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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sou mais Minas #

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Julho, 2009
“Reputação! Reputação! Reputação! A minha está perdida!
O que em mim era imortal, lá se foi. Resta-me apenas a parte animal.”
(Shakespeare, Otelo, Ato II)

Se acharem que é exagero, desculpem-me. Nós, mineiros, temos boas razões cívicas para nos orgulharmos da reputação de nossos políticos. Não exatamente que os homens públicos de Minas sejam santos. Não é bem assim. Falo de uma certa característica inerente a eles. A de que o político mineiro usa desconfiômetro, tem mais recato, mais pudor.

Quase arrisco falar em “mais berço”. Mas aí levaria a questão para o campo emotivo, pronto a eriçar suscetibilidades. Fico no terreno da compostura pessoal do ambiente para afirmar que nenhum político mineiro se agarraria a um cargo público nas condições vexatórias em que nele se agarrou Renan Calheiros e se agarra José Sarney.

Sou mineiro há mais de meio século. Tenho certeza que o político mineiro que fizer coisa semelhante perderá a quase totalidade de seu eleitorado. Perderá ambiente social, talvez perca ambiente familiar.

Querem um exemplo? Corram os olhos pela relação dos políticos mineiros em voga no âmbito federal, hoje. Tentem apontar-me ao menos um que, a seu ver, seja capaz de protagonizar os episódios deploráveis que presenciamos no Senado ultimamente.

Se apressadamente alguém me apontar o nome mais óbvio da infelicidade mineira, eu talvez lhe lembre que aquela criatura não nasceu em Minas. Vindo um segundo nome, de memória mais recente, cuja ridícula estultícia lhe valeu presença destacada na mídia (e no anedotário) nacional, direi que tal cidadão já não se elege vereador na pequena cidade onde alardeou patifaria camuflada de sucesso empresarial.

Parece prevalecer em Minas um teto ético não escrito. Sabedoria prudente, folclórica, tipo Tancredo, Benedito, Juscelino, Milton Campos, Itamar, Magalhães Pinto, Pedro Aleixo, José Maria Alkmin, vale. Velhacaria, não. Por isto ouso afirmar que em Minas jamais se sustentariam políticos com o perfil inconseqüente desses dois. Aos eleitores mineiros eles deveriam explicações que sabem não dever a seus eleitores do norte e do nordeste. Esta é a questão.

Se mineiros fossem teriam renunciado na véspera para salvar o mandato e a reputação. Como não nasceram em Minas vale a aposta, por tempo indeterminado, numa “saída honrosa” até a véspera do defenestramento forçado. Depois, os eleitores resolvem...

Não é por acaso que o IBGE encontrou no Maranhão de Sarney, em 1996, o maior percentual de Analfabetos Funcionais do país: 56,6% da população; nas Alagoas de Renan, o terceiro maior contingente de iletrados do país: 52,2% da população. Só ganha do Piauí, o segundo, com 54,6%. (Conferir em: http://www.oei.es/quipu/brasil/estadisticas/analfabetismo2003.pdf)

Imaginem! Cinco representações no Conselho de Ética do Senado e a pessoa continua sorrindo para as câmeras da nacionalidade! Aparelhamento administrativo do Senado, atos secretos, nomeação de parentes, ocultação de imóvel milionário à Justiça Eleitoral, desvio de dinheiro de Fundação... Tudo intriga da oposição!

Acho que sou justo quando digo que os de Minas são diferentes. Se não for, azar. De ilusão também se vive.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado em 30.07.2009 http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O Carrasco Fortunato #


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Foto: "Morro da Forca", Leopoldina, MG - Foto tirada pelos anos 1950 ou 1960. Hoje, ano 2001, a colina está urbanizada. A alguns metros à direita da árvore mais copada, está a Igreja de N. S. Aparecida.
Ano, 2001.



Velhos escritos são delícias. A Gazeta de Leopoldina (MG) de 18 de abril de 1922, disponível para leitura na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, reproduz texto do periódico "Mosaico Ouro-Pretano", de 1877, que oferece curiosíssima biografia de um  personagem singular da história leopoldinense: o "Carrasco Fortunato".

