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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Quando nasceu Leopoldina #

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Em abril de 2002, ano do 148º natalício da emancipação da cidade, fizemos para a Gazeta de Leopoldina uma síntese do que anotaram os principais historiadores desta mui altiva Leopoldina, nascida São Sebastião do Feijão Cru, arraial brotado à beira de um caminho nos magros tempos em que a Minas liberaram o mar.

Nossa gênese municipal tem início duas décadas antes da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil (1808), na saga heróica dos primeiros desbravadores destes “Sertões do Leste”, nas trilhas pingentes que o dianteiro abriu nas serras, nos rastros que imprimiu nos charcos, na esperança com que subjugou as charnecas.

São elos que se vão encontrando em trabalhos importantes de pesquisa e coleta de historiadores como Oíliam José (Marlière, o Civilizador; Historiografia Mineira, O Negro na Economia Mineira, etc); Nilza Cantoni (Documentos e arquivos virtuais); Mauro de Almeida Pereira (Os Almeidas, os Britos e os Netos de Leopoldina); Francisco de Paula Ferreira de Rezende (Minhas Recordações); Paulo Mercadante (Os Sertões do Leste – Áreas Proibidas); José Luiz M. Rodrigues (Machado Rodrigues - Fazenda Puris, Leopoldina e Maripá de Minas e Região); Celso Fallabela (Os Sertões do Leste – Achegas paa a história da Zona da Mata); Barroso Júnior (História de Leopoldina); Frederico de Barros Brotero (Família Monteiro de Barros) e tantos outros.

A presença de homens livres nos sertões da Zona Proibida (Zona da Mata Mineira), tem início oficial em 14.01.1784, quando o Comandante do 1º Regimento do Rio das Mortes, Cel. Manoel Rodrigues da Costa, escreve ao Governador da Província, Cunha Meneses, sugerindo diligências para explorar os “Sertões do Leste”. Na sugestão de diligências o pressuposto de que a área já seria objeto de apossamento ilegal por aventureiros. A vedação ao povoamento das Áreas Proibidas, com o que a Administração buscava resguardar a Coroa de prejuízos ao erário no contrabando de ouro por rotas alternativas à capitania do Rio de Janeiro, saíra de controle.

Autorização dada, Manoel Rodrigues da Costa volta a escrever a Cunha Meneses comunicando ter incorporado à tropa o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”, no dia 21 de abril (!) daquele ano (Neste dia e mês, oito anos depois, Tiradentes seria enforcado, no Rio).

Sob comando do Sargento Mor, Pedro Afonso Galvão de São Martinho, partindo da Borda do Campo, que a partir de 14.08.1791 passaria a denominar-se Vila de Barbacena, embrenharam-se na mata e, em quatro semanas, Galvão, anota ter alcançado o Pomba. A 05.06.1784, chega ao Porto do Cunha, confluência do Riacho Aventureiro com o Rio Paraíba.

Eis a partir de quando, sobre a “Mata” oficialmente desvirginada, avançariam posseiros e sesmeiros (ganhadores de Sesmarias), obrigando nossos “primeiros habitantes”, os índios Coroados, Coropós e Puris, a ceder-lhes espaço. Vieram eles somar-se aos ilegítimos que por aqui já se encontravam, fosse pelas trilhas e picadas do tráfico de ouro em direção ao mar, fosse pela exploração ilegal das terras.

Em 1791, quando a Freguesia de N. Srª. da Borda do Campo é guindada a Vila, com denominação de Barbacena, a região selvática do atual município de Leopoldina estava incluída naquele Termo.

Depois, em data não confirmada, o povoado do Feijão Cru, passou à circunscrição da Vila de São Manoel do Pomba, hoje Rio Pomba (Seguramente, após 13/10/1831 data do Decreto Regencial que elevou o Pomba à categoria de Vila).

No dia 10/9/1851, quando a Lei Provincial nº514 promoveu o Arraial do Cágado a Vila de Mar de Espanha, incluiu nela o nosso Distrito. Circunscritos a Mar de Espanha ficaríamos menos de três anos. Logo, a 27 de abril de 1854, pela Lei Provincial nº666, fomos nós, São Sebastião do Feijão Cru, que nos tornamos Vila, com denominação de Leopoldina. A Vila foi elevada a Cidade, sete anos depois (16/10/1861), na Lei Provincial nº1116.

O povoamento do espaço onde se desenvolveu a urbe leopoldinense manifesta-se, por volta de 1828, quando já estariam estabelecidos na região do Feijão Cru, da Serra dos Puris ou dos Monos, os irmãos, posseiros ou sesmeiros, Manoel José da Fonseca e Bernardo José da Fonseca. No local hoje conhecido como São Lourenço (Arraial), Manoel teria fundado sua Fazenda das Moças. Bernardo José fixou seus domínios em sede – no dizer de Barroso Júnior, “aos pés da majestosa muralha granítica, contraforte ciclópico da Serra dos Puris”, i.é., sob a Pedra do Cruzeiro, dando-lhe o nome de Fazenda da Grama, porque a várzea fronteiriça, cortada pelo riacho Feijão Cru, era gramada.

Mas outros pioneiros se moviam a caminho. Francisco de Paula Ferreira Resende, registra que as primeiras famílias de Leopoldina, os Almeidas, os Britos e os Netos, aqui chegaram no dia 30.09.1829, vindos de Sta. Rita do Ibitipoca, Conceição e Bom Jardim, numa viagem que durou 30 dias. O chefe da comitiva foi o Comendador Manoel Antonio de Almeida.

Ao chegar, Manoel Antonio adquiriu de um posseiro chamado Felipe, 848 alqueires de terra no “Feijão Cru Pequeno”, riacho que vai do atual distrito de Tebas à confluência do Feijão Cru com o Rio Pomba, nas proximidades de Cataguases. Trouxe consigo, o Comendador, muitos amigos, serviçais e alguns parentes, dentre os quais o Tenente Joaquim Ferreira Brito.

Nilza Cantoni anota indícios da extrema dificuldade em que viviam as famílias mineiras naquela quadra da história, para compreender-lhes “a decisão de enfrentar a mata com todos os seus perigos”. Diz Nilza: Aparentemente, qualquer coisa seria melhor do que deixar-se levar pela degeneração que atingia fazendas e fazendeiros, faiscadores ou comerciantes. Jovens solteiros empregavam-se, com alguma freqüência, em tropas que demandavam o interior das Gerais, no comércio de gêneros de subsistência. Chefes de família também o faziam, muitas vezes, por verem, na tropa, o único trabalho que garantiria o sustento de sua prole miúda. E quando um parente distante os vinha visitar, propagando maravilhas das terras que estavam à venda, nas “áreas proibidas”, muitos fazendeiros incorporavam-se em alguma tropa que fosse trilhar aquelas paragens.

E prossegue: Parece-nos que foi essa a trajetória de um dos povoadores de Leopoldina. Até onde nos foi possível apurar, em 1826 ou 27, o “Comendador” Manoel Antônio de Almeida acompanhou uma tropa, que pode ter sido de seu sobrinho Manoel Thomaz Pereira de Almeida, através da hoje conhecida Zona da Mata Mineira. E, nas margens do Feijão Cru, adquiriu as terras onde formou a “Fazenda do Feijão Cru Pequeno”.
Em setembro de 1828, Manoel Antônio de Almeida levou a família para a nova morada. Parece-nos que, em viagem, teria passado pelo atual município de Astolfo Dutra, onde ficou um de seus filhos.

Manoel Antonio de Almeida não era um desbravador insensível. Consta que aos escravos deu alforria plena, 17 anos antes da “abolição”, doando a onze deles 25 alqueires das terras que possuía.

É, ainda, a genealogista e historiadora, Nilza Cantoni, a ressalvar que as datas de chegada desses fundadores nem sempre são exatas, pela precariedade dos registros. No caso acima, por exemplo, Nilza tem evidências de que Manoel Antonio de Almeida, nascido aos 19.08.1782, em Sta. Rita do Ibitipoca, patriarca dos Almeidas de Leopoldina, por aqui já estivera de passagem no ano de 1825.

Em 1831, a construção de uma Capela dá ares citadinos ao povoado que se insinuava às margens do Riacho Feijão Cru, onde hoje está o Largo do Rosário. Joaquim Ferreira Brito, senhor da Fazenda Cachoeira, localizada “na saída para a Meia Pataca” (agora Cataguases), vindo de Sta. Rita do Ibitipoca na comitiva do Comendador Almeida, como dito acima, decidiu erguer, naquele ano, uma igrejinha sobre o morro, depois chamado “Morro da Matriz”.

O terreno, pertencente à Fazenda Desengano, foi doado, em 30.01.1831, pelo proprietário, genro de Joaquim, Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda. Construção extremamente simples, paredes de pau-a-pique e cobertura com bicas de palmito, foi edificada pelo carapina Benedito, historicamente referido como um “crioulo do Turvo” (possivelmente de um lugarejo com este nome, nas proximidades de Bom Jardim), profissional habilidoso, que já havia construído para Bernardo, na Fazenda da Grama, um moinho movido a água represada do Feijão Cru.

É injusto que a história não tenha anotado mais dados sobre o carpinteiro Benedito do Turvo, a cujas mãos hábeis uma cidade ficaria devendo sua edificação pública seminal.

No que informa Barroso Júnior, Francisco pensou consagrar a Capela ao culto de Santa Rita, padroeira de Ibitipoca, mas prevaleceu sugestão de Bernardo José da Fonseca em favor de São Sebastião, protetor contra a peste, porque o cólera já havia matado um escravo de Antonio Gomes Rodrigues, na Fazenda Córrego do Bagre, e uns índios Puris, para o lado da Meia Pataca.

Igreja demanda sacerdote e, curiosamente, o primeiro a chegar por aqui, Padre Manoel Antonio Brandão, também influiu na implantação do vilarejo. Natural do Sumidouro de Mariana, Padre Manoel, para cá se transferiu por empenho do Dr. Antonio José Monteiro de Barros, dono da Fazenda Paraíso, cujo tio, Dr. Marcos, era padre e Senador do Império.

Em visita à Fazenda Cachoeira, Pe. Manoel convenceu o abastado sesmeiro, Joaquim Ferreira Brito, a doar ao Padroeiro, para as primeiras casas do lugarejo, “todo o vale ao pé da Capela de São Sebastião”. Joaquim, que já fizera uma primeira doação em 01.06.1831, atendeu ao pedido do persuasivo religioso com nova doação aos 30.11.1831, cedendo ainda um “trato de terra” para o cura edificar sua casa. Está-se falando, possivelmente, de toda a baixada que vai das imediações da sede da Prefeitura até a região do Largo do Rosário.

Ao construir a “Matriz” de São Sebastião, pode-se dizer que Joaquim Ferreira Brito tornou-se o fundador de Leopoldina. É certo também que, a partir das doações de terras por ele feitas, no plano do Rosário, pôde a Vila florescer num “aglomerado irregular de edificações rústicas, quando a Província de Minas Gerais era presidida por Manoel Inácio de Melo Souza, o Barão do Pontal” – como também atesta Barroso Júnior.

Naturalmente, depois dos pioneiros eminentes, entrariam em cenas homens ilustres de nossa história municipal. Antonio José Monteiro de Barros, proprietário da Fazenda Paraíso, oriundo de Congonhas do Campo, descendente do Barão de Paraopeba, aristocrata de colenda estirpe, sobrinho de Senador do Império, advogado que em 1832 já fora Ouvidor Geral de Ouro Preto, trabalhou de forma decisiva pela edição da Lei Provincial nº666, de 27 de abril de 1854, que elevou-nos a Freguesia e, ao mesmo tempo, a Vila.

Teria sido ele nosso primeiríssimo Vereador, como representante do então Distrito na Câmara da Vila de São Manoel do Pomba - muito embora a historiadora Nilza Cantoni não tenha encontrado prova documental de sua atuação na Câmara do Pomba. Elegeu-se, depois, por várias legislaturas, deputado à Assembléia de Minas.

Aliás, quando pela primeira vez Antonio José se elegeu Deputado, seu Suplente de Vereador quase leva o Arraial do Feijão Cru a participar de uma guerra civil. Conta-nos Barroso Júnior que, em 1842, o capitão João Gualberto Ferreira Brito (o Suplente), filho destemido do fundador Joaquim, liderava os Conservadores locais. Eclodida a Revolução Liberal ocupou-se ele de aliciar voluntários para combater os Liberais, acantonados em São João del Rei.

