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sábado, 26 de março de 2011

Um Caso de Medo

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Janeiro, 1960

Quem, por acaso, vier a escrever um livro sobre o medo, há de dedicar-me pelo menos um capítulo, sob pena de ver incompleto seu tratado. É pouco provável que outro menino tenha se tornado homem passando pelos medos que passei. Por intoleráveis que sejam as lembranças dos malfados que me infernizaram a adolescência, quero falar do maior deles, o tremendo sufoco que foi a primeira “carona” que ganhei, por volta dos onze anos.

Minhas férias estavam por terminar e Titia, possivelmente já desejando descanso das traquinagens do sobrinho irrequieto, tratou de despachar-me para casa. Meu Tio, por comodidade ou falta de tempo, preferiu não ir ao centro de Muriaé, MG, colocar-me num ônibus, para Leopoldina, onde meus pais moravam. Achou mais fácil conseguir, no Posto de Polícia Rodoviária, vizinho de sua casa, que me colocassem de carona num caminhão com “caminhoneiro de confiança”.

Isto foi feito. Não demorou muito, o guarda me confiava a um motorista muito conhecido na minha Leopoldina da época, o Sr. Vitorino Esteves, que gentilmente me acomodou na cabina empoeirada de seu “International KB-7”, entre ele (o motorista) e seu ajudante (e meu inconsciente algoz), um brutamontes com cara de pouquíssimos amigos. E, pela então difícil estrada de cascalho que ligava Muriaé a Leopoldina, iniciei o que veio a ser a mais torturante viagem da minha vida.

Não falo do medo que, para mim, representava o fato de transitar por aquelas regiões desertas, onde muito raro se via uma casa. Nem vale a pena falar do medo, aliás natural, de viajar num enorme caminhão com altíssima carga, dando a entender que iria virar à menor curva do caminho. Não, nem falemos nisso. Falemos do medo maior que abarcava tudo: medo do brutamontes mal encarado. Imaginem que já entrei no caminhão ouvindo relatos de brigas.

Segundo o que ele dizia de suas proezas, seria um assassino. Sim, brigara com fulano, dera-lhe uma facada assim, assado... Quanto a beltrano, foi uma briga ainda pior, em que fora obrigado a matá-lo também a faca. Seu forte parecia ser facada na barriga.

Relatava suas lutas corporais com exaltações teatrais, que eu, ali no meio, sufocado entre palavrões, ameaças e gestos violentos, comecei a tremer e a ter vontade de chorar. Rezava para que Leopoldina chegasse logo. Mas não chegava.

Para martírio maior, no alto de uma serra de aspecto sinistro, mata dos dois lados da estrada, seu Vitorino, dizendo-se cansado da viagem que vinha empreendendo, parou para dormir. Pior: dormir lá em cima da carga do caminhão, deixando-me só, na cabina, com meu verdugo.

Veio-me um nó na garganta e já me havia decidido deixar de lado a vaidade masculina e cair em pranto, quando Deus, possivelmente decidindo interferir, determinou que a assustadora criatura também sentisse sono e fosse dormir numa esteira, debaixo do caminhão.

Só ao fim do dia chegamos a Leopoldina. Tremia. Minha mãe me trouxe água com açúcar.
- Que bobagem, meu filho! O Sr. Vitorino Esteves é pessoa bonísssima, conhecido do seu pai... Se o ajudante trabalha com ele, também não deve ser má pessoa. Ninguém tem culpa de não ter uma cara bonita e não saber escolher o que falar perto de uma criança.


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