Li e tive pena do Carrasco Fortunato. Tanto na opinião do periódico de Ouro Preto, de 1877, que apurou-lhe as atribuladas origens, como na do articulista leopoldinense, de 1922, que as repassa, o vil Fortunato é referido como o grande culpado pela ignomínia dos enforcamentos que praticava (quase só se enforcavam escravos). 

Nem uma palavrinha de censura à legislação penal do Império, nem um monossílabo de desaplauso à insensibilidade dos magistrados que proferiam tais sentenças... Maldito era o Fortunato!

Com ortografia revista e algumas aparas, divido o achado com os leitores, abrindo aspas para a preciosidade histórica. Foi escrito em 1922:

"A geração leopoldinense atual talvez ignore (...) que o Brasil já teve pena de morte e que, neste pequeno torrão mineiro deu-se a ela plena execução. Os executores dessas penas, chamados carrascos, eram tipos abjectos, abomináveis, de corações empedernidos, tirados, muitas vezes, das próprias prisões, onde cumpriam penas perpétuas por crimes hediondos. Eram verdadeiros párias sociais, de sentimentos monstruosos, que se compraziam com as desgraças alheias, indiferentes aos transes lancinantes por que passavam as suas vítimas...

Pois em Leopoldina, berço de tradições liberais, já houve execuções, já foram cumpridas penas de morte! Só um executor, o Carrasco Fortunato trabalhou cinco vezes em Leopoldina, exercendo seu monstruoso mister em 29 localidades mineiras e em duas da província do Rio de Janeiro, num total de 87 execuções!
O Carrasco Fortunato teve a sua época de celebridade, embora sinistra e torva, como torva e sinistra foi a sua existência, relatada em traços ligeiros no Mosaico Ouro-Pretano de 1877:"

As aspas que se seguem passam e ser para o texto do jornal de Ouro Preto:

 "Fortunato José, natural da freguesia de Lavras, era escravo de João de Paiva, cuja viúva, Da. Custódia, criou-o com excepcional bondade e carinho. Esse tratamento generoso, quase maternal, não impediu que no moleque Fortunato se desenvolvessem os maus instintos que uma natureza ingrata lhe implantara, e tanto que ele bem cedo entregou-se ao jogo, à embriaguez e a outros vícios. Admoestado freqüentemente, mas com brandura, por sua senhora, criou-lhe ódio e, um dia, enfurecido, prostrou-a morta com um bordoada certeira. Foi isto em 1833; tinha, então, 25 anos o miserável, predestinado a uma vida medonha e abominável.  Preso, julgado e condenado à pena última (enforcamento), foi recolhido à cadeia de Ouro Preto. Mas aquela pena não teve execução, sendo de facto, por acordo com o assassino, comutada na de prisão perpétua com a obrigação de servir de algoz a outros miseráveis condenados à forca.

Fortunato dizia-se empregado público, no seu ofício de executor da justiça...
Ele próprio forneceu a relação das execuções que consumara até 1874 (d'então em diante não as houve mais no Brasil), tendo sido as primeiras em Ouro Preto, no ano de 1833, no dia de Natal! As vítimas foram dois desgraçados escravos. Declarava Fortunato que essas primeiras execuções lhe repugnaram, repugnância que reaparecia sempre que era forçado a enforcar mulheres!... Quanto aos homens, ‘ficou habituado a cumprir a sua obrigação insensivelmente!...’

Disse que, de ordinário, os sentenciados revoltam-se contra os sacerdotes que buscam suavizar-lhes os tristes últimos momentos.
Nos primeiros anos de seu officio, dormia em comum com os demais presos, inclusive aqueles que ele tinha em breve de enforcar. Mas estando na cadeia de Pitanguy, de um desses sentenciados, armado de faca, teve que dar cabo antecipado, pelo que apresentava nas mãos feias cicatrizes. Desde então passou a dormir separado dos presos condenados.
Reclamava que devendo o emprego ser-lhe rendoso, pagavam-lhe pouco: 12$00 quando havia parte interessada; ou 4$00, quando o pagamento era feito só pela municipalidade. (...)
Alto, musculoso e ainda forte em 1877, apesar dos seus 69 anos, dos quais 44 na prisão, queixava-se apenas de sofrer reumatismo, acrescentando pacatamente que "se obtivesse a liberdade iria viver sossegado em algum canto".