Fardou filhos, genros e, “à frente de 600 homens concentrados e instruídos na sua Fazenda Fortaleza”, marchou para o combate ao encalço dos insurretos do Barão de Cocais, entrincheirados em Sta. Luzia. Por sorte, não houve luta. Ainda em trânsito sobre a ponte do Rio Paraibuna a tropa recebeu notícia da rendição do inimigo ao Barão de Caxias.

Este episódio singular da história leopoldinense, talvez contenha uma imprecisão. Nilza Cantoni, com um incontrovesso “Mapa de Habitantes” à mão, demonstra que seria aritmeticamente impossível recrutar 600 homens, em idade de combate, naquele São Sebastião do Feijão Cru do ano de 1842.

Talvez fossem 60.
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(Publicado na Gazeta de Leopoldina de abril de 2002)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O Debulhador do Tio Lívio #

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Primeiro é bom conferir se todos os leitores, deste nosso mundo urbano meio leso, sabem o que é um “debulhador” de milho. Milho, impossível que alguém ignore ser a parte comestível daquela espiga cheia de grãozinhos amarelos que a gente vê por aí quando algum ambulante apregoa:
-Milho verde, cozido!...
Todo mundo já viu? Pois é. Aquilo é milho.

A gente do campo sabe, entretanto, que em regra o milho não é colhido verde. É colhido depois que a espiga fica inteiramente seca e os caroços duríssimos. Para levá-lo sob a forma de grãos aos engenhos de moagem, onde o cereal é transformado em fubá, farinha, canjica, ração, etc., o fazendeiro “debulha” o milho e o ensaca. Debulhar é soltar os grãos do sabugo. A máquina, manual ou elétrica, encarregada dessa tarefa é o “debulhador”.
-Muito prazer, Sr. Debulhador.

Trata-se de uma engenhoca simples, quase empírica. Um disco rotativo plano, de ferro, com dezenas de altos-relevos iguais a verrugas numa face. Esse disco gira a cerca de 3 centímetros de uma contra-superfície também plana, fixa. Introduzidas as espigas entre as duas peças, são elas dilaceradas pelas verrugas do disco em movimento, soltando os grãos.

Nossa conversa de hoje é sobre uma passagem ocorrida no dia em que meu tio, Lívio F. de Castro, comprou um debulhador elétrico para sua fazenda. O episódio demonstra a inclinação que o ser humano tem de atrair, para o pequeno mundo dos conhecimentos que domina, aqueles fatos mais complexos que lhe escapam ao entendimento. História absolutamente verídica, embora meu querido Tio Lívio, falecido há uns cinco anos, com sua imaginação fértil, levasse fama na família de grande inventor de “causos”.

O mundo acabara de assistir pela TV, em julho de 69, o astronauta Neil Armstrong pisar o solo da lua. Imagens extraordinárias, de dúvidas para os incrédulos e até de desconforto religioso para os crédulos. Gente estupefata, uns acreditando no que viam, outros negando.
Não é que o Tio Lívio - brincalhão que só ele - resolveu ouvir os empregados da fazenda sobre o tema.

No paiol, o debulhador de milho recém adquirido e ainda cheirando a tinta, pontificava como vedete. Os peões assuntavam com curiosidade o desempenho da máquina. Sem ela, o milho era debulhado só depois de extraída, na unha, a palha áspera de cada espiga. Em seguida, numa faina penosa de dar bolhas nas mãos, friccionar sabugo contra sabugo até a total soltura dos grãos. Um martírio! Agora, não. O debulhador trazia o progresso, velocidade, eficiência.

Sebastião do Turvo, encarregado do trato dos animais, só precisava girar uma chave elétrica, fazer a geringonça zoar que nem um avião e atochar-lhe, boca a dentro, espigas e mais espigas, com casca e tudo. Por uma abertura lateral a máquina cuspia sabugos e palha e, pela bica frontal, escorriam em festa os grãos de milho amarelinhos e soltos para um saco de aniagem.

Tio Lívio chegou puxando conversa:
-Vocês viram ontem na televisão? Parece que o americano colocou um homem na lua e vai trazer de volta. O sujeito desceu lá com um roupão branco parecido com esses de lidar com abelha africana, uma mochila nas costas, e eles filmando o rastro da botina na poeira... Inacreditável! E, virando-se para o retireiro, Toninho Barbatana:
-Você levou fé naquilo, Barbatana?

-Ah, sô Lívio, acho muito difícil. A bem dizer, eu não vejo na lua largueza suficiente pro um homem subir em riba dela. Não digo que, de perto, ela não seja um pouco maior. Mas o suficiente pro sujeito andar lá! Hã!... Acho que aí tem é coisa.

Mexeu com o carreiro, Josué do Radinho, um crente bíblico desses de abotoar camisa no pescoço.
-E você, Josué, acha que aquele homem andou mesmo na lua?

-Não patrão, não acredito não. Lua, estrela, céu, tudo isso faz parte dos mistérios de Deus. E “a palavra de Deus” diz que o homem “só verá a face do Senhor” depois de morto. O homem que pensa que pode ir a Deus usando uma escada, um avião, ou mesmo um foguete, é um ímpio para o qual não haverá salvação. O único caminho que nos aproxima da Casa de Deus é a fé. Tudo aquilo, pra mim, não passa de “escárnio na face de Deus”. Mentira da grossa, coisa do demônio.

Deixou por último o operador do equipamento, o tratador dos porcos, Sebastião do Turvo, homem de fala mansa e explicada:
-Bastião, você acha também que os americanos estão só enganando os trouxas?

Bastião do Turvo deu uma ajeitadinha no chapéu de palha, apoiou o cotovelo pesado na manivela do debulhador, deu uma varrida d`olhos pela máquina e filosofou:

-Meu chefe, que o negócio é duro de engolir, é. Mas eu penso conforme o seguinte: depois que o ser humano foi capaz de inventar um debulhador de milho igual a este, pra mim nada mais é impossível no mundo...
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(Publicado em 17.12.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/ e no jornal LEOPOLDINENSE)

sábado, 28 de novembro de 2009

Minha jujuba

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Da física, a noção de magnetismo segundo a qual cargas de sinais iguais se repelem, às vezes tem aplicação no cotidiano da vida. Chatice anula chatice, loucura repele loucura, e assim por diante. No meu caso já exorcizei inconveniência meio doida com uma discreta dose de loucura pessoal. Conto direitinho como foi.

Minha mulher desejou fazer compras, com a irmã, no centro de Belo Horizonte onde estacionar um carro em dia útil é impensável. Combinamos então que eu “rodaria” pela Praça Sete e as deixaria lá. Na volta, tomariam um táxi.

Sol a pino, um calor de sucursal do inferno, fizemos o combinado. Deixei a patroa no centro da cidade entregue à tarefa feliz de bem aplicar nossos magros proventos no comércio da capital e voltava para casa na esperança vã de uma ducha fria, reconfortadora. Não imaginava que contratempos conspiravam à minha frente.

Na esquina de Av. Amazonas com Av. Contorno existe um aparatoso sinalizador de trânsito a que nós, brasileiros convencionais, principalmente mineiros e cariocas, chamamos de “sinal” e que os paulistas, goianos e outros, juram que é “semáforo”. Pois é, aquele sinal fechou para mim.

A propósito, alguém conhece aí a canção maravilhosa, do Paulinho da Viola, intitulada “Sinal Fechado”? Um primor, não é mesmo? Vocês já imaginaram se o título daquela inspiradíssima genialidade musical fosse “Semáforo Fechado”? O estrago na letra!

...“Por favor, telefone, eu preciso beber
Alguma coisa, rapidamente.
Pra semana
O semáforo ...
Eu espero você
Vai abrir...
O semáforo!
O semáforo!...”

Tem dó! Ainda bem que a divindade chamada Paulinho da Viola nasceu carioca.

Mas eu dizia que o sinal/semáforo da Amazonas com Contorno fechou à minha frente. Tive que parar o carro. Claro, o cidadão que vinha atrás de mim deveria fazer o mesmo. Só que não fez direito. Enfiou sua bicanca no meu pára-choque traseiro.

Certifiquei-me de que meu pescoço continuava íntegro e desci para ponderar o estrago. Nada que um novo pára-choque não resolvesse. Apertei a mão do desastrado e o tranqüilizei:

- Sem problema, amigo, vida que segue, não vamos colapsar o trânsito de BH. Vá à tua vida que eu vou à minha.

E já me dirigia ao cockpit do meu fórmula-1973 quando, sem que percebêssemos de onde, surgiu a figura grená de um guarda de trânsito:

- Por favor, documentos das “viaturas” e dos “efetivos condutores”!
Os meus – procurei-os quase em desespero! - não estavam nos meus bolsos nem no carro.

- Seu guarda, infelizmente, minha carteira deve ter ficado na bolsa da minha mulher a quem acabei de deixar lá na Praça Sete. Sei que é errado dirigir sem documentos, mas, infelizmente, é o que está me ocorrendo agora. Eles ficaram na bolsa da “efetiva proprietária” do veículo.

- Pelo Código Brasileiro de Trânsito, sou obrigado a realizar a apreensão da viatura – disse o policial.

- Sem problema, seu guarda. Não temos remédio. O senhor deve aplicar a lei. Aliás, para ser sincero, gosto tão pouco deste carro que talvez nem lhe pergunte pelo endereço do depósito do Detran.

O guarda, coitado, mal podia ouvir-me tamanho já se tornara o alarido de ônibus acelerando e do buzinaço de mineiros engarrafados sob a canícula, numa longa cauda em direção ao centro da cidade. Tentava ele um penoso contato com o caminhão guincho, via tijolo eletrônico, preto, do qual pendia uma cordinha trançada.
– Estás me ouvindo? Câmbio!...

Aproximei-me, solidário.

- Grande transtorno lhe causei, hem, amigo! Mil desculpas. Não sei onde ando com a cabeça! Imagine o senhor que até minha jujuba ficou na bolsa da mulher. Minha jujuba! Absurdo! Eu nunca esqueço minha jujuba! Só pode ser carência de fosfato na ideia...

Como eu já contava alguns fios de cabelos brancos – para ser sincero, quase todos – o digno policial há de ter pensado com seus botões:

“Um calorão desgraçado destes e eu perdendo tempo com esse velho maluco, comedor de jujuba!”.

Fui liberado. O trânsito na Amazonas voltou a fluir e centenas de mineiros da capital foram felizes para sempre.

Se eu realmente gostasse de jujuba talvez comprasse, antes de chegar a casa, um pacotinho bem colorido pra comemorar. Mas não. Tenho pé atrás com jujuba. Ninguém sabe do que é feito aquilo.
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(Publicado em 26.11.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/ e no Jornal Leopoldinense)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Embaraço da Fazendeira #

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-Felizmente não é tumor, não, Da. Mariquita. A senhora está é grávida de três meses.

-Grávida, doutor! Que absurdo! Sou viúva há cinco anos, nunca arredo pé de minha fazenda, não tenho amante, não tenho namorado, vivo sozinha e Deus, cuidando dos meus bois, dos meus roçados... Como posso estar grávida?

-Isto eu não sei, Da. Mariquita. Sei é que seu exame deu positivo. Diga-me uma coisa, trabalham muitos homens em sua propriedade?

-Trabalham, claro, mas são operários rurícolas, pessoas muito simples, com as quais não me relaciono pessoalmente. Por favor, doutor, não será por aí.

-Perdão, Da. Mariquita, não quis ser inconveniente. Estamos diante de uma ocorrência que a senhora não entende e eu tento ajudá-la. Diz a senhora, então, que em sua casa não entram homens, certo?

-Não, não entram... Bom, exceto o Apyacá.

-Quem é o Apyacá?

-O Apyacá, doutor - o senhor nem imagina! - é um rapaz indígena que nem aculturado foi. Mentalmente limitado, foi agregado à fazenda pelo meu ex-marido para ajudar a cozinheira nas tarefas mais pesadas, que numa Casa Grande são muitas. Mas, veja, eu sou a patroa e ele, meu empregado. Por favor, o senhor não pode admitir o absurdo envolvimento meu com um infeliz serviçal como aquele.

-Claro que não, Da. Mariquita. Só me diga uma coisa: Onde mora o índio?

-Destinei um quarto a ele na própria sede da fazenda, doutor. Antes ele dormia no paiol de milho, mas com o falecimento de meu marido, senti-me mais segura trazendo-o para dentro da casa.

