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quinta-feira, 3 de março de 2011

O Desafio do Piracajó #

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Março, 2011

Neste verão de temporais e alagamentos por toda parte, alguns até com vítimas, ocorre-me contar a história de uma tremenda tempestade mineira, que me permito classificar como muito engraçada porque, apesar dos estragos, não deixou vítimas.

Minas, como sabemos, é Estado pródigo em trombas d’água. Principalmente, na região da Mantiqueira e Zona da Mata Mineira, espaço fronteiriço aos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, indo do vale do Rio Paraibuna – que corta Juiz de Fora – até o Rio Doce, ao norte. Com intensidade menor, chove bastante também no sul e no centro do Estado.

O toró de que vou falar aconteceu há alguns anos no Oeste de Minas, numa cidade antiga, de médio porte, chamada Bom Sucesso (Assim mesmo, separado, diferente do bairro de “Bonsucesso”, no Rio de Janeiro). Bom Sucesso fica a cerca de 200km de Belo Horizonte, descendo pela Rodovia Fernão Dias, em direção ao sul. É terra de muitas famílias tradicionais de Minas, grandes fazendeiros, industriais e banqueiros importantes do passado recente.

A cidade se estende pelo topo de uma colina, com clima e visual maravilhosos, mas lutou muito em seu passado com um problema que parecia insolúvel. É que a via de acesso ao perímetro urbano, bem ao pé do monte, passava obrigatoriamente por um riacho de margens alagadiças, o Rio Pirapetinga, onde não havia ponte que parasse de pé. Era construir uma nova ponte (sempre de madeira, como da praxe de então), para vir uma enchente de fim de ano e levá-la rio abaixo, isolando mais uma vez a cidade. Um estorvo histórico.

Eis, contudo, que certo prefeito mais afoito vai ao governador e volta de Belo Horizonte com o deferimento da verba necessária para edificar a ponte que convinha ao local, de cimento armado, pilotis bem estaqueados até as profundas do charco, projeto portentoso de engenheiro do ramo. Uma obra – anunciava o Alcaide a seus munícipes - “que virá valorizar a cidade, resolver nosso antigo problema e levantar a auto-estima do nosso povo bom e trabalhador”...

Claro que no dia da inauguração da nova ponte foi feriado municipal. Carros de som percorreram as ruas desde cedo conclamando a população a comparecer ao corte da fita inaugural, banda de música, Hino Nacional, colégios em uniforme de gala, professoras descendo o vale na direção da nova ponte do Rio Pirapetinga com suas classes em forma, a digníssima esposa de Sua Excelência num vestido bem cortado, mandado confeccionar em Beagá, correligionários em trajes de missa, populares de olhos esticados sobre as muitas cabeças coroadas... O palanque, como não poderia deixar de ser, armado em cima da própria ponte.

-Povo da minha terra! Autoridades civis, militares e eclesiásticas que nos engalanam esta festa da municipalidade com a conspícua honra de vossas augustas presenças! Neste dia dois, dia ímpar nas tradições desta terra, nesta efeméride em que inscrevemos hoje - queira Deus para sempre! – nos gloriosos anais da história local, a ventura de uma realização que vem a lume exatamente pelas mãos do mais humilde dos filhos deste chão - o emocionado servidor que vos fala! – eu tenho a honra e o privilégio de entregar ao meu povo esta portentosa “Obra de Arte” que tantos benefícios trará à população local, quiçá de Minas, quiçá do Brasil!

É, pois, com o orgulho e o patriotismo dos impávidos que declaro neste momento aos homens e mulheres da minha terra:
-Nós vencemos o desafio do Pirapetinga!...

Introdução aplaudidíssima para um discurso que, pelo andar da carruagem, prometia ir longe! Só que Nereidas e Tágides camonianas, as ninfas do Rio Pirapetinga, não deviam estar gostando daquilo. Sim, porque mal ressoavam essas empoladas frases do palavroso tribuno, volumosas gotas d’água começaram a despencar de um céu surpreendentemente roxo, baixo e ameaçador. Pingos enormes estalavam no concreto da ponte, uma ventania surpreendente passou a desgrenhar árvores e a enlouquecer porteiras, gente se espalhando por todos os lados, um Deus nos acuda!

O gerente de Banco, Renato Esteves Alves, que me contou esta história, pegou sua filhinha de dez anos, colocou-a nos ombros enganchada ao pescoço e disse:
-Segura firme, filhinha, que papai também vai correr!

Choveu a cântaros calculados por todo o resto da tarde e pela noite. Um dilúvio!
Na manhã seguinte, desolada, a cidade constatava que, da ponte, sobraram apenas ferragem retorcida e guimbas inclinadas dos quatro pilotis.

O desafio do Pirapetinga continuaria por mais alguns tempos.
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(Publicada em 03.03.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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