria mão de comemorar o niver dele com vocês – disse. Mas imprevistos acontecem. Imaginem que de algumas horas para cá ele passou a estar febril e inteiramente afônico. Sente dor na garganta, coitado. Está falando como quem assopra. Ponham o carro pra dentro. Entrem.



Pois não é que acabou sendo, para nós, um bom fim de semana na praia. O problema laringológico do nosso anfitrião desaconselhava gelados, o que resultou em dois dias regados a scotch, do bom, no lugar de chope. Bel, simpaticíssima, como sempre. Galeno certamente mereceria comemoração natalícia menos silenciosa. Esteve o tempo todo ouvindo mais que falando, garganta irritada, febril, cachecol em torno do pescoço. “Infelizmente”, quando começou a articular melhor as palavras, no domingo, já estávamos de saída...

– Incrível, não é mesmo?


Para quem tem fé e confia em milagres, a Igreja de São Judas Tadeu, no Rio de Janeiro, fica na Rua Cosme Velho, ali, bem pertinho do Largo do Boticário. 
Recomendo.
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(Publ. a 21.01.2010,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

No Metrô

***
Janeiro, 2010


O que dois rapazes conversavam no banco à frente do meu, no metrô do Rio de Janeiro, estava interessante. Dobrei o jornal para ouvir. Sem dúvida voltavam de alguma prova do exame vestibular. 

– O professor do cursinho deu uma dentro quando mandou a gente se ligar nos babados das questões climáticas, hem! Tava na cara que ia cair. Ecologia continua o barato do momento. 

– Pois é, cara, durante todo o mês de dezembro os jornais deram na primeira página notícias sobre essa tal Conferência da ONU pra mudar o clima de Copenhague e dar uma abaixada geral no nível do mar. Fui vacilão não dando uma cubada no assunto. 

– Esse troço do gelo no mar, pra ser sincero, eu também não saquei legal. Num foi exatamente uma baita pedra de gelo no canal de Nuremberg que afundou o Titanic, provocando aquele tremendo sufoco, inclusive com o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet? Tudo a comprovar que o problema é antigo. Não é de agora. 

– Sei não, cara. Pode ser coisa da mídia. O filme foi chocante pra caraca. 

– A TV continua filmando queda de geleiras pra mostrar que o mar vai subir. Problema do caranguejo que vai ter que fuçar a lama mais pra cima. 

– Li que a conferência de Copenhague deu em nada, tá sabendo? 

– Algum dia você já viu alguma iniciativa política dar em tudo? O problema lá era enfiar a mão no bolso, meu caro. Ecologia mexe com grana: a que o país gasta ou a que deixa de ganhar. Em pleno Reino da Dinamarca nenhum país rico aceitou quebrar os ovos para fazer “hamlet”. Esta foi a questão. 

– Eu desconfio é que ninguém acredita em efeito estufa. Eu mesmo tenho um pé meio recuado com isto. O mundo acaba de ver neve e gelo tomarem conta da América do Norte e da Europa. Cadê o efeito estufa que derrete gelo? Até agora não apareceu. 

– Tá na cara que o mundo desenvolvido manobra essas ONGs marotas, de “bonecas” engajadas, para travar industrialização nos países que começaram a sair do sufoco. Não é a toa que o Lula disse que vai tirar neguinho da merda. Dizendo isto ele não prova que tira, mas prova saber onde o eleitor dele mora. 

– Vai ver os computadores de última geração dos americanos já estão fornecendo dia e hora em que eles não serão mais a primeira economia do mundo. 

– É ruim deles fecharem fábricas ou reduzirem produção por recomendação ecológica. Vão empurrar isto com a barriga. Parece que a próxima conferência “de Copenhague” será no México, né. 

– Vamos esperar que até que os jornais larguem de mão dessa mania de projetar tempo ruim no sudeste. Para mim, o noticiário têm uma grande parcela de responsabilidade pelo mau tempo e pelas catástrofes em nossa região. Eles falam de véspera o que vai ocorrer... Minha avó sempre disse da força das palavras. Se no instante em que alguma bobagem sai de nossa boca, lá em cima, os anjos estiverem dizendo “amém”... a desgraça acaba acontecendo. 

– Ah, ia me esquecendo de perguntar. Caiu na tua prova aquele lance da Águia de Haia? Eu cravei “ave mamífera em extinção”, e tu? 

