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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tempo

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Novembro, 2010

Não sei se ando administrando bem o meu tempo. Hoje mesmo por pouco esta crônica não sai da toca.  Pressionado por um punhado de urgências cheguei a procurar assunto rápido no noticiário, mas a ênfase na violência e na crise econômica mundial me dissuadiu das atualidades. Vamos inventar tempo de pensar noutras coisas.

Minha vida é de correria. Faltando-me hora pra tudo. São histórias e mais histórias que improviso para escapar a eventos sociais, para não aderir a projetos alheios... Mesmo sob o constrangimento da desculpa esfarrapada no lugar da verdade verdadeira que poderia pegar mal.

Natural a pessoa que gentilmente nos convida para alguma coisa, que para ela é importante, achar um tremendo pouco caso trocarmos sua conspícua companhia, ou proposta, por “algo tão frívolo”... Só que, para nós, não é frívolo, ora bolas! 

Quando alguém opta por dar as costas a badalações já o faz no pressuposto de que seu tempo de boiar nas espirais do cigarro será sagrado. Quem quiser que vá amanhã receber e homenagear Sua Excelência, que vá ao bingo beneficente, à debutância da filha do Aristeu, ao jogo de pôquer no caxixó da Lívia. Tem dó! Já fui semana passada.

Cada um resolva a seu modo o enigma do tempo. Até porque ninguém sabe direito o que é tempo. Cientistas levados a defini-lo saíram pela tangente com brincadeiras. 

Einstein disse que o tempo é "uma ilusão”. Para ele, “a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão". John Wheeler, outro notável físico americano, foi ainda mais pilhérico: disse que tempo é "o jeito que a natureza encontrou para não deixar que tudo acontecesse de uma vez só".

Podem conferir no Google. Dois gênios da humanidade não entenderam o mecanismo da própria decrepitude. Ora, a prova de que o tempo existe é que só não o vemos passar quando estamos ocupados ou distraídos. Tão distraídos que não percebemos as erosões de nossa própria decrepitude.

Social e popularmente diz-se que "tempo se inventa" e que tudo se resume a saber programá-lo. O problema é impor socialmente nossa programação. Principalmente nas cidades menores, as pessoas se conhecem, são amigas, simpáticas, e querem sempre distinguir seus semelhantes com uma demonstração de carinho e apreço. Impossível não tratá-las com compreensão. Pero hay que endurecerse para que o controle da pauta continue em nossas mãos.

Consta que nos últimos 100 anos a vida média do ser humano dobrou. Contribuíram para isto a medicina, a alimentação mais adequada, a química farmacológica, os hábitos de higiene, o conforto. Paralelamente, novas técnicas e novas tecnologias, vieram otimizar o uso que fazemos do tempo − meios de comunicação dispensando presença pessoal; meios de locomoção mais rápidos etc. − e nem assim passou a sobrar tempo.

Ao contrário, a demanda de afazeres na sociedade moderna insiste em nos passar a impressão de que o tempo anda cada vez mais curto. Não apenas impressão. Anda curto, sim. Principalmente aquele tempo sagrado, para nós mesmos e para a família.

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(Publicado em 25.11.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

domingo, 21 de novembro de 2010

Política e Oração #

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Novembro, 2002



Embora nosso editor do LEOPOLDINENSE, Luiz Otávio Meneghite, apreciasse neste número alguma abordagem do resultado das últimas eleições, decidi minimizar o assunto. É que o pleito federal, certamente mais instigante com honras fúnebres a lideranças popularescas em Minas, São Paulo e Rio de Janeiro (Newton, Maluf e Brisola), não me parece assunto para jornal do interior.

No plano estadual, a imprensa de Minas terá esgotado reflexões sobre a avassaladora vitória do bom Aécio Neves, jovem homem público certamente fadado a restabelecer as melhores tradições da política mineira nos destinos do país. No plano municipal onde, infelizmente, Leopoldina logrou SAIR das urnas bem pior do que ENTROU, quaisquer comentários, por inócuos a esta altura, sucumbiriam aos fins que os justificassem. Em outras palavras: não teriam quê nem pra quê.

Sem embargo, a realidade dos três planos é que as campanhas estão cada vez mais caras e que pequenos erros em política têm o efeito cumulativo do sol na pele. Com o tempo abre lesão maligna. O remédio pode ser o filtro de um colóquio competente através dos meios de comunicação, com ênfase reparadora nas obscuridades e nos boatos. Porque boatos repetidos viram verdade, vindo daí lição de antiga raposa felpuda, que pontificava: “Mais importante que o fato, é a versão”. (Nota: Alusão à derrota previsível de um deputado estadual)

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Sem falar de política, falemos de religião e de gente.
Amigos, no dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, assistimos ali nos Pirineus a uma belíssima missa celebrada pelo Padre Jorge, o estimado pároco do Rosário. Foi na pracinha em frente à capela da Padroeira do Brasil, no velho Morro da Forca.

A noite de forte calor nem colaborava com a festa, mas quando se tem um sacerdote inteligente e culto, como o Padre Jorge, os fiéis acabam alcançando uma graça adicional à presença do Senhor no altar.

Em oportuníssima homilia de apelo à solidariedade entre as pessoas, abordou o celebrante as circunstâncias fáticas do aparecimento da imagem da virgem no leito do Rio Paraíba. Descreveu ele desde a singela apresentação material da peça - obra de humílimo artesão - ao oxidado da longa imersão, como que depositasse Deus na singela efígie um resumo antropológico da própria brasilidade.

Síntese de um povo na alegoria da Mãe que se vem juntar aos filhos, já com eles identificada na cor, no despojamento e no abandono, num dia qualquer de três sofridos pescadores.

Um sinal do alto à igualdade, à inclusão social, à condenação a toda sorte de discriminação racial ao índio, ao negro, ao mestiço, ao sertanejo do norte, ao gaúcho do sul, ao caboclo do centro - um chamamento à solidariedade neste país absolutamente moreno que é o Brasil.

Tocado pelas invocações inspiradas do Pe. Jorge, ali na praça, ombreado com a gente simples e boa do meu bairro, eu me fixava em cada face irmã retornando na memória, como num filme, a etnologia implícita em Gilberto Freyre, Caio Prado Jr. e Sérgio B. de Holanda, para me perguntar:
- Meu Deus, como pode ainda haver preconceito e exclusão racial num país onde está tão cabalmente descrito que somos uma raça única: A raça morena do Brasil?

Se até o elemento português, afluente “branco” de nossa etnia, jamais foi realmente branco. Eram mestiços, os lusos! Em Rassekunde Europas, Hans Günther - citado por GF - assinala que nos tempos coloniais os indígenas da África Oriental consideravam os portugueses como “seus iguais”, fazendo clara distinção entre: europeus e portugueses.

