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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Aos Cuidados do Mar

***


Vê, caminheiro, como te servem amigas estas flores,
Amarelas, vivas, furta-cores,
Olores de madrugada no rigor da estrada.
Erga teus olhos desvanecidos
E não te abstenhas
De reverenciá-las com um sorriso.
Esquece tua noite,
Aplaca a frustração cabisbaixa
Dos teus olhos aflitos.
Espera o dia, ó trôpego carregador de sonhos,
Em que as flores prevalecerão.
Nuvens negras desertarão o azul
E uma possibilidade de primavera inquietará
A invernia dos tristes.
Numa ilha ideal que os passarinhos elegeram
Um poeta demenciado
Sepultará na areia, aos cuidados do mar
Fragmentos roídos de penas e malfados.


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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Praias de Minas Gerais



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Eu vim de Minas
Eu vim das serras
Eu vim de onde
O olhar se perde

E o azul esconde
O que é lonjura ou céu.

Mas além, depois dos longes
Aguaram-se os meus projetos
Constou remota a esperança
Melaram planos em aberto.

Por isto, ideais que eu tinha
Agora não tenho mais
Meus sonhos pulcros de moço
São praias de Minas Gerais.

São praias de Minas Gerais!
Praias de Minas Gerais!

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(1985)

Canção Suprema

***


Um dia hei de compor uma canção suprema,
De verter raios de sol pelas palavras
E tisnar os instrumentos
Com arenito dos astros.

Uma canção de ouvir em noites cálidas,
Na intimidade dos anelos mais gratos
e das lucubrações silenciosas.

Portadora de harmonia soberana
E acordes de empréstimo
Às criaturinhas delicadas da natureza,
aos pássaros cantores
E aos pequeninos insetos trinantes.

Uma serenata de aguçar o brilho sutil
nos olhos espantados
Dos répteis
E das aves noturnas.

Que toque de muito perto a santidade dos projetos divinos,
Aqueles em que Deus haja infundido os mais claros
Sinais de Sua precedência.

Excelsos acordes que ouvidos humanos jamais alcançaram
Hão de comover, no céu, o próprio Menino Deus e Santa Terezinha de Lisieux,
Mãe de humildade e doutora da Igreja.
Acordes sob os quais se reunirão os anjos
E as almas que se salvaram pela música.

Uma canção em razão da qual todos venham a pedir silêncio,
Todos... sem exceção e sem qualquer aviso
De que eu a compus, exclusivamente, para você,
Mulher.

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(1985)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Mãe d’Água

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Quis esta sorte, violeiro amigo,
Levar meus olhos àquela ribeira
Onde Mãe d’Água que você não viu
Por mim foi vista pela vez primeira.

Mãe d’Água, Mãe d’Água!
Mãe de leite, mãe de criação,
Mãe de ternura,
Mãe da redenção.

Mãe d’Água, Mãe d’Água!
Que nos redime na paz e na dor,
Mãe deste pobre,
Mãe do Imperador.

Mãe d’Água, Mãe d’Água!
Mãe d’Água, Mãe d’Água!
Mãe d’Água, Mãe d’Água!

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(1965)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

E Leopoldina, hem!

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Maio, 2004

Deu no Jornal Nacional: Ubá, nossa vizinha Ubá, continua "dando samba" para o Brasil. Com Ary Barroso o samba tinha balanço baiano, agora o ritmo é internacional. Ubá entrou no ritmo das exportações. De grande "pólo moveleiro" (fabricante de móveis), Ubá agora passou a importante exportadora do produto!

Enquanto isto, Leopoldina ... Ah, nossa querida Leopoldina! Cataguases foi distrito seu, hoje está disparada na frente, orgulha-se de seu Colégio Estadual, projeto de Oscar Niemeyer, paisagismo de Burle Max, mobiliário de Joaquim Tenreiro, esculturas de Jan Zach e mural Tiradentes de Cândido Portinari.

Muriaé também foi distrito seu, um horror de geografia, enclave quase inviável entre o rio e o barranco vermelho ... Disparadíssima na frente!
Será que Laranjal ainda nos engole para depois pegarmos poeira de Argirita e Recreio?

As grandes cabeças, os grandes empreendedores responsáveis pelo desenvolvimento de Ubá, Muriaé e Cataguases têm nome, endereço e CPF. É só conferir. Alguns deles foram, providencialmente, levados à Prefeitura por seus concidadãos.

Alguma coisa sempre esteve errada, com Leopoldina. Temos uma elite tradicional, um povo clara e reconhecidamente culto. Temos posição geográfica mais favorável. Precisamos começar a dar sorte.

Você, eleitor, escolherá seu prefeito em outubro. Pelo amor de Deus, pense em alguém que você julgue em condições de diagnosticar e resolver os problemas da cidade. A escolha é toda sua. Não dou opinião. Em primeiro lugar porque não sou dono da verdade. Em segundo, porque penso que opinião é como escova de dentes: cada um usa a sua. Mas capricha, amigo!
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(Publicado em 31.05.2004 no jornal LEOPOLDINENSE)

Veneno de cada dia

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Maio, 2004


Li, ontem, um artigo sobre a toxidade de certos alimentos. Lembrou-me o caso dos navios de soja vendidos à China, há alguns anos, e devolvidos. Bastou que uma pequena quantidade de grãos contaminados por agrotóxicos, misturados a toneladas contidas num navio, fossem detectados pela vigilância chinesa para que os barcos tivessem que voltar ao Brasil com suas cargas infectas.

O episódio nos deu a prova do quanto nós, brasileiros, somos diariamente envenenados às refeições. Não é de hoje, que os mega produtores de alimentos nos envenenam.

Ou será que os produtos que nós ingerimos passam por fiscalização igual à chinesa? Claro que não. A gente engole o que esses irresponsáveis mandam para nossa mesa. Fubá de milho contaminado; óleo, leite, bifes etc., de soja contaminada; farinha de trigo contaminada por raticidas e pelos de ratos (exames do Instituto Adolfo Lutz sempre acusaram); morangos contaminados (a Globo mostrou que produtores de morango do sul do Brasil não arriscam comer o que colhem); batatas inglesas, campeãs dos defensivos sistêmicos, mandados pela raiz ao interior do produto para que as pragas o rejeitem; tomates superenvenenados (quanto mais bonitos mais temíveis); melancias nas quais turistas estrangeiros, avisados, nem tocam (um produtor de melancia, em Ceres, Goiás, me disse que a pulverização do agrotóxico é semanal, mas, se chover, passa e incidir no dia seguinte a cada chuva).

E a carne? Meu Deus! Nos velhos tempos já deu até marchinha de carnaval: "Comeu carne de boi, falou fino”... O Brasil não controla o hormônio atochado no gado de corte. Criadores, claro, gostam de lucro. Se podem tocar hormônio na orelha do boi pra ele dobrar de peso na metade do tempo, não contam até dois. O resultado? Bom, não provo a relação causa e efeito entre comer carne e falar fino. Só sei que é notável o naipe de sopranos no país, e que o Brasil é campeoníssimo em canto lírico nas cidades sopraninas de San Francisco, Amsterdam e Milão.

E nem adianta fugir da carne vermelha. A carne branca, do frango, também tem hormônio. Muito! E, aqui entre nós, hem: hormônio de galinha.


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(Publicado em 31.05.2004 pelo jornal LEOPOLDINENSE)

domingo, 27 de novembro de 2011

O Paradoxo da Saúde

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Novembro, 2000

Agora que conhecemos a opção das urnas, os telescópios baixam objetivas na realidade corrente. No nosso caso, o foco é a Casa de Caridade Leopoldinense. Como diria Chico Buarque, num verso de bom gosto, pode ser que "venha aí bom tempo".

Dois médicos do Corpo Clínico do hospital foram eleitos, respectivamente, Prefeito e Vice-Prefeito de nossa cidade. O Dr. José Roberto Oliveira e o Dr. Guilherme Junqueira Reis. Passados apenas alguns dias da apuração, comentários sobre composição de Governo não vão além do terreno indemarcado das especulações. Pode, todavia, vingar raciocínio itinerante segundo o qual o Dr. Guilherme viria conciliar suas funções de Vice com a responsabilidade da Saúde. É previsão alvissareira.

O médico Guilherme Junqueira Reis, pela segunda vez, vice-prefeito de Leopoldina tem uma respeitável folha de bons serviços à nossa DRS, já foi Provedor da Casa de Caridade Leopoldinense, já foi Secretário de Saúde e está, hoje, à frente do Asilo Santo Antonio, onde realiza um bom trabalho.

É, de longe, uma das inteligências mais agudas desta cidade, um homem probo, amigo, de finíssimo trato, muito equilibrado e sereno em seus posicionamentos.
Podem amanhecer das mãos dele − evidentemente, dentro do ideário do Prefeito José Roberto − dias menos nublados no horizonte da CCL.

É indispensável que Prefeito, Vice-Prefeito, Vereadores, todos, nos ajudem a "pensar" o Hospital, com a certeza de que, para ele, não existe remédio vindo de fora. Empréstimos, reforços de verbas ... é tudo bobagem. Temos que viabilizar, domesticamente, o Hospital.

Como sabemos, as entidades hospitalares, filantrópicas, neste Brasil, pós Constituição de 1988, resvalaram para a inviabilidade empresarial. Quebrados, vão esticando a própria agonia com o leite ordenhado de uma pedreira chamada Sistema Único de Saúde.

Se a situação comportasse humor poder-se-ia dizer que os constituintes de 88, ao assegurarem direito à saúde para todos os cidadãos, esqueceram-se de inscrever norma pétrea na "Carta Magna" segundo a qual toda despesa maior que recursos existentes, ficaria "obrigada" a gerar saldo positivo ...

Um absurdo não maior que deixar, como deixaram, os recursos fora dos cálculos.
Prevaleceu o insidioso populismo econômico de sempre. Nas palavras, sempre recorrentes, do ex-presidente do Banco Central, professor Gustavo Franco, da PUC-RJ: "É o lado kitsch da política econômica". Um mundo de conquistas sociais absolutamente inconsistentes, sem respaldo correspondente nos meios que as viabilizem, tipificando a definição do kitsch, tão bem escolhida pelo José Guilherme Merquior: "O agradável que não reclama raciocínio".
E salve-se quem puder!

Legislativo, legisla; Tribunal aplica. Saiu num jornal de Brasília decisão reconhecendo direito a um segurado do SUS de internar-se e tratar-se em qualquer instituição (mesmo particular), independente da existência de vaga. Viva!
-Será o triunfo do bem, no Arrnagedon? Ou apenas mais um espasmo kitsch, com seu meritório de efeito ao qual racionalidade não se aplica?
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(Publicado em novembro de 2000, no jornal PROJEÇÃO)

Casa de Caridade Leopoldinense - Provedoria

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(Artigo publicado pela Gazeta de Leopoldina, a 25 de novembro de 2001)

Encerra-se a dia 31 de dezembro próximo, o mandato de dois anos do atual Provedor da Casa de Caridade Leopoldinense. Novo administrador que vier a ser eleito receberá o Hospital em boas condições de funcionamento, razoavelmente organizado, com prioridades definidas mas, infelizmente, trabalhando ainda no vermelho.

Para equilíbrio das contas a CCL busca atingir 30% de atendimentos a particulares e de convênios (saiu de 8% para 15%) e necessita recontratar, com a Prefeitura, o "Convênio do Pronto Socorro", vencido deste janeiro/2001, principal ralo a drenar impiedosamente os parcos recursos do Hospital. Mas não é fácil.