Eis parte da biografia do Carrasco Fortunato, que foi, como executor da Justiça, hóspede de Leopoldina, onde, ali no Morro da Forca, em que existe, atualmente, uma caixa d'água, fez cinco execuções. - J. Botelho F. "

Pois é, meu iracundo Fortunato. No morro que chamavam "Morro da Forca", hoje Pirineus, onde te mandaram matar gente, já não existe caixa d’água. A cidade tomou conta do morro, tem uma praça e uma igrejinha de N. S. Aparecida, a santa moreninha do Brasil, que lá ainda não estava no teu tempo e, talvez por isto, não te acudiu naqueles dias ferozes em que cumprias tua parte no acordo macabro que as autoridades te impuseram: enforcar para não ser enforcado.

No mesmo morro reside agora este escriba que leu tua biografia e detestou os adjetivos assestados à tua pessoa. Não engoliu a "excepcional bondade e carinho" que a senhora te deferia na infância e duvidou muito da "brandura das admoestações" que tu, negrinho escravo, teria recebido dela.

Posso imaginar como foste maltratado, Fortunato.  Filho de sinhá que sofrer hoje uma micra do que sofreste naqueles tempos, cumpre 8 anos de terapia comportamental e não desentorta a cuca.

E, sabe de uma coisa, Fortunato, para mim tu foste efetivamente funcionário público. Toma nota: foste Serventuário da Imperial Justiça. Tão do teu lado me coloco que, impossibilitado de também aplicar uma bordoada certeira na cachola de quem te chamou de pária, de typo abjecto, abominável, torvo, sinistro, já me presto a repassar tua história para devolver à memória de teus pífios biógrafos todos esses insultos.

Escravo, infeliz e desgraçado, tu sequer sabias que a pena de morte estava escrita numa lei dos poderosos para preservar-lhes o patrimônio. Desletrado, jamais poderias proferir sentença condenando alguém à forca.

Um tal Joseph de Maistre, que escreveu um livro chamado "As Noites de São Petersburgo", lembra que só ao carrasco e ao soldado é permitido matar sem crime. Mas as execuções do carrasco, dependendo de sentença, são tão raras que basta um carrasco para várias províncias. Quanto aos soldados, precisam ser muitos porque eles matam sem medida, principalmente pessoas honestas. Apesar disto, o soldado é honrado por todas as nações; o carrasco é o infame.

Fortunato, se o justiceiro de circunstância não fosses tu, eles arrumariam outro para ser “hediondo” no teu lugar. Ou seja, no lugar deles...

Da perspectiva atual podemos compreender perfeitamente e justificar a criança miserável, a criança massacrada, que se transformou no adulto Fortunato. Pena que ainda façamos tão pouco por ela.

Em verdade, não evoluímos muito além de ligeiramente alterar o conceito de escravidão que, sob aparências liberais, continua quase tão cruel quanto antes. Tanto assim que se você, Fortunato, nascesse nos dias que correm poderia estar "predestinado a uma vida medonha" bem parecida com a que viveu há 193 anos.

E se estiveres me ouvindo, pode acreditar: é quase certo que terias, de novo, alguns problemas com a justiça.
Entre os humanos as coisas caminham devagar, meu bruto!

Por isto, de onde estiveres, Fortunato, tente compreender a humanidade – tantas vezes, ela sim, medonha e insensível - e tente se possível perdoá-la.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada no Jornal LEOPOLDINENSE – de Leopoldina, MG)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Exaltação ao Parceiro

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Julho, 2009

Tem gente que – como lá dizem – não regula da cabeça. Nunca fui contra os poetas herméticos versejarem apenas para aqueles que os entendem. Nem contra apreciadores do romance moderno, encontradiços entre seguidores e leitores de Joyce. Cada um desembarace o nó cego da estética que o persegue.

Digo isto porque hoje pela manhã te procurei por todo lado, companheiro. Fui ao desjejum sem ti. Corri ao banheiro atrás de um sinal de despedida, de uma notícia, nada! Há os que somem sem explicação, como está no poema de Drummond. E há o sentimento de culpa dos que não se perdoam.