-Sim, entendo. O quarto dele, na Casa Grande, ficaria distante ou próximo ao quarto da senhora?
-Eu preferi colocá-lo num quarto mais próximo, sabe doutor, inclusive para facilitar a transmissão das minhas ordens a ele, dos meu pedidos, etc. Não temos interfone.

-Sim, sim. A senhora diria “muito próximo”?

-Bastante próximo. Na verdade, o quarto dele é parede-meia com o meu.

-Há uma porta, Da. Mariquita, entre os dois quartos?

-Claro que não, doutor. Que sentido faria uma porta, em meus aposentos, dando para dentro do quarto de um empregado!

-Calma, Da. Mariquita, desarmemos os espíritos. Há uma realidade diante de nós a reclamar compreensão. Se ainda uma vez me permite, essa parede que separa o seu dormitório, do dormitório do serviçal Apyacá, é uma parede íntegra, compacta?

-Eu não diria isto, doutor. A fazenda, como o senhor sabe, é muito antiga. A divisória que separa meu quarto do dele tem rachaduras, sim, frestas, algumas até bem dilatadas. Na verdade, só não mandei, ainda, arrumar aquilo por absoluta falta de tempo. Coisa simples, qualquer pedreiro tapa aqueles buraquinhos na hora.

-Entendo, entendo. E a cama em que a senhora dorme, fica encostada nessa parede rachada?

-Sim, fica bem colada à parede. Impossível outra arrumação. Do outro lado está o guarda-roupa, do outro a janela...

-Tudo bem. Sendo assim, Da. Mariquita, é correto concluir que, durante o sono, a senhora pode, eventualmente, encostar-se na parede onde existe a fenda, certo?

-É, eu não excluiria esta hipótese.

-Pois bem, então vamos pensar juntos.
Da. Mariquita, é consabido que gravidez não cai do céu. Ela, digamos, converge para a mulher a partir de um homem. Necessariamente a partir de um homem. Neste seu caso, diante de todos os fatos e condições que acabamos de checar, a senhora não admitiria a hipótese - pelo amor de Deus, não me leve a mal - de que uma possível convergência condutora, noturna, proveniente do silvícola Apyacá, possa ter-se insinuado em seu quarto através da fissura da parede?

Neste ponto Da. Mariquita balança negativamente a cabeça, pensa um pouco e zanga-se em voz baixa, quase que para si mesma:

-Ahhh, índio safado!
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(Publ. a 20.11.2009, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Falando de cadeira

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Novembro, 2009

Obama chamando Luiz Inácio de meu louro, Sarkozi no papel de francês simpático, Haiti entregue à nossa responsabilidade, destino político de Honduras nas mãos da diplomacia brasileira e, como se não bastasse, inimigos figadais do Oriente Médio transitando cordiais pelos corredores de Brasília... Sei não.

Confesso que me assustam essas injunções políticas internacionais, como resultado da propalada ascensão do Brasil no concerto das nações. Ainda não me adaptei à ideia. Medo do novo? Talvez. É humano reagir a mudanças. Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futuro. De repente, canhões de luz começam a cruzar os céus e estão dizendo que é o futuro. Que ele chegou, que o Brasil deu certo. E agora?

Se há uma coisa que me apavora é imaginar-me rico. Faz tempo, numa confusão com papeis de aposta, acreditei por alguns minutos que ganhara a Mega Sena acumulada. Entrei em pânico. Teria que mudar de cidade, de país, internar-me numa bolha, providenciar refúgio para meu filho, para meus netos, esconder meus irmãos e suas famílias, arranjar um procurador que fosse ao mesmo tempo brasileiro e honesto para cuidar da minha fortuna, sumir do mapa. Cheguei a eleger Cascais, em Portugal, como meu possível refúgio. Ficaria quietinho lá, entocado naquele pedacinho maravilhoso do mundo, e nem meu vizinho ilustre, Felipe Scolari, jamais saberia de meu passaporte brasileiro. Eu o evitaria, nas ruas e nos restaurantes.

Por alguns minutos vivi esse marajá em apuros. O que pensei ser um jogo premiado era, de fato, o “resultado do concurso”, misturado com meus jogos. A realidade acudiu-me a tempo. Continuei pobre e sem grilos. É muito bom! O Eike Batista não sabe o que está perdendo.

Mas o dado concreto é que, agora, com o Brasil fazendo bonito no mundo e o brasileiro sem motivo para o “complexo de vira-lata” do Nelson Rodrigues, já começo a me situar fora do meu elemento. Não tenho prateleira altiva onde acomodar tantos ufanismos: Brasil campeão na produção de grãos, na produção de carne, nas reservas petrolíferas, na aprovação internacional do nosso guia, no futebol, no vôlei, na tecnologia das águas profundas, nos velejadores das águas rasas, quê mais, quê mais? Esta “potência emergida” está me deixando desnorteado.

Em nome do tal assento permanente na ONU já aceitamos descascar abacaxi no Haiti e esfolar a ética na crise institucional de Honduras... O Obama avisou: liderança internacional inclui responsabilidades. Já vimos que inclui também algumas quizumbas.

Está aí o Shimon Peres querendo amarrotar o tapete do nosso próximo convidado. Adivinhem quem vem para o jantar? O persa Mahmoud Ahmadinejad. Só para vocês sentirem o drama, vejam como escrevem o nome dele lá no Irã: محمود احمدینژاد.

Num riacho assim de piranhas não seria melhor nadar de costas? Sabemos que o Amorim e o Top-Top não são bobos. Porém Alá é mais sábio e podia nos poupar dessas coisas complicadas. Nem bem arredamos pé do Caribe e já vamos assinar o ponto numa pendenga de dois mil anos! Êta cadeirinha danisca, essa do Conselho!

Trasantontem, o repórter Alex Rodrigues da Agência Brasil disse que Nelson Jobim vê como uma estratégia de afirmação da relevância do país no cenário global, a presença de tropas militares brasileiras no Haiti. Disse ele: “é dever de uma nação que tem responsabilidade com a região, e não apenas consigo mesma, e uma necessidade estratégica de relações e de afirmação de um Estado que se pretende protagonista mundial” (...) “se o país almeja integrar o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), deve atuar como protagonista nas Américas”.

Pelo visto a América já não é tudo. E muita fatuidade nos deixa, a nós mineiros modestos, acanhados que só vendo.
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(Publ. em 12.11.2009, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

NOVO CÓDIGO CIVIL - Considerações superficiais

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Março, 2003

Entrou em vigor o Novo Código Civil Brasileiro, no dia 11 de janeiro de 2003. Substitui o antigo, que vinha de 1916. Vamos aqui falar, de maneira bem simples, sobre algumas novidades já que não dá para falar de tudo numa crônica.

O Código Civil interessa a todos porque ele regula as relações entre pessoas de um país. Reunem-se nele como normas de direito comum, na esfera privada.

Deu-se que nos últimos 80 anos, com o evoluir da sociedade, o Código de 16 foi ficando superado, insuficiente, Leis e vieram especiais para regular surgindo novas categorias de relações sociais impondo, cada lei, sua lógica específica como aconteceu com um Legislação do Trabalho, com a lei do inquilinato, com o estatuto da mulher casada, com uma Lei do parcelamento do solo urbano, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, com o código de defesa do consumidor, etc

Com o velho em agonia Digesto Civil, ou se continuava assimilando esses particularismos jurídicos ou se editava um novo ordenamento. O emérito jurista Orlando Gomes, dentre outros, lembrava então que Nos países de maior tradição codificante vinha sendo a preferência pela primeira opção. Ou seja, o contrário do que fazia o Brasil. Assim, além do Respeitável Mestre Miguel Reale, autor do projeto agora transformado em lei, e do professor Ricardo Fiúza, seu relator na Câmara, não foram muitos os defensores da nova codificação.
Só que agora não cabe mais discussão. Entrou em vigor o novo Código Civil, Cumprindo saber até onde ele interfere na vida de cada um de nós.

Importantíssimo sublinhar que, no espírito da nova lei, o social passa a prevalecer sobre o INDIVIDUAL. Ou seja, foi Substituído o sentido individualista do Código anterior pelo sentido social da nova codificação, com prevalência dos valores coletivos sobre valores individuais.

O rigor formal e dogmático do Código revogado passa a dar lugar a Criterios éticos como eqüidade, boa-fé e justa causa, Levando a uma maior flexibilidade na interpretação da norma pelo juiz, mas redobrado em aumento de sua responsabilidade, que fica investido de mais Arbítrio Largo. Adrenalina adicional para quem já tinha medo de sentença ...

Diante disto, antes do tribunal que julga questões um Submetidas ele, que já é bom como pessoas se conscientizem de que algumas astucias que davam certo antes, gatilhadas agora estão na lei para dar errado. Um exemplo são as cláusulas ambíguas nos contratos. Aquelas onde as coisas não ficam muito claras. Pelo novo código esse feitiço vira contra o feiticeiro porque há dispositivo específico mandando interpretar cláusula ambígua sempre em favor do Obrigação da DEVEDOR.

Outra boa regulagem veio para a correção monetária. Se Você Quer Receber seu crédito com futuro atualização da moeda, escolha de um único índice. Não tente jogar com vários indexadores na esperança, depois de, Aplicar o que lhe for mais favorável. O tribunal decidirá pela Aplicação do multiplicador menos oneroso.

Também a lei não está revogada espertinho: contrato que preveja demasiada vantagem para uma das partes em juízo não se sustenta. É o Princípio da Equidade.

Boa novidade que o Código também traz é o chamado estado de perigo: dá-se quando alguém se vê premido por uma séria Necessidade, pessoal ou familiar. Doença, por exemplo. Não se pode comprar o que ele Possui na bacia das almas, nem amarra-lo impunemente uma uma dívida escorchante. Nos dois casos a lei salvará uma vítima, anulando o negócio.

Mais um novo instituto, é o da lesão: incidem quando há nenhum contrato deveres desproporcionais. Aqueles contratinhos de adesão, manjados, com letrinhas miúdas, que comerciantes, financiadores e oportunistas de plantão sempre Colocam à frente do consumidor. Constatado que é lesivo, vira pó.

Também esclarece, com todas as letras, o novo Código O que se entende por abuso de direito: o direito de cada um DEVE ser exercido dentro de limites éticos, da boa-fé e dos bons costumes.
Há um artigo aplicável ao enriquecimento sem causa - o 884. Vantagem Obtida indevidamente Deverá ser devolvida.

No capítulo dos Direitos Reais o novo Código acabou com o anacrônico instituto da Enfiteuse (quem já pagou laudêmio de até 5% sobre valor de compra em escritura de imóvel, sabe o que é isto). Criou, entretanto, o instituto da Superfície, análogo à Enfiteuse, porém com mais comunicativo e Vedação de despesas extravagantes por ocasião das Alienações.

Esse direito de superfície se Refere uma superfície de terreno, que pode ser cedida pelo proprietário, escritura pública e por prazo determinado, um alguém que nela queira construir ou plantar. Observe que não é arrendamento, pois ninguém arrenda edificação para terra. É novíssima categoria de direito real que tende Proporcionar uma nova dinâmica ao aproveitamento da propriedade imóvel.

Em outra parte, nas Disposições Gerais dos Contratos, importou-se do código alemão o Princípio da boa-fé objetiva que torna inexigível Obrigação que não se compadeça com boa-fé ea probidade.

Até aí tudo bem, mas o novo Código Civil ao tratar das Obrigações de indenizar, no art. 927, dá expansão talvez ampla demais ao principio da responsabilidade objetiva: casos em que um dano causado um terceiro considera-se indenizável independente da culpa do autor.

Trata-se de tendência doutrinária moderna que alguns dispositivos da codificação revogada já abrigava. Compreende-se, por exemplo, que a família de um operário, morto ou incapacitado trabalho nenhum, não deva depender da comprovação de culpa do patrão para alimentar-se e seguir vivendo. De igual modo, uma pessoa transportada em relação ao transportador, em relação ao motoboy o fabricante de pizza, e assim por diante.

Sob tal óptica (jurídica), O Princípio da Responsabilidade Objetiva é perfeitamente defensável. Mas ele não se sustenta sob visão econômica, já que os economistas nos ensinam que não existe refeição gratuita ... Isto é, recursos não dão em árvore. São fruto do trabalho honesto de alguém.

Preocupa então uma amplitude escancarada do art. 927 porque toda atividade humana envolvem algum risco. Até a Santa Missa passa pelo temerario Balanço do incensório, que pode desprender-se das correntes frágeis alguém Atingir e (Já aconteceu, na Catedral de Leopoldina, com o Bispo Dom Delfim Ribeiro Guedes, segundo me informa o então coroinha, Dr. Galba Rodrigues Ferraz, hoje decano dos advogados de Cataguases). O recipiente com incenso voou, Desprendendo-se das correntes frágeis, indo sentir um Atingir.

