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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

José Américo Barcellos

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Outubro, 2011

As presentes notas biográficas falam com emoção de um amigo, recentemente falecido, com o qual mantivemos algumas décadas de agradável convivência. José Américo Barcellos, radialista e dentista na cidade de Leopoldina, embora um pouco mais velho, me honrou com sua amizade desde os tempos do velho Colégio Leopoldinense, de histórica memória, e do mestre muito querido do Zé, o inesquecível, Prof. Geraldo de Vasconcelos Barcelos, com suas aulas superlativas no Gabinete de Química. Cito, propositalmente, apenas o Prof. Barcelos, com escusas aos outros grandes professores do célebre educandário, porque sou testemunha da marcada influência que aquele cultíssimo educador exerceu sobre a formação do nosso José Américo. Ele sempre citava o “Barcelão”.

Certa vez, participando de um programa dele na Rádio Jornal, Zé Américo me perguntou, de microfone aberto, se eu sabia que o palmito era uma poderosa fonte de proteína. Fui sincero e disse que não estava seguro disto. Ao que ele retrucou:
- Então o Prof. Barcelos só lecionou isto em minha classe. Ensinamento – prosseguiu ele – que confirmei, depois de adulto, numa matéria de jornal que falava do desenvolvimento da toxina botulínica (que é um complexo protéico) em latas de palmito industrializado. E concluiu José Américo:
– O Barcelão, lá atrás, já me havia ensinado isto!
Notável, seu culto ao velho mestre e poeta Geraldo de Vasconcelos Barcelos.

Mencionei radialista e dentista. Radialista em primeiro lugar porque antes de graduar-se em odontologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, ele já ocupara o microfone da ZYK-5, Rádio Sociedade Leopoldina, ainda estudante do Colégio Leopoldinense. Principalmente em transmissões esportivas.

“Zé Américo”, como veio a se tornar amplamente conhecido pela quase totalidade da população leopoldinense, nasceu no dia 10 de julho de 1932 na cidade mineira de Dom Silvério, filho de Luiz Torres de Barcellos e de Da. Lygia Domingues Barcellos.

A vinda da família para Leopoldina, na década de 30, coincide com a chegada, a esta cidade do Padre, depois Monsenhor, José Domingues Gomes, religioso de cultuada memória, que vinha a ser irmão de Da. Lygia. Assim, Luiz Torres de Barcellos chegou a Leopoldina em companhia do cunhado, sacerdote, tornando-se, depois, funcionário da Concessionária Ford, do Sr. Acácio Serpa.

O menino, José Américo, desde os doze anos, costumava dirigir o carro do tio, Pe. José Domingues, acompanhando-o nas viagens de celebração nos distritos de Leopoldina. Tornou-se ainda coroinha nas missas celebradas pelo Padre, ocasiões em que recitava invocações e orações em latim, circunstância que sempre relatava em família com muito orgulho.

Portanto, residindo em Leopoldina desde a infância, o nosso Zé Américo cursou o primário no “Grupo Escolar Ribeiro Junqueira”, conhecido como “Grupo Velho”, hoje Escola Estadual Ribeiro Junqueira. Primeiro e Segundo graus ele os cursou no então “Colégio Leopoldinense”, rebatizado por sua vez em Escola Estadual Professor Botelho Reis depois da estadualização, na metade dos anos 50.

Graduou-se Zé Américo em Odontologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora; graduou-se em Ciências, Física e Biologia pela Faculdade de Filosofia Santa Marcelina de Muriaé; tornando-se, por último, Professor no Programa de Saúde – Anatomia e Escultura Dental, pela Universidade do Trabalho, de Belo Horizonte.

Na área da saúde, paralelamente a seu consultório odontológico particular, na cidade, foi dentista do SESI, ao longo de 25 anos, e prestou serviços odontológicos à SAMSA – Sociedade de Assistência Médica e Social de Argirita, durante 10 anos; por concurso, em 1978, fez-se dentista do Centro de Saúde Dr. Irineu Lisboa, em Leopoldina; e, por duas ocasiões, prestou assessoria à Secretaria Municipal de Saúde de Leopoldina, nos períodos 1993/1996 e 1997/1999.

No concurso de dentista para o Posto de Saúde, Zé Américo foi aprovado em primeiro lugar. Aliás, lembrava ele que, ao inscrever-se nesse certame, foi avisado por alguém que a vaga já estava definida, tinha dono, e que o concurso seria um jogo de cartas marcadas. Deu-se, entretanto, que José Américo obteve uma pontuação tão superior aos demais concorrentes, que acabaram criando uma vaga a mais: uma pro tal “apadrinhado”, que se confirmou existir, e outra para ele, o primeiro colocado no concurso.