A essa realidade mestiça dos lusos se deve até, com absoluta segurança, sua notável capacidade de adaptação aos trópicos, sua cômoda integração com os nativos e, como conseqüência, a formidável proeza da conquista e domínio do vasto território brasileiro. Nenhum outro povo europeu pôde repetir nos trópicos essa façanha dos portugueses.

Sabe-se que o caldeamento racial em Portugal veio de época anterior ao descobrimento, não apenas por força da ocupação moura da Península Ibérica por quase mil anos, mas ainda pela presença em Portugal, antes de 1500, de numeroso contingente africano oriundo das possessões ultramarinas. Representavam os negros um quinto da população lisboeta quando a colônia brasileira apenas se iniciava, por volta de 1530...

Terminada a missa, desci vagarosamente a ladeira com o tema ebulindo na cachola. País maravilhoso - pensava eu - esse Brasil moreno da N. Sª. Aparecida. Aqui o afro/europeu veio tingir-se no útero da mãe tupi, matriz genética dos primeiro habitantes da terra, para dar em nós, às vezes tão particularmente distintos, mas tão iguais na alma e nos matizes variegados da raça única!

Como lembra Fernando Sabino (Gente, 1923), “o que mais intriga a maioria dos sociólogos que se dão ao trabalho de estudar essa charada que é o Brasil é que, por mais que cariocas, paulistas, mineiros, gaúchos, baianos ou nordestinos sejam diferentes uns dos outros, há qualquer coisa que os identifica em qualquer lugar do mundo como brasileiros: o seu espírito de independência e seu apego à liberdade, que um dia acabarão fazendo do Brasil um grande país”. O país que mostra ao mundo o “homem cordial”, na expressão de Ribeiro Couto.

- Mas por quanto tempo prevalecerá entre nós o equívoco senhorial da Casa Grande, fazendo Coronéis e Sinhás (de ontem e de hoje) acreditarem-se fidalgos? Se, para ser racista neste país e praticar exclusão social, não basta o aleijão de um caráter defeituoso? Há que somá-lo a uma boa dose de desinformação.
Sejamos, pois, solidários com nossos irmãos - como pede o Pe. Jorge – e, sob color da Padroeira do Brasil, N. Sª. da Conceição Aparecida, tenhamos patriótico orgulho da raça brasileira, porque neste pedaço enorme da América – a inspiração é de Gabriel Garcia Márquez - vive o povo mais bonito e as melhores pessoas do planeta.
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(Nota publicada na Gazeta de Leopoldina de 30.10.2002)

sábado, 20 de novembro de 2010

Nelito Barbosa Rodrigues


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Agosto, 2008

Aos 77 anos, faleceu na segunda-feira, 28 de julho (2008), no Hospital de Itaperuna, RJ, onde fora buscar socorro médico cardiológico, o ex-Agente do INSS em Leopoldina, ex-Vereador, ex-Presidente da Câmara Municipal, ex-Conselheiro e Administrador da Casa de Caridade Leopoldinense, Nelito Barbosa Rodrigues.

Queridíssimo nesta Leopoldina onde nasceu e sempre viveu, Nelito era filho de Nestor Augusto Rodrigues e de Sebastiana Barbosa Rodrigues (Nenê), e casado com Marli de Araújo Rodrigues, que o sobrevive, e com quem teve os filhos: Analice Rodrigues de Uzeda, Marcelo de Araújo Rodrigues, Eduardo de Araújo Rodrigues e Isabela de Araújo Rodrigues.

Vinha, há alguns meses, padecendo de complicações cardíacas. Com indicação para diagnóstico e tratamento coronariano (cateterismo), internou-se no Hospital de Itaperuna, vindo a falecer antes mesmo de qualquer procedimento cirúrgico.

Nelito foi homem essencialmente bom, cordial e amigo de todos (desconhece-se quem não gostasse muito do Nelito). Durante muitos anos funcionário da Previdência Social, sempre procurou fazer de cada segurado um alvo para sua desmedida atenção e solidariedade.

Sério até onde alguém pudesse ser sério, amigo até onde alguém pudesse ser amigo, alegre, bem humorado, prestativo, solidário com quem dele precisasse, Nelito viveu para seu trabalho, para sua esposa, seus filhos, seus netos, para a família.

Tivemos a honra de participar, com o primo e amigo, Nelito, com seu cunhado Rido Barros de Oliveira, com o Dr. Ronald Alvim Barbosa e com o Prof. Rodrigo Arantes Queiroz, da fundação da Banda Musical Princesa Leopoldina, no dia 15 de julho de 1999.

Também quando estivemos na função de Provedor da Casa de Caridade Leopoldinense, pudemos contar com a ajuda segura e honesta e com a experiência de Nelito na área da saúde, tendo ele aceitado ser o Administrador do Hospital, nos anos de 1999 e 2000.

Em 1998, Nelito dispôs em livro suas pesquisas genealógicas sobre a ascendência e a descendência do avô, Paulino Augusto Rodrigues, que foi casado em primeiras núpcias, com Umbelina Cândida Rodrigues e, em segundas núpcias, com Maria José Lacerda Rodrigues. Reuniu, numa grande festa familiar em Leopoldina, mais de duzentos descendentes do avô, Paulino.

O jornal LEOPOLDINENSE manifesta à Marli, filhos e netos do nosso estimado Nelito, seu abraço solidário neste momento triste, de enorme perda, não apenas para a família Araújo Rodrigues, mas para Leopoldina inteira, que perde um filho honrado e exemplar.
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(Nota publicada no jornal LEOPOLDINENSE de agosto de 2008)

Fábio Pereira Furtado


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Janeiro, 2009

Faleceu, aos 73 anos, no último dia 3 de janeiro, o meu amigo muito querido, Fábio Pereira Furtado. Fábio vinha há meses lutando contra um câncer de pulmão, mas, subitamente, o tumor que chegara a reverter-se quase que por inteiro com o tratamento, voltou a causar transtornos respiratórios. Sentindo-se mal na sexta feira, dia 2 à tarde, Fábio foi internado na Casa de Caridade Leopoldinense vindo a falecer no dia seguinte, às 12 horas. O sepultamento se deu às 18 horas do mesmo dia, no cemitério local.

Nascido a 8 de setembro de 1935, na Vargem Linda, Fábio era filho de Franklin Furtado Filho, falecido, e de Aurora Pereira Furtado, que o sobrevive. Casou-se aos 28 de maio de 1961 com a também leopoldinense, Magdalena de Almeida Furtado, e tiveram os filhos: Flávio e Patrícia, ambos casados. De Flávio são suas duas netas, Bianca e Rafaela.

Filho homem mais velho dentre os nove que tiveram Aurora e Franklin, Fábio teve que assumir muito cedo as responsabilidades do pai, prematuramente falecido. Tornou-se, com pouco mais que 15 anos, o grande apoio dos irmãos e da própria mãe. Por essa época iniciou sua vida de muito trabalho, aqui mesmo em Leopoldina, no Posto V8 do senhor Acácio Serpa.