– Ih, cara, acho que dançaste nesta. Lembro vagamente que Águia de Haia tem a ver com um baiano fodão, de cuca super cacetada. Só que nas cinco opções de escolha não aparecia o nome do João Ubaldo Ribeiro. Pode ter sido lápis deles – pensei comigo. Deixei em branco porque é o tipo da questã que eles devem anular.

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(Publicada em 14.01.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Déa Lustosa Junqueira Xavier

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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE, de 16.01.2009)
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Em trágico acidente automobilístico, faleceu a 26 de dezembro último, a artista plástica leopoldinense, Déa Lustosa Junqueira Xavier. O desastre ocorreu por volta das 16:30h, daquela sexta feira, numa curva da BR-116, próxima à divisa de Leopoldina com Além Paraíba.

Dos quatro ocupantes da pick up Chevrolet Blazer, dirigida por seu filho Rogério, que se chocou contra os pneus traseiros de uma carreta Mercedes Benz, somente escapou com vida, mas com alguns ferimentos, a irmã de Déa, Lenita Maria Junqueira Shultz. Lenita está em casa e passa bem. Viajava ao lado de Déa, no banco traseiro, atrás do chamado banco do carona.

A família se dirigia de Leopoldina a Santo Antonio do Aventureiro, para missa comemorativa das bodas de ouro de um casal amigo. Fotografias dos veículos e do local apontam como razão provável da colisão uma derrapagem da carreta, com o que teria invadido a pista de direção contrária.

Déa Lustosa era a segunda dos cinco filhos do ilustre leopoldinense, Dr. Joaquim Custódio Ribeiro Junqueira e Da. Laura Lustosa Junqueira. Os outros foram, Roberto, Evandro, Lenita e José Joaquim. Nasceu a 9 de maio de 1929 e casou-se em 27 de janeiro de 1952 com o advogado e administrador de empresas, Ruy Ferreira Xavier, natural de Recife (PE) o qual, juntamente com o filho de ambos, Rogério Junqueira Xavier, também faleceu no terrível acidente.

O casal sempre residiu no Rio de Janeiro, cidade onde Déa cursou o primário e o secundário no Colégio Assunção, no bairro de Santa Tereza. Passou a residir em Leopoldina após a aposentadoria de Ruy, há pouco mais de dois anos.

Pronta a assumir a direção do Orfanato de nossa cidade, a consagrada pintora ocupava a cadeira número três da ALLA – Academia Leopoldinense de Letras e Artes, entidade de cuja fundação participou. Conduzia também em nossa cidade um projeto denominado “Florir Leopoldina”, de sua concepção juntamente com a médica, Dra. Isabela Machado Barbosa David (filha do nosso conceituado médico, Dr. Ronald Alvim Barbosa), que teve início pela recuperação dos canteiros da Praça Gal. Ozório.

Pintora consagrada, Déa Lustosa realizou exposições na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna - MAM, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, dentre outras. Estudou artes com os professores, Carvão e Astréa Al Jaick.
Seu filho, Dr. André, nos conta que foi procurando vencer a depressão que Déa, há alguns anos, descobriu a pintura soltando as amarras de um talento promissor, até então imanifesto.

Déa e Ruy tiveram três filhos: Guilherme Junqueira Xavier, empresário, falecido há 14anos; Rogério Junqueira Xavier, empresário, que agora com eles faleceu; e André Junqueira Xavier, médico, residente em Florianópolis. Filhos estes que lhes deram oito netos e um bisneto. São eles, os netos: João Paulo, Danilo, Felipe e Vitor – filhos de Guilherme; Raquel e Karina – filhos de Rogério; Olívia e Catarina – filhas de André. Danilo é pai da bisneta Maria Eduarda.

O inesperado desaparecimento de Déa produz uma grande lacuna na cultura leopoldinense. Alegre, sonhadora, altruísta, ela se entregava com paixão às boas causas. A todos motivava pelo entusiasmo com que abraçava desafios, como ocorreu na fundação da Academia Leopoldinense de Letras - ALLA e, ultimamente, com a perspectiva de serviços importantes ao Orfanato, legado maior do Padre Júlio Fiorentini a Leopoldina.

Entre os membros da ALLA, sensação é de choque. De Brasília, o Dr. Antonio Márcio J. Lisboa, empossado na Academia no dia 18 de dezembro último, assim se manifestou: “Não estamos acreditando. Há dez dias tão alegres, recebendo-nos no dia de minha posse... Ela, o Rogério, que cuidei desde que nasceu! Que tragédia! Estamos chocados”.