De repente temos o direito transformado em "Espada de Dâmocles" pronta para descer sobre cabeças Honestas de Cidadãos que constroem, o país que Edificam, aos velada qual afronta que Colocam seu capital, sua intelectualidade e seu suor na atividade construtiva, para Gerar empregos, impostos e riquezas!

Imagino que Responsabilidade Objetiva Aplicada a torto ea direito POSSA induzir ao recolhimento de algumas virtudes Empreendedoras.

Mas a marcha do Direito No Compasso das conquistas sociais é irreversível. Certamente que o risco inerente à atividade produtiva virá um ser totalmente bancado, num futuro próximo, pela sociedade como um todo, uma beneficiaria direta da produção daqueles que abalançam se na vida a alguma coisa mais digna que uma especulação eo ócio. Ou seja, espera-se que, um dia, o governo Assuma uma Securitização integrante desses riscos para que os custos Que não sejam repassados ao consumidor final.

Viver deixará de ser tão perigoso.
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(Publicada na Gazeta de Leopoldina de 05.03.2003)

Em Tempo de Mensalão

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Novembro, 2005

Vi a entrevista do Lula no programa Roda Viva da TV Cultura. A impressão que fica é que o nosso presidente tornou-se um homem sem a prerrogativa da verdade. Evita entrevistas por isto: não pode dizer a verdade. A verdade o constrange tanto quanto os botões arrochados do terno que já lhe magoam o manequim extrapolante. Nosso presidente é, hoje, um homem comprimido pela verdade e pela roupa. Por obra do PT, Lula se tornou um refém da inverdade. Está lidando com ela como o malabarista de circo lida com o fogo que finge engolir.

Sobre a cassação de parlamentares que receberam dinheiro de Delúbio, via indireta - isto é, Delúbio mandou que apanhassem a grana com Valério - minha visão é a do direito penal. Toda conduta para ser considerada delituosa há de ser típica. Isto quer dizer que ela tem que estar prevista em lei, como crime. E com todas as letras. É o "princípio da reserva legal": não há crime sem lei (anterior) que o defina. Sendo assim, se o sujeito foi buscar dinheiro com o tesoureiro, seja para encaminhá-lo a prefeito do interior seja para o que for, e a ele foi dito que os recursos estavam com terceiro... Qual o crime? Onde está escrito que, na mão de terceiro (Valério) ele não podia pegar dinheiro? Não está escrito em lugar nenhum? Então, absolvido! Entre o próximo.

O senador Suplicy viveu dois minutos de glória quando o protocolo lhe deu tempo para falar com Bush. Falou sobre renda mínima, seu tema predileto. No lugar dele eu talvez fosse menos cordial, dizendo ao homem mais poderoso do mundo o seguinte: "Presidente, sou José Ninguém, represento coisíssima nenhuma em minha pequena cidade e na vida de um modo geral. Seja bem-vindo a este país e não se preocupe muito com a aparente influência de Hugo Chavez por estas bandas. Há entre nós uma única pessoa com saco e sub-cultura para ouvir o venezuelano: o nosso presidente. Mas não se exulte. A disposição para ouvir V. Exa. é menor ainda!"

Já a Senadora Heloísa Helena tem decepcionado. Teve a infeliz idéia de vestir camiseta com inscrição Fora Bush, na oportunidade da visita do presidente americano, a 6 de novembro. Tiro no pé. Condenou-se a impressionar não mais que o segmento eleitoral rasteiro do quanto pior melhor. Demonstra ser ave de vôo curto. Se tivesse a dimensão correta da história brasileira e de sua inserção na geopolítica das Américas e do mundo, talvez não lhe faltasse sensibilidade para o real sentido da presença de um presidente Americano no Brasil.

Encontraram pegadas do valerioduto numa subsidiária do Banco do Brasil, a Visanet. Do jeito que a gente temia: era dinheiro nosso! Do contribuinte. Agora é só ir encurtando a linha que vem o resto... Todo furto deixa rabo e ladrão é burro por princípio. Se não fosse, não seria ladrão.

Não procede a má-vontade do presidente Lula com os jornalistas. Jornalista ganha pra ser chato; governante ganha pra ser chateado, porque a ele foi confiada a gestão da coisa pública de cujo destino o jornalista é informante e fiscal.

E vem Da. Lúcia Hippólito teorizar as vantagens da Super Receita. Para mim, um pouco além do que teorizam os circunspetos, há os que trabalham e se encanecem mais cedo preocupados em manter de pé suas empresas, seus negócios, produzir bens e gerar empregos. Penso que num país já afogado em impostos e atolado no desemprego de seus jovens, qualquer governo que enxergasse um palmo à frente do nariz deveria estimular empreendedores em vez de buscar "aperfeiçoar" o garrote vil dos achaques e da suborno/arrecadação sobre eles.

Ninguém pensou no que eu, diante das lágrimas e das orações do deputado Sandro Mabel, negando que tenha oferecido 30 mil reais a uma deputada para que ela mudasse de partido, garrei a maginá. E se em vez de troca partidária, a verba oferecida à congressista lastreasse, de fato, algum outro tipo de proposta indecente à sua excelência e, ela, como justa reprimenda, resolveu vingar-se no campo do aliciamento político? Um prato feito para a atriz Denise Fraga contar mais uma paródia familiar na TV.

Por último, tomem nota. Toda essa crise iniciada com as denúncias de Roberto Jefferson aponta para duas pessoas que, contraditoriamente, devem estar tranquilas: Delúbio e Valério. São homens cujos critérios negociais o Brasil passou a conhecer. Eles dispõem agora da mais valiosa de todas as moedas: a informação. Ante ela, reputações, carreiras e, principalmente, o poder se curvam.
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(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 30 de novembro de 2005)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Piacatuba

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Se a história não for original estará pelo menos returbinada na geografia insólita onde reaparece. Costumam pintar impressões de déjà vu nas surpresas que a vinda nos reserva.

A sexta-feira desmaiava numa tarde calma de sol poente avermelhado anunciando frio, sumindo aos poucos lá por detrás da Serra do Itamaraty, quando, transitando por uma rua tranquila da cidade de Leopoldina, Minas, a mulher do Alziro foi despertada para o almoço do dia seguinte, ao ver um açougue aberto.

– Pare o carro aí, amor. Temos que comprar galinha. Sua cunhada, goiana, chega amanhã cedo e já telefonou dizendo que vai preparar uma Galinhada com Pequi, para nós.

Alziro, piacatubense de carteirinha e papel passado, que já morou em Goiás e não pode ouvir falar em Galinhada com Pequi, parou numa freada de quase arrastar pneus.

– Galinhada com pequi é manjar dos deuses do Olimpo. Maravilha! Será que ela vai trazer o rebate de Licor de Pequi em garrafa arrolhada com sabugo de milho?

Era a primeira vez que Alziro entrava naquele açougue.
– Dois frangos, por favor!
– Frango, não querido: “Galinha!” – gritou a mulher, da janela do carro.

Vamos com calma, mulher – diz o marido, voltando-se, em voz baixa. Não percebe que eu mexo com política e, se peço galinha, o pândego desse açougueiro pode me enrolar amanhã num duplo sentido espalhando pela cidade que “O Dr. Alziro só come galinha”? Político precisa desenvolver raciocínios frívolos para não cair nas armadilhas do populacho – sentenciou paranoico. Vamos combinar que, para efeito de galinhada, frango e galinha passam a ser a mesma coisa, tá.

Pedido confirmado, produtos pesados e na sacola, a pergunta ao açougueiro:
– Quanto lhe pago pelos dois frangos, senhor?
– Nada − foi a resposta do açougueiro.
– Como nada? O senhor é um comerciante de carnes, eu estou comprando um item da sua oferta. Isto tem um preço que devo pagar. Por favor, quanto é?
– Nada −  insistiu o açougueiro.

Não entendi, amigo, o senhor está me fazendo doação de dois frangos, e nós mal nos conhecemos! Aliás, resido em outro bairro e nem me lembro se algum dia fiz compras em seu açougue. Seu gesto é simpático, sem dúvida, mas que me deixa confuso.
– Meu gesto nada tem de inexplicável, Dr. Alziro. Estou apenas sendo gentil com um “irmão de vida anterior”, que pela primeira vez me visita nesta encarnação.
– Hã, como?

– Sim, Dr. Alziro. O senhor não me é estranho, pois é advogado muito conhecido na cidade. Pratico “regressões” e, numa delas, descobri que o senhor foi meu irmão, no Arraial da Piedade, atual Piacatuba, numa geração anterior à presente. Nós brincávamos juntos, na Praça da Cruz Queimada e também naquela rua de calçamento emborcado para o meio. Pode crer nisto. Fomos irmãos de sangue em nossas vidas anteriores.

Confuso, Alziro não atinava com o que dizer. Apertou com calculado afeto a mão de seu 12º irmão (na encarnação atual, já tinha 11) e saiu para passar os frangos à patroa que, de dentro do carro, ali do lado de fora, a tudo assistia.

Encontrou-a recurvada sobre o painel, com as duas mãos à cintura como quem busca conter os espasmos do riso.
– Qual a graça?
– Ora, qual a graça! Pensa que não ouvi tudo? Você é um sujeito vaidoso, Alziro, quase um esnobe, que se diz apaixonado por Sidney na Austrália, vidrado no portento e no luxo de cidades europeias e americanas só alcançáveis nas mensagens com power point slides da Internet, e não avaliou bem o que o açougueiro acabou de lhe dizer?

– Nada tão engraçado − diz o marido com cara meio abobada. Ele disse, apenas, que foi meu irmão numa geração passada. Não vejo graça. Limito-me a respeitar o credo das pessoas. Se esta é a verdade e a convicção dele, não tenho autoridade filosófica para contestar. Que ele fique com elas.

– Mas não foi só isto que ele disse, seu distraído. Disse bem mais: disse que foi seu irmão “numa geração anterior”, em Piacatuba, percebe? Na geração presente, ninguém precisaria dizer. Todos nós sabemos que você nasceu em Piacatuba. A novidade que passa a constar é que você é um “reincidente”. Nasceu duas vezes, seguidas, em Piacatuba!

– Dá um tempo, não é Alziro.


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(Publicado no jornal de janeiro de 2009 LEOPOLDINENSE)

O Tambor

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Fevereiro, 2009

Dizem que no Brasil o ano começa com o fim do carnaval. Na prática, costuma ser verdade. Pelo menos em um bom número de casos é hábito nacional programar as coisas mais sérias, ou que demandem mais atenção, mais envolvimento, para depois dos feriados prolongados de fevereiro. Feriados esses que, para muitos, se emendam nas férias de janeiro, passadas em algum lugar distante da rotina pleonástica. Realmente, não é grato aos “dispensados do ponto” começar o ano antes do Carnaval.

Isto quer dizer que chegou a hora de encarar 2009. Aos quatro ventos diz a TV que o Salgueiro venceu o carnaval do Rio de Janeiro, num desfile de enredo super original (no carnaval a gente pode falar como falam os jovens) que elegeu para tema sua excelência o Tambor. Ele mesmo, o Tambor: uma caixa e um couro esticado.

Conhecido desde as mais remotas eras da humanidade, ele remonta a nossos ancestrais africanos e pré-colombianos, com seus tantãs de madeira, de tábua, de tronco escavado, feitos e moldados a fogo. Muito simples na construção e na execução, os mais diferentes tambores existem entre quase todos os povos do globo. Não há dúvida de que foi no ressoar de um deles, tocado por mão ou por uma baqueta rústica, que nasceu a primeira manifestação musical no ser humano.

Hoje, com tantas Escolas de Samba oferecendo enredos a cidades e até a estados da federação, como via de publicidade e apelo turístico, eis que o Salgueiro volta seu olhar para o próprio umbigo do samba, para as partes íntimas de sua maravilhosa bateria e extrai de lá esse personagem de todos os tempos, de todos os sambas e de todos os carnavais, que é o Tambor.

Certamente que ao destacá-lo, a simpática vermelho e branco da Tijuca inclui na exaltação genérica todos os componentes da família musical da percussão, de epiderme esticada, como o bongô, o bumbo, o atabaque, o tarol, a caixa, a conga, a cuíca, o pandeiro, o repenique, o tamborim, a zabumba, os timbales – essa etnia rítmica que compõe a bateria. Principalmente uma bateria de Escola de Samba.
A exaltação do Tambor foi um achado criativo do carnavalesco Renato Lage. Com ele, o G. R. E. S. Acadêmicos do Salgueiro conquistou uma vitória bonita, originalíssima, na Sapucaí.