Aos 20 anos, transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades. No Rio, onde sempre residiu na Rua Cândido Mendes, no Bairro da Glória, trabalhou em transporte urbano, agregando ônibus a uma concessionária, trabalhou com mercearia, foi servidor do DNOS e passou, em 1992, ao quadro administrativo do Colégio Pedro II, onde se aposentou.

Vinha residindo em Leopoldina há 16 anos, para onde regressou após a aposentadoria. Com ajuda da esposa Madalena, administrava sua “Pousada do Pato Rouco”, nas proximidades da antiga Fazenda Fortaleza.

Fábio nasceu e se criou dentro de uma família numerosa, muito unida e alegre. Sua mãe, Da. Aurora, sempre foi, e ainda é, apesar da avançada idade, uma mulher comunicativa e bem humorada. Enérgica a seu modo na primorosa educação que passou à prole, gosta, entretanto, de rir e de brincar com os nove filhos que a tratam (quase que) “de igual para igual”. Tanto Fábio quanto seus vitoriosos irmãos – Elza, Nilza, Gil, Valter, Euds, Marlene (falecida), Franklin e Laura - sempre tiveram, em comum, essa marca da espontaneidade e da alegria brincalhona de Da. Aurora.

Uma evidência disto era o próprio apelido familiar do Fábio. Por volta de 1960, com uns 25 anos, Fábio apresentou um calo nas cordas vocais. Problema que logo se revelou benigno, sem conseqüência maior que não fosse uma discreta rouquidão. Foi o bastante para os irmãos o apelidarem, carinhosamente, de “Pato Rouco”. O suficiente também para que Fábio, prontamente e por troça, assumisse o apelido. Ao construir sua “pousada”, em Leopoldina, batizou-a de “Pousada do Pato Rouco”...

Assim era o meu velho companheiro, desde a adolescência em Leopoldina e mocidade no Rio de Janeiro, uma pessoa feliz, amiga e muito comunicativa na maneira de lidar com as pessoas e com sua querida esposa, Madalena. Poucos instantes antes de expirar ainda dispunha de bom humor para fazer rir a sobrinha Magna, que o visitava no quarto do hospital.

A família, principalmente esposa e filhos, pediram que o jornal LEOPOLDINENSE consignasse um agradecimento muito especial ao Dr. Sérgio Maranha, que assistiu Fábio no curso da doença e em seus instantes finais. São gratos à notável dedicação, competência e disponibilidade oferecidas pelo Dr. Maranha em cada episódio da moléstia irremediável que levou de nós, ainda no frescor da vitalidade, essa pessoa tão especial e companheira. Um ser humano transbordante de alegria.

“Alegria”, exatamente a palavra com que seu filho, Flávio, nos pediu que encerrássemos esta nota para publicação. Fábio Pereira Furtado, o nosso mensageiro da alegria.
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(Nota publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 15 de janeiro de 2009)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Fala do Trono

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Novembro, 2010

Nunca a lógica do jogo político esteve tão clara: se a guerra ao inimigo foi vencida e já não preocupa, a disputa pelo espaço vem pra dentro de casa. É o que está ocorrendo ao governo após o caminho limpo que se abriu com a oposição a nocaute.

Os partidos da base se organizam para defender espaços no poder: ministérios, presidência da Câmara... À luta pelas batatas segue-se o antagonismo pela divisão das batatas – para usarmos a conhecida metáfora de Machado.

É da natureza humana. Aliás, da natureza animal. E vem de longe. Primatólogos constatam que a disputa organizada é comum também entre grupos de chimpanzés, nossos parentes mais próximos. Ainda hoje esses primos do interior (interior das florestas, claro) buscam subjugar o inimigo como forma de obter alimento e expansão territorial.

É certo ainda que ninguém menos que Immanuel Kant parece ter-se convencido de que a predisposição para a guerra seria algo endêmico à natureza humana, estando esse condicionamento associado talvez à capacidade de aperfeiçoar-se, vantagem com a qual a natureza também nos privilegiou.

Fica assim mais fácil entender porque, na ausência de oposição efetiva ao governo, que seria de responsabilidade do PSDB, alguns partidos da base da administração Lula - PMDB, PR, PP, PTB e PSC – estejam se organizando num “blocão” para emparedar a presidente eleita.

Estas legendas, que juntas totalizam maioria de 202 deputados na Câmara, buscam um único e explicitado troféu de guerra: manter seus respectivos nacos de poder. Ou, nas palavras do líder peemedebista, Henrique Eduardo Alves (RN), “que ninguém se meta na seara do outro...”

O móvel decisivo da movimentação, identificado em cartada do PMDB pela presidência da Câmara na próxima legislatura, tem muito a ver com a disponibilidade para a luta acessória. A oposição tucana levada à lona na eleição de outubro não tem como incomodar, já não os une. O contendor imediato passa a ser o PT, com seu incomensurável saco de batatas à mão.

No final tudo dá certo. Lula já entrou no circuito declarando que não existe “blocão”. E se Lula diz que não existe, é porque não existe mesmo. Ou, se existe, deve parar de existir. É a fala do trono. Tem pra todo mundo.
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(Publicado em 17.11.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/ e no jornal LEOPOLDINENSE online)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Mega Sena – O Ganhador que não Levou #

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Dezembro, 2008


O cronista é um garimpeiro de irrelevâncias. Igual ao lustrador de móveis velhos, quanto mais encanto ele puder extrair do tosco objeto de sua empreita, melhor. Escrever crônica é trabalhar com duas pirâmides invertidas: a da relevância dos temas, na qual interessa o vértice rarefeito; e a pirâmide da criatividade possível, em cuja base espaçosa se afirma o maior ou o menor engenho.

Uma das conseqüências disto é que nos dias de pouco alento o croniqueiro dá de apelar para assuntos badalados. Foge das insignificâncias fecundáveis para algum fato momentoso, carregado de pirotecnia que lhe dê a mão.

Mais que encher espaço, o rodeio acima me ajuda a entrar num papo requentado, notícia bastante repetida na TV e nos jornais: mataram, há poucos dias, mais um ganhador da Mega Sena. Suspeitas iniciais recaíram sobre um sócio contumaz do bolão sorteado que, não tendo pingado os cinco reais da aposta, fora excluído do rateio do prêmio. A investigação, entretanto, evoluiu para latrocínio simples, que se confirmou.

Já outro assassinato, ocorrido há uns cinco anos, revelou-se obra do segurança que recebia salário exatamente para proteger a vida da vítima. As investigações apuraram laços afetivos e de cumplicidade do bandido com a fiel esposa e herdeira do ingênuo milionário.
Nos dois casos, duas constantes: os ganhadores, pessoas humildes, continuaram a residir em suas comunidades, após o recebimento do prêmio.

