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quinta-feira, 10 de março de 2011

Marcha da Quarta-Feira

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Março, 2011

Quarta-feira de cinzas de 2011. Ontem, dia 8, cliquei no You Tube a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, de Vinicius de Moraes e Carlinhos Lyra. Hoje pela manhã, acometido de lembranças, voltei a ouvir.  Eu que nem sou tão dado a Carnaval, passei  a explorar todas as interpretações disponíveis, da linda Marcha.

Repetecos inclusos, não fiquei menos de hora e meia ouvindo a deliciosa lamúria do Vininha. Bendita seja toda inspiração que Vinícius bebeu em nosso nome!

A conclusão a que chego é que não é preciso gostar de Carnaval, nem é preciso participar de Carnaval, para que o espírito da Quarta-Feira de Cinzas baixe em cima (e, principalmente, por dentro) da gente. Os semblantes nas ruas não negam. Na cabeça das pessoas, todo céu de quarta-feira de cinzas é nublado, londrino. Razão assiste ao poeta quando observa que “saudades e cinzas” foram feitas para “restar nos corações” quando “ninguém mais passa cantando feliz”.

Até meia noite será quarta e ainda dá pra curtir a preguiça. Mas amanhã será quinta, quando todo sentimento de trégua e repouso assumirá conotação de malandragem. Será o calendário exigindo da gente um ânimo que o menor quociente de álcool no sangue – por insignificante que seja – oporá obstáculo no argumento pesado da lombeira.

Você não brincou o carnaval, não é mesmo, não foi pra rua bater pernas debaixo de chuva, não foi empurrado, pisado, xingado, cuspido, nem bateu caixa a noite toda, certo? Preferiu um passeio com a família, ao sítio, à piscina, um rachinha de futebol society, peteca, uisquinho, batidinha de limão ou caju... outro uisquinho, torresmo... mais um uisquinho, linguiça frita... outra dose do importado de lei; picles, camarão pingando aquela gordurinha de porco deliciosa, hem!...

Reforça a dose aqui, amigão! Um joelho de porco na brasa, hem, hem, hem, um aipimzinho crocante... Cadê a batida, gente boa?

Maravilha! Nós aqui e os palhações lá na chuva azarando mulher turbinada e pondo em risco a saúde. Tem gente que não pensa no dia de amanhã!

É claro que um pouco de exagero nas frituras e no sal das azeitonas deixa também o estômago da gente meio revirado ao fim de quatro dias. Pra falar a verdade, não sei por que não decretam que as quintas e as sextas, depois do carnaval, sejam igualmente “de cinzas”. Não custava nada. Estômagos e fígados agradeceriam. Falta de graça ter que trabalhar no efeito dessa gastura digestiva, dessa sensação de corpo moído que a ingestão de tira-gosto industrializado provoca no organismo!

Sei que muita gente toma isto como piada, mas tanta porcaria que se ingere para acompanhar scotch e caipirinha é uma temeridade. O que tem ali de química conservante, aromatizante e colorante não é brincadeira. Sacumé que é! E nós, aqui, mal conseguindo ficar de pé...

Tudo culpa do governo que nem tá aí pra essas paradas. Sacou? Desses órgãos fiscalizadores dos alimentos que deviam fiscalizar, mas não fiscalizam coisa nenhuma. Tendeu? Vai ver, numa hora dessas, eles também tão chapados, em paranoia etílica, falando abobrinha por aí... Hic!

Esse país só entra nos eixos, ó meu, quando pessoas conscientes de seus direitos, no uso da sobriedade que só nós sabemos preservar em momentos assim, mandarem logo uma ação de perdas e danos em cima dessa tal de “AVISA”... Ou seria... hic, hic...

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(Publicada em 03.03.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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