Mas agora o carnaval, de fato, acabou. Temos que acertar o passo numa outra batida. Entrar no ritmo de outras maçanetas, vassourinhas e baquetas. Daquelas que ferem o tambor da vida, que dão compasso à existência que nos trouxe até aqui. Viver é seguir na plenitude harmoniosa desse enredo que Deus compôs para cada um de nós. Um escritor indiano, Togore, disse que a vida se revela ao mundo como uma alegria. Tudo é júbilo no jogo sempre renovado de suas cores, na música de suas vozes, na dança de seus movimentos. Assim, nem a doença nem a morte haverão de impor suas verdades enquanto vibrar em nossos corações a alegria repicada de um tambor de carnaval.

Otimismo faz bem. Então, vamos nessa.
-Olha o Salgueiro aí, gente!
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de fevereiro de 2009)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Nome de Rua

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Setembro, 2000

O assunto desta crônica já foi abordado por mim num outro escrito publicado há tempos, mas não faz mal relembrar porque o jornalzinho em que o publiquei estava longe de ter a circulação da Gazeta.

Trata-se do seguinte. Daqui a algumas semanas estaremos todos escolhendo nosso futuro prefeito e nossos dez vereadores para a Câmara Municipal. O voto para prefeito, numa cidade como Leopoldina, não oferece dificuldade: os candidatos são, sempre, pessoas conhecidas. A escolha é fácil, intuitiva.

No caso do Vereador é que a opção às vezes empaca. São muitos os candidatos, consequentemente muitos são bons amigos, às vezes mais de um é parente próximo e, quase todos, pedem o voto invocando esta ou aquela condição. Ora, para quem está pensado, apenas, em escolher um bom candidato, esse tipo de pedido sempre gera o constrangimento de uma negativa franca (sacrifício de uma amizade) ou uma promessa mentirosa.

Sinceramente, não sei como agir em tal situação. Portanto, não tenho conselhos a dar. A única coisa que sei é o que está na constituição. O Vereador é uma pessoa destinada a elaborar as leis do município, a fiscalizar as contas e os atos do Prefeito. Assim sendo, devo escolher alguém dotado de preparo ou experiência mínima para desincumbir-se dessas tarefas.

Sei também que ninguém é melhor que ninguém, que todas as profissões são dignas e indispensáveis. Para ser justo, até a ausência de profissão merece meu respeito num país com o índice de desemprego que o Brasil ostenta. Nem por isto devo escolher aleatoriamente. Não! Isto não. Para consertar a minha geladeira eu chamo um técnico em geladeiras. Paracurar meu gatinho de estimação, eu chamo um veterinário. Ou, dependendo da maneira como a sola dos meus pés toca o chão, posso chamar um benzedor... Mas a escolha será minha, e será consciente.

Não vamos nessa de acreditar que vereador só existe para botar nome em rua. Não é, não. E, mesmo que fosse, até para isto seria bom escolher vereador com alguma réstia de luz intracraniana.

Muito a propósito, a história de Leopoldina registra uma passagem interessante que, sob cultivo de um bom Vereador, poderia dar em nome de rua. Vejam: em 1890 baixou em nossa cidade uma epidemia que matou 561 pessoas. Durou um ano. Na época, Leopoldina tinha apenas 5.000 habitantes. Perdemos, portanto, mais de 10% da população. Os médicos não conseguiram identificar a peste. Uns acreditaram ter sido Febre Amarela, outros a deram como Febre Palustre.

No Brasil de então os Drs. Torres Homem e Martins Costa de Giesenger, médicos respeitáveis que escreveram sobre essas febres tropicais, nada disseram. Aqui, o médico que a todos atendia - ou tentava atender - era o Dr. Octaviano Costa. O certo é que a doença ficou inteiramente fora de controle. Dois terços da população fugiu, com medo, abandonando casas lacradas, sem limpeza e sem desinfecção. O Forum ficou acéfalo, sem juiz, sem escrivão, e com todos os funcionários da justiça sumidos. Na prefeitura o último que pegou a direção de Tebas, procurando lugar seguro, fechou a porta.

Enquanto isto, no Largo do Rosário, em casa cedida por herdeiros do Padre Soleiro, foi improvisada uma enfermaria para indigentes. Só que, para desgraça maior das vítimas, não havia quem se dispusesse a trabalhar de enfermeiro, mesmo com oferta de alta remuneração. Foi quando o Delegado de Polícia, sem mais opções, designou o Praça Ildefonso Penaforte como Enfermeiro, e os condenados Nicolau e Cantagalo comoAuxiliares de Enfermagem...

Consta que tal foi o espírito de solidariedade e humanidade demonstrados por essas três pessoas, com os doentes, naqueles dias dolorosos que o judiciário, no caso dos dois condenados, decidiu pelo perdão de suas penas! Infelizmente, o registro histórico termina aí, não mencionando se o praça, Ildefonso Penaforte, ganhou uma promoção.

Cabe, então, perguntar:
-Alguém sabe dizer onde fica, em Leopoldina, a Rua Ildefonso Penaforte?
-Existe alguma pracinha chamada Praça Auxiliar Nicolau?
-E Rua Auxiliar Cantagalo, existe?

Seria bonito se existissem, não é mesmo? Vejam que, até para colocar nome em rua, é bom que as pessoas tenham alguma coisa dentro da cachola.
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(Publicado na Gazeta de Leopoldina de setembro de 2000)

De Leopoldina a Panambi

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Agosto, 2003

"Existe no homem um princípio que o leva a aspirar
continuamente por um estado mais elevado, qualitativamente 
diferente de seu estado atual, e só assim pode ele cumprir
seu verdadeiro destino".
Kant

Nossas casas ficam nos municípios e os municípios estão em crise. Cidades existem, neste ano de 2003, sem recursos sequer para trocar lâmpadas queimadas nas ruas, como é o caso explícito de Mococa, no interior de São Paulo, que já tirou o arroz da cesta básica e da merenda escolar.

Pra todo lado campeia a inadimplência do IPTU e a retração nos repasses do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) é enorme. Pelo país afora já se considerou até a paralisação de prefeituras. Alguns prefeitos defendem a divisão da CIDE e da CPMF com as cidades e, se possível, a municipalização do ITR (Imposto Territorial Rural). Mas será que resolve?

A julgar pelo que afirma o pesquisador Eduardo Andrade, do IBMEC – Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, a atual crise dos municípios brasileiros não se resolve com simples redivisão de tributos. Entende Eduardo - dos mais autorizados economista do IBMEC - que só existem duas saídas para os municípios: as cidades se tornarem sustentáveis com recursos próprios ou buscarem fusão com outros municípios.

O problema remonta à Constituição 88 que tornou muito atrativo a qualquer pequena comunidade transformar-se em município para viver de repasses federais. Só que a fórmula vem “fazendo água” passando, inclusive, a aumentar muito a distância entre municípios ricos e municípios pobres, revelando ainda, os estudos do IBMEC, que cidades do norte e nordeste do país estão cada vez mais longe de atingirem a média da renda per capta nacional, enquanto municípios do centro-oeste, sudeste e sul, em alguns casos, até superam esse nível.

O que não garante a cidades pequenas, mesmo destas regiões ditas privilegiadas, posição cômoda. Sabemos, por aqui, de municípios menores do entorno de Juiz de Fora à beira do colapso financeiro, ao que dizem seus transtornados prefeitos nos jornais da TV. São casos e casos.

Não é o contingente populacional que, sozinho, faz a diferença. Quem viaja pelo sul do país pode, às vezes, encantar-se com o desempenho de comunidades bem pequenas. Ficando apenas num exemplo, seria muito bom que alguns desses nossos prefeitos atormentados fizessem uma visitinha a uma pequena cidade do noroeste do Rio Grande do Sul, chamada Panambi. Trata-se de um pequeno paraíso econômico.

Anotem estes dados: população, 33.000 habitantes. Algo bem próximo da metade de Leopoldina. Fica a 280 km da capital, Porto Alegre. Isto é, fica mais longe da capital gaúcha do que nós estamos do Rio de Janeiro e, praticamente, na mesma distância que nos separa de Belo Horizonte. Com menos de cem anos (Panambi é de 1914) o município não tem vocação produtiva a descobrir, porque seus administradores já descobriram há muito tempo que a vocação do lugar seria o “agronegócio” e, depressinha, a fizeram conhecida como a “Cidade das Máquinas”, sendo hoje o terceiro polo metal mecânico do Rio Grande do Sul.

A fórmula do milagre é pública, não havendo segredo: simplesmente fizeram a escolha, elegeram como prioridade um sistema educacional de formação técnica específica e criaram a infra-estrutura correspondente. Raciocínio tão rudimentar como: se no meu município passa um rio que tem peixe, não me adianta formar especialistas em bordado, corte e costura... Faço logo um centro de formação e apoio a pescadores e monto uma estrutura pesqueira!

A pujança da pequena Panambi é tal que ela passou a “importar” trabalhadores das cidades vizinhas, uma vez que os panambienses vivem em situação de ampla ocupação. O famoso “Pleno Emprego” da teoria econômica! Passou a faltar mão de obra local. São 276 indústrias locais empregando 8.000 habitantes da cidade, batendo recordes de geração de vagas. No ano 2.000 foram 300 contratações acima das demissões. Em 2.001 chegou-se ao dobro: 600 contratações acima dos dispensados. E, em 2.002, foram 1.400 contratações acima dos que deixaram o emprego.
Ônibus cedidos pelas prefeituras das vizinhas cidades, de Cruz Alta e Ijuí, transportam diariamente funcionários para suprir a mão-de-obra de Panambi.

De um modo geral, nas indústrias e agronegócios de Panambi os salários ditos de “chão de fábrica” começam com R$400,00 subindo à média de R$700,00 mais Plano de Previdência privada, participação nos resultados e outros benefícios. O recrutamento funcional se concentra, a priori, nos cursos técnicos do SENAI e do Colégio Evangélico, segundo explica o técnico Carlos Bicca, do grupo Fockink.

Tem mais, em Panambi o SUS dá certo. Não existe atendimento ao nível da indigência. O Hospital não está falido e os médicos recebem pelo que fazem. Lá, foi adotada a Gestão Plena da Saúde, no ano 1994, e o índice de atendimento aos segurados do SUS é de 92% da população (mesmo índice da Casa de Caridade Leopoldinense). Ao contrário do que estamos acostumados a ouvir por aqui, nem Prefeito nem Secretário de Saúde em Panambi acham que “Gestão Plena da Saúde” é palavrão.

Homens públicos conscientes, rara avis in terris, sabem que isto representa uma responsabilidade maior, sim, mas da qual têm eles o dever humanístico de se desincumbir, para que doentes pobrezinhos não sofram com a reincidente falta mentirosa de vagas quando, na falta de recursos locais, são transferidos para os tais centros de referência... sempre com limites SUS esgotados.

Espancando dúvidas, transcreve-se o que diz o prefeito de Panambi sobre o SUS:

“O SUS foi conquistado pelo povo brasileiro e está consolidado na Constituição Federal, sendo um direito deste e um dever dos governantes colocá-lo à disposição da comunidade, o que aqui foi feito desde o princípio.”

A quem importe saber, esse baita prefeito de Panambi, Miguel Schmitt-Prym, é um companheiro rotariano de 66 anos, um italo/brasileiro, nascido em Carrara. Apesar de jornalista por profissão, já foi escolhido Secretário Municipal de Saúde em duas gestões anteriores, foi governador do Rotary no ano de 1998, presidente da Associação Comercial e prefeito de 93 a 96. Sem dúvida um cidadão brilhante, desses que a virtude parece desbordar da própria biografia. Ele personifica o exemplo vivo de como administrar uma cidade no simples e direto interesse da coletividade.

Proveitosa é a colheita numa experiência edificante e, melhor ainda, encontrar nas pessoas um pouco daquilo que Immanuel Kant identificava como verdadeiramente essencial no homem.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de agosto de 2003)
NOTA: Vide outro título, "A Crise dos Municípios".