Durante todo o ano 2000 e, depois, durante os dez primeiros meses de 2001, veio lutando a Provedoria para acertar com a municipalidade, e com sua área de saúde, os termos desse Convênio e o recebimento das dívidas da Prefeitura com Hospital, débitos que se elevam, hoje, a cerca de R$150.000,00!

Tempo rigorosamente perdido. As administrações municipais − tanto a anterior como a atual − não demonstraram qualquer interesse pela sorte do Hospital. Num caso e no outro, a política oficial do município resumiu-se a "ir empurrando com a barriga" para que o Hospital contabilizasse, sozinho, os prejuízos do Pronto Socorro, que é MUNICIPAL!

A Provedoria da CCL, que no episódio, sempre teve a exclusividade da boa-fé e da responsabilidade social (não fechou o PS), esperou longos meses por uma solução honesta: insistiu, redigiu projeto de lei, redigiu proposta de novo Convênio, submeteu a estudos, ouviu promessas enganosas ... para nada!

Farta de ser ludibriada e desrespeitada em sua inteligência, a Administração da Casa de Caridade fez aquilo que há dois anos vinha tentando evitar: DECIDIU PELA COBRANÇA JUDICIAL DE SEU CRÉDITO.

Nada pessoal. O Provedor do Hospital cumpre o seu dever diante dos doentes pobres de Leopoldina que, em derradeira instância, vêm sendo, e continuarão a ser, os verdadeiros prejudicados, os sempre enganados!

É, pois, a Instituição solicitando ao Judiciário prestação jurisdicional inevitável, diante do que considera uma injustiça contra os necessitados que do Hospital dependem e nele se socorrem.

No mais, superando percalços, a Provedoria, com apoio irrestrito do Corpo Clínico e da população, fez o possível para melhorar a CCL nestes dois anos de mandato.

Como uma prestação de contas aos LEOPOLDINENSES DE BEM, que contribuíram com ajudas diretas ou com simples apoio, segue abaixo uma relação dos principais trabalhos desenvolvidos no Hospital, de 1° de janeiro de 2000 até agora:

* Reforma de todos os 11 apartamentos do chamado POSTO-G, setor destinado a pacientes particulares e de Convênios, nos quais se refez a pintura, reviu-se instalações hidráulicas e elétricas, colocou-se armários e ventiladores de teto, para melhora do padrão de conforto e higiene;
* Reforma equivalente, com troca de piso, em mais cinco apartamentos, no POSTO-B.
* Reforma equivalente, em duas enfermarias de quatro leitos e de quatro quartos, no POSTO-C;
* Remoção e reconstrução do piso dos corredores (em “Granilite”, material recomendado pelas autoridades de saúde) de todas essas unidades;
* Idem, piso do novo Raio X, o qual foi reformulado e ganhou saída externa, independente;
* Idem, reconstrução do piso do Salão de Convenções e escadaria de acesso;
* Ampliação, reconstrução e pintura nova, com piso de granilite, em 300m2 na Hemodiálise, que dobrou de tamanho. Passando a ser, talvez, a maior e melhor da Zona da Mata;
* Abertura de novo espaço nobre para aumento da capacidade do CTI para até doze leitos;
* Por sua excelência, nosso CTI tornou-se o único da região, detentor da classificação Classe-O;
* Recuperação de cerca de 1/5 dos telhados afetados por chuvas diversas;
* Recuperação de parte da História do Hospital, com análise de documentos, e abertura de uma Home Page na Internet com informações urbi et orbe, sobre: Antiga Beneficência Português a; Galeria dos Fundadores; Serviços disponíveis; Convênios disponíveis; Quadro Clínico; Especialidades abrangidas; Exames diagnósticos disponíveis; Cursos programados; Composição da Diretoria; Quadros Administrativo e Técnico; etc. (Agradecemos a Paulo Roberto (Bebéu), do Provedor CEFETLEO - Net & Mail Marketin Ltda, que, gratuitamente, implantou e mantém a H. P do Hospital)
* Extinção do HOSPIMED, Plano de Saúde inteiramente irregular, oneroso para a CCL, e que a expunha a instituição a riscos efetivos de penalidades;
* Renegociação de dívidas com Banco e com fornecedores;
* Contratação de novo Médico Radiologista para o Raio-X, que deixou de funcionar apenas duas vezes por semana, passando a estar diariamente disponível;
* Rodísio médico no Pronto Socorro, para atendimento mais qualificado;
* Alteração e revigorização do quadro de Recepcionistas, inclusive com reciclagem do pessoal em curso pago pelo Hospital;
* Melhora no serviço de Copa e Cozinha;
* Criação de Chefia para o Centro Cirúrgico, onde descontrole sempre gera prejuízos;
* Pacto com a Associação Médica para reforma do Salão Nobre, com pintura e colocação de piso no salão e na escadaria;
* Realização da "I-Jornada de Terapia Intensiva", para reciclagem do corpo médico do C.T.I. e do Pronto Socorro, aulas proferidas por nove profissionais de ponta, dos Hospitais do Fundão, Barra D'Or e Hospital Espanhol, do Rio de Janeiro;
* Convênio com a Faculdade do Leste de Minas (Faculdade de Caratinga) para ministrar, em Leopoldina, um CURSO DE AUXILIAR DE ENFERMAGEM, pelo PROFAE. Este curso está em andamento, com aulas teóricas no espaço físico do Grupo Escolar
Botelho Reis, e aulas práticas nas dependências do Hospital. Beneficiam-se cerca de 80 alunos leopoldinenses, sendo 9, "Auxiliares de Enfermagem" da C.C.L. que não possuíam formação técnica;
* Diferenciação nos vencimentos do CTI e das Chefias do Hospital, com vistas à hierarquização motivadora em favor daqueles que, compondo com a Administração da Casa, detêm postos de comando e responsabilidades específicas;
* Informatização do Hospital sem uma única contratação de pessoal técnico; apenas capacitando nossos funcionários em cursos de especialização;
* Intervenção moralizadora no Raio-X;
* Corte de despesas telefônicas mediante controle rigoroso de chamadas através da mesa e da retirada de telefones ociosos em residência de servidores;
* Aprimoramento dos critérios de COMPRA;
* Padronização dos medicamentos de uso interno do Hospital;
* Informação permanente à população, via Rádio e Jornais da cidade, das necessidades e problemas do Hospital, às custas do Provedor, sempre sem qualquer ônus para a Instituição;
* Solicitação de colaboração a leopoldinenses ausentes, através de 2.000 cartas enviadas a ex-alunos do Colégio Leopoldinense;
* Patrocínio de BARRACA NA FEIRA DA PAZ, com o único intuito de "divulgar" o Hospital, chamando pessoas para a nossa causa, já que o trabalho na Feira é estafante e o resultado financeiro bastante modesto;
* Promoção de dois jantares no Rotary, em favor do Hospital;
* Promoção de duas grandes rifas em benefício da Casa de Caridade: de um CARRO, doado pela Associação Médica, no ano 2000 e de um LOTE DE TERRENO, doado pelos empresários, Everton e Eduardo Almeida da Silva, em 2001;
* Venda de Rifas, Camisas e Adesivos do Hospital, promovida pela grande colaboradora da CCL, Sra. Patrícia Carraro.
* Negociação com a Companhia Força e Luz Cataguases¬Leopoldina, da cobrança da contribuição mensal dos Sócios na Conta de Luz do usuário, a fim de facilitar sua associação, e a de seus familiares, ao Hospital;
* Pleitos, os mais variados, em favor do Hospital, junto a Prefeitos, Autoridades, Deputados, Gerência e Diretorias de Bancos, BNDEs, etc., em REUNIÕES a que o Provedor compareceu, pessoalmente, em Leopoldina, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, sempre às suas expensas, sem quaisquer despesas, de deslocamento ou hospedagem, para o Hospital;
* Viagens múltiplas do Provedor à Secretaria Estadual de Saúde, em Belo Horizonte, sempre por conta própria, para cobrar abonos de AIHs (Autorização para Internação Hospitalar) não pagas e verbas de reforço;
* Apoio a funcionários para reciclagem, em Belo Horizonte ¬ Curso de Reciclagem em Informática; em Juiz de Fora, reciclagem específica para C.T.I, na Faculdade de Enfermagem de Juiz de Fora;
* Humanização de apartamentos, enfermarias e quartos do Hospital com Crucifixos e Gravuras doadas por Leopoldinenses generosos, capitaneados pela Sra. Juracy Barbosa Furtado.
* Leilão de cerca de 70 Bezerros, doados por Pecuaristas da região, numa colaboração espontânea do Leiloeiro William Horta;
* Aquisição de uma Usina de Oxigênio, cuja entrada em funcionamento, nos próximos dias, trará ao Hospital economia mensal de cerca de R$14.000,OO, com gases medicinais;
* DENÚNCIA DO CONVÊNIO QUE REGE OPRONTO SOCORRO e cobrança de 8 meses de Convênio, Ano 1996, que a Prefeitura se recusa a pagar, em longa negociação com Prefeitos e Secretários de Saúde, tarefa desgastante e inglória que termina agora com o ajuizamento dos créditos do Hospital, no Foro de Leopoldina;
* Criação Estatutária e venda de títulos de SÓCIO CONTRIBUINTE DO HOSPITAL, facultando aos adquirentes um verdadeiro "Plano de Saúde" ao alcance da população leopoldinense de baixa renda, que passa a contar com atendimento mais digno e sem o transtorno de filas;
* Criação da "Associação dos Hospitais Filantrópicos da Zona da Mata", em novembro/2001, com vistas a fortalecer o poder de barganha dos Hospitais com fornecedores, congregando cerca de 15 Hospitais − de Além Paraíba, Manhumirim, Manhuaçu, Muriaé, Cataguases, Ubá, Barbacena. Viçosa etc. e cidades adjacentes − Associação esta cuja sede é em Leopoldina. MG;
* Obtenção do apoio da Classe Médica em todas as iniciativas da Provedoria, tais como, doação de AUTOMÓVEL para sorteio, contribuições da Associação Médica para obras do Hospital, adesão generosa dos senhores médicos ao Plano "Sócio Contribuinte" etc;
Nosso muito obrigado a todos.

José do Carmo Machado Rodrigues
(Provedor da Casa de Caridade Leopoldinense, mandato de 01/01/2000 a 31/12/2001)

Lula e Hu Jintao

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Novembro, 2004


Doze de novembro de 2004 bem que poderia ser instituído como o dia nacional da mentira piedosa. Domingo, último, sonhando fazer "negócios da China", Lula curvou-se à imposição do presidente chinês, Hu Jintao, de visita a Brasília, e declarou que a China é uma “economia de mercado”.

Tudo mentirinha: a China tem economia sob controle absoluto de um governo totalitário e sua rede bancária é oficial.

É um tipo de economia que promove práticas desleais de comércio, como o dumping, que é a venda de produtos por preços inferiores ao custo, aniquilando indústrias concorrentes em países parceiros. Por esta e por outras, não é economia de mercado.

Mas quem precisa vender  avião da EMBRAER, tem muito boi nelore pronto para virar bife nas pastagens do serrado, soja a dar com o pé e coxinha de frango que não acaba mais para oferecer a 1,2 milhões de chineses, faz qualquer negócio...

Parece que Lula ao ouvir a exigência do simpático Hu, virou-se para o intérprete e deu uma de FHC:
¬ Pergunte, rapidinho, aí pro companheiro Jintao em que idioma ele quer que eu diga isto!