Agiram de forma temerária e morreram por isto. Não há como alguém tornar-se milionário da noite para o dia e seguir residindo numa pequena localidade onde todos o conhecem. É suicídio. Dinheiro é coisa importante demais, útil demais, e os interessados nele só querem saber com quem ele está. Felizardo de loteca tem é que sumir.

Passo, então, da frivolidade ao conselho. Se você gosta de Leopoldina, não abre mão da convivência familiar, se não consegue imaginar-se longe dos amigos, se é amarrado num papo e numa cervejinha no bar do Chico, do Tirrisquei, da Praça do Urubu, da Getúlio Vargas, do Shopping Lac, por aí, não queira, jamais, ganhar uma acumulada. Gosta de jogar por esporte? Jogue pra perder. Marque número que não vai dar... Ganhar vai estragar sua vida. Na melhor das hipóteses resultará numa solidão de frente pro mar, num apartamento enorme da Avenida Vieira Souto, no Rio.

Como dizia o Professor Raimundo, do Chico Anísio, “eu não devia, mas vou lhe ajudar” no raciocínio. Há uns dois ou três anos, passei novembro e dezembro fora de Leopoldina. Quando voltei, em janeiro do outro ano, a cidade estava um rebuliço. Alguém acertara os milhões da Mega Sena e não aparecera pra receber o prêmio. Em algum lugar o papelzinho estava. A cidade virava os bolsos pelo avesso, sacudia livros, devassava gavetas. No lixão da Volta da Cobra, urubus e cachorros, estressados, fuçavam o entulho atrás do miserável canhoto.

Foi nesse clima de ansiedade municipal que meu tranqüilo polegar direito levantou na carteira, sem querer, um recibinho de aposta agarrado entre os documentos. Imaginem! Aposta feita antes da viagem. Em novembro!... Fiquei trêmulo.
-Meu Deus, o ganhador abestalhado que não aparece sou eu. E agora?

Amigos, tanta coisa passou pela minha cabeça, mas - juro! - não me veio um único instante de alegria, de reflexão positiva em relação à fortuna que chegava. Só pensei em confusão na minha vida, em transtornos para mim e para meus familiares, em mudança urgente (na verdade, fuga) para Rio de Janeiro, São Paulo... Enfim, transitei pelo purgatório dos ricos.

Felizmente, por pouco tempo. Esperto o bastante para não ir à casa lotérica apanhar resultado do badalado concurso, conferi meu jogo na Internet. Bem examinado, nem uma trinca eu fizera!
Imaginem agora minha reação de perdedor. Creiam: foi de alívio. De muito alívio, minha gente.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de dezembro de 2008)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os Grilos do Agenor #

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Novembro, 2010


Sempre soube que a vida do meu amigo, Agenor da Isaura, é lidar com fantasmas imaginários. Hipocondríaco ou portador de complexidades outras, sofre demais com as doenças da moda. Claro, sem precisar contraí-las. Nisto o noticiário da TV tem sido fundamental em sua vida. Sempre o provê de inquietações com uma nova influenza matando gente na Micronésia, de uma febre insidiosa oriunda do feno ingerido pelo gado no norte da Europa, gripe nos frangos asiáticos, nos suínos mexicanos, nos cavalos de Abaíba.

Há cuidados urgentes a serem tomados contra a obstrução das coronárias, contra obesidade, contra hipertensão, anorexia, bulimia, depressão, seqüelas de traumas da infância e – ai, meu Deus! – com as tais doenças pelvianamente transmissíveis. E tome literatura científica: “Cura-te pelo Limão”, “Dieta do Abacaxi”, “Sete Chaves da Cura pela Cor”, “Terapia de Vidas Passadas”, “Saúde pelos Alimentos”, “Mastigue à Exaustão”...

Complicado, o Agenor! Seu autodiagnóstico atual é TOC, aliás, outra enfermidade da moda. É chic sofrer de TOC! Mas não é onda dele, não. As Revistas de Domingo têm razão: o homem parece, de fato, acometido do charmoso incômodo.

Para quem anda por fora de doença fashion, não custa lembrar que TOC, são as iniciais de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, velha frescura que nossos pais e avós, menos dados ao politicamente correto, chamavam de mania ou ideia de jerico.

Os médicos resolveram dourar a pílula, ou desagravar a demência, rebatizando a encrenca como TOC. Explicam ser obsessão ou compulsão que levam a comportamentos às vezes grotescos ou estranhos à própria pessoa, sem que ela, mesmo consciente do grilo, consiga deixar de ser besta.
-Lembram do Mr. Udall, interpretado por Jack Nicholson no filme Melhor Impossível? Talvez o mais primoroso e hilariante exemplo de TOC.

Sabendo que Agenor é mineiro e cruzeirense, convidei-o ontem para comemorar em minha casa as promissoras chances de rebaixamento do Galo à segundona do brasileirão. Bebemos, entre oito da noite e a madrugada de hoje, duas garrafas de Whisky de boa procedência. Agenor da Isaura foi pra casa troncho que só vendo.

Hoje me telefonou agradecendo a água. Disse-me que há mais de quarenta anos não conseguia dormir sem conferir o trinco de todas as portas da casa, sem olhar debaixo das camas e sem fazer uma oração pelas almas do purgatório. Se adormece antes do cumprimento de uma dessas “obrigações” é logo acordado pelo “subconsciente” para desincumbir-se do compromisso.

-Como se eu fosse um sentenciado - disse - obrigado a pagar todas as noites um pedágio para merecer o sono. Sem saber, você me libertou! Chumbado com seu whisky milagroso, cheguei em casa já tropeçando na reta da cama. Se no impacto acordei Isaura, não deu para ouvir a bronca... Mergulhei de pronto em lacuna de mim mesmo.

De regresso ao mundo, hoje pela manhã, era quase “meidia”, entrava pela janela um céu azul de Copacabana, ouviam-se pássaros canoros de São Tomé das Letras, uma sensação gostosa de corpo agradecido e – mais importante – em sede de egotrip nenhum sentimento de dívida pendente com as almas do purgatório.

Acredite, cara, dormi sem rezar! Não sei como será amanhã, mas pelo menos hoje está me pintando uma convicção muito clara de que meu mal foi nunca ter tomado o remédio certo...
E completou:
-Eita whiskynho porreta aquele seu, hem!

Beba com moderação, Agenor.
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(Publicada a 11.11.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Má Gestão de Prefeitos

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Agosto, 2008

Nos últimos dias a grande imprensa nacional vem dando destaque que a CGU -Controladoria Geral da União constatou numerosas fraudes e irregularidades na utilização de verbas da saúde, por parte de prefeitos deste imenso Brasil. Trata-se de um prejuízo avassalador. Foram R$ 73,8 milhões, quase 20% do total, dos R$ 426,4 milhões da saúde que desapareceram no submundo da política corrupta e da má-gestão municipal, nos últimos cinco anos. Isto, o que conseguiram descobrir. Certamente, há mais petróleo nesse pré-sal.