Podes, perfeitamente, nutrir certa mágoa pela aridez do nosso relacionamento. Nascido interiorano e rude, às vezes maltrato os que me são caros. Desgastes em nossa relação? Sinceramente, não sei. Mas não me custa reconhecer que não vinha mesmo sendo legal contigo. 

Com escassez de tempo para repartir, sempre reservei para nós apenas as horas mortas dos dias. Quase não nos vemos com amigos, não te levo a passeio, a um almoço fora, ao chopinho da esquina. Passo, sim, a impressão de que me envergonho de ti. Mantenho-te distante dos meus contatos profissionais, da minha convivência social mais cerimoniosa.

Isto, nunca mereceste! É como se eu o punisse sempre, na impiedade atestada por Dumas Pai ao dizer que os grandes favores se pagam com ingratidão. Jamais te dedico um carinho especial, um lencinho úmido de reconforto, um afago, um toque mais íntimo de cumplicidade. Esqueço que nos meus momentos cruciais de dor e desalento, sempre veio de ti o regaço acolhedor, o colo amigo em que me aninhei. 
                                                                                    
Queira perdoar, consorte de tantos anos, este coração avaro da mais escassa comiseração. Mas saiba que, pensamentos frívolos à parte, meus chacras inferiores seguem vassalos de teus mimos relaxantes.

Imagine que inda agora, repensando abertamente nossa relação, acode-me que nem para meus aniversários costumas ser convidado. Tudo bem que o rol dos obsequiados é feito por minha esposa, e a fatuidade é um dom nas mulheres. Sentem-se, também, as responsáveis por preservar aparências!

Que me perdoes, amigo! Continuarás a ser, não obstante, o teúdo e manteúdo da minha vida ancha de labor e poema. Seguiremos uma só alma, uma só carne. Feitos um para ou outro, os anos vieram cinzelando na superfície acolhedora de teu ventre o baixo relevo em que meus dedos se aquietam.

Volte para casa, parceiro de tantas calmarias. Vamos envelhecer juntos! Quero continuar a “amanhecer ao seu redor” – vá lá este verso do poetinha Antonio Marcos. Preciso encontrá-lo sempre ao tatear com os pés, rente à cama, na borracheira do sono e do cansaço. Seguirás meu porto seguro, a marca dos meus passos.


Enquanto vivo estiver, estarás comigo sob a tepidez sem rumo dos meus pés. Morto, pisaremos o éter, meu acolhedor e venerado par de chinelos.  

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 25.07.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um bom sujeito

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Julho, 2009

Escolhi falar hoje de três pessoas que, talvez em tese, não possam ser tomadas como padrões éticos pelos exemplos que passaram. Convivi com elas no interior de Goiás. Não me perguntem se os considero amorais ou simples passageiros das circunstâncias deste trem expresso que é a vida. Os fatos por si se explicam.

Afinal, os últimos tempos não andaram pródigos de assunto para quem não curte Michael Jackson nem torce para que a gripe suína se esparrame pelas pocilgas legislativas de Brasília. Não, não torço. Aqueles macunaímas da vida pública merecem cadeia. Morte por pneumonia ainda não.

Falta-lhes caráter, é certo, mas são heróis pervertidos dos eleitores que os colocaram lá. E, claro, do PT que trabalha para que lá permaneçam.

Mas vamos ao Caso Especial dos meus três atores: um médico, um advogado e a esposa deste. Cenário, uma cidade tranquila do interior goiano, onde trabalhei nos anos 70. O personagem principal, o médico, talvez nem fosse dos piores, mas tinha fama de bronco, mal educado, quase um primitivo. Era filho de mórmons americanos, agricultores fixados numa colônia do sudoeste goiano. Fora criado no Brasil, mas como em sua casa os pais sempre se entendiam em inglês, falava com notável sotaque.

Tudo começa quando o advogado, de seus 40 anos de idade, casado, pai de quatro meninos, desconfiado que precisava ser visto por um médico, decidiu ir ao consultório do gringo, velho amigo e colega de juventude. Sintomas preocupantes o incomodavam e não dava para adiar mais. Marcou hora e foi.