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(Publicado em 19.11.2004 no jornal LEOPOLDINENSE)

O Navegante Negro

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Novembro, 2004
Arte: Luciano Baia Meneghite (LUC)

Faz muito tempo! Noventa e quatro  anos! Em novembro de 1910, mais de dois mil marujos, liderados pelo marinheiro João Cândido, apoderaram-se dos navios de guerra ancorados na baia da Guanabara e apontaram os canhões para os principais prédios públicos da capital, exigindo o fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil.

O governo gastara uma fortuna para modernizar a Esquadra, fazendo do Brasil uma das maiores potências navais do mundo, mas o Código Disciplinar da Armada continuava o mesmo da monarquia ... Foi a chamada Revolta da Chibata.

Na noite de 22 de novembro explodiu o movimento com o marinheiro João Cândido, o “Almirante Negro", assumindo o comando do Minas Gerais. Morreu na luta o Comandante Batista das Neves, alguns oficiais e vários marujos. Sem saída, Hermes da Fonseca que assistia a uma ópera quando começaram os canhonaços, encomendou rápido um projeto a Rui Barbosa (que, aliás, tinha apoiado a reinstauração dos castigos) pondo fim aos açoites e concedendo anistia aos revoltosos.

Só que o troco do governo viria depois. "O negro que violentou a história do Brasil", segundo Gilberto Amado, foi preso com mais 17 marinheiros numa masmorra da ilha das Cobras. Quinze morreram sufocados. João Cândido sobreviveu e foi mandado para o Hospital de Alienados, onde os médicos negaram que estivesse louco. Foi a julgamento e absolvido em novembro de 1912, porque a jovem república brasileira já começava a ficar bonita, exatamente pela ação de bravos como ele.

Tanto que “a história não o esqueceu”. João Cândido, com sua Revolta da Chibata, inspirou João Bosco e Aldir Blanc na belíssima canção, "O Mestre-Sala dos Mares". Lembram-se da Ellis Regina?

-Há muito tempo, nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu.
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu.
Conhecido como Navegante Negro,
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar para o mar, na alegria das regatas,
Foi saudado no porto, pelas mocinhas francesas,
Jovens polacas e por um batalhão de mulatas!
Rubras cascatas jorravam das costas dos negros
Entre cantos e chibatas,
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do marinheiro gritava: Não!
Glória aos piratas, às mulatas,
Às sereias!
Glória à farofa, à cachaça,
Às baleias!
Glória, a todas as lutas inglórias
Que através de nossa história
Não esquecemos jamais!
Salve, o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais...
(Mas faz muito tempo!...)

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(Publicado em 19.11.2004 no jornal LEOPOLDINENSE)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Jorginho Guinle

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Março, 2004

Pra esse a cafajestalha tinha que tirar o chapéu. Jorginho jamais trabalhou. Veio ao mundo para possuir o Copacabana Palace e gozar férias. Divertiu-se nababescamente pelos melhores hotéis e cassinos do planeta. 

Tornou-se figura obrigatória em festas nos castelos da Europa, festivais de cinemas e entregas de Oscar.
O colunista americano Earl Wilson, numa aglutinação de Brazil com millionaire, chamava-o de "Brazillionaire". 

Apesar de baixinho, era considerado atraente pelas mulheres, simpático e muito querido por todos. Namorou algumas das mais belas e famosas atrizes de Hollywood.

Ruy Castro nos conta, no livro Ela é Carioca, a "cantada" com que ele conquistou Ionita Salles Pinto, modelo, socialite e empresária, uma das mulheres mais lindas e inteligentes (primeira da classe no Colégio Notre Dame, Rio de Janeiro) de seu tempo.

Fascinado com a sensualidade e a beleza de Ionita, ao se conhecerem na boite Le Bateau, disse-lhe:
"Ionita tenho, 52 anos e você tem vinte. Dê-me dois anos de sua vida. Para você, isso não é nada. Para mim, é uma vida inteira!".             

Cantada tão sincera que ela acabou lhe dando sete anos – observou Ruy Castro.

Acho também que Jorginho acaba de ser "grande" na maneira como escolheu morrer. Reduzido à penúria financeira ("Calculei meu dinheiro para viver 80 anos e cheguei a 88. Me danei!") foi internado no Hospital Público de Ipanema, com aneurisma.

Os médicos lhe teriam dito que o risco da cirurgia seria o mesmo da "não cirurgia". Prontamente ele assinou um termo de responsabilidade dispensando bisturis e foi morrer com dignidade num apartamento do Copacabana Palace (Parece que, no contrato de venda do Hotel, reservara para si direito a um quarto enquanto vivesse).


Jamais Jorginho Guinle se imaginaria aos 88 anos, decrépito, com escaras, em humilhante definhamento terminal, numa enfermaria de Hospital Público. Playboy de alto nível não perde a dignidade nem na hora de morrer.

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(Publicado em 13.03.2004 no jornal LEOPOLDINENSE/)

Feijão Cru – Lenda e Monumento

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Maio, 2004

Leopoldina, saída sul da cidade, esquina de Av. Getúlio Vargas com Av. Jehu Pinto de Faria: quando a antiga BR-4 (Rio-Bahia), ainda de saibro, passava dentro da cidade, por volta do início dos anos 50, ficava ali uma guarita de madeira, da Polícia Rodoviária Federal. O local era então conhecido como "Posto Policial".

A BR, entretanto, mudou sua rota (*), a polícia se foi e, do lado oposto à Jéhu Farias, na Getúlio Vargas, apareceu um bar que ficaria famoso, o "Gato Preto". Famoso talvez pelo nome − realmente inspirado − mas que teve vida breve.

O logradouro, entretanto, nunca mais deixou de ser referido como "Gato Preto". Agora, exatamente a propósito dos festejos dos 150 anos da cidade, a Prefeitura ergue no local um monumento à "Lenda do Feijão Cru": uma trempe, um caldeirão suspenso sobre base onde se pode ler, no bronze, o resumo da conhecida história dos caçadores e seu feijão pagão.

Como a grana municipal é módica, pauperis est numerare pecus, ou seja, "quem é pobre conta suas ovelhas", a obra fica longe de ser majestosa. Mas vale pelo que informa às crianças e certamente emprestará ao local sua terceira denominação.

Podemos até especular sobre a escolha do novo nome do lugar, pelo povão:
-"Panelão"? -"Panela de Feijão"? ...
Só temo por um nome e gostaria de não admitir: "Caldeirão do Hulk"! Se isto acontecer procuro, pessoalmente, o Prefeito e peço para ele passar um trator em cima.

Bem a propósito, cabe uma crítica inofensiva e sincera: Se a palavra "revoltados", na placa, pudesse ser substituída por "decepcionados" , acho que ficaria perfeito.
=====
(*) Até a década de 1950 não existia caminho ou mesmo trilha por onde passa, hoje, a Av. Jehu Pinto de Faria. O espaço, ali, era terreno acidentado, inacessível, da chácara do Orfanato. Aquele acesso providencial à cidade foi obra dispendiosa, realizada pelo DNER, para encurtar o trajeto da BR que − antes do contorno pela Cooperativa de Leite e pelo Trevo para Cataguases – transitava por onde é, hoje, a Rua Nossa Senhora Aparecida, Rua Alan Kardec, Av. Mal. Humberto de Alencar Castelo Branco, Av. Getúlio Vargas e Rua José Peres. Engana-se quem pensa que a Rio-Bahia passava pela Rua Antonio Fernandes Valentim. Jamais passou por ali, embora a estrada existisse para tráfego de pedestres, carros de boi e cavaleiros que, da Boa Sorte, da Constança ou da Onça, demandavam à cidade. Parte da Rua Antonio F. Valentim passava (e passa) por terreno pantanoso, impróprio para o tráfego pesado da BR.
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(Publicado parcialmente no LEOPOLDINENSE de 15 de maio de 2004)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Valeu, amigos!

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Novembro, 2011

Valeu, amigos!
Minha limonada ficou pronta. Não dizem que é a melhor coisa a fazer quando se ganha um limão? Pois bem, tomei o limão em minhas mãos, dividi-o em dois, protegendo o rosto dos jatinhos lacrimejantes da casca, liguei o espremedor de frutas, pressionei uma parte de cada vez sobre o rotor e colhi o caldo, puríssimo, num copo grande. Acrescentei água geladinha, cinco gotas de adoçante para moderar no açúcar, e pus-me, vagarosamente, a degustar o que, antes, era o cítrico acerbo. Delícia, nem tanto, mas já não me marejava os olhos.

Vocês sabem que estou falando de minha assimilação ao fim do “nosso” Bloghetto da Maria Helena. À primeira hora a notícia caiu pesada aqui em casa. Prontamente, no entanto, passei a conjeturar sobre as razões que moveram nossa laboriosa titular do espaço a acabar com ele. Perguntei a mim mesmo:
-Você não achava “uma loucura” a carga que Maria Helena carregava sobre os ombros? Você aceitaria estar no lugar dela, fazer o que ela faz? Não precisou mais! Para mim, o encerramento do Blog estava justificado.

Lamentavelmente justificado.

Estes últimos anos de convívio e trocas, virtuais, com Maria Helena, o cuidado que passei a sentir por ela, não me permitiam indiferença ante a azáfama em que ela se envolvera. Como agravante, o enorme senso de responsabilidade e perfeccionismo por ela dispensados a compromissos assumidos, sempre a exigir empenho e sacrifício redobrados. Chegaria o momento em que, alguma coisa, ela precisaria descartar.

Optou por encerrar o Blog... O custo, para nós, leitores, é severo: nosso espaço de convivência agradável – digamos − entra em recesso. O benefício, entretanto, o justifica: a amiga Lenita, como todos nós, tem limites físicos que a idade impõe, e não pode, apenas com a bengala e a coragem, enfrentar uma alcateia de leões na arena das manhãs, numa pancadaria que toma o dia e entra pela madrugada... Acaba chegando o dia da caça, ou seja, o momento infeliz em que o “bicho pega”.

Vejo-a cortando onde precisa e pode cortar. Digo pode porque sequer nos causará perda irreparável.
Desocuparemos “um cômodo”, mas não precisaremos abandonar a Casa Grande, que é o providencial Blog do Noblat, no qual estamos desde a fundação, e permaneceremos com o mesmo entusiasmo. Portanto, nos veremos sempre por aqui, gente boa.

José do Carmo Rodrigues

* * *
A você, Maria Helena, meu reconhecimento sincero pela acolhida de quase três anos à nossa Conversa Mineira. Deus lhe assegure o sucesso. Sua bondade lhe rendeu créditos em felicidade. Um beijo e o conforto do amigo, jcr.
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(Última Crônica publicada no Blog da Maria Helena que se encerrará dia 20.11.2011)
(Publ. a 17.11.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

Voar, poeta

***

Saudade qualquer
flutua imaginosa
nuvens de algodão.
No silêncio cor de rosa
desse terno, desatento
coração.

Que é sem palavras pro vento
sem sustos para o trovão
não tem ouvidos pra chuva
nem alma pra solidão.

Voar
no limiar das coisas santas
e tantas!
Ser poeta por castigo
carregar sempre comigo
ilusões perdidas...
Nem sei quantas!