Leopoldina na Lavagem de Dinheiro

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Maio, 2002

Deu no nº1702 da Revista ISTO É, de 15 de maio corrente. A CALFAT, denominação com que desapareceu na década de 90 a velha Cia. Fiação Tecidos Leopoldinense, teria sido usada pelo economista Ricardo Sérgio de Oliveira, para Internação de Dinheiro sem Procedência (Três milhões de dólares), na época depositados na Agência do Banco do Estado de São Paulo nas ilhas Cayman, na denominada Operação Banespa.

Ricardo Sérgio que era membro do Conselho Administrativo da Calfat e teria realizado verdadeira proeza para internar (lavado) aquele dinheiro, descolou compradores internacionais - que segundo a ISTO É, seriam a própria Calfat ou empresas a ela ligadas - para superfaturar títulos podres da obscura e falida indústria numa operação garantida pelo Banespa sob hipoteca do prédio da Fábrica de Leopoldina que, sem valer 1/3 daquela soma exponencial, estaria também hipotecado por dívida de vulto equivalente junto ao BDMG e penhorado em processos trabalhistas em curso na Justiça Trabalhista de Cataguases.

Vale dizer, dívidas e compromissos que ultrapassariam, algumas vezes, o valor do imóvel; e créditos privilegiados que deixariam os dois bancos oficiais sem qualquer garantia efetiva. Não foi por acaso que o BANESPA faliu.

O Procurador da República, Guilherme Schelb, que investiga enriquecimento ilícito do ex-diretor do Banco do Brasil, quer saber agora se aquela verba internada do paraíso fiscal de Cayman, em 1992, era sobra de campanha, eis que Ricardo Sérgio fora o caixa da campanha de José Serra a deputado e se credenciava a levantar fundos para a campanha do mesmo Serra ao Senado e de Fernando Henrique à Presidência, em 1994. A simulação na Operação Banespa se evidenciaria no fato de que Ricardo Sérgio, avalista pessoal da operação, jamais foi executado pelo Banespa apesar da clara inconsistência da garantia hipotecária da Fábrica de Leopoldina.

Diga-se, a propósito, que esse desinteresse do Banespa no processo falimentar da Calfat foi constatado, nos autos da Falência, pelo advogado da Prefeitura de Leopoldina e pelo ex-prefeito, Márcio Freire, quando estiveram em São Paulo, no início de 1997, estudando a situação da Calfat.

Vendo, na ocasião, que o processo de falência seguia negligenciado justamente pelo maior credor, o Banespa, decidiu a Prefeitura de Leopoldina formular um providencial pedido de guarda do prédio da Fábrica à Justiça Trabalhista de Cataguases, requerimento este que foi deferido, constituindo-se no primeiro movimento para a vitoriosa criação do CEDEL, no velho prédio da Companhia de Fiação e Tecidos Leopoldinense, abandonado durante décadas.
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(Publicada no Jornal LEOPOLDINENSE de maio de 2002)

A Discrição Aproveita aos Bandidos

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Maio, 2007

Neste maio de 2007 temos na praça mais um escândalo de nacional proporção, obra da corrupção que assola o país, que vem à tona em mais um bom trabalho da Polícia Federal, desta vez chamada de Operação Navalha. O mote seriam propinas dadas por uma grande empreiteira e recebidas por políticos, com foco no Senador alagoano Renan Calheiros, no exercício da presidência do Senado.

Fala-se até na abertura de CPIs, na Câmara e no Senado, em cima dos agrados pré e pós eleitorais, oferecidos a políticos por empreiteiras. Mas com, ou sem, CPI, pode ser mais uma encenação destinada a dar em nada. Parece que, no Brasil, algumas gerações ainda se sucederão até que se possa ver um escândalo político dar em tudo.

No presente caso, por exemplo, dos cerca de quarenta presos pela PF apenas oito continuam detidos, 6 dias depois. E serão logo soltos. A sociedade brasileira pergunta:

-Por que foram soltos? Ora, porque a lei manda soltar. A lei dá direito a eles de responder em liberdade. A lei diz que réus primários somente serão trancafiados em cela depois de processados e condenados em derradeira instância. Ora, políticos nunca são condenados. Passam a vida delinqüindo e morrem primários!

-Quem faz a lei? Claro, o poder legislativo. Deputados e senadores.
-Quem pode modificar esta lei? O legislativo pode criar e modificar leis.
-Os juízes não podem? Claro que não, juiz não faz nem modifica lei. O juiz aplica a lei.
-Mas em processo regular esse pessoal será absolvido? Muito provavelmente.

-Qual a razão? Nossa cultura, social e jurídica, ainda não convive com o isolamento, numa cela, de pessoas da alta classe média, ou seja, pessoas como os empresários e políticos que atuam nessa área nublada que poderíamos chamar de colarinho organizado. Sim, porque o colarinho dessa gente não é apenas branco. É, também, sobremodo organizado.

O fato é que ainda não temos um judiciário à altura do país civilizado com que sonhamos. Isto, não por culpa do judiciário, como se vê, mas do momento histórico, do aperfeiçoamento que nos falta nas instituições, nas leis e – o mais importante – na cultura da sociedade brasileira.

Imagino que seja uma questão de tempo. A seriedade está vindo por aí. Teremos esse Judiciário muito em breve. Apenas o Ministério Público e a Polícia Federal, conquanto menos amplos fisicamente, se aparelharam primeiro. Passaram a bulir com o status quo.

Aos poucos vamos superando a cultura de que só o ladrão de galinhas deva ser preso. Começamos a prender gente conhecida ou gente boa, como queiram. A reação dos colarinhos seria natural e esperada. Já falam em processos sigilosos. Querem mais silêncio (mordaça) na imprensa. Dois ministros do Supremo discordaram dos métodos da PF... Viram excessos. Criticam o que chamam de mega-aparições.

A maioria dos brasileiros, entretanto, não vê nada disto. Vê excessos, sim, na roubalheira de dinheiro público por um empresário mancomunado com políticos. Nos hospitais abandonados pelo país, onde doentes morrem nas filas. Na violência grassando e ceifando vidas nas favelas, ante a imperícia de um Estado catatônico. Vê a educação relegada à condição de projetos eleitorais.

Que bom que as mega-aparições tragam esses problemas a público e à discussão. O sigilo e a discrição, no caso, aproveitam aos bandidos.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de maio de 2007)

domingo, 8 de novembro de 2009

Discurso na Câmara Municipal de Leopoldina

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Junho, 2002

Ao ensejo da outorga de Medalha do Mérito Leopoldinense ao Sr. Eloy Rodrigues Netto, em Sessão Solene realizada no Salão da Câmara Municipal de Leopoldina, neste 29 de junho de 2002, às 18:00h, representando familiares do homenageado, permito-me dirigir-lhes algumas palavras:

- Sr. Presidente desta Casa, no exercício da Presidência desta Sessão, digno Vereador, Brênio Coli;
- Ínclito representante de nossa região na Assembléia Legislativa de Minas, amigo Deputado Bené Guedes;
- Ilustre Prefeito Municipal de Leopoldina, Dr. José Roberto de Oliveira;
- Querido homenageado, meu primo e grande amigo, Eloy Rodrigues Neto;
-Senhores vereadores, ex-vereadores, autoridades, representantes de Clubes de Serviço, minhas senhoras, meus concidadãos:

Indicado a falar em nome dos familiares do nosso homenageado, tomarei não mais que três minutos dos senhores presentes para expressar os sinceros agradecimentos de minha família, não apenas ao ex-vereador Edvaldo Franquido Donato do Vale, autor da proposta desta honraria, mas a todos os senhores vereadores que a transformaram em Lei, e ao Sr. Prefeito Municipal, José Roberto de Oliveira, a quem a família manifesta especial gratidão por a haver sancionado.

Convivo com o primo Eloy desde meus 8 anos de idade. Conheci-o, por essa época, na Fazenda Boa Sorte, casa de nosso avô comum, Totônio Rodrigues, quando minha mãe – professora estadual na Escola da Vargem Linda – veio transferida para a Escola da “Capelinha de Santo Antonio”, no Bairro da Onça, nas proximidades da qual passamos a residir. Eloi freqüentou a escola da Boa Sorte, onde pontificou durante muitos anos a legendária professora, Da. Climene Godinho Neto, sua tia, que, aliás, anos antes - por volta de 1920 - fora também mestra de meu pai e de minha mãe.

Jamais pagarei com simples palavras de reconhecimento a enorme dívida de gratidão que tenho com Eloy. Tendo sido ele, com o irmão Ely, os primos que primeiro deixaram a roça em direção à cidade, fiquei a eles devendo desde a adolescência as eventuais, mas muito generosas acolhidas que me deram em sua casa, durante o curso ginasial que a duras penas freqüentei no antigo Colégio Leopoldinense, correndo 6 km de manhã, para vir, e 6km à tarde, para voltar, no lombo do meu cavalinho, Guarany.

Não foi por acaso que, indo para o Rio de Janeiro em 1957, e lá residindo por 37 anos, jamais transferi meu Título de Eleitor de Leopoldina. Mantive-o aqui para ser fiel ao Eloy e ao Ely em todas as vezes que se apresentaram candidatos à Câmara Municipal e, no caso do Eloy, também ao Executivo Municipal.

Assim, tenho para com o Eloy uma dívida irresgatável. Reitero, pois, ainda uma vez minha profunda admiração e respeito por ele e, a todos os senhores, digo que também me sinto homenageado neste momento em honras são deferidas ao meu dileto amigo e primo.

Agradeço aos membros desta Câmara a outorga desta Medalha do Mérito Leopoldinense a este cidadão exemplar, a este homem que distinguiu o trabalho e a honra pessoal como os materiais com que construiria uma existência genuinamente digna de ser tomada como exemplo.

Meu abraço fraterno ao Sr. Presidente deste Legislativo Municipal, Vereador Brênio Coli, a quem peço que transmita aos demais vereadores que tanto honram esta Casa, o reconhecimento da família Rodrigues e meu abraço, pessoal, a cada um.

Muito obrigado.
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(29.06.2002)

Leopoldina assim assado

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Novembro, 2005

Ando escrevendo pouco, ultimamente. Mas Sebastião Heitor, editor primoroso da “Revista Hora H”, me pede um texto para o mês de novembro e prometi tentar. A revista dele é ótima, já se transformou numa das presenças femininas mais requestadas desta terra e eu nunca me engracei com ela, com um artiguinho que fosse. De repente, me pergunto por quê? Vá lá, ando talvez pouco inspirado para assuntos locais. Com a internet escancarando janelas para o mundo a gente vira cidadão do planeta, esquecido da própria toca.

As notícias locais que me chegam, ultimamente, resumem-se a velórios e entram aqui em casa pela boca da arrumadeira. “–O senhor não imagina quem morreu!...” Claro que não imagino, pois meu esporte preferido é pedir a Deus, nas minhas orações, que todos vivam muito e com saúde. Todos, porque inimigos não tenho. Mas o resultado da encrenca é que tenho ido muito ao cemitério.

Apesar de pouco chegado a máscaras mortuárias - por achar melhor guardar uma imagem live dos extintos - o cemitério acaba se convertendo, para mim, num repetitivo local de encontro com pessoas vivas. Tanto vivos que aqui vivem quanto vivos que vivem fora e se dispõem a não continuarem vivos, enfrentando essas estradas-de-governos-sem-vergonha, quando arriscam vir dar em Leopoldina.

Enterros atraem velhos conhecidos, alguns tão velhos que quase já não são conhecidos. Principalmente, quando estou sem meus dois graus para longe. Bom revê-los, enquanto é tempo...

Outra coisa que faço com algum gosto nesta cidade é ir a supermercado. Minha mulher se encarrega de “passar o cartão” quando o passeio termina, poupando-me a sensação desagradável do desfalque.

Passear de carro pela cidade também é agradável. Mas convém baixar os pneus para umas 15 libras, a fim de melhor absorver os solavancos do calçamento de Leopoldina. Um protetor de vértebras cervicais também não vai mal, para prevenir fratura de pescoço nas arremetidas da cabeça contra o teto do veículo. Mulheres nunca devem dispensar o sutiã, se desejarem viajar com as mãos desocupadas. Nunca se viu tanto buraco.

Quanto ao resto, a cidade não é má. Acho que a Praça João XXIII ficou simpática com o happy hours da juventude incrementado por aqueles quiosques de muito bom gosto, valorizando o centro da cidade. As noites do centro ficaram mais iluminadas, mais comunicativas.