Vieram as perguntas da praxe clínica, apalpa daqui, ouve dali, finalmente, pedidos de alguns exames de laboratório e uma determinação ao paciente:
-Quando estes exames ficarem prontos você volte, mas venha com sua mulher. Traga a Tininha, entendeu? Arranje alguém para ficar com as crianças, mas traga a Tininha.

Deu-se o recomendado. Exames feitos, o paciente volta à consulta levando muitos resultados e a esposa. Sentam-se, o médico corre os olhos pelos papéis e, aparentando súbita exaltação, passa a quase gritar na direção do casal:

-Tininha, você está aqui para ajudar a segurar a barra do seu marido. Pedi estes exames apenas para confirmar o que eu já tinha certeza: ele está com “aquela” doença em estágio avançado. Incurável, intratável! (O médico disse o nome da moléstia, mas mineiro do meu tempo só fala nome de doença grave com espaço à frente para cuspir três vezes).

Seguiu o doutor na peroração atroz:
-Não joguem dinheiro fora com ilusões. O que mais tem por aí é charlatão prometendo cura impossível pra tomar dinheiro dos bobos. Tininha, você tem marido para, no máximo, seis meses - tratando ou não tratando.

-Saiam daqui agora - estão me ouvindo? – saiam daqui agora e procurem uma seguradora. Façam o maior seguro de vida que puderem fazer.
E, com o indicador no nariz do doente:
-Não deixe sua mulher e seus filhos na merda - está me ouvindo, ô cara? Não vou receitar coisa alguma pra você. Se começar a sentir dores, interne-se ou tome analgésico. Também não vou registrar esta consulta nem a anterior. Jogue fora esses exames de laboratório. Não seja burro de deixar provas de que você sabia da doença antes de fazer o seguro, entendeu? É o que lhes tinha a dizer!

Diante do susto, e em tão trágica circunstância, Tininha só teve forças para levantar-se e dizer ao médico:
-Você é um animal, você não é gente, você é um monstro! Contrafeitos, viraram as costas, desceram o elevador e dobraram a esquina.

Meses depois, no sepultamento do advogado, o médico se manteve a distância preferindo não aproximar-se para cumprimentar a viúva do amigo. Sabe-se, entretanto, que daqueles tempos a esta parte, sempre que alguém menciona a proverbial incivilidade do clínico, curtida na sabedoria dos últimos anos, a viúva pondera:

-Nada disto, ele foi um bom sujeito. Se houve uma pessoa decisiva na educação dos meus filhos, essa pessoa foi ele...
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(Publicada em 07.07.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

domingo, 26 de julho de 2009

Preconceito nas Escolas

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"Época triste é a nossa em que é mais difícil
quebrar um preconceito do que um átomo.” (Einstein)


O jornal Estado de Minas, de18 de junho publicou – com toda certeza outros jornais do país também o fizeram - estudo sobre Preconceito nas Escolas, realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, com estudantes, seus familiares e funcionários de escolas públicas, a pedido do Ministério da Educação.

A FIPE informa ter entrevistado 18.599 pessoas, entre colegiais a partir dos 14 anos de idade, professores, diretores e funcionários de escolas, pais e mães de alunos de 501 educandários em 26 estados e no Distrito Federal.

A maior parte (83,8%) das atitudes preconceituosas e de discriminação no ambiente escolar é explicada pela formação dos próprios alunos. Nada menos que 99,3% dos entrevistados, entre pais, alunos e funcionários de escolas, têm algum nível de preconceito.

Outros dados importantes: escolas com maiores índices de intolerância têm desempenho escolar menor; alunos religiosos são mais intransigentes em relação a gays; o preconceito vem de casa, da formação familiar.

Foram analisados convencionalismos de diversas naturezas: racial, sócio-econômico, de gênero, de orientação sexual, geracional (com relação a idosos), territorial e afetos a pessoas com necessidades especiais (física e mental). Alunos negros (19%), seguidos de pobres (18,2%) e homossexuais (17,4%) são os que mais sofrem discriminação nas escolas.