Segundo os repórteres Alana Rizzo e Thiago Herdy, do Correio Braziliense, de segunda-feira, 25.08.08, “a esperança de melhorias nas condições de saúde de milhões de brasileiros se desfez nas mãos de prefeitos que receberam recursos federais para obras e compra de equipamentos, iniciaram projetos mas não os levaram até o fim.”

As irregularidades apontadas por Auditores vão de obras super-faturadas em Postos de Saúde a financiamento de poços artesianos que nunca foram perfurados, esqueletos de concreto abandonados, verbas para aterros sanitários que continuam a céu aberto, verbas destinadas a fins diferentes dos determinados pelas Portarias do Ministério da Saúde, tais como cobertura de folhas de pagamento, aluguéis, contas de consumo, compra de aparelhos eletro-eletrônicos, acessórios femininos, cosméticos, salgadinhos e até enfeites natalinos.

“Despesas sem comprovação representaram 14,3% do total de gastos irregulares. As prefeituras não conseguiram mostrar aos técnicos da CGU como usaram R$ 60,8 milhões transferidos aos cofres municipais. Problemas de toda ordem relacionados a processos de licitação foram responsáveis por um prejuízo de R$ 52,9 milhões, ou 12,4% do total”.

A geografia das fraudes é extensa. Os casos mais gritantes, todavia, foram apurados em São José do Divino (MG), Abadiânia (GO), Alegre (ES), e Acopiara (GO).

Felizmente, em Leopoldina, pelo menos até onde se tem notícia, nossos prefeitos ainda não alcançaram esses perfis escabrosos de políticos capazes de semelhante farra com as verbas da saúde. Como em cada cabeça uma sentença, pode-se até discutir, aqui ou ali, alguma prioridade escolhida. Alcances diretos do dinheiro público, todavia, parece que ainda não tivemos.

O destaque que damos a este caso do noticiário nacional vai, um pouco, por conta do crédito que ainda podemos conceder a nossos representantes. Mas que sirva também como um psiu a todos os eleitores, nesta véspera de comparecimento às urnas, no sentido de não introduzirem na vida pública leopoldinense políticos despreparados ou sabidamente incapazes de diferenciar dinheiro público do dinheiro que eles gostariam de ter no bolso.
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(Suspensa a publicação deste artigo no LEOPOLDINENSE, a pedido do autor, para evitar que o considerassem de " endereço certo")

Editorial dos Seis Anos

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Agosto, 2008

Amigo leitor. Com esta edição, de número 114, o jornal LEOPOLDINENSE entra no sexto ano de sua existência. Rompemos estes seis anos superando as dificuldades naturais de se fazer imprensa numa Leopoldina pequena que, econômica e populacionalmente, ainda se dá ao capricho infausto de diminuir de tamanho - já tivemos 55 mil habitantes, hoje estamos com menos de 50 mil; já tivemos uma fábrica de tecidos que empregava “um bairro”, ultimamente a cidade vem absorvendo os golpes baixos de industriais alienígenas, experts do trambique bancário - mas, com a parceria e a compreensão dos médios e pequenos, porém honestos empreendedores desta terra, vamos tocando o barco com apoio na mão amiga de nossos anunciantes e assinantes.

Julgamo-nos vitoriosos. Leopoldina conta hoje com um bom jornal. Nosso público, entretanto, como em qualquer cidade do interior, possui uma certa independência da mídia local. É também muito crítico em relação a ela. As pessoas conhecem os fatos noticiados e, com as fontes do jornal, concorrem redes transversais de informação que não estão restritas à palavra escrita. Isto faz dos nossos leitores pessoas já informadas de grande parte do conteúdo do jornal, participativo e exigente quanto à realidade que lhe trazemos. Nosso leitor dispõe de referências para confirmação dos fatos. E, mais: ele conhece os atores em cena, seus vínculos políticos e intenções. O leitor é quase parte nos acontecimentos que o jornal relata.

Um meio de comunicação como este tem, pois, que atuar de maneira responsável e ética se pretende desfrutar de credibilidade. Outro não tem sido nosso posicionamento. O LEOPOLDINENSE não é jornal que tenha um dono a servir. Ao contrário, é uma tribuna aberta a todas as correntes de opinião que busquem servir à cidade. Não obstante, é também um jornal precisa viabilizar-se economicamente.

Numa economia municipal incipiente como dito acima, há longos anos afetada por problemas políticos e de gestão, todo empreendimento deve matar um leão a cada dia para sobreviver. Ou, talvez, o próprio empreendedor é que tenha de transformar-se num animal de sete vidas. Como o Wile Coiote no desenho do Papa Léguas, perseguindo o ideal sonhado numa caçada inglória e interminável. Há que bolar engenhocas, inventar mil maneiras de alcançar o objetivo. Sobreviver a quedas abismais, a dezenas de bigornas, dinamites e tantos outros artefatos temerários a esmagar, impiedosos, nossas cabeças de coiotes obstinados.

Os negócios em Leopoldina passam, de fato, por tempos penosos. Uma anunciante deste jornal, proprietária de boutique no Shopping Lac, nos conta que seu faturamento bruto na véspera do dia dos namorados, este ano, foi de oito reais! Quem sobrevive a tão aguda anemia mercantil?

Mas gostamos do que fazemos e é bom quando se gosta do que faz. Elaborar e melhorar, sempre, este Jornal é uma alegria da qual já não saberíamos abrir mão. É importante dotar Leopoldina de um periódico de circulação regular, ininterrupta e pontual, duas vezes ao mês, sempre nos dias 1º e 16.

Obrigado, amigos, pelos seis anos de convivência. Boa leitura.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Hospital de Leopoldina é da Câmara

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Maio, 2004

Vamos salvar a Casa de Caridade Leopoldinense. Chega de briga, chega de processos, chega de maledicência. O velho Hospital merece nosso bom senso!

Lembremos que a república ainda nem havia completado cinco anos, em setembro de 1894, quando os médicos Joaquim Custódio Guimarães Júnior e Joaquim Antonio Dutra, votaram a Lei Municipal nº24/1894, que destinava fundos do orçamento daquele ano (20 contos de réis) e do ano seguinte, de 1895 (10 contos de réis), para criação de um Hospital. Era presidente da Câmara, portanto Chefe do Executivo Municipal (equivalente, hoje, a Prefeito), o Sr. Lucas Augusto Monteiro de Castro.

Dois anos depois, a 03/08/1896, com ajuda de Gabriel de Almeida Magalhães, Octávio Ottoni e Lucas Augusto, inaugurou-se a Casa de Caridade Leopoldinense num prédio residencial da (atual) Rua Manoel Lobato.