No magistério, Zé Américo lecionou Ciências, Física, Biologia e Química na Escola Estadual Professor Botelho Reis, de Leopoldina; lecionou Biologia no Ginásio Espírito Santo, também nesta cidade; exerceu o cargo de Vice-Diretor da Escola Estadual Professor Botelho Reis; e, ainda em nossa terra, fundou, no ano de 1969, um Curso Preparatório para Exames Vestibulares, do qual era o Diretor. A este último curso ele denominava “Escolinha” e as aulas eram aos sábados e domingos, sem custo algum para os alunos. Ali ele ensinava, já naquela época, radioatividade e possibilitou que os alunos tivessem acesso ao microscópio. O prazer dele era ensinar e compartilhar conhecimentos.

Seria, entretanto, na área do jornalismo radiofônico que o nome de Zé Américo calaria mais fundo na alma leopoldinense, com sublinhada inclusão das camadas mais populares dos municípios e localidades adjacentes. Foi homem de rádio por excelência. Sabia levantar a notícia, dizê-la ao microfone de maneira clara e atraente para o grande público.

Dominava como poucos o dom de cativar o ouvinte, repartindo com ele a informação. Suas falas – sempre de improviso – eram permeadas de humor e respeito ao público ouvinte. Quando se socorria em algum vocábulo mais erudito, ele prontamente o “trocava em miúdos” para que todos entendessem. O mesmo fazendo se a “louçania” provinha da boca de algum entrevistado. Era o rádio em sua tarefa básica de divertir e informar.

Se levava ao ar alguma denúncia, era no cumprimento de seu dever profissional, de jornalista e cidadão, mas sempre com o microfone democraticamente aberto para quem desejasse “responder” ou “esclarecer” o fato. Um homem ético, portanto, incapaz da incidência no erro das atitudes inflexíveis ou rancorosas.

As poucas vezes em que o poder político subtraiu-lhe o microfone coincidiram com momentos em que fatos comprometedores reclamavam “versão oficial” que omitisse a verdade. A paixão do velho radialista pelo microfone não era maior que sua honra. Sempre que necessário perdeu o microfone, para manter dignidade. Essa ninguém lhe tascou!

Em sua vida particular sempre foi pessoa acessível e muito simples. Nada mais fácil que chegar a ele e falar com ele. Nas primeiras horas do dia costumava transitar pela Praça João XXIII, nas imediações do Ponto de Taxi fronteiro à Rádio Jornal, quando não se detinha por longos papos nas cadeiras comunicativas do Bar Lamarca. Estar por ali era para ele como tomar o pulso da cidade. Parodiando o antigo colunista Ibraim Sued, ao dizer que “em sociedade tudo se sabe”, Zé Américo frequentava a “República do Lamarca” (denominação dada por ele ao local), esquina onde “a vida leopoldinense é passada a limpo”, e fervilha – talvez até um pouco além da conta...

Para se ter uma ideia do grau de informação daquela esquina, imaginem que há alguns anos, o autor destas linhas combinou com o Otto Valentim (o ex-craque botafoguense, Otinho) a compra de um imóvel que o mesmo possuía em Leopoldina. Acertamos o negócio por telefone, à noite: eu, em minha casa de Leopoldina e ele em seu apartamento do Rio. No dia seguinte, antes do meio dia, Otinho chegava, direto do Rio, ao Cartório do Adilson Velasco, onde já o aguardávamos. Assinamos a escritura e fomos a pé até o Banco do Brasil, na Pça. Gal. Osório, onde o preço do imóvel seria transferido para a conta do vendedor...

Pois não é que, ao passar pelo Bar Lamarca, sem que interrompêssemos a caminhada, pessoas nos davam “parabéns pelo negócio”! Pensei comigo:
- Como eles ficaram sabendo, meu Deus? Haveria uma “escuta”, algum microfone de alta impedância plantado dentro do Cartório?...
Tem-se aí o “grau de informação” reinante na “República do Lamarca”.

Zé Américo sabia das coisas. Sabia que naquela esquina nada passa despercebido. Sem falar que todos os políticos profissionais de Leopoldina têm olheiros plantados naquelas cadeiras. São os “rêmoras”, ou peixe piloto, aqueles miudinhos que acompanham os tubarões para lambiscar migalhas no banquete voraz do predador.

O bom jornalista sabe de suas fontes. Pela Rádio Cataguases Zé Américo chegou a totalizar 381 transmissões esportivas, como repórter e apresentador; pela Rádio Leopoldina foram 62 transmissões esportivas, locais e regionais, Das mãos dele saíram 32 campeonatos regionais de futebol, organizados.

Nos anos 80, por sua atuação na Rádio Cataguases, o nome de Zé Américo firmou-se como influência marcante nas cidades de Leopoldina, Cataguases, Juiz de Fora, Muriaé, Além Paraíba, Miraí, Recreio e Visconde do Rio Branco. Deu-se, aliás, no programa intitulado “Esportes com Zé Américo”, naquela emissora, que nosso biografado atingiu seus mais altos índices de audiência, inclusive com a montagem, ao vivo, nos estúdios do programa, de vários campeonatos regionais – claro, com a participação, “no ar”, de todos os interessados.