Os resultados da pesquisa serão analisados pelo MEC para instruir políticas educacionais adequadas. O trabalho despertou minha atenção porque nasci num município do interior de Minas Gerais (Leopoldina) que, no fim do segundo reinado, mercê de sua vocação cafeeira, deteve o maior contingente de trabalhadores negros, do Estado. Isto resultou numa cidade onde indivíduos que se dizem brancos talvez não estejam em maioria.

Não obstante e desastradamente, há 50 anos atrás, no único colégio secundário existente, no qual estudei, não havia aluno de cor. O colégio era particular. Ou seja, colégio “para quem podia pagar”... As escolas públicas ministravam apenas o primário.

Também na vida comunitária, com a Lei Afonso Arinos, de 1951, ainda não assimilada, os clubes sociais admitiam sócios pelos critérios subjetivos da classe social e da cor da pele. Situação, aliás, que não seria diferente por esse Brasil afora. Gilberto Freyre anota que nossa cultura colonial classificava os indivíduos segundo a natureza nobre ou plebéia de suas atividades laborativas. Trabalhar com os braços, uma infâmia!

Nenhuma indignidade, entretanto, no adoçar o lanche matinal com o açúcar milagroso dos canaviais malditos - dos cortadores de cana estropiados pela canícula; nenhuma desonra enriquecer-se com o ouro das minas generalizadas - do operário morto na silicose e na tísica; nula ignomínia no saborear e exportar cafezinho aromático - fruto das lavouras servilmente cultivadas pelo obreiro não remunerado.

Felizmente, dos anos 60 para cá a sociedade tornou-se menos injusta. Multiplicaram-se as escolas públicas e os clubes sociais substituíram porteiros opináticos por uma roleta daltônica, adepta do cristianismo. Filho de Deus entra.

Hoje, rodando por minha cidade, chego a diminuir a marcha do carro para esticar felicidade quando passo em frente ao colégio (agora, público) onde estudei nos anos 50 e onde só tive colegas brancos. Contemplo com ternura nos olhos, que aquelas crianças jamais entenderiam, o mar de meninos e meninas uniformizados, felizes, de todas as classes sociais, de todas as raças, principalmente da belíssima raça brasileira!

Essa pesquisa da FIPE, entretanto, está a nos dizer que nem tudo são flores. O preconceito é uma erva daninha traiçoeira. Por mais que a gente esfole a miserável com os sapatos, uma capina de vez em quando tem que ser feita.
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(Publicada em 02.07.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

sábado, 25 de julho de 2009

Crise no Senado

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Junho, 2009

No dia 16/06/2009 o jornalista Ricardo Noblat, em seu Blog do Globo Online, transcreveu impressão cética de Renata Lo Prete, editora do Painel da Folha, sobre a crise do Senado. Disse ela:

“Nem mesmo os poucos senadores ativos na formulação de alguma resposta aos novos escândalos acreditam que José Sarney (PMDB-AP) venha a ser apeado do comando da Casa. Não obstante a multiplicação de parentes pendurados no quadro de funcionários e outros embaraços nas costas do presidente, o caso dos atos secretos envolve gente (inclusive da oposição) o bastante para garantir sua permanência.

Quase todos apostam, porém, que a sobrevivência de Sarney no cargo se dará à custa de um alheamento ainda maior do cotidiano do Senado e de uma dependência cada vez mais explícita do esquema de poder gerenciado por Renan Calheiros (PMDB-AL).

É lamentável que a anemia ética do Senado haja feito dele um doente grave na UTI da paciência nacional. Naquela casa parece não haver mais espaço para a decência. A probidade tornou-se a grande ausente e a vergonha nos semblantes uma dúvida repleta de fundamentos.

Chegamos a tal ponto de degenerescência moral que fica difícil imaginar remédio para o impasse. Dá para pensar em coisa como o alcançado êxito da ruptura institucional. Ruptura que talvez não se concretize apenas em razão da conjuntura favorável, na política e na economia.

Já não sobram dúvidas nas ruas de que o Senado apodreceu, apenas falecendo às instituições o caminho incruento de seu descarte por imprestabilidade. O país seguirá dando milho ao bode de uma Câmara Alta convertida em baluarte da falta de compostura, da desonra, da esperteza moleca e da insolência crua na face dos brasileiros.