O primeiro Presidente do Hospital (cargo depois denominado Provedor), foi o Tenente-Coronel Manoel Lobato Monteiro Galvão de São Martinho (Vice-presidente da Câmara Municipal), e o primeiro Vice-Presidente do Hospital, o médico Joaquim Antonio Dutra, naquele ano Presidente da Câmara, Chefe do Executivo Municipal, enfim, o Prefeito da cidade. Vejam, portanto, que nossa Casa de Caridade Leopoldinense nasceu dentro da Câmara Municipal de Leopoldina, pelo que a Câmara tem responsabilidade história sobre ela.

Chega de “disse que disse”! Ninguém tem culpa dos problemas do Hospital! Os médicos não têm culpa, o ex-provedor, Jayme Guida, não tem culpa. O José Valverde não tem culpa. O Prefeito Zé Roberto também não tem culpa de nada. Todos são homens honrados, trabalhadores, honestos, cidadãos e chefes de família exemplares.

Jayme Guida cumpriu com lisura seu papel de Substituto Estatutário e José Valverde volta disposto a seguir dando o melhor de si para a C.C.L. Quanto ao Sr. Prefeito, admitamos que o Município é pobre, o dinheiro da Saúde é curto e, dentro das limitações existentes, Prefeitos e Secretários de Saúde sempre buscam suprir o essencial segundo seus critérios pessoais de eqüidade.

Não existem desonestos nem desonestidades nessa história toda. Esqueçamos o passado, as picuinhas os diálogos de surdos. O Hospital precisa da união de todos. Quando ele funciona mal, são os pobrezinhos, dependentes de atendimento gratuito, os que mais padecem. Sejamos solidários com a dor desses nossos irmãos.

Com alguns anos de vivência do problema, tenho manifestado entendimento de que o Hospital deva ser “municipalizado”... Nem é preciso que isto ocorra no sentido estritamente formal, legal, estatutário, podendo ocorrer (apenas) em sentido prático. Basta que os Srs. Vereadores integrem o Supremo Conselho da Casa de Caridade. Que a Municipalidade “assuma”, por esta forma, o Hospital: permitam, os Srs.Vereadores, à Casa de Caridade Leopoldinense um providencial regressão ao útero materno, a Câmara.

Que cada vereador aceite, agora, o convite do Provedor para tornar-se Conselheiro do Hospital. Compondo o Supremo Conselho da instituição, nossa edilidade estará assumindo, extensivamente, mais um munus decisivo em favor do povo que a elegeu!

Que a Câmara Municipal - onde hoje o Sr. Prefeito tem maioria - e que, em agosto de 1896, deu a Leopoldina um Hospital, no próximo agosto de 2004, já o tenha sob sua franca condução, através da presença do Legislativo Municipal no Supremo Conselho da Instituição, em nome da paz, da saúde e da tranqüilidade de todos os Leopoldinenses.
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(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de maio de 2004)

Bilhete ao Colégio Leopoldinense #

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Junho, 2008


Prezado Ginásio,

O três de junho vem aí e, como de costume, você tem minha saudação. Desta vez, neste adiantado ano de 2008 – o tempo passa, amigo – dirijo-me a você neste simples bilhete, sinal do pouco valor que dou às minhas próprias queixas.

Um desabafo pessimista que até me constrange, só me animando, caro Colégio, a quase certeza de que você não o receberá. O correio deverá devolvê-lo com um carimbo: “Destinatário não encontrado. O Colégio não existe mais.”

Aliás, no secundário que me deste, aprendia-se muito francês com a empertigada professora Da. Regina. Longe de simpática (abusava da nota zero e ensinava verbos mandando copiá-los “n” vezes) Da. Regina alcançava unanimidade no ódio geral, embora saísse todo mundo por aí afora tirando 10 no francês dos vestibulares e dos concursos públicos.

Imagino a Regina carimbando meu bilhete no desplante de seus achaques belle époque: “NPAI” (N´habite plus à l'adresse indiquée). Seu colégio já era, neném!

É que você, meu Ginásio, mudou para melhor, mas mudou demais. Trocou duas vezes de nome, não tem mais Monsenhor Guilherme, não tem Machado, não tem Da. Judith, João Batista, padre Leitão! Agora, acaba de partir também o Bertochi.
Assim não dá!

A criançada já não desembesta na Praça de Esportes lisinha, com quadra de vôlei, de basquete, barras paralelas, traves para se subir nas cordas, caixote de areia para saltos, pista atlética, campo de futebol pra se fuzilar o barranco e fazer uma avalanche descer!

Cadê a ponte por onde a gente transitava, livremente, entre o galpão, a praça de esportes e o Arranca Toco? Nunca engoli aquele haraquiri urbano que é a “Rua da Bomba” atravessada, qual espada de samurai, no ventre das minhas lembranças de moleque. Ora bolas, queriam ganhar o outro lado da história fizessem um elevado, um túnel. Ficava caro? Azar. Cruzar uma rua dentro da “minha” praça de esportes foi uma violência iconoclástica!... Não quero nem saber qual prefeito teve aquela ideia.

Outra coisa, e os Regentes, ainda existem? As turmas entram em forma no galpão, ao primeiro toque da sirena? Depois seguem em fila para as salas de aula nos calcanhares do Badu, do Elmo, do Cézar Pelante?

As broncas do Machado ainda trovejam pelos corredores interrompendo a tecelagem das aranhas "ao teto", recolhidas ao nicho? No intervalo da última aula da manhã, ainda se respira no Galpão o aroma/covardia de bife na cebola, vindo da cozinha? E o porteiro Baltazar? Como pôde sumir o Baltazar, sentado na portaria, sob vigia dos dois olhos cambiantes da imagem de Dom Bosco? E o roupeiro Blackout, de calção preto e sem camisa? Procurem, procurem! Durante as manhãs "é quando melhor podem ser pesquisados"...

Alguma notícia do Ormeu Cerqueira, o chefe de disciplina (no grito), que um dia me mandou cortar o cabelo? (Ele estava certo. Faltam regras para a juventude de hoje. O resultado, todo mundo sabe.) E o Sô Botelho, técnico da Liga Esportiva do Colégio Leopoldinense, incrivelmente torcedor do São Cristóvão do Rio de Janeiro? Os alunos ainda fazem rodinha em torno dele pra discutir futebol e morrer-de-rir das tiradas espirituosas (“montadas”) com que ele desancava os sabichões?

Dispenso respostas, meu bom Colégio Leopoldinense. As coisas mudam, as pessoas passam. Meio século é tempo à beça. O remédio é ir assumindo, uma a uma, as perdas e as transformações. Perdas até de colegas muito queridos que, indevidamente, se adiantaram para lá: Custódio, Bizuca, Dilton Godinho, Geraldo Joel, Pedro Augusto, Zé Vilas, Zé Lourenço...