A partir de 1987, Zé Américo, assumiu a gerência comercial e administrativa da Multisson Rádio Jornal de Leopoldina, onde se destacou com os programas de jornalismo político, “Flagrantes”, “Fio da Navalha”, “Ponto Crítico”, “Detalhes”, “Integração” e, seu último sucesso de público ouvinte: o “Roda Viva”.
Entre 1989 e 1992 e no ano 2000, trabalhou na Prefeitura Municipal de Leopoldina, como Assessor de Imprensa,

A Rádio Jornal de Leopoldina, antiga ZYK-5, experimentou, na diretoria arrojada de José Américo, sua fase áurea. Realizou transmissões diretas, do Maracanã e do Mineirão, durante 6 anos consecutivos, de jogos do campeonato carioca e mineiro. Dependendo da importância do “clássico”, a cobertura da Rádio incluiu, algumas vezes, transmissões de jogos realizados no interior paulista.

Também no jornalismo escrito a presença de José Américo mostrou-se substanciosa em suas passagens pelos jornais “Nova Fase”, “Gazeta de Leopoldina”, “Folha de Leopoldina”, “Jornal Ilustração” e “Correio da Cidade”, de Cataguases. Mercê de sua simpatia e comunicabilidade, grande traquejo social e notável facilidade de improviso ao microfone, não foram poucas as vezes em que foi solicitado a conduzir eventos políticos, sociais ou culturais.

Felizmente, em muitas oportunidades José Américo logrou colher o reconhecimento de seu trabalho. Exemplo disto foi a Feira Estadual de Ciências, promovida pelo Colégio Central, de Belo Horizonte, em que alcançou classificação com seu aparelho de física denominado “Paradoxo Gravitacional”.

Em 1985 conquistou o troféu “Destaque Imprensa”, pela Rádio Super B-3, de Juiz de Fora, e, naquele mesmo ano, a Liga de Futebol de Juiz de Fora promoveu um campeonato regional para disputa do “Troféu José Américo Barcellos”, o qual, aliás, veio a ser vencido pelo Nacional Atlético Clube, de Muriaé.

A Câmara Municipal de Cataguases concedeu-lhe o título de Cidadão Cataguasense. Para seu maior orgulho, também o legislativo leopoldinense, como não poderia deixar de ser, atribuiu ao filho dileto – que apenas por acaso não nascera em Leopoldina – o título de Cidadão Leopoldinense.

Nosso maior nome da imprensa falada de Leopoldina tornou-se ainda detentor da “Medalha Ordem do Mérito Legislativo” do Estado de Minas Gerais, a ele outorgada pela Assembléia Legislativa de Minas, no dia 3 de dezembro de 1999.

José Américo Barcellos casou-se, aos 10 de janeiro de 1959, com Da. Wanda Bela Barcellos, falecida há cerca de três anos. O casal teve um único filho, o hoje engenheiro, Helder Bela Barcellos, casado com Walkiria Thomé Barcellos, que deram a José Américo e Wanda as netas, Letícia, de 20 anos e Lara, de 16 anos.

No dia 5 de setembro de 2011 faleceu na Casa de Caridade Leopoldinense esse grande exemplo de homem público e cidadão de nossa terra. Seu passamento cai como sombra e silêncio sobre o céu de Leopoldina. Para o redator destas notas uma enorme perda pessoal.

Inúmeras vezes participamos, na Rádio Jornal, sempre com muito entusiasmo, dos programas do Zé Américo. Seus convites, constantes e a simpatia com que ele nos apresentava a seu público e nos introduzia aos debates, era enorme. Mencionava, quase sempre, a figura de meu falecido sogro, o médico Dr. Lélio Lara, a quem Zé Américo sempre devotou grande carinho.

A lacuna deixada por José Américo Barcellos no coração dos amigos e na vida leopoldinense veio atestar, sim, que algumas pessoas são de fato insubstituíveis. No caso dele, muito especialmente insubstituível para seu extremoso filho, Helder com a esposa Walkíria, para as netas, Letícia e Lara, mercê da figura ímpar que foi, de esposo, pai e avô. Sem o Zé a cidade de Leopoldina não é a mesma.
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2 comentários:

  1. Boa tarde, Zé do Carmo, li com extrema calma o seu texto que muito acrescentou informações sobre este grande homem zè Americo com quem tive o prazer de ser aluno no Colégio Estadual e também não posso deixar de dizer que fiz parte da Equipe em que em companhia do Zé Americo fomos a Belo Horizonte no seu opala branco de duas portas participar da Feira de Ciências com o Projeto Paradoxo Gravitacional, onde nessa equipe fazia também parte, Eu (Edercio), seu filho Helder Bela, outros alunos Henrique Mendes(hoje Professsor)Jorge Lucio(tabalhaa na Emater e Plínio(ia virar padre)fizemos um bonito papel em BH, depois de termos ganho em Muriaé- tenho um recorte de jornal guardadod e lembrança até hoje parabens pelo texto.sds

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  2. Valeu, Edercio. Nosso Zé Américo foi uma pessoa ímpar. Tive o privilégio de sua amizade.

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