Há dias, amigos meus de Barbacena e Ponte Nova, passando pela João XXIII no horário nobre, concordavam: “Não temos, em nossas cidades, um lugar assim, movimentado e alegre, para os jovens!” E não têm mesmo. Fico feliz, também, quando vejo pessoas reunidas conversando, sorrindo, cantando, algumas com seus instrumentos musicais, ali na Pracinha do Urubu, ou na esquina da Pompílio Guimarães com 27 de Abril. Espaços como esses, recriados e humanizados, acabam fazendo uma boa diferença. Isto é positivo. Ganha a cidade, ganham as pessoas.
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(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 04 de novembro de 2005)

Deu-se com a Julia Roberts

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Junho, 2003



Vou contar aqui, hoje, uma piadinha leve, inspirada (copiada não teria graça) num e-mail recebido dia desses. Sei que esses conteúdos voadores se espalham rápido pela rede, todo mundo toma conhecimento, mas vá lá minha livre reprodução.

O tema explora a ingenuidade sertaneja que, no Brasil, não é privilégio de nenhuma unidade da federação - mas que é meio chegado a “causos” de mineiro, que costumam aparecer por aí, é.

O pretenso autor da mensagem internetiana nada tem a reclamar. Papai aqui não nasceu ontem e sabe muito bem que a trama guarda total similitude com uma fábula do velho Esopo. Vejam só que coisa mais interessante:

Um lenhador cortava suas canjaranas secas à margem de um rio quando, sem mais nem menos, o machado lhe escapou das mãos e mergulhou na correnteza. Em desespero, o infeliz operário clama aos céus por ajuda.
-Meu Deus, não posso perder meu machado! É dele que retiro o sustento de minha família!

Mal pronuncia a piedosa súplica e ressoa dos altos ramos (aqui, já é Fernando Pessoa) uma voz terna que acode: "Por quem clamas, filho amado?”
- Pai, não posso mais trabalhar, meu machado caiu no rio.

Deus, então, diafanamente incorporado à figura de um doce velhinho de cabelos e barbas muito brancos, num gesto mágico, retira do rio um reluzente machado de ouro e pergunta: -“É esta a tua ferramenta, meu filho?”
- Não, Senhor Deus, não é este o meu machado – responde o honesto lenhador.

Deus, comovido com a virtude daquele filho tão sofrido, rejeitando a peça de ouro, outra vez se volta para o rio e retira de lá um segundo machado, esculpido em prata genuína: -“É este o teu machado, meu filho?”
- Também não, responde o correto lenhador. Não é este o meu machado, Pai Generoso!

Pela terceira vez, então, Deus encharca as sandálias e regressa com um machado comum, enferrujado e gasto, cabo de madeira tosca, e o exibe ao operário: -“Será, pois, este o teu machado, filho exemplar?”
- Sim, diz, transbordando de felicidade, o lenhador. É este o meu machado, ó Bom Pai!

Contente com tão rara honestidade entre os homens, Deus decide presentear o pobre homem com os três machados, mandando-o, em paz, de volta para sua casa.

Tempos depois, aquele mesmo lenhador, com sua humilde esposa, passeava pelas proximidades do rio quando ela, que não sabia nadar, tropeçou e caiu na correnteza. Desesperado, o madeireiro que jamais esquecera a intervenção divina na recuperação do machado, de novo viu-se clamando aos céus por novo milagre.

E a mesma voz harmoniosa e leve o acudiu do alto: -“Filho em quem depositei toda a minha complacência, por que novamente me chamas?”
- Salve minha esposa, Pai, ela tombou no rio e vai morrer afogada!

O Senhor, querendo testá-lo ainda uma vez, dirige-se ao rio e retira de lá a Julia Roberts: -“É esta a tua esposa, filho sincero?”
- Sim!... Sim, Pai! É esta a minha esposa.

Deus se decepciona e o repreende com energia: -“És um mentiroso! Esta moça não é tua esposa. É uma atriz americana famosa, uma linda mulher, conhecida no mundo inteiro. Estou decepcionado!
Ao que o lenhador se justifica:

- Senhor, me perdoe, não fiz por maldade. Imaginei que se dissesse “não” o Senhor voltaria ao rio e de lá extrairia a Catherine Zeta-Jones para, só depois, numa terceira operação de salvamento, trazer minha verdadeira esposa, quando eu, ao dizer “sim”, receberia as três de presente.
Mas Pai, eu sou um mísero rachador de lenha. Como haveria de manter essas três mulheres?
Somente por isto afirmei ser minha a primeira que apareceu.

Não é seguro que certa incontinência masculina em relação às mulheres exageradamente belas seja desígnio da própria criação. Mas parece que Deus perdoou o lenhador.
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(Publicada na Gazeta de Leopoldina de 16.06.2003 e em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/, em 03.12.2009)

sábado, 7 de novembro de 2009

Duas notas para a Gazeta de Leopoldina

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Agosto, 2003

I - VIDA INTELIGENTE NO PLANETA MARIPÁ

Prefeitura e Câmara Municipal de Maripá conferiram, a 20 de abril, deste ano, o título de Cidadão Honorário ao historiador leopoldinense, José Luiz Machado Rodrigues, na oportunidade do lançamento de seu Livro “MARIPÁ DE MINAS E REGIÃO”, obra que encerra um estudo histórico daquela região da Zona da Mata, desde a ocupação pelos primeiros desbravadores dos Sertões do Leste.

José Luiz é um estudioso entusiasmado da ocupação da Mata Mineira, já tendo publicado nesta Gazeta vários artigos em colaboração com a também historiadora, Nilza Cantoni, sobre surgimento e desenvolvimento da colônia italiana em nosso município.

O lançamento da obra histórica de Maripá teve o apoio irrestrito da Secretaria de Educação e Cultura daquela cidade e o empenho direto do Prefeito Walter Trezza.

II - A CURVA DO TIMBIRA

Em número recente desta Gazeta José Antonio M. Rodrigues escreveu bela crônica sobre uma cruz antiga existente na “Curva do Timbira”. Trata-se daquela curva perigosa, da BR-116, situada a poucos metros da entrada para a Boa Sorte.

Pois bem, a tal cruz - que não está mais lá - era pontuadora de algum grande acidente com morte ali ocorrido antes de 1950. Daquele tempo até hoje, as mortes prosseguiram, às dezenas, às centenas. Mais de meio século de assassinatos impunes.

No sábado, 21 de junho, último, tombou por lá uma enorme carreta. Uma semana depois, sábado 28 de junho, outra carreta. Há não muitos meses atrás, um casal e filha, ali perderam a vida. Por último, nosso amigo e conterrâneo Louro (Epenor Neto da Silveira) e esposa, Shirley Pereira da Silveira, também faleceram em acidente automobilístico naquele infausto local.

Se existissem estatísticas, certamente comprovariam incidência de acidentes semanais naquele trecho, com prejuízos enormes, lesões sérias e vítimas fatais.

Diante de tantas tragédias, nada mais que uma placa padrão, em frente à PREARCON, de “reduza a velocidade”.
Não precisaria fazer outra coisa o advogado que abrisse escritório no local, especializando-se apenas no art. 927 do Novo Código Civil, para levar o D.N.E.R./D.N.I.T. à Justiça por todos os acidentes daquela curva, com ou sem vítimas fatais.
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(Publicado na Gazeta de Leopoldina de agosto de 2003)

Conversa Puxa Conversa

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Maio, 2003

Podemos enrolar um cigarrinho de palha e começar falando mal deste teclado. Lá por 1957 a gente aprendia datilografia, em Leopoldina, com o Prof. Haroldo J. B. Freire numa velha Remington 30 que não corrigia erros nas batidas. Ao contrário, até os estimulava. Já neste computador o Word acusa as batatas, mas só quando plantadas em minúsculas. Se você escreve, por exemplo, PUCHA em maiúsculas o programa ignora o erro, deixando você conjugar o verbo puchar, com ch, como quem bebe caxaça, ou melhor, cachaça. Descobri que o segredo está na tecla Caps Lock que, uma vez acionada, desativa avisos ortográficos. Desatento como sou, só me sinto seguro redigindo tudo em minúsculas para, depois, comandar as caixas altas.

Sou distraído demais. Uma vez, lá pelos quinze anos de idade, cheguei a jogar fora uma pequena fortuna “em moeda corrente do país”, dinheirinho suado de meu pai destinado à minha mensalidade escolar. O Colégio Leopoldinense, na época era uma escola particular, da Diocese Leopoldinense. Por azar coloquei o dinheiro no bolso junto com o sanduíche de mortadela da hora do recreio, mas que veio sendo devorado antes da hora e aos beliscões, no lombo do cavalo que me trazia às aulas.

Naquele dia a merenda acabou pelo caminho, ali nas proximidades do Caiçaras, onde fica hoje a Polícia Rodoviária Federal. Incomodado com o papel gorduroso no bolso, joguei tudo no mato - naquele lugar tudo era mato na década de 50 - o embrulho do sanduba e, com ele, os haveres do Bispado.
Assim, aquele Posto Policial que leva o nome de um antigo engenheiro do DNER, tem capital do meu pai enterrado nos alicerces. Passo por ali com ânimo de exumação hereditária.

Coincidência é que, indo depois de moço para o Rio de Janeiro naquelas mesmas condições lamentáveis descritas numa bela canção, pelo cantor Belquior, isto é, “sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes...”, num lance de mera coincidência, acabei conhecendo, ainda que rapidamente, o Dr. Régis Bittencourt, cujo nome, grafado no Posto da Polícia Rodoviária como lá está, serve de epitáfio à referida desova monetária.

Mas conversa puxa conversa e essa emblemática canção do Belquior me lembra outra história, também dos fins dos anos 50. Aconteceu com um contemporâneo nosso. Ele era apenas um rapaz leopoldinense, amigo meu, e trazia de cabeça, não uma canção do rádio, mas um histórico bilhetinho que o estimado farmacêutico, Sô Lilíu (Osmar Lacerda França) - pessoa das mais distintas, bondosas e solidárias que Leopoldina jamais conheceu - ofereceu para que ele, com 19 anos e sem recursos mínimos para seguir estudando, pudesse tentar alguma coisa no Rio de Janeiro.

Não interessa o nome do figurão a quem o bilhete do Sô Lilíu foi dirigido. Basta dizer que ele presidia uma das muitas autarquias federais, da época. Era comum naqueles tempos o suprimento de vagas no serviço público pela via política. Aliás, era quase a regra. Empresas públicas e Autarquias não passavam de feudos partidários (Sei que isto não mudou muito!). O próprio embaixador, economista e senador Roberto Campos confessa, em suas memórias, que na juventude saiu do Seminário de Guaxupé, para o Rio de Janeiro, levando carta de um parente apresentando-o a Filinto Müller, o todo-poderoso chefe de polícia do Getúlio. E ressalva: “Naqueles tempos, o sonho dos matogrossenses que aportavam ao Rio era (...) entrar no Exército ou arrumar uma colocação com o Filinto”.

Mas no caso do rapaz leopoldinense o bilhete do Sô Lilíu não funcionou. Foi rispidamente recebido pelo poderoso homem público, um tipinho vaidoso, prepotente, áspero no trato, que só faltou dar um ponta-pé no traseiro do jovem rurícola, já de si aparvalhado com o portento de um gabinete de marajá espraiado num sétimo andar da Esplanada do Castelo.

Por sorte o jovem não se abateu. Saiu dali disposto a enfrentar todos os concursos que aparecessem. Era governo JK, com fartas oportunidades de emprego. Tantas oportunidades que ele veio a ser aprovado em quatro seleções distintas. Escolheu o que achou melhor e fez vitoriosa carreira.

Muitíssimos anos depois, já maduro, esse ex-quase protegido do Sô Lilíu me conta que no exercício de uma alta chefia no governo recebeu certo dia em seu gabinete um cidadão que voltava de um exílio de 18 anos na Europa. Um beneficiário da Lei da Anistia, que se reincorporava ao serviço público para completar tempo de aposentadoria. Esbanjou humildade, o adventício:

- Doutor, ingressei-me neste serviço quando moço, sem concurso, por empenho de meu falecido pai, homem do getulismo. Fui admitido aqui como Assessor, mas jamais exerci qualquer função. Principalmente agora, depois de duas décadas de exílio, faltam-me condições mínimas para sequer redigir um ofício. Peço-lhe, encarecidamente, que o senhor me tolere aqui, pelo menos por alguns meses, para que eu complete meu tempo. Tenho família, preciso aposentar-me em condições melhores.