Duro é passar pela pracinha Botelho Reis e sentir tudo isto despencando, de uma só vez, no ombro da gente. Mesmo assim, feliz três de junho.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE 1º de junho de 2008)

sábado, 6 de novembro de 2010

Papo Esticado

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Novembro, 2008



Li nos jornais sobre "História e arte nos cemitério". Um achado! Realmente nos cemitérios, nas igrejas, nos monumentos e nas construções antigas, além de apreciar o gosto, a cultura e a arte de nossos antepassados, podemos ler um pouco mais do que sobre eles trazem os livros, as fotos, os filmes.

O caderno de turismo do Estadão anuncia passeios organizados, com guia e tudo, a cemitérios, como o da Consolação, em São Paulo, e o São João Batista, no Rio. E não brinquem que é “turismo de paulista”, não.  

No mundo inteiro os campos santos vão ficando cult. Endereço dos mais visitados desse roteiro macabro talvez seja a Capela dos Ossos, em Évora, Portugal, onde ossos de uns cinco mil mortos decoram paredes e colunas da capela situada na Igreja de São Francisco.

Na entrada, o recado: “Nós, ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”.

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Aliás, fragmentos de história podem ser garimpados por todos os lados. Há dias a historiadora Nilza Cantoni mencionou que certo personagem do passado interiorano mineiro “não parecia ser pessoa muito comunicativa”. Perguntei-lhe de onde extraíra tal conclusão.

– Dos livros de Registros de Batizados, de nossas igrejas – explicou.

Pessoas mais abastadas de antigamente, mais instruídas, mais importantes, sempre aparecem nos registros de batizados como padrinhos de muitas crianças. Ora, se um personagem histórico, sabidamente importante e rico, foge à regra, algum problema de comunicabilidade social ele tinha. É claro que a conclusão nunca é absoluta, mas o fundamento procede.

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Alá, porém, é mais lógico. Sempre que a ciência dá algum passo maior no sentido da compreensão do universo, o ateísmo tenta soletrar alguma “prova” da inexistência de Deus. Agora mesmo, cientistas com aceleradores de partículas dentro de um túnel nos Alpes franco-suíços, em busca da origem da matéria, suprem de argumentos os ateus de plantão. Alegam estes que, se ficar provado que o big bang deu origem à matéria, o universo “não precisou” de um Deus para criá-lo, sendo tudo obra da explosão...

Parece complicado para eles distinguir entre o Criador e as ferramentas usadas pelo Criador.

De saída, se resultar mapeada a origem física da matéria, ficará faltando provar a origem física do espaço sideral por onde toda a massa se expandiu e o sopro de vida que passou a animar os seres.

Limitado diante da criação, o ser humano tem do universo uma ideia só um pouquinho mais ampla que a de um coleóptero da Mata Atlântica.

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A limitação nos tortura. E a tortura dos anos de chumbo volta à ordem do dia. Especulam se a tortura é imprescritível, enquanto crime contra a humanidade. Os que defendem os torturadores do DOI-Codi, alegam que eles torturaram terroristas, igualmente beneficiados pela anistia. Logo, o perdão há de ser recíproco. Será?

Há dias uma revista semanal mostrou foto de Fernando Gabeira ao lado de Valerie Elbrick, filha do ex-embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, sequestrado no Rio de Janeiro, em 1969, por um comando guerrilheiro do qual Gabeira fez parte. 

A moça declarou ao New York Times: “Gabeira é um homem encantador e, se eu não estivesse trabalhando pelo Obama, provavelmente estaria trabalhando por Gabeira”... “Eles eram pessoas idealistas. Meu pai se deu conta que não estava lidando com bandidos. Eram jovens inteligentes que, no fundo do coração, eram gente pacífica.”

Ou seja, seres humanos podem refletir sobre dores passadas, sem mágoa, sem ódio e até com compreensão, quando os fatos se circunscrevem a uma realidade humana.
Cabe então perguntar: 

– E o torturador, poderá ele encarar o filho ou a filha de um torturado? Semelhante "momento de humanidade" seria viável entre um torturador e um filho de torturado?

Claro que não. E por uma razão básica:
Torturador não é gente. Torturador é bicho, é aberração animal.

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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de 15 de novembro de 2008)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Muda Prefeito e Bermuda

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Novembro, 2009

Sumido de Leopoldina desde o início de setembro, este escrevinhador andou abstinente dos papos locais, mas nem por isto desligado do mundinho que o rodeia, graças a uma geringonça atentada chamada laptop. Ou portátil, como preferem os portugueses, deixando a gente sem saber direito do que se trata - eis que o mundo anda cheio d´outros artfatos igualmente purtáteis.

Por mim, estrangeirismos podem entrar à vontade. Não são os americanos que inventam esses troços? Eles têm direito de batizar as crias: laptop, notebook, hardware... Ninguém traduz nome de criança nascida lá fora.

Aliás, portáteis fabulosos que fazem, por exemplo, deste jornal LEOPOLDINENSE um órgão internacional. Você o lê, ainda quentinho das rotativas, em qualquer lugar do mundo! É só acessá-lo pela grande rede.

E o povo de Leopoldina viaja, hem. Dólar abaixo de duas pilas, você topa conterrâneo até em Bangladesh. E todo mundo podendo ler num monitor as edições desta vibrante folha informativa.

Destaque para o excelente número 118, que trouxe um verdadeiro ensaio sobre política leopoldinense, assinado pelo brilhante advogado e articulista, Dr. Nelson Vieira Filho. O Luiz Otávio precisa cobrar mais trabalhos do Dr. Nelsinho. Ele é ótimo. Só falha quando elogia quem não lhe chega aos pés.

A edição 118 do LEOPOLDINENSE ficará na história. A charge do Luciano toca na ferida da triste realidade da compra de votos em nossa terra. Prática criminosa que vem se tornando habitual e tanto desvirtua a escolha democrática. Voto comprado não produz eleitos pelo povo: produz eleitos de si mesmos!

Na página dois do jornal, como sempre, os preciosos estudos históricos do Zé Luiz e da Nilza Cantoni, a vigilância competente do Alair e o humor refinado do Hildebrando.

Mais à frente, uma oportuna reflexão do José Barroso Junqueira sobre a regularidade das eleições em Leopoldina, a forma correta e civilizada como tudo transcorreu e, também, o artigo inspirado do José Gabriel, lembrando a Gestão Participativa, tema do qual os eleitos devem tomar boa nota. Gestão participativa, agora, é lei.

Na coluna social da Maria José, um justo lamento pelo fim do programa radiofônico, Fio da Navalha, do radialista José Américo Barcelos. Muito bem, Maria José. Zé Américo é uma lenda viva. Quem tira o microfone do Zé Américo sem ter nada melhor para oferecer ao público, não passa de um boboca.

Esta é a moderna mídia em tempo real que nos permitiu, ainda, nestes tempos eleitorais, participar com parentes e amigos, cada um no seu canto, da expectativa de Aécio eleger, ou não, para a prefeitura de Belo Horizonte, seu poste fabricado, ou melhor, nascido (como dizem) em Leopoldina. Elegeu. Aécio foi o elevador de Lacerda.