********
(1965)

Juramento

***

Eu juro
Por certa fé que virou brilho nos meus olhos
E certo fogo que é centelha no meu peito,
Juro pela confiança nas sensações que me brotam
Espontâneas,
No milagre da forma, na busca do mais perfeito,
Pelos meus pés sentindo a arte exilada nas palavras,
Juro pela minha sede de poeira e de caminho
E por uma gana quase doida de chegar,
Eu juro
Que se amanhã vos perguntarem se eu venci,
Se já cumpri, se exitei, se cheguei lá,
O conciliador das esperanças vos dirá:
- Não, ele ainda tarda, pois que marcha devagar,
Mas é de estrada e certamente chegará.

********
(1963)


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sábado, 12 de novembro de 2011

Jovens Descartáveis

***
Novembro, 2011


Tem me batido a sensação de que já vivi o bastante. Nasci e cresci num país de terceiro mundo, com um povo descrente de si mesmo, mal dando conta do complexo atávico de ex-colônia dos trópicos. Aquele peso do pecado original de não ser europeu ou americano do norte. Pode ser problema meu, mas sempre me senti mais ou menos assim.

Eis, no entanto, que minha geração amadureceu vendo algumas coisas mudarem. A paixão do primeiro mundo europeu pelo futebol valorizou demais nossos cinco títulos mundiais no esporte. Ao mesmo tempo começamos a aparecer bonito também na fotografia do vôlei, modalidade esportiva que “até os americanos” respeitam e nos esportes olímpicos. Construímos um mercado interno forte, nos tornamos ponteiros na produção de grãos e de carne. Alcançamos avanços tecnológicos importantes.

Ultimamente, já preparadinhos para morrer de vergonha por termos colocado um operário sem cultura formal na presidência da república, eis que o homem vira líder performático internacional, visto lá de fora como um “Pelé” da sociologia política e, internamente, um Padim Ciço Milagreiro, dos fracos e dos oprimidos.

Não bastasse isto, nosso líder é ungido por Deus através das perfuratrizes da Petrobrás. Num passe de mágica, a ex-colônia alcança a fidalguia do hemisfério norte e a fortuna, daqui mesmo, escondida a sete mil metros chão a dentro.

E, convencidos de que a felicidade vem da terra, por pouco não acabamos de vez com o analfabetismo remanescente, legalizando a verbalização das batatas...

De que “ficamos ricos”, até dispensaríamos a prova dos nove, mas ela veio com a velha Europa às voltas com uma crise econômica contagiosa, sendo que, caprichosamente, pelo menos até agora, não se mostrou suficientemente idônea para nos afetar.

Não é de eriçar vaidades? É sim. Os de minha geração que morrerem hoje, morrem realizados. Vimos tudo o que sonhamos ver! Não importa se com os pés um pouquinho descolados da realidade. Mas que vimos, vimos.

Pena que velho vive levando susto da juventude. Quando foi que nós, os encanecidos de hoje − que nos escondíamos de nossos pais para fumar um cigarrinho de tabaco, filado na rua – iríamos imaginar nossos netos invadindo uma Reitoria, em protesto pelo direito, que acreditam ter, de traficar e usar drogas ilícitas dentro do campus da maior Universidade da América Latina?

Ainda bem que não será a essa minoria descartável que a atual geração de “coroas” irá entregar um país, tornado viável e respeitável. As notícias dão conta de que, para a maioria dos estudantes, as aulas na USP seguiram normalmente.

Ótimo, é o Brasil preparando seus herdeiros.
  
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(Publ. a 10.11.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os Direitos da Galinha Mãe #

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Novembro, 2011

Foi o vaqueiro Neneco Passarim que me trouxe ciência do sucedido. Tá lá – ele disse – pra quem quiser ver; o seguinte se deu na Fazenda Filadélfia, confinante com o povoadinho nanico que eles falam Estiva, aqui mesmo em Minas, na estrada que vai dar no comércio de Piacatuba, Vila Nossa Senhora da Piedade − no dizer dos mais antigos.

-Ver pra acreditar! Uma galinha, na propriedade do cumpade Zezim, vinha tranquilamente chocando seus ovos quando uma cadela deu de parir cinco cachorrinhos bem à roda do ninho dela. Ah, pra quê! A galinha virou mãe de cachorro.

Neneco Passarim não mente. De fato, Madame Barrada – que esta era a raça da tal galinha − tornou-se mãe adotiva de cinco filhotes de cachorro. Foi numa das andanças costumeiras de mamãe canina que dona galinha admitiu, sob seu corpo, os filhotes da vizinha e cuidou de proteger maternalmente os bichinhos, passando a reagir com bicadas às intromissões farejadoras de Mlle. Au-au.



Compenetrada, quando algum dos recém-natos ensaiava deixar o aconchego plumoso para mamar, ela esticava o pescoço em gancho e o trazia de volta para debaixo das asas.

Submeti a inusitada questão ao advogado dativo, Dr. Modus Vivendi. Diz ele que, “in casu, não se configura a conduta típica de sequestro de menores” já que, a “inexistência de linha demarcatória inequívoca entre os dois domicílios, não autoriza falar em remoção de incapazes para logradouro diverso daquele em que a parturiente biológica os trouxe à luz”.

Terá havido, no máximo, “lesão despicienda ao exercício do direito ao pátrio poder, por obra da mãe bípede, em desfavor da mãe quadrúpede” − pátrio poder esse, aliás, hoje substituído na terminologia jurídica pelo politicamente correto poder familiar, eis que a primeira fórmula aparentava negar “ao ente feminino sua prerrogativa incontrastável de guarda compartilhada das respectivas crias”.

Entende, porém, o renomado jurisconsulto que “a parte teria dificuldade em acostar a eventual processo judicial, tendente a dirimir dúvidas, conteúdo probatório convincente de qualquer intromissão da parte ovípara no espaço maternal canídeo, exato por ter pertencido a ela, geratriz dos quíntuplos, a escolha do local onde parir sua ninhada”.

Fê-lo – assevera o lúcido causídico – praticamente no âmbito domiciliar da coricocó, e sem o desvelo de preparar, para os nascituros, um berço acolchoado e aquecido por peninhas fofas, delicadas, “como aquele disponibilizado aos recém-natos pela indigitada mãe postiça – a qual restará, via de consequência, imune a reprobatórias inquinações”.

Tais circunstâncias, a todo passo, não teriam o condão – adverte ainda o Dr. Vivendi − de desobrigar Mamãe Cadela do imperativo legal de prestar alimentos à sua prole, ex vi legis (pela força da lei), sob pena das cogentes sanções legais aplicáveis à espécie em comento.

O juridiquês tem a transparência de uma clara de ovo, não acham?

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(Publ. a 03.11.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Um Carinho Especial

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Novembro, 2011


Estive fora no dois de novembro. Para mim, nunca foi uma data qualquer. Desde criança já ia com meus irmãos e meus pais ao cemitério, no Finados, levar flores à “sepultura do vovô”. Sempre chovia, o campo-santo (que, em Leopoldina está mais para “morro-santo”) virava uma desordem lamacenta, um tremendo transtorno. Na volta, invariavelmente, o cuidado de minha mãe:
– Não entrem com os pés sujos... Deixem os sapatos aí fora!

Ainda hoje, quando não me desincumbo da visitinha à derradeira morada dos meus convocados ao alto, começa a trilar aquele desconforto renitente do dever não cumprido. A gente se condiciona à ideia de que nossos entes queridos estão lá, ávidos de atenção, prontos a nos acudir. O fato é que precisamos ilusões para viver. Se forem mais que ilusões, melhor: a fé elimina incógnitas filosóficas. Mas se o imperativo da razão nos abjura a utopia, surgem tormentos a reclamar escolhas, ainda que imprecisas e provisórias.

Lembro muito aquela cena do filme, Zorba, o Grego, em que o personagem de Antony Quinn, dá as costas à mulher amada ao constatar sua morte. Afasta-se do cadáver e diz:
– Não é mais ela!

Ali, Zorba espanca a dor num rompante de racionalidade, mas nunca é tão fácil ao ser humano dispensar o amparo providencial das ilusões. Faz-nos bem acreditar na perenidade da alma por uma razão bem clara: nascemos para viver; não nascemos para morrer. O Criador parece ter-nos infundido a convicção de que a morte é um despropósito a ser resolvido. Um dado acidental da criação.

Mas se vocês pensam que com este papo melancólico estou a fim de arruinar nossa Conversa de hoje, estão enganados. Escolhi apenas o introito à história de um sujeito que leva a morte na brincadeira. Ou, pelo menos, parece que leva. Vejam só: aconteceu a primeiro de novembro do ano passado.

Sem mais nem menos, apareceu aqui em casa – em rápida passagem pela cidade − um desses parentes distantes que a gente conhece de ouvir falar e nunca imagina andar por perto. Logo na apresentação descobrimos nele um cara legal, prosa agradável, casado com uma prima, com quem também perdemos contato. A fama do sujeito, na família, é de ser meio escorregadiço na maionese, parafusos intracranianos meio frouxos. Preconceito, talvez, por sua veia artística, constando ter trabalhado no circo quando jovem. Hoje, segundo diz, cria peixes ornamentais numa chácara em São Paulo. Passa dos cinquenta e está viúvo há uns dez anos.

Minha prima, a ex-esposa dele, foi artista plástica de renome, mulher muito bonita, elegante, produzia óleos inspirados. Do casal sempre se soube viver muito bem, “um feito para o outro” – se me socorre o rifão batido.

Pois bem, era véspera de Finados e, por delicadeza, mas também pelo prazer que nos daria, minha mulher e eu o convidamos a passar a noite em nossa casa, descansar, e viajar no dia seguinte. Caía a tarde e o destino dele, Campinas, em São Paulo, implicava dirigir setecentos quilômetros à noite. Muito perigoso – argumentamos.

Ele agradeceu o convite, mas não ficaria porque tinha um “compromisso inadiável” para a manhã do dia seguinte, no cemitério de sua cidade: “dar uma mijadinha na sepultura da Dinah”...
-Êpa! O quê!
Tivemos que rir, claro. Que brincadeira mais escrachada de maridão saudoso de sua amada!... Ponderado, todavia, ele nos confiou sua história.

Certo dia – disse – assim, meio irresponsavelmente, eu e Dinah combinamos que o primeiro de nós a falecer receberia, todo ano, do que ficasse vivo, “uma mijadinha na sepultura”... Nada de levar a urina num frasco e derramar lá; não, isto não é mijar. O trato era verter o xixi in natura...
Pelo sim, pelo não – aduzia ele − agrada-me vir cumprindo esse compromisso com ela nos últimos anos e é, exatamente, o que farei amanhã.

Objetamos quanto ao pudor público, o constrangimento diante de tantas pessoas em visita ao campo-santo no finados...
−Sem problema, disse ele. Uso uma capa tipo sobretudo. Dá para disfarçar bem. E acreditem, faço isto num gesto de carinho, do fundo de minha alma! Carinho muito sincero, tá.
Pareceu emocionar-se. Ficamos pensando na boa ideia do ilusionismo com o sobretudo.

Caspita! Sorte da prima, que morreu primeiro. Para ela, mulher, certamente seria mais complicado.


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(Publ. a 27.10.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

José Américo Barcellos

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Outubro, 2011

As presentes notas biográficas falam com emoção de um amigo, recentemente falecido, com o qual mantivemos algumas décadas de agradável convivência. José Américo Barcellos, radialista e dentista na cidade de Leopoldina, embora um pouco mais velho, me honrou com sua amizade desde os tempos do velho Colégio Leopoldinense, de histórica memória, e do mestre muito querido do Zé, o inesquecível, Prof. Geraldo de Vasconcelos Barcelos, com suas aulas superlativas no Gabinete de Química. Cito, propositalmente, apenas o Prof. Barcelos, com escusas aos outros grandes professores do célebre educandário, porque sou testemunha da marcada influência que aquele cultíssimo educador exerceu sobre a formação do nosso José Américo. Ele sempre citava o “Barcelão”.

