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sábado, 26 de março de 2011

Da. Pequetita

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Dezembro, 1965

Foto: Da. Pequetita - 28 de janeiro de 1968.

Nasci à beira de um rio de águas claras e vagarosas, ao qual chamavam Rio Pardo. No pequeno vale contíguo à planície denominada Vargem Linda, no sopé da encosta, meu pai construiu, com suas próprias mãos, sobre esteios de braúnas centenárias, nossa casa, simples, mas tão extraordinariamente bela e agradável que os anos ali vividos nós os guardaríamos na memória como um tempo abençoado pelo azul do céu e por todas as dádivas oferecidas pela terra.

Vargem Linda não chegava a ser grande. Uma pequena chácara de alqueire e meio, como sempre ouvi a ela referirem. Dela, meu pai extraia o sustento da família com pequenas culturas de arroz, feijão e milho.

Tínhamos também uma vaca muito bonita e grande, de pelo queimado, chifres altos cor de grafite, chamada Princesa, que nos brindava todas as manhãs, a meus três irmãos e a mim, com o leite concentrado de sua raça zebuína.

Professora rural do lugar, minha mãe, Da. Pequetita, ensinava às crianças pobres a ler e a escrever. No início da década de 1940 a região da Vargem Linda era muito pobre de recursos e as pessoas também. Todos trabalhavam na lavoura e eram poucos os que sabiam assinar o nome. Nem mesmo os proprietários das terras, em sua maioria, puderam freqüentar escolas primárias. O mundo civilizado ficava distante e quase inatingível para eles.

Minha mãe tornou-se muito estimada de toda a população por ser mestra dedicada, exigente, e notavelmente cuidadosa da saúde de seus pequeninos alunos. Era um tempo em que a simples ideia, elementar, de alfabetizar os filhos tinha poucos adeptos. Os menores eram muito úteis na ajuda aos pais na lavoura.

Importantíssimo, portanto, que as professoras se dirigissem às residências a fim de convencer os adultos da importância da leitura, de dar educação aos filhos. Para os meninos e meninas que não podiam comprar cadernos, minha mãe costumava fazer, com linha de costurar e papel de embrulhar pão, os cadernos com que pudessem anotar as aulas.

E, tal como se descreve no início da criação, Deus há de ter visto que tudo aquilo era muito bom, pois parece ter inundado de bênçãos nossas vidas, por todos os tempos até que os tempos se cumprissem.
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(Dezembro de 1965)

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