Locupletam-se por lá, à tripa forra, nossos Lordes de fancaria. Figuras lamentáveis que, instadas a explicar solércias nepóticas e alcances sobre dinheiro público, invocam cinicamente suas “histórias pessoais”. Que história pessoal tem o cavalariano astuto das circunstâncias, que jamais exerceu uma única delegação outorgada por compatriotas lúcidos? Em que dignificante história se socorre o lambari de enxurrada, o pau rolado dos confins dos judas onde barganha mandatos que os de casa talvez não lhe garantissem?

Os brasileiros de bem esperam do judiciário, que nem sempre se revela santo, um urgente endurecimento de vértebras. Também do Ministério Público e da Polícia Federal. A nacionalidade pede socorro. O Senado é depositário dos laços seminais do nosso sistema federativo. Não podemos entregar esse paradigma da coesão brasileira aos vermes, como se faz nas exéquias a um cadáver.

Uma providência tem que ser tomada agora! O exemplo viciado vindo de cima é praga social que se espalha como fragmentos de uma explosão sobre o mar. Vira moda, vira mote, vira morte da virtude e do pudor. Degenera o sentimento de pátria.
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(Publicada em 25.06.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Air France: Queda do Airbus

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Maio, 2009

Dentre os passageiros desaparecidos no acidente da noite de 31 de maio, do Avião da Air France, estava o jovem Dom Pedro Luiz de Orleans e Bragança, de 26 anos.

Nesta segunda crônica para o Blog de Maria Helena, falarei desse rapaz de linhagem ilustre, que conheci em 1997 quando de uma visita dele à minha cidade natal – Leopoldina, Minas.

Para os leitores que não sabem, Leopoldina é cidade de tamanho médio (uns 60 mil habitantes) situada na Zona da Mata de Minas. De carro, está a duas horas e meia do Rio de Janeiro e a quatro horas de Belo Horizonte. A vida leopoldinense sempre foi mais influenciada pelos hábitos do Rio. Fica mais perto e as estradas são boas.

A denominação do lugar foi homenagem à segunda filha do Imperador Pedro II, a Princesa Leopoldina, quando, a 27 de abril de 1854, o então “Arraial de São Sebastião do Feijão Cru” passou à categoria de Vila. A filhinha de Pedro II contava apenas sete anos.

Estava escrito que não apenas Noel Rosa nasceria num lugar “tendo nome de princesa”. Eu também nasci e, minha princesa, ninguém menos que a única irmã de Isabel, a referida pelo genial sambista. Melhor para mim, que escapei de nascer “feijãocruense” - com o perdão do mau gentílico.

Mas deixe estar que, em abril de 1997, o então prefeito da província (um urologista boa praça) viu, nos 143 anos que a cidade completava, uma conta redonda digna de comemoração. Na vida pública é tudo muito circunstancial.

Declarou que ia rolar a festa e dirigiu um convite especial a D. Antônio de Orleans e Bragança, herdeiro presuntivo do trono brasileiro.

Cumpria sublinhar o vínculo batismal do ex “Feijão Cru” com a realeza. Afinal, o próprio Dom Pedro II visitou a cidade no dia 30 de abril de 1881. Ficamos mal acostumados.
Parêntesis: A casa onde Pedro II almoçou é tombada pelo Patrimônio Municipal de Leopoldina e, sobre a Fazenda onde se hospedou, o próprio monarca anotou em seu diário: “Está-se tão bem aqui quanto em São Cristóvão”. Referência ao Palácio da Quinta da Boa Vista.

Transigente e amável, D. Antonio compareceu acompanhado do filho de 14 anos, Príncipe D. Pedro Luiz - o rapaz que agora desaparece aos 26.

Participaram com entusiasmo da efeméride municipal, do nosso 27 de abril, em atos públicos, livre caminhada pelo centro da cidade, visitas a colégios, hospitais, e, à noite, se despediram num elegante e comunicativo jantar.

Por singulares que pareçam, eventos assim sempre deixam dividendos culturais positivos numa cidade pequena. No mínimo estimulam professores e alunos a correr uma flanelinha na história local e do país. De lambuja, se não interferir na qualidade dos assuntos, certamente o fará na variedade deles.