Certa vez, participando de um programa dele na Rádio Jornal, Zé Américo me perguntou, de microfone aberto, se eu sabia que o palmito era uma poderosa fonte de proteína. Fui sincero e disse que não estava seguro disto. Ao que ele retrucou:
- Então o Prof. Barcelos só lecionou isto em minha classe. Ensinamento – prosseguiu ele – que confirmei, depois de adulto, numa matéria de jornal que falava do desenvolvimento da toxina botulínica (que é um complexo protéico) em latas de palmito industrializado. E concluiu José Américo:
– O Barcelão, lá atrás, já me havia ensinado isto!
Notável, seu culto ao velho mestre e poeta Geraldo de Vasconcelos Barcelos.

Mencionei radialista e dentista. Radialista em primeiro lugar porque antes de graduar-se em odontologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, ele já ocupara o microfone da ZYK-5, Rádio Sociedade Leopoldina, ainda estudante do Colégio Leopoldinense. Principalmente em transmissões esportivas.

“Zé Américo”, como veio a se tornar amplamente conhecido pela quase totalidade da população leopoldinense, nasceu no dia 10 de julho de 1932 na cidade mineira de Dom Silvério, filho de Luiz Torres de Barcellos e de Da. Lygia Domingues Barcellos.

A vinda da família para Leopoldina, na década de 30, coincide com a chegada, a esta cidade do Padre, depois Monsenhor, José Domingues Gomes, religioso de cultuada memória, que vinha a ser irmão de Da. Lygia. Assim, Luiz Torres de Barcellos chegou a Leopoldina em companhia do cunhado, sacerdote, tornando-se, depois, funcionário da Concessionária Ford, do Sr. Acácio Serpa.

O menino, José Américo, desde os doze anos, costumava dirigir o carro do tio, Pe. José Domingues, acompanhando-o nas viagens de celebração nos distritos de Leopoldina. Tornou-se ainda coroinha nas missas celebradas pelo Padre, ocasiões em que recitava invocações e orações em latim, circunstância que sempre relatava em família com muito orgulho.

Portanto, residindo em Leopoldina desde a infância, o nosso Zé Américo cursou o primário no “Grupo Escolar Ribeiro Junqueira”, conhecido como “Grupo Velho”, hoje Escola Estadual Ribeiro Junqueira. Primeiro e Segundo graus ele os cursou no então “Colégio Leopoldinense”, rebatizado por sua vez em Escola Estadual Professor Botelho Reis depois da estadualização, na metade dos anos 50.

Graduou-se Zé Américo em Odontologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora; graduou-se em Ciências, Física e Biologia pela Faculdade de Filosofia Santa Marcelina de Muriaé; tornando-se, por último, Professor no Programa de Saúde – Anatomia e Escultura Dental, pela Universidade do Trabalho, de Belo Horizonte.

Na área da saúde, paralelamente a seu consultório odontológico particular, na cidade, foi dentista do SESI, ao longo de 25 anos, e prestou serviços odontológicos à SAMSA – Sociedade de Assistência Médica e Social de Argirita, durante 10 anos; por concurso, em 1978, fez-se dentista do Centro de Saúde Dr. Irineu Lisboa, em Leopoldina; e, por duas ocasiões, prestou assessoria à Secretaria Municipal de Saúde de Leopoldina, nos períodos 1993/1996 e 1997/1999.

No concurso de dentista para o Posto de Saúde, Zé Américo foi aprovado em primeiro lugar. Aliás, lembrava ele que, ao inscrever-se nesse certame, foi avisado por alguém que a vaga já estava definida, tinha dono, e que o concurso seria um jogo de cartas marcadas. Deu-se, entretanto, que José Américo obteve uma pontuação tão superior aos demais concorrentes, que acabaram criando uma vaga a mais: uma pro tal “apadrinhado”, que se confirmou existir, e outra para ele, o primeiro colocado no concurso.

No magistério, Zé Américo lecionou Ciências, Física, Biologia e Química na Escola Estadual Professor Botelho Reis, de Leopoldina; lecionou Biologia no Ginásio Espírito Santo, também nesta cidade; exerceu o cargo de Vice-Diretor da Escola Estadual Professor Botelho Reis; e, ainda em nossa terra, fundou, no ano de 1969, um Curso Preparatório para Exames Vestibulares, do qual era o Diretor. A este último curso ele denominava “Escolinha” e as aulas eram aos sábados e domingos, sem custo algum para os alunos. Ali ele ensinava, já naquela época, radioatividade e possibilitou que os alunos tivessem acesso ao microscópio. O prazer dele era ensinar e compartilhar conhecimentos.

Seria, entretanto, na área do jornalismo radiofônico que o nome de Zé Américo calaria mais fundo na alma leopoldinense, com sublinhada inclusão das camadas mais populares dos municípios e localidades adjacentes. Foi homem de rádio por excelência. Sabia levantar a notícia, dizê-la ao microfone de maneira clara e atraente para o grande público.

Dominava como poucos o dom de cativar o ouvinte, repartindo com ele a informação. Suas falas – sempre de improviso – eram permeadas de humor e respeito ao público ouvinte. Quando se socorria em algum vocábulo mais erudito, ele prontamente o “trocava em miúdos” para que todos entendessem. O mesmo fazendo se a “louçania” provinha da boca de algum entrevistado. Era o rádio em sua tarefa básica de divertir e informar.

Se levava ao ar alguma denúncia, era no cumprimento de seu dever profissional, de jornalista e cidadão, mas sempre com o microfone democraticamente aberto para quem desejasse “responder” ou “esclarecer” o fato. Um homem ético, portanto, incapaz da incidência no erro das atitudes inflexíveis ou rancorosas.

As poucas vezes em que o poder político subtraiu-lhe o microfone coincidiram com momentos em que fatos comprometedores reclamavam “versão oficial” que omitisse a verdade. A paixão do velho radialista pelo microfone não era maior que sua honra. Sempre que necessário perdeu o microfone, para manter dignidade. Essa ninguém lhe tascou!

Em sua vida particular sempre foi pessoa acessível e muito simples. Nada mais fácil que chegar a ele e falar com ele. Nas primeiras horas do dia costumava transitar pela Praça João XXIII, nas imediações do Ponto de Taxi fronteiro à Rádio Jornal, quando não se detinha por longos papos nas cadeiras comunicativas do Bar Lamarca. Estar por ali era para ele como tomar o pulso da cidade. Parodiando o antigo colunista Ibraim Sued, ao dizer que “em sociedade tudo se sabe”, Zé Américo frequentava a “República do Lamarca” (denominação dada por ele ao local), esquina onde “a vida leopoldinense é passada a limpo”, e fervilha – talvez até um pouco além da conta...

Para se ter uma ideia do grau de informação daquela esquina, imaginem que há alguns anos, o autor destas linhas combinou com o Otto Valentim (o ex-craque botafoguense, Otinho) a compra de um imóvel que o mesmo possuía em Leopoldina. Acertamos o negócio por telefone, à noite: eu, em minha casa de Leopoldina e ele em seu apartamento do Rio. No dia seguinte, antes do meio dia, Otinho chegava, direto do Rio, ao Cartório do Adilson Velasco, onde já o aguardávamos. Assinamos a escritura e fomos a pé até o Banco do Brasil, na Pça. Gal. Osório, onde o preço do imóvel seria transferido para a conta do vendedor...

Pois não é que, ao passar pelo Bar Lamarca, sem que interrompêssemos a caminhada, pessoas nos davam “parabéns pelo negócio”! Pensei comigo:
- Como eles ficaram sabendo, meu Deus? Haveria uma “escuta”, algum microfone de alta impedância plantado dentro do Cartório?...
Tem-se aí o “grau de informação” reinante na “República do Lamarca”.

Zé Américo sabia das coisas. Sabia que naquela esquina nada passa despercebido. Sem falar que todos os políticos profissionais de Leopoldina têm olheiros plantados naquelas cadeiras. São os “rêmoras”, ou peixe piloto, aqueles miudinhos que acompanham os tubarões para lambiscar migalhas no banquete voraz do predador.

O bom jornalista sabe de suas fontes. Pela Rádio Cataguases Zé Américo chegou a totalizar 381 transmissões esportivas, como repórter e apresentador; pela Rádio Leopoldina foram 62 transmissões esportivas, locais e regionais, Das mãos dele saíram 32 campeonatos regionais de futebol, organizados.

Nos anos 80, por sua atuação na Rádio Cataguases, o nome de Zé Américo firmou-se como influência marcante nas cidades de Leopoldina, Cataguases, Juiz de Fora, Muriaé, Além Paraíba, Miraí, Recreio e Visconde do Rio Branco. Deu-se, aliás, no programa intitulado “Esportes com Zé Américo”, naquela emissora, que nosso biografado atingiu seus mais altos índices de audiência, inclusive com a montagem, ao vivo, nos estúdios do programa, de vários campeonatos regionais – claro, com a participação, “no ar”, de todos os interessados.

A partir de 1987, Zé Américo, assumiu a gerência comercial e administrativa da Multisson Rádio Jornal de Leopoldina, onde se destacou com os programas de jornalismo político, “Flagrantes”, “Fio da Navalha”, “Ponto Crítico”, “Detalhes”, “Integração” e, seu último sucesso de público ouvinte: o “Roda Viva”.
Entre 1989 e 1992 e no ano 2000, trabalhou na Prefeitura Municipal de Leopoldina, como Assessor de Imprensa,

A Rádio Jornal de Leopoldina, antiga ZYK-5, experimentou, na diretoria arrojada de José Américo, sua fase áurea. Realizou transmissões diretas, do Maracanã e do Mineirão, durante 6 anos consecutivos, de jogos do campeonato carioca e mineiro. Dependendo da importância do “clássico”, a cobertura da Rádio incluiu, algumas vezes, transmissões de jogos realizados no interior paulista.

Também no jornalismo escrito a presença de José Américo mostrou-se substanciosa em suas passagens pelos jornais “Nova Fase”, “Gazeta de Leopoldina”, “Folha de Leopoldina”, “Jornal Ilustração” e “Correio da Cidade”, de Cataguases. Mercê de sua simpatia e comunicabilidade, grande traquejo social e notável facilidade de improviso ao microfone, não foram poucas as vezes em que foi solicitado a conduzir eventos políticos, sociais ou culturais.

Felizmente, em muitas oportunidades José Américo logrou colher o reconhecimento de seu trabalho. Exemplo disto foi a Feira Estadual de Ciências, promovida pelo Colégio Central, de Belo Horizonte, em que alcançou classificação com seu aparelho de física denominado “Paradoxo Gravitacional”.

Em 1985 conquistou o troféu “Destaque Imprensa”, pela Rádio Super B-3, de Juiz de Fora, e, naquele mesmo ano, a Liga de Futebol de Juiz de Fora promoveu um campeonato regional para disputa do “Troféu José Américo Barcellos”, o qual, aliás, veio a ser vencido pelo Nacional Atlético Clube, de Muriaé.

A Câmara Municipal de Cataguases concedeu-lhe o título de Cidadão Cataguasense. Para seu maior orgulho, também o legislativo leopoldinense, como não poderia deixar de ser, atribuiu ao filho dileto – que apenas por acaso não nascera em Leopoldina – o título de Cidadão Leopoldinense.