Encurtando conversa. O anistiado da Ditadura Militar era simplesmente filho do antigo poderoso homem público. O mensageiro do Sô Liliu, destratado 30 anos antes, estava agora em condição de fazer alguma coisa pelo filho do empedernido figurão. E o fez, magnânimo. Fingiu desconhecer-lhe a filiação. Em vez de apenas tolerá-lo em humilhante ociosidade, optou por ensinar-lhe, pessoalmente, a prática de alguns controles. Com isto ele se aposentaria em paz e com a dignidade preservada.

Como de fato aposentou-se. Sem jamais ter ouvido falar, entretanto, no canhestro episódio protagonizado por seu falecido pai.
O mundo dá voltas!
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(Publicado na Gazeta de Leopoldina de 26.05.2003)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Notas para a Gazeta de Leopoldina


Foto: Rua Ribeiro Junqueira, vendo-se o Hospital ao fundo, no alto.

(Publicado na Gazeta de Leopoldina de 31.08.2002)


HOSPITAL – As últimas semanas foram quentes, com celeumas envolvendo a Casa de Caridade Leopoldinense. Para causar um certo impacto na sociedade, que levasse as pessoas a ajudar o Hospital em sua crônica carência de recursos, o Provedor José Valverde Alves, há 8 meses no cargo, chamou Clubes de Serviços e pessoas para socorrerem o Hospital e levou as contas do PS ao Ministério Público, ameaçando fechá-lo se a municipalidade continuar omissa, segundo entende o Provedor, em suas obrigação de arcar com as despesas de manutenção do Pronto Socorro, que é municipal.

PROBLEMA É ANTIGO E GERAL- Em todo o país os Hospitais Filantrópicos trabalham no vermelho porque desaba em cima deles a conta da Saúde Pública nacional. A constituição de 1988, ao estabelecer que todo brasileiro tem direito à saúde, omitiu-se simplesmente quanto à indizível massa de recursos que a proposta demandava. Como não somos a Suécia, o SUS foi concebido com tabelas e limites que não indenizam os custos da maioria dos tratamentos. E é aí que os Hospitais conveniados se arrebentam.

PREFEITURA TEM QUE LEVAR EMBORA SEU PRONTO SOCORRO – O início de qualquer medida saneadora do Hospital há de começar por livrá-lo imediatamente do Pronto Socorro Municipal. Havia um Convênio através do qual o Hospital mantinha o PS para a Prefeitura. Acabou, estávencido, está denunciado. Mas a Prefeitura insiste em não tomar o PS de volta e em não firmar novo Convênio que a obrigue a arcar com os prejuízos do Pronto Socorro. É mais cômodo deixar que o Hospital se arrebente. Só o Ministério Público, só a Justiça poderá, agora, salvar o interesse público dos leopoldinenses humildes, mantendo vivo o Hospital e OBRIGANDO A PREFEITURA A ASSUMIR SEU PRONTO SOCORRO. A Casa de Caridade tem como adaptar seus procedimentos internos aos limites orçamentários do SUS, e sobreviver, mas não tem como fazer isto com relação ao Pronto Socorro, cuja demanda por socorro gratuito é ilimitada, sendo por isso mesmo obrigação legal da Municipalidade e não de uma Instituição Privada.

É PRECISO BOA-FÉ – Leopoldina precisa que todos entendam a necessidade de preservar este Hospital, que é o único que temos. De preferência com o apoio e o envolvimento das autoridades locais que são, pela lei, os gestores da saúde no município. Jamais se repetindo o triste espetáculo de vermos autoridade política assumir os microfones das duas emissoras locais para fazer discurso de palanque, politizando o que não é para politizar, iludindo a boa-fé da população ao procurar demonstrar, insistentemente, que “todos os problemas do Hospital” se resumiriam à conta de um telefone celular usado pelo Administrador Hospitalar, Sr. Antonio Carlos.

O TAL CELULAR – Por tratar-se de assunto sensível a canalhices, a conta do tal celular sempre foi objeto de consenso nas reuniões do Conselheiros do Hospital. Mas saiba, você leitor, porque é necessário que o Administrador do Hospital tenha um celular. Vejam: Como qualquer trabalhador, o Administrador é um celetista (CLT) obrigado, pela lei, a TRABALHAR APENAS 8 horas... Só que o Hospital fica aberto durante as 24 horas, jamais fecha. Como resolver? -Contratando três Administradores? Claro que não, ficaria muito caro e, o comando, inteiramente disperso. Mais econômico e mais coerente é assinar a carteira de APENAS UM ADMINISTRADOR, entregando-lhe um celular que o mantenha todo o tempo disponível para as urgências eventuais no socorro aos doentes.

QUAIS URGÊNCIAS? – Dezenas delas. Esta coluna anotou as principais para os leitores deduzirem outras. A qualquer hora, do dia ou da noite, o atendimento hospitalar é feito por médicos e enfermeiras, DE PLANTÃO. Só os plantões médicos são 42 plantões, portanto 42 plantonistas, semanais, no CTI, no PRONTO SOCORRO e na MATERNIDADE. Também enfermeiras e auxiliares de enfermagem, trabalham sob regime de plantões. Imagine você: somando médicos e enfermeiras são mais de 100 profissionais... É natural que essas pessoas muitas vezes FALTEM AO SERVIÇO, se atrasem, não se sintam bem e tenham que ir embora, etc.
-Qual Chefe tem que sair em campo, imediatamente, para encontrar substituto para um desses plantonistas ausentes, seja a que hora do dia, da noite ou da madrugada for? Resposta: O Administrador. Mas, das 24 horas do dia, apenas durante 8 horas ele está no Hospital.
- Qual a maneira mais segura de encontrá-lo nas outras 16 horas? Não seria através de um celular, o qual ele tenha compromisso de MANTER LIGADO?

TEM MAIS – Chega ao Hospital doente gravíssimo ou acidentado necessitando transporte urgente para Juiz de Fora. Traumatismo craniano (Não atendido em 4 horas, morre).
O transporte de doentes é obrigação da Prefeitura. Mas, na prática cotidiana, quem é chamado às pressas para “inventar” uma ambulância que não esteja quebrada (as da Prefeitura sempre estiveram, só agora melhorou), localizar um motorista e viabilizar imediata remoção, a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada? De novo, só existirá uma pessoa: o Administrador, com seu celular salvador de vidas.

MAS CONTINUE PENSANDO - Deu pane no oxigênio às três da manhã; o respirador de um leito do CTI enguiçou e os outros estão ocupados; ventou forte e destelhou a enfermaria da parte antiga; no PS um “abdome agudo” ou um esfaqueado precisa cirurgião urgente, que a telefonista não localiza... – Quem interrompe o sono e parte para procurar médico operador nas cidades vizinhas? Ele, o Administrador!
Gente, o prefeito-médico que conhece o problema como a palma de sua mão, e vai para uma emissora de rádio fingir que desconhece, está descompromissado com a verdade.

UMA OPINIÃO BEM FUNDAMENTADA – Em alguns artigos publicados nesta Gazeta o Provedor anterior, José do Carmo Rodrigues, que redige estas notas, sempre deixou claro que o Hospital é deficitário. Acumula todos os meses um saldo negativo de cerca de R$22.000,00. Logo, é nesta proporção que a dívida da CCL aumenta inapelavelmente. Por isto o Hospital não consegue sobreviver sem ajuda da sociedade, através de leilões, doações, rifas, etc.

Do contrário vem a pressão irresistível de fornecedores, corte nos fornecimentos, falta de remédio, filmes, soro, oxigênio... Sobretudo, entende o ex-Provedor, que é preciso dinamizar o Plano Sócio Contribuinte, pois foi esse Plano que permitiu ao Hospital chegar, em dezembro de 2001, ao limite de 34% de internações particulares e de convênios, conforme balancete nesta Gazeta em número de Janeiro/2002.
OS RODRIGUES – A coluna registra o encontro da família Rodrigues, a 27 de julho último, no Sítio Puris. Foi a 8ª Reunião tri-anual dos descendentes de Antonio Augusto Rodrigues (Totônio Rodrigues), falecido em 1941, e sua esposa, Maria Antônia de Oliveira Rodrigues, a que compareceram mais de 200 pessoas, procedentes de diversos Estados da Federação. Uma bela festa de congraçamento familiar que teve início às 8 horas do Sábado, 27, com Missa celebrada na Capelinha de Santo Antonio da Onça pelo padre Pedro, do Rosário, prolongando-se até a manhã do domingo, com atrações as mais diversas para adultos e crianças. Aos sete ramos da família, os “Machado Rodrigues”, os “Godinho Rodrigues”, os “Rodrigues Netto”, os “Rodrigues Monteiro”, os “Rodrigues Machado”, os “Oliveira Rodrigues” e os “Rodrigues Lima”, voltem sempre.

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Dona Belinha

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VIDE: Bons Alunos nos 90 Anos de Da. Belinha


(Fazer a Biografia dela e colocar aqui)

domingo, 1 de novembro de 2009

18º Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos



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Foto: José Gabriel, jornal LEOPOLDINENSE
(Neta de Augusto dos Anjos, Sra. Ana Maria dos Anjos Vercilo, com o autor)

Outubro, 2009

Cumpriu-se ontem, 30 de outubro, a partir das 19 horas, no auditório do CEFET, a etapa final de julgamento das mais de quatrocentas poesias enviadas para “18º Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos”, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Leopoldina.

No concurso deste ano a temática e o gênero eram livres e cada candidato poderia concorrer com apenas duas obras, inéditas.

Os prêmios estiveram assim distribuídos: R$1.800,00 para o primeiro colocado; R$1.000,00 para o segundo; e R$800,00 para o terceiro.

O julgamento dos trabalhos remetidos foi confiado aos membros da ALLA – Academia Leopoldinense de Letras, os quais, em seleção prévia, apontaram as dez poesias classificadas para concorrer à final, que se realizou ontem, na cerimônia de encerramento do Concurso.

Os três poemas vencedores foram:

Primeiro lugar: “A delicadeza de Rimbaud”, autor Marcos Vinícius Teixeira Quiroga Pereira, do Rio de Janeiro, RJ;

Segundo lugar: “Traição”, autora Márcia Marina Alberti de Castro Siqueira, de Indaiatuba, SP;

Terceiro lugar: “Féretro do Poeta”, de Luiz Dias de Vasconcelos, de Sete Lagoas, MG.

A comissão julgadora, também formada por membros da ALLA, escolheu ainda a Melhor Intérprete, dentre os dez declamadores dos poemas concorrentes à final. Débora, regente do Coral “Encanto”, acompanhada ao violão pelo professor Paulinho, foi a vencedora por sua interpretação dada ao poema, “Traição”.

Sem dúvida uma noite notável da cultura leopoldinense, à qual estiveram presentes quatro membros da família do poeta Augusto dos Anjos, a saber: sua neta, Ana Maria dos Anjos Vercilo; seu neto, Ricardo dos Anjos e esposa, Andiara dos Anjos; e Selma Fialho, filha do segundo casamento de Da. Ester, esposa de Augusto dos Anjos.

Como sempre, presentes ao ato o Prefeito Bené Guedes e sua esposa Da. Nilma Junqueira Guedes e todo o secretariado, com destaque para o festejado pessoal da Secretaria de Educação e Cultura, à frente a Secretária, Da. Lúcia Lopes Horta, com sua eficiente equipe da área cultural, Senhoras, Valéria Equi Benati Bártoli, Rosângela Moreira Lima e Benedita do Rosário Pacheco (Zazaia).

São elas, aliás, as responsáveis por um dos principais destaques deste início de governo Bené Guedes, que foi a divulgação da pontuação do ICMS Cultural de Leopoldina. O IEPHA – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, acaba de divulgar, em sua página na Internet, Leopoldina alcançando o índice de 6,45 pontos, que traduz uma verba de R$120.000,00 destinados à cultura de nossa cidade, no ano de 2010. É, simplesmente, a melhor pontuação da região.

O 18º Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos constituiu-se num evento de enorme projeção nacional. Concorreram poetas de todas as unidades da federação, sem exceção de nenhuma. Esta proeza que insere Leopoldina no roteiro cultural do país, não deve ser creditada apenas ao instrumento fabuloso de divulgação que é, hoje, a Internet. A rede precisa ser bem acionada. Em tal desiderato, merecem nomeação e destaque o trabalho realizado pela dinâmica área de cultura do Governo Bené Guedes e toda a imprensa local, jornais, revistas, rádios, com destaque para o jornal LEOPOLDINENSE ONLINE, com seus quase que 2 mil acessos diários, muitíssimos deles feitos, inclusive, do exterior.

Na noite de ontem, Leopoldina saiu do auditório do CEFET bem mais vaidosa do que lá entrou.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE, em 31.10.2009)