O presidente da Academia, Dr. Ronald Alvim Barbosa, dedicou ao casal, Déa e Ruy, estes versos acrósticos:

“Déa e Ruy

Depois de um curto tempo e uma curta convivência
É a lógica de Deus, que não é a nossa,
A nos revelar uma amizade sincera e infinita.

E aparece a saudade, que ficará conosco.

Recebendo cartões com votos de paz e alegria,
Uma notícia nos deixa petrificado
Y – ficamos como a letra, sem sentido e desolado.”

Na quinta-feira, 18 de dezembro, quando Léa e Ruy reuniram amigos em sua casa para uma íntima e descontraída recepção ao novo membro da Academia Leopoldinense de Letras, Dr. Antonio Márcio J. Lisboa, a morte daquele casal tão pleno de vida e alegria, juntamente com o filho Rogério, era algo absolutamente impensável. Hoje, a realidade aterradora se impõe e nos remete ao filósofo alemão, Goethe, que disse: “A morte é de certa maneira uma impossibilidade, que de repente se torna realidade”.

Estivemos com Déa e Ruy na quinta, 18, quando nos receberam. Transbordavam alegria. É assustador o desaparecimento repentino de pessoas tão felizes com a vida.

16.01.2009
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dádivas da Criação

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Janeiro, 2010

Um mundo pelo qual poucos se aventuram é o das florezinhas silvestres. Sempre me interessei por elas. Em meus hábitos rurais, quando ando por terrenos baldios, gramados ou por algum trecho de floresta mais afastado, sou atraído por essas pequeninas manifestações divinas no anonimato de seu rasteiro habitat.

É o mundo maravilhoso das ervas daninhas que florescem. Quase sempre flores diminutas, azuizinhas, amarelinhas, vermelhinhas. Não resisto à tentação de levá-las comigo com total cuidado para não romper-lhes as raízes, e elas parecem já saber que irão encontrar um espaço só delas no meu jardim. Tenho, sim, um berçário de plantinhas sem nome. Quando ganham estatura e força conquistam seu lugar de honra num canteiro condigno.

Com trato que elas não receberiam no abandono das florestas e dos pastos, criei meu jardim onde as flores sem eira nem beira possam provar às outras, aristocratas, que com um mínimo de apoio e dedicação de mão amiga elas também podem florir e demarcar os finos traços dos melhores paisagistas.

Acredito nesta regra. Os elementos da natureza sempre agradecem graças recebidas. O reino animal, com beleza, saúde e crias abundantes, responde ao bom trato que lhe damos. O reino vegetal, com viço e colheitas abundantes recompensa o rurícola que se esfalfa no amanho da terra. É como se prevalecesse um código de ética e gratidão entre os seres vivos, desde os animais superiores à menos seleta de uma reles erva daninha.

Eu só não contava com o enorme transtorno que me vem causando uma danadinha/daninha dessas minhas afilhadas “sem juízo”. Não faz muito tempo, passando como de costume por uma charneca de terras ácidas, descobri, humilhada e sofrida, rente à agonia de um velho tronco, certo raminho na ponta do qual pontificava uma minúscula, porém radiosa, florzinha rosa. Paixão à primeira vista.

Ajoelhei-me para melhor estar com ela, e, com extrema delicadeza, procurei removê-la de seu leito sem ofensa mínima às raízes. Acomodei-a num pouco de terra úmida contida numa folha de panacéia silvestre, fazendo-a chegar intacta a seu cantinho especial no berçário das minhas mudinhas recém-natas.

Pude observar sem repulsa a aspereza de suas pequenas folhas de pouco viço e o colorido particularmente sem brilho de suas pétalas. - O que falta a ela é bom trato, pensei.

Como ostentasse todo o aspecto de uma trepadeira leguminosa, foi o “cardápio” das leguminosas providenciado para ela. Terra fértil, úmida, um pouco de calcário, sol moderado.

Em poucas semanas a plantinha disparou para a vida. As folhas, antes diminutas, triplicaram-se em tamanho e aspereza, as hastes ganharam espinhos agressivos iguais a unhas de gato, as gavinhas pálidas e comportadas agora avançam sem limites pelas paredes, telhados e cercas divisórias, já ameaçando invadir a casa vizinha. Passou a cobrir e a sufocar outras espécies, reproduzindo-se desmedidamente através de milhares de sementes voadoras incrivelmente férteis, tangidas pelo vento.

Enfim, deu-se o caso em que a criação pareceu virar-se contra o criador. Mas não é bem assim. Toda explosão de vida, independente da intensidade com que desabrocha, é uma dádiva da criação.
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(Publicada em 07.01.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)