Nosso maior nome da imprensa falada de Leopoldina tornou-se ainda detentor da “Medalha Ordem do Mérito Legislativo” do Estado de Minas Gerais, a ele outorgada pela Assembléia Legislativa de Minas, no dia 3 de dezembro de 1999.

José Américo Barcellos casou-se, aos 10 de janeiro de 1959, com Da. Wanda Bela Barcellos, falecida há cerca de três anos. O casal teve um único filho, o hoje engenheiro, Helder Bela Barcellos, casado com Walkiria Thomé Barcellos, que deram a José Américo e Wanda as netas, Letícia, de 20 anos e Lara, de 16 anos.

No dia 5 de setembro de 2011 faleceu na Casa de Caridade Leopoldinense esse grande exemplo de homem público e cidadão de nossa terra. Seu passamento cai como sombra e silêncio sobre o céu de Leopoldina. Para o redator destas notas uma enorme perda pessoal.

Inúmeras vezes participamos, na Rádio Jornal, sempre com muito entusiasmo, dos programas do Zé Américo. Seus convites, constantes e a simpatia com que ele nos apresentava a seu público e nos introduzia aos debates, era enorme. Mencionava, quase sempre, a figura de meu falecido sogro, o médico Dr. Lélio Lara, a quem Zé Américo sempre devotou grande carinho.

A lacuna deixada por José Américo Barcellos no coração dos amigos e na vida leopoldinense veio atestar, sim, que algumas pessoas são de fato insubstituíveis. No caso dele, muito especialmente insubstituível para seu extremoso filho, Helder com a esposa Walkíria, para as netas, Letícia e Lara, mercê da figura ímpar que foi, de esposo, pai e avô. Sem o Zé a cidade de Leopoldina não é a mesma.
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sábado, 22 de outubro de 2011

CAMG - Cidade Administrativa de Minas Gerais #

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Outubro, 2011

Sou mineiro um tanto ou quanto devagar. Ainda não conhecia a “Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves”, que o nosso ex-governador, Aécio – aliás, tão (ou mais) acariocado quanto eu – inaugurou em 2010. Estive em Beagá neste fim de semana e fui lá conferir.

É um baita conjunto arquitetônico, projetado por Oscar Niemeyer para sediar o Governo de Minas. A bem dizer, a décima quarta obra do famoso arquiteto a enfeitar Belo Horizonte, desde o conjunto arquitetônico da Pampulha, projetado nos anos 40 e principal cartão postal da cidade.

Não é que agora, setenta anos depois e com 102 anos de idade, Niemeyer resolve despachar para o primeiro mundo das maravilhas também a área norte de Belo Horizonte, cometendo ali a prodigiosa Cidade Administrativa mineira, com o Palácio Tiradentes ao centro, o maior prédio suspenso do mundo!

Do conjunto faz parte, ainda, dois edifícios, o Minas e o Gerais – confesso que achei esses nomes meio brincalhões, meio dupla sertaneja, mas deixa pra lá – sede de dezoito secretarias e vinte e cinco órgãos públicos, antes distribuídos em dezenas de endereços espalhados pela capital, centralizando a gestão, segundo dizem com grande economia de dinheiro público.

Nota dez até na ecologia do projeto: as águas da chuva escorrem para os dois lagos artificiais da parte externa do conjunto e servem para irrigar os jardins do entorno. Não se desperdiça água tratada.

Gostei muito de “conhecer pessoalmente” a portentosa sede do governo do meu Estado. Só uma particularidadezinha me fez filosofar de boteco. Caminhando pela sinuosidade dos jardins externos, e mesmo sem a certeza de que também eles sejam traços do grande Oscar, lembrei-me da conhecida declaração de amor de Niemeyer à linha curva: “Amo a linha curva, livre e sensual. A linha que encontro nos rios e montes de meu país, nas nuvens do céu, nas ondas do mar, no corpo da mulher amada (...) Das curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.

São, de fato, curvas todas as alamedas que circundam a “CAMG” - Cidade Administrativa de Minas Gerais. Do estacionamento ao Palácio, curvas. Do Palácio aos edifícios administrativos, curvas. Do estacionamento a esses, curvas. Para contornar o lago, curvas... Claro, uma beleza diante da qual também temos que nos curvar.

O problema é que na hora de caminhar sob a canícula do verão, os funcionários públicos mineiros acabam rendendo tributo indevido ao arquiteto franco-suíço, Le Corbusier que, ao contrário nosso Niemeyer, amava a linha reta. Constroem atalhos sobre a grama com a sola dos sapatos...

Achei um pouquinho irônico isto, mas nada demais. É só colocar umas lajotinhas ali, na rota dos apressados, que a grama cresce de novo. Interessa é que o projeto arquitetônico é bonito que só vendo. por mineiro, não.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE e, aos 20.10.2011, em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Empréstimos a Aposentados

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Outubro, 2011

Não sei se foi o primeiro a descobrir, mas Guimarães Rosa disse que “viver é muito perigoso” e que “viver é aprender a viver”. Se assim é, nós, os de vida rodada, não devemos nos fechar aos bons conselhos. Sempre se tira algum proveito deles. Principalmente nesse Brasil “dificultoso” onde tem muito sabichão querendo passar os outros para trás. Olho vivo neles! Mesmo a televisão, sempre estrepitosa em anúncios de “ganhos fáceis”, ontem alertava para investidas inescrupulosas às rendas dos aposentados.

Portanto, companheiros jubilados da idade provecta , não sejamos presas ingênuas nas mãos de gananciosos. Cuidado com ofertas de crédito consignável em folha de pagamento; aqueles empréstimos ou financiamentos cujas prestações serão descontadas dos proventos de sua aposentadoria. Não interessa se quem oferece a “facilidade” é um Banco, uma Financeira, ou uma Loja Comercial... Desconfie mineiramente! Quase sempre é bom para eles; e, para você, uma fria.

A agiotagem instituída detesta verbalizar a taxa de juros em que empresta o dinheiro. Ou, quando o faz, omite que os “juros baixos” apregoados, serão “juros compostos”, ou seja, calculados sobre o saldo devedor e lançados, mensalmente, para que você pague juros-sobre-juros...
-É “rúim” de dizerem isto, hem!

Desconfiar, sempre, do fácil e do barato. Milton Friedman, economista de olho limpo, que viveu 88 anos no século passado e mais 6 anos no atual, declarou que “não existe refeição gratuita”. De uma forma ou de outra a conta sempre chega porque nada cai do céu. Portanto, se as coisas têm preço, confira! Os profissionais da usura estão ai mesmo para realizar ganhos em cima dos distraídos.

Quem recebe através de Banco vive assediado com oferta de empréstimos: haja ouvido para o telemarketing, haja paciência para o lixo postal. Oferecem créditos em conta-corrente, direto no Caixa Eletrônico, Cartões de Crédito, viagens a prazo, os cambaus. O importante para eles é que façamos dívidas. Querem juros, taxas, spreads...

Quando o governo decide “aquecer o mercado” com facilidades no crédito pessoal, está utilizando um instrumento de política econômica, teoricamente legítimo. Entretanto, se numa ponta incrementa vendas, beneficiando o comércio e a indústria, na outra pode levar o drama pessoal a consumidores menos avisados – ainda que lhes propicie alegria no primeiro instante. Um raciocínio simples e equivocado leva as pessoas a supor que se as prestações mensais cabem nos proventos está ali a melhor forma de realizar passeios caros, consumir produtos do apelo midiático, trocar de carro, etc. A onerosidade da aventura é secundária.

Experimentem conferir “empréstimos pessoais” no Google. Temos lá ofertas com taxas ditas “baixíssimas”, 2%, 2,5% , ao mês, por aí. Parece pechincha, não é? Mas calcule um empréstimo de 100 mil reais, por exemplo, a 2,5% ao mês. A juros compostos, já no primeiro mês o emprestador aumentará o saldo da dívida em R$2.500,00! No mês seguinte, outro lançamento de juros; e mais outro, e mais outro...

Se a necessidade do dinheiro é premente, tudo bem. Convém, mesmo assim, “simular” o negócio para se ter uma ideia concreta da extensão do compromisso. Mesmo diante de instituições sérias, nunca ficar no plano das abstrações. Os emprestadores costumam dar muita ênfase à rapidez e à dispensa de cadastro limpo. Claro! Você vai autorizar o desconto na sua folha de pagamento! O lado deles está garantido.

Agora, se você já caiu no alçapão, amigo aposentado, talvez convenha procurar um advogado. O novo Código Civil Brasileiro não dá guarida à má-fé nas contratações. Todo contrato oneroso além do razoável pode ser discutido num processo: prove ao juiz que você não foi suficientemente informado da encrenca em que se metia (quase nunca se é) e sua chance de não pagar a parte extorsiva da dívida será grande.

Nada de ter vergonha. Se o agiota (travestido de Banco, Financeira, Casa Comercial, ou o que for) foi suficientemente astuto para pegar você pelo pé, seja esperto o bastante para não aceitar passivamente a extorsão.
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(Publicado em 13.10.2011 em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Casa de Caridade Leopoldinense – História #

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Julho, 2002

C.C.L. – UMA INSTITUIÇÃO CENTENÁRIA

Estes 20 dias do mês de julho de 2002 marcam os 100 anos do lançamento da pedra fundamental do prédio em que hoje funciona a Casa de Caridade Leopoldinense, na Rua Padre Júlio, 138, Leopoldina, MG.

A aritmética do tempo não demonstra diferença importante entre 100 e 99 anos, ou entre 100 e 101 anos, mas o sistema decimal é pródigo nesses arredondamentos em zero que tão bem se prestam a marcos de conquistas e a festivas comemorações. Em todo caso, 100 é um número realmente charmoso e referindo-se a UM SÉCULO de existência de obra tão importante para uma comunidade, como é caso do nosso Hospital, convém mesmo comemorar. Ao articulista que a módica criatividade discursiva o amarra à concretude dos registros históricos, boa maneira de honrar a efeméride será oferecer aos leitores suas anotações sobre a centenária instituição. Vamos lá.

A idéia de construção da Casa de Caridade Leopoldinense parece ter surgido na cabeça do vitorioso e lúcido advogado Gabriel de Paula Almeida Magalhães. Se não teve ele a exclusividade da iniciativa, foi certamente quem lhe dispensou a decisiva acolhida.

A República ainda não havia completado cinco anos, em setembro de 1894, quando, integrando a Comissão de Saúde de nossa Câmara Municipal, os médicos Joaquim Custódio Guimarães Júnior e Joaquim Antonio Dutra, fizeram votar a Lei Municipal nº24/1894, que destinava fundos do orçamento daquele ano (20 contos de réis) e do ano seguinte, de 1895 (10 contos de réis), para auxílio na criação de um Hospital. Era presidente da Câmara, portanto Chefe do Executivo Municipal (equivalente, hoje, a Prefeito), o Sr. Lucas Augusto Monteiro de Castro. A cena nacional estava conturbada, com o Presidente da República, Floriano Peixoto, terminando aos trancos seu grave quatriênio, depois da invasão federalista no Rio Grande do Sul, revolta na Fortaleza de Sta. Cruz e a “Revolta da Esquadra”, comandada por Custódio de Melo e, depois, Saldanha da Gama.

Em Leopoldina, já com os recursos disponíveis, mas inúmeros desafios a enfrentar, sobretudo o de encontrar prédio adequado, somente a 03/08/1896, pelo esforço de Gabriel de Almeida Magalhães, Octávio Ottoni e Lucas Augusto, pôde ser inaugurada a Casa de Caridade Leopoldinense num imóvel residencial da (atual) Rua Manoel Lobato (*).