Vamos explicar então que o rapaz vitimado no acidente, D. Pedro Luiz, é filho de D. Antonio e sua esposa, Princesa Cristhine de Ligne. Cursou Administração pelo IBMEC, no Rio, e pós-graduação em economia pela FGV. Dirigia-se a Luxemburgo, onde estagiava numa instituição financeira.

Vindo a ser confirmado seu falecimento, será conjeturalmente sucedido pelo irmão, D. Rafael. São eles descendentes em linha reta de Isabel, a Redentora, filha de Pedro II.

Conferindo a sucessão: Isabel casou-se com Gastão de Orleans, o Conde D’Eu, que era neto de Luiz Felipe, Rei de França (Leopoldina, casou-se com Luiz Augusto, o Conde de Saxe, irmão de Fernando I, Rei da Bulgária).

Na condição de filha mais velha, Isabel herdaria o trono brasileiro. Teve ela três filhos: Pedro de Alcântara Orleans e Bragança, que renunciou à coroa em 1908; Luiz de Orleans e Bragança, que se casou com Maria Pia de Bourbon Sicília; e Antonio, morto na 1ª Guerra Mundial.

D. Luiz de Orleans e Bragança assumiu, assim, a herança presuntiva do trono do Brasil. Também ele teve três filhos: Pedro Henrique, que se casou com a Princesa Maria Elizabeth Wittelsbach, da Baviera; Luiz e Maria Pia.

Com estes chegamos aos dias atuais. Pedro Henrique e Maria Elizabeth são os pais de Dom Antonio, hoje o herdeiro presuntivo da coroa do Brasil. Ele é casado com a Princesa Cristina de Ligne e são os pais de Pedro Luiz, desaparecido no vôo da Air France.

Ao simpático Dom Antonio, a quem os cidadãos leopoldinenses tiveram o privilégio de pessoalmente conhecer e admirar na oportunidade citada, uma palavra de conforto ante a tragédia que a todos nós brutalmente atingiu. Igual abraço extensivo a cada um dos familiares de desaparecidos no infausto vôo 447.
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(Publicada em 18.06.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Conversa Mineira #

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Oi, amigos. Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa pensou em ter causos de Minas em seu Blog do Globo Online. Cismada que sou mineiro, me pediu pra tomar na cacunda essa responsabilidade.

O diabo é que eu desconfio que nem mineiro sou mais. Tá arriscado levar minha amiga blogueira a laçar boi com embira.

Agora cê imagina: o sujeito sai da roça com 18 anos, vai pra capital do Rio de Janeiro caçar rumo na vida, fica encrencado por lá mais de 30 anos e só volta pra comer quiabo com angu depois de jubilado, com o cavalo na sombra do Instituto.
Com perdão da má pergunta: um tipo assim dá fé de ser mineiro?

Vai ver, até é. Mas o certo é que já indagaram e eu não sube responder.
Num pode, uai, sou um homem que vota no Rio, torce pra time do Rio, lê jornal do Rio, fala meio arregaçado no “x”...
Mineiro, hem!

A valença é que o desejo da Maria Helena não era abrir um espaço provinciano, à moda do “ó Minas Gerais”. Não, não. Novidades de Minas o jornal dá, a televisão dá, a internet dá e, por aí mesmo no arraial do Globo Online, o Noblat também... veicula.

Ah, sim, Maria Helena esconjura frivolidades e contador de piadinha fraca. O mineiro dos sonhos dela fala só de coisas edificantes - de Minas, preferencialmente, mas de outros comércios também.

O fato é que a danada me pegou num momento de fraqueza, eu sem a menor condição de rejeitar holofotes. É que o Serra tá empacado e, se o Aécio vem pelo PSDB, o Lula vai precisar de um vice mineiro para Da. Dilma. Ora, com meu nome na mídia, já viu né. É verdade que temos o bom do Itamar, mas numa certa idade a pessoa vai ficando meio desacoroçoada.

Os outros mineiros de influência (o povo fala muita besteira!) dizem que tão mais sujos que vaca desandada. Vai daí que a Maria Helena propôs e eu aceitei. Toda quinta, se eu me lembrar, vou estar aqui magoando o tempo dos amigos.

Mas, é como lá diz, não sou candidato a nada.
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(Publicada em 11.06.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)