De São Paulo, onde amigos e parentes quase não dão o ar da graça - a cidade grande demais parece que afoga as pessoas no medo e no pó de asfalto - nos acodem os blogs e os jornais online da grande imprensa. José Serra que inventou o DEM Kassab na disputa de espaço tucano com o Alckmin, conseguiu eleger este moço que a Marta Suplicy acusou de ser solteiro e sem filhos. Já pensaram no absurdo que é uma pessoa ser solteira e não ter filhos?...

Por esta e por outras, a lady in red do PT desceu pelo ralo e, com a vitória de Kassab, Serra se firmou como o cardeal tucano mais apto a disputar a cadeira do Lula em 2010. Sua chance contra o indicado, ou a indicada, do “nosso guia” vai depender, entretanto, do estrago que as hipotecas micadas dos states fizerem por aqui. Se não passarem de marolinhas, Lula continuará forte.

No Rio de Janeiro, uma outra grande cidade brasileira que nos afeta, Gabeira perdeu a Prefeitura num ato falho. Acontece, na nossa idade. Quando a gente dá de si, a besteira já saiu boca a fora. Gabeira chamou uma deputada duplamente mal nascida - de bairro e de pai - de suburbana... Ora, todos nós, vez ou outra, brincamos com o subúrbio. Mas que é preconceituoso, é. Deu um branco no Gabeira. Noventa por cento do Rio é subúrbio. Perdeu a eleição.

Ganhou Eduardo Paes que ofendeu Lulinha na CPI dos Correios e, agora, pediu desculpas e apoio ao Lula. Não ficou tão ruim. Paes tem aval do Cabral, o melhor ocupante do Palácio Guanabara desde Negrão de Lima.

Outra cidade importantíssima, do Brasil, é Leopoldina, MG. Só que, por aqui, a preocupação era nenhuma. Tínhamos três candidatos excelentes. Qualquer um que ganhasse - Bené, Marcinho ou Zé Newton – o Feijão Cru estaria bem servido. O arraial, não o riacho, hem gente! (Posso brincar: os três são meus irmãos)

Ganhou Bené, um homem público experiente, lúcido, honrado, amigo, prestativo, uma pessoa de bem com a qual se pode conversar e que, certamente, terá atuação construtiva à frente da prefeitura. Merece e tem o nosso apoio, nossa simpatia e tudo mais que precisar.

Nem sei por que estou falando de política. Ando com um problema pessoal tão sério!
Imaginem que minha bermuda bege, de estimação, foi ficando fina, transparente, puída e venceu-se, não resistindo à última lavada. Rasgou. A vontade é ir pro lixo com ela. Não vai existir outra igual. Mesmo porque o comércio não trabalha com bermudas usadas. Bermudas novas, engomadas, encorpadas, pouco permeáveis, eu tenho, mas não vou usar num calorão desses. Como dizia lá na roça meu velho Tio Candim, essa bermuda “já me acompanhava” há uns quinze anos... Velha amiga e companheira, vou cantá-la a vida inteira!
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de 1º de novembro de 2008)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Morando com a Sogra

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Novembro, 2010

Alguém aí sabe de alguma mulher que sonhe casar-se para morar com a sogra? É bem provável que não exista uma, não é mesmo. Quem casa quer casa, diz o rifão das noivas. Por mais amiga e simpática que se revele uma sogra, ela nunca deixará de ser a dona da casa onde a nora se sentirá sempre como “uma visita”.
-É ou não é? Claro que sim, mas aonde leva um parágrafo inicial tão tiriricamente abestalhado como este?

Sou meio enrolado, mas tentarei explicar. Apesar de não ter votado em Dilma, queira ou não, ela é agora “minha” Presidente. Devo rezar para que acerte, devo respeitá-la e preocupar-me com suas conveniências e bem-estar.

Pouco se me dá que 2,3% dos votos brancos, mais 4,4% dos votos nulos, somados aos 43,95% dos votos dados a Serra, totalizem 50,65% e constituam prova aritmética de que metade do Brasil não votou nela. Interessa que Dilma teve 56,05% dos votos válidos e tornou-se, legalmente, Presidente do Brasil – time para o qual torço desde a fatídica final da Copa de 50, no Maracanã.

Incomoda-me pensar que a autoridade máxima de meu país, exatamente a primeira mulher dada a governá-lo, seja submetida a constrangimentos. Suspeito que isto já possa estar ocorrendo nas tratativas para composição de seu ministério, apesar das juras de não interferência contidas na primeira fala de Lula após a eleição.

Compreende-se que na montagem do governo Dilma não dispense a opinião do Lula, principalmente nas complicadas negociações com partidos coligados. Seria até um desperdício de experiência não fizê-lo. E ninguém espera que Lula vá ficar calado no seu canto.
-Passaria ele, então, a uma espécie de eminência parda? Você é que está dizendo, não eu.

Nem considero que palpites do Lula representem aborrecimentos intoleráveis para a Presidente, sabido o quanto é ela devedora do cargo a seu patrocinador. Apenas “constato” que ela talvez possa sentir-se, em alguns momentos, como aquela nora sem franco acesso a todas as gavetas da casa.

Agora mesmo chegou aos jornais a opinião de Lula no sentido de que ela não coloque Palocci na Casa Civil. Com bagagem política bem mais abundante, o ex-adverso do caseiro Francenildo poderia fazer sombra no gabinete ao lado. E ontem, aqui mesmo no Blog do Noblat, lemos sobre preferência de Lula por manter Jobim na Pasta da Defesa.

É claro que Dilma acatará todas as sugestões de seu generoso patrono. Bem diferente do próprio Lula, quando ouviu (e não levou em conta) igual sugestão de Fernando Henrique Cardoso para que não colocasse José Dirceu na Casa Civil. Parece-me que Fernando Henrique (que, no fundo, sempre foi amigo de Lula) considerava Dirceu esperto demais para estar muito colado à oficina de um torneiro mecânico... Hoje sabemos que FHC subestimava uma cobra criada!

Lembro-me até da reação melindrada de Dirceu:
-“Eu sempre soube o meu lugar...”
De fato, se em algum momento José Dirceu incomodou Lula foi ao cumprir com exação a (talvez) principal tarefa a ele atribuída no governo, qual seja, contratar a “locação” de “votos de aluguel” disponíveis no Congresso Nacional. Tanto assim que Lula o defenestrou do cargo. Do coração, jamais!

Assim, diga Lula o que disser para sublinhar seu respeito à dignidade da eleita, a impressão geral é que Dilma venha a governar a quatro mãos com seu guru. Pelo menos até onde soprarem, de alhures, os atuais bons ventos. Se virar o tempo lá fora e a coisa engrolar, “diverge-se” aqui dentro para preservar a imagem de 2014.
Nada que toda gente não saiba. Tudo a conferir.
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(Publicada a 03.11.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)