A Gazeta de Leopoldina, em seu nº10, de 09/08/1896, noticiou a cerimônia de inauguração com elogios às contribuições dos Drs. Gabriel Magalhães e Octávio Ottoni, tendo feito uso da palavra, tão logo o primeiro presidente da Instituição, Tenente-Coronel Manoel Lobato Monteiro Galvão de São Martinho (Vice-presidente da Câmara Municipal), declarou “instalada a Casa de Caridade”, os Srs., Augusto Teixeira, redator da Gazeta, Gama Fernandes, do Jornal O Mediador, e o reverendo Cônego Angelim, vigário desta Freguesia. Significativamente, o primeiro vice-presidente do Hospital foi o médico Joaquim Antonio Dutra que, naquele ano, desempenhava a Presidência da Câmara, chefe, portanto, do Executivo Municipal. Os primeiros Estatutos foram aprovados em assembléia de 07/03/1897.

Um jornalzinho denominado “O Leopoldinense”, de 13/01/1895, informava que o cólera estava desestimulando a vinda de imigrantes para a região. Tal fato pode explicar, pelo menos em parte, o interesse dos políticos pela instalação do Hospital, sabido que naquela década, posterior à Lei de 13 de maio de 1888, ocorreu certamente a maior crise econômica de todos os tempos, no país, por falta de mão de obra e de moeda circulante para pagamento da pouca que aparecesse. Os imigrantes eram fundamentais para a economia de qualquer região e do país.

UM VULTO QUE LEOPOLDINA NÃO CONHECE

Teve, portanto, o Hospital em sua primeira Diretoria, como vice-presidente, um dos homens mais ilustres da história de Leopoldina, o Dr. Joaquim Antonio Dutra, cuja biografia merecia ser melhor conhecida por aqui. Foi médico, vereador, presidente da Câmara Municipal (Chefe do Executivo), Senador Estadual (1895), o chefe político, enfim, que antecedeu o Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira na liderança do município.

Ainda o jornal “O Leopoldinense” de 01.12.1894 informa que o Dr. Dutra, preocupado com a propagação descontrolada do cólera na cidade, pediu ao Ministro da Viação que interrompesse o tráfego do Trem de Ferro para Leopoldina. Na época não eram conhecidas as formas de contaminação pelo cólera – problema de higiene local, como só depois se soube. Mas talvez por intuição médica não deixou, o Dr. Dutra, de acertar em outra medida, sem dúvida decisiva: contratou o engenheiro Lavaguino para colocar água encanada e esgoto na cidade. Um administrador, portanto, que marcou sua passagem.

Levou-o de Leopoldina a paixão profissional pela medicina psiquiátrica quando o Governo de Minas lhe dirigiu proposta irrecusável para fundar, em Barbacena, o nacionalmente conhecido “Hospital Colônia”. No jornal “Novo Movimento”, de 28.08.1910, lê-se registro de que o Dr. Dutra era, naquela data, o Diretor da Assistência aos Alienados de Barbacena.

Indícios históricos, ainda que não absolutamente claros, sugerem que o então Governador de Minas ao favorecer o Dr. Joaquim Antonio Dutra com recursos para soerguimento de um Hospital de Alienados, em Barbacena, teria buscado, na realidade, afastá-lo de Leopoldina em benefício de lideranças locais mais prestativas a ele, Governador. De uma forma ou de outra, o médico Joaquim Antonio Dutra fez história também em Barbacena e é, hoje, designativo de um dos logradouros centrais daquela cidade.

José Monteiro Ribeiro Junqueira, que sucedeu Joaquim Antonio à frente da política leopoldinense, para aqui veio em 09.09.1894, após concluir seu curso de advocacia em São Paulo, impondo, igualmente, liderança honrada e duradoura.

O SUPREMO PROTETOR

O advogado, Gabriel de Almeida Magalhães - com a esposa, Da. Maria do Carmo Monteiro de Almeida Magalhães, os SUPREMOS PROTETORES, ad aeternum, da Casa de Caridade Leopoldinense – foi outro astro de brilho intenso nos céus da história leopoldinense. Na aurora da república transferiu-se para o Rio de Janeiro onde a família se fixou definitivamente. Seu neto, Rafael de Almeida Magalhães foi Governador do extinto Estado da Guanabara e, mais recentemente, Ministro da Previdência Social.

Há uma passagem curiosa, com o Dr. Gabriel, narrada por ex-colega de faculdade que com ele se encontrou na praça principal de Leopoldina, no ano de 1861.

Está na página 20 do livro “Histórias de um Médico”, de Cassio de Rezende. Relata o Dr. Cássio que seu pai, Francisco de Paula Ferreira de Rezende, mineiro de Campanha, que morreu Ministro do Supremo Tribunal Federal, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1855, deixando a magistratura (era Juiz) em 1861, na cidade de Queluz de Minas (hoje, Lafaiete), partiu a cavalo na direção de Leopoldina à cata de lugar promissor onde sentar banca de advogado. Pensava chegar a São Fidelis, no Estado do Rio. Cansado, porém, com os cavalos estropiados, um escravo como pajem e uma dívida de dois contos de réis, parou em frente ao único hotel de Leopoldina e, antes de apear, negociando com o hoteleiro a hospedagem, alguém lhe gritou do alto do sobrado ao lado:

-“Então, estais aqui?!... E conta Cássio Rezende: ... “volvendo a cabeça, quem meu pai havia de encontrar? Ninguém menos que seu colega Bié, um sujeito que tinha escapado de ser Visconde e que, já naquela época, era milionário. Gabriel de Almeida Magalhães que, no seio da família, tinha apelido de Bié, pelo qual era também conhecido entre os colegas... Em vez de apear no hotel, diz meu pai que deu uma rápida meia volta à esquerda, e foi cair nos braços do colega que ele não via desde a formatura. Tendo contado ao Dr.Gabriel que sua viagem não passava de procura de uma advocacia qualquer, disse-lhe o amigo que estava achado o que o ele queria, isto é, o que lhe convinha era a cidade de Leopoldina. E para convencer meu pai de que tinha razão, mostrou-lhe os seus assentamentos e, então, com um pouco de inveja, verificou meu pai que, enquanto ele partira para Queluz levando dois escravos e de lá saíra possuindo menos do que levara, o Dr. Gabriel, pelo contrário, tendo vindo para Leopoldina logo depois de formado, pouco mais trazendo de seu além do cavalo em que montava e, na garupa, a importância da própria formatura que ainda estava devendo, no fim de pouco mais de cinco anos, tinha pago todas as dívidas e já era tido até em conta de capitalista”.
Anote-se, portanto, que nosso benemérito de 1896, o Dr. Gabriel, já era homem de recursos, 35 anos antes, no ano de 1861.

NOSSO CRONISTA DO SÉCULO XIX

O advogado Francisco de Paula Rezende, pai do Dr. Cássio, é o autor da obra histórica “Minhas Recordações”, dentre outras publicações, verdadeiro repositório da vida leopoldinense nos anos aqui passados, de 1861 a 1892. Também ele fez fortuna em Leopoldina, mas aplicou-a em terras (Fazenda Filadélfia) e lavouras de café... Tendo a abolição, em 1888, acabado com as lavouras pela supressão da mão-de-obra, perdeu ele tudo o que tinha, mudando-se para o Rio de Janeiro, em 1892, em penosas condições, vindo a falecer um ano depois como Ministro do Supremo Tribunal Federal.

O PRÉDIO CENTENÁRIO

O Hospital inaugurado, como dito acima, aos 03/08/1896, numa casa da atual Rua Manoel Lobato (homenagem ao primeiro Provedor da CCL), não oferecia boas acomodações. Imóvel de destinação residencial, mobiliário modesto, embora dele se registrasse “servir para prestar bons serviços médico-cirúrgicos”. Nascia, entretanto, com o Hospital, a necessidade de um espaço mais adequado.

Com o passar do tempo, o crescimento da cidade passaria de fato a exigir maiores investimentos "em benefício dos doentes e em proveito da prática profissional dos médicos". Cogitou-se, pois, da construção de novo prédio, com mais espaço e funcionalidade, o que veio a ser feito no topo da colina central da zona urbana, vizinho à Matriz, em local arejado e descortino de ampla paisagem, tendo ao fundo a Serra dos Puris.

Foi assim que, aos 20 de julho de 1902, lançou-se a Pedra Fundamental do novo prédio, onde se acha ainda instalada a Casa de Caridade Leopoldinense, na Rua Padre Júlio, 138.

Consta que os recursos para a construção teriam sido oferecidos por pessoas da sociedade leopoldinense, além da ajuda votada pela Câmara Municipal, referida no primeiro parágrafo, acima. Existem, nos arquivos da C.C.L, escrituras antigas de doações de imóveis urbanos e legados valiosos, em favor do Hospital, prática que há muitos anos não se vê repetir.

Com muitas reformas, adaptações e acréscimos ao longo de um século é este o prédio que ainda hoje abriga o nosso Hospital.

BENEFICÊNCIA PORTUGUESA DE LEOPOLDINA

Que não se confunda a data de lançamento da Pedra Fundamental deste prédio, aos 20/07/1902, com a inscrição do marco granítico existente na porta principal da Casa de Caridade, onde se lê: "S.P.B. - PEDRA FUNDAMENTAL - LEOPOLDINA 1.12.1889".

Aquela pedra faz alusão à fundação da Sociedade Portuguesa de Beneficência, em Leopoldina, instituição da qual a Casa de Caridade Leopoldinense passou a ser sucessora, em meados de 1917.

Assembléia Geral da S.P.B., realizada em 25.03.1917 decidiu pela liquidação da Beneficência em Leopoldina. Nomearam, em ata, Comissão para indicar o estabelecimento pio que receberia o Fundo Social daquela instituição, mediante concessão de favores aos seus sócios. A escolhida foi a C.C.L.

No termo de absorção dos sócio da Beneficência Portuguesa, escreveu-se cláusula segundo a qual a C.C.L se obrigaria “a transportar do local em que está, para o seu prédio, a pedra fundamental da Sociedade Portuguesa de Beneficência, dando-lhe colocação condigna”.
Historicamente, seria o texto mais feliz se houvesse informado o endereço da Beneficência Portuguesa, em Leopoldina. Apenas quando manda “transportar do local em que está, para o seu prédio”, atesta, indiretamente, que não funcionava no local onde hoje está o Hospital.

O Hospital guarda, ainda hoje, esse documento, datado de 25 de maio de 1917, assinado pelo Provedor da C.C.L., Ignácio de Lacerda Werneck, e pelos membros da Comissão nomeada pela S.P.B, Raphael Domingues, Antonio Joaquim de Macedo Sá e João Xavier Lopes.

A Sociedade Portuguesa de Beneficência - SPB, com sua pedra fundamental lançada no dia 01/12/1889 – exatos 15 dias após a proclamação da República, antecedeu em 6 anos a fundação da C.C.L. Extinta em 1917, esteve entre nós por 28 anos.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

A primeira Mesa Administrativa da C.C.L., em 1896, ficou assim constituída:
PRESIDENTE: Tenente Coronel Manoel Lobato Galvão de São Martinho, vice-presidente da Câmara Municipal; VICE-PRESIDENTE: Dr. Joaquim Antonio Dutra, médio, e então presidente da Câmara Municipal; TESOUREIRO: João Luiz Guilherme Gaide; SECRETÁRIO: Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira.

Já no primeiro capítulo dos Estatutos originais da C.C.L. seus idealizadores inscreveram os grandes e perenes objetivos da entidade:
"a) Prestar socorro médico-cirúrgico, no respectivo Hospital, aos doentes pobres que os reclamarem, dando preferência aos do Município de Leopoldina; b) Tratar, mediante retribuição, enfermo não-indigente; c) Fornecer medicamentos e outros socorros aos indigentes".

Felizes, podemos avaliar que, apesar dos percalços, a Casa de Caridade Leopoldinense, ao longo de todos os anos, meses e dias dos dois séculos que se seguiram à sua criação, vem guardando absoluta fidelidade aos princípios e objetivo de seus bravos fundadores. Nosso Hospital dispensa dedicação quase que exclusiva à população menos favorecida da cidade e dos municípios vizinhos.

Cerca de 90% de nossos atendimentos são voltados, hoje, aos segurados do SUS. Atendimento às vezes deficiente, sim, porque é muito deficitário e nem sempre repõe sequer a cesta dos medicamentos consumidos. A chama, no entanto, permanece acesa, no coração de nossos médicos, no coração de nossas enfermeiras, porque a vida continua e Leopoldina precisa do seu Hospital muito amado.

Olhos postos na esperança de melhores dias, reconheçamos a necessidade cívica, a necessidade moral imperiosa, a necessidade cristã, de somarmos esforços de apoio ao Hospital. Que ninguém se exima alegando ser "obrigação do Governo", porque não é! A Lei ressalva que a obrigação de o Governo prover a saúde não exclui a obrigação dos cidadãos, das empresas e das instituições. A C.C.L. vem se ressentido dessa moderada sensibilidade das pessoas em tal sentido, além do proverbial desencontro Prefeitura/Hospital que, no fundo, ao contrário do que muitos pensam, nem sempre é fruto de desavenças meramente pessoais entre Provedores e médicos/prefeitos.

É que as “Santas Casas” padecem de uma realidade paradoxal: ostentam natureza jurídica de instituições privadas ao mesmo tempo em que são, de fato, “instituições públicas”, mercê de uma avassaladora submissão ao Convênio Oficial (SUS) e extrema dependência dele. Como resultado funesto dessa existência ambígua, condenam-se à obrigação civil, intransferível, de pagar sempre pelos insumos necessários a suprir o direito constitucional que os pacientes têm de não pagar pelo tratamento que recebem.

Além do que, a Saúde Pública, dita descentralizada no plano federal, em âmbito municipal resulta inteiramente centralizada na pessoa do Prefeito que detém, pelas mãos bonifrate do gestor que escolhe, o condão de discernir prioridades e imputar pagamentos, podendo assim, com a faca e o queijo, ir deixando que essas instituições híbridas se desidratem no purgatório astral de suas próprias contradições, advogando ao vento reposições de verbas sempre canalizadas para destinos eleitorais mais promissores...

Gestores e prefeitos estão em boa companhia. Na sentença de um dos “pais da Pátria Americana”, John Randolph, constituinte na Convenção de Filadélfia, citado por Roberto Campos e José Guilherme Merchior,“O mais delicioso dos privilégios é gastar dinheiro dos outros.”

É uma questão apaixonante e complexa. Sob outra perspectiva, alguém poderá sustentar que a crise dos Hospitais se resolveria simplesmente com a ampliação adequada dos atuais limites do SUS. Só que, a ser isto verdade, seria verdade inócua, destinada ao limbo, porque a sociedade brasileira não quer, ou ainda não tem como, bancar as benesses da Constituição de 88 com a criação de novos impostos.

Infelizmente, parece que o remédio será seguir buscando medidas heróicas e paliativas antes que alguém “descubra” que a solução seja municipalizar as Filantrópicas!
Como se vê, o Hospital enfrenta problemas, sim. Problemas, no entanto, que não nos impedem - a nós que amamos este legado de nossos antepassados ilustres - de comemorar estes 100 anos de muita luta e de muitas vitórias em favor dos irmãozinhos humildes que povoam nossos corredores e enfermarias, e que nem de longe admitem ver cerradas as portas de sua velha e gloriosa “Casa de Caridade”!

LIVRO DE VISITAS

A Casa de Caridade Leopoldinense possui uma verdadeira jóia histórica, que é o seu antigo Livro de Visitas.
Aberto em 20/01/1907 com uma bela manifestação do Major Alcebíades Cunha, o livro, já velhinho, maltratado pelo tempo e por certa falta de cuidado em sua conservação, foi encontrado e por nós recuperado. Dentre as dezenas de assinaturas importantes que abriga, anotamos os nomes das personagens mais importantes, algumas nacionalmente conhecidas, aduzindo pequenos comentários como contribuição à memória, sobretudo dos leitores mais novos:

- Em 03/06/1907, logo numa das primeiras páginas, lê-se a manifestação do Sr. Justiniano Matolla de Miranda, “... um tributo de minha saudade à memória de Gabriel de Almeida Magalhães...” atestando que, naquela data, o advogado e grande benemérito da Instituição já era falecido. Justiniano será, certamente, ancestral dos Matollas, família leopoldinense numerosa e muito querida entre nós;
- Aos 23/03/1908, comparece ao Livro, o Sr. Domingos Sabino, de tradicional família leopoldinense da qual o escritor Fernando Sabino é um dos descendentes;
- Em 29/12/1909, o Sr. Antenor Penido elogia o Hospital com créditos pessoais ao administrador, Francisco de Aguiar;
- Em 21/08/1910, temos as palavras e a assinatura de Olympio Machado de Almeida, importante pater familias do tronco dos Machados, de Leopoldina;
- Em 17/05/1912, palavras de estímulo e as assinaturas de Octacílio Fajardo de Paiva Campos e Famílio Fajardo de Mello Campos, dos tradicionais Fajardos, de Piacatuba;
- Os alunos do “Grupo Escolar” são levados para conhecer o Hospital no dia 21/04/1913, pela diretoria e corpo docente do estabelecimento, assinando o Livro a diretora-substituta, Maria Brígida de Medeiros Castanheira; Professoras, Maria Feliciana Torres; Antonieta Guariglia; Maria Pagano; Odette Tavares; Dulce Botelho Junqueira e o diretor, R. Mattola;
- A 18/11/1921, assina o visitante Jackson de Figueiredo (famoso escritor);
- Aos 03/08/1922, a letra e a assinatura inconfundível daquele nosso advogado que chegaria à Presidência da República, Dr.Carlos Coimbra da Luz, firmando ao lado do importante jornalista, José Dantas;
- A 13/01/1925, quem visita o Hospital e deixa no Livro sua impressão é Manoel Funchal Garcia;
- Em 07/01/1926, a assinatura gloriosa do Dr. Carlos Chagas que, discretamente, se identificou como “médico do Hospital Osvaldo Cruz”... Muito mais que isto! Ele era Diretor do Instituto Bacteriológico Osvaldo Cruz; já havia erradicado a malária na cidade de Santos (1905); já havia concluído as pesquisas para debelar a tripanossomíase do Brasil (1909), a cujo agente deu o nome de Tripanosoma Cruzi, em homenagem a Osvaldo Cruz; já havia ganho vários títulos internacionais e chefiado a campanha contra a “gripe espanhola” (1918); e, no ano anterior à sua estada em Leopoldina, a Universidade de Hamburgo, lhe havia concedido uma medalha de ouro, sendo ainda Magister Honoris Causa das Universidades de Paris e Haward;
- Em 18/06/1927, assina o filósofo e professor, Dr. Lydio Machado Bandeira de Mello como Promotor de Justiça;
- É de 24/12/1928 as assinaturas do Dr. Pompílio Guimarães; Jehú Farias, da Gazeta de Leopoldina; e de Carlos Simões, do Diário Carioca;
- A 01/05/1929, são os vereadores de nossa Câmara Municipal que assinalam no Livro sua visita ao Hospital, a convite do grande médico, Dr. Custódio Junqueira: Vereadores, Artur G. Leão; Justiniano Antonio da Fonseca; Olivier Fajardo de Paiva Campos; Joaquim Machado de Almeida (Quinca Machado); Francisco de Andrade Bastos (Chico Bastos); e Carlos Coimbra da Luz. De certo não imaginavam, esses edis de 1929, que um deles chegaria ao Catete, quinze anos depois...
- No dia 03/10/1929, assinava o Livro da Casa de Caridade Leopoldinense o visitante ilustre, Francisco Campos (o lendário “Chico Ciência”), professor, ministro da justiça no Estado Novo, cuja Constituição elaborou, jurista emérito, reformador do Código Penal, autor do Código de Processo Civil, de inúmeros decretos-leis do Estado Novo, do Ato Institucional nº1, do regime militar de 64. Por ocasião da visita a Leopoldina era Secretário do Interior, de Minas;
- A 09/12/1928, visitou-nos, deixando impressão positiva do Hospital, o Diretor de Saúde Pública, Dr. Raul de Almeida Magalhães;
- A 20/08/1934, a C.C.L. recebia a visita do Governador, Benedito Valadares;
- É de 11/06/1936 a assinatura do visitante, Dr. Antonio Neder, advogado, nascido em Caiapó, ex-aluno do Colégio Leopoldinense, futuro Juiz, Ministro e Presidente do Supremo Tribunal Federal;
- Por esse tempo também por aqui estiveram, assinando o Livro de Visitas, os jornalistas: Mario Martins, “O radical” - depois deputado, senador, escritor; Rubem Braga, “Folha de Minas” – depois, escritor; Chagas Freitas, “Correio da Noite”, Rio, depois, dono de jornais e Governador do Estado do Rio de Janeiro; e Matta Machado, “O Diário”- Belo Horizonte;
- Em 24/10/1929 duas assinaturas ilustríssimas são lançadas, juntas, no Livro: Getúlio Vargas e Benedito Valadares;
- A 18/06/1944, assina o nacionalmente conhecido cancerologista Dr. Mario Kroeff;
- Finalmente, em 13/08/1948, assina nosso Livro de Visitas o Sr. Milton Campos, na época o Governador de Minas, depois deputado, senador e ministro da justiça do governo Castelo Branco, em 1964. Deste ministério, demitiu-se em 1965 recusando-se a assinar o ato de cassação do deputado Tenório Cavalcanti, porque dele – dizia - aceitara apoio em eleição anterior... Castelo não sabia: Milton era “reserva moral” do país!

São muitas, pois, as assinaturas no Livro de Visitas do Hospital - sendo uma dádiva para o observador decifrar-lhe rubricas, nomes e sobrenomes - mas nenhuma outra encerraria com maior dignidade a presente relação.

Nota*: Estamos seguramente informados, dentre outras pessoas, por descendentes do Sr. José Wenceslau de Arantes Junqueira e da Senhora Maria Botelho Junqueira (sogra do segundo prefeito de Leopoldina, Sr. Chico Bastos, e avó do médico Dr. Rodolfo Arantes Junqueira), que foi, exatamente, no imóvel de número 47 (quarenta e sete) da Rua Manoel Lobato (geminado ao de número 57), que teria sido instalada, em 09/08/1896, a Casa de Caridade Leopoldinense. O prédio original foi demolido e, no terreno de ambos, construída uma única casa que leva o n°57 e pertence, hoje, a Francisco Junqueira Barbosa de Miranda e suas irmãs, Déa Junqueira Barbosa, Maria José Junqueira Barbosa e Leonor Junqueira Barbosa.

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(Publicado na Gazeta de Leopoldina de 31.07.2002)