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sábado, 12 de novembro de 2011

Jovens Descartáveis

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Novembro, 2011


Tem me batido a sensação de que já vivi o bastante. Nasci e cresci num país de terceiro mundo, com um povo descrente de si mesmo, mal dando conta do complexo atávico de ex-colônia dos trópicos. Aquele peso do pecado original de não ser europeu ou americano do norte. Pode ser problema meu, mas sempre me senti mais ou menos assim.

Eis, no entanto, que minha geração amadureceu vendo algumas coisas mudarem. A paixão do primeiro mundo europeu pelo futebol valorizou demais nossos cinco títulos mundiais no esporte. Ao mesmo tempo começamos a aparecer bonito também na fotografia do vôlei, modalidade esportiva que “até os americanos” respeitam e nos esportes olímpicos. Construímos um mercado interno forte, nos tornamos ponteiros na produção de grãos e de carne. Alcançamos avanços tecnológicos importantes.

Ultimamente, já preparadinhos para morrer de vergonha por termos colocado um operário sem cultura formal na presidência da república, eis que o homem vira líder performático internacional, visto lá de fora como um “Pelé” da sociologia política e, internamente, um Padim Ciço Milagreiro, dos fracos e dos oprimidos.

Não bastasse isto, nosso líder é ungido por Deus através das perfuratrizes da Petrobrás. Num passe de mágica, a ex-colônia alcança a fidalguia do hemisfério norte e a fortuna, daqui mesmo, escondida a sete mil metros chão a dentro.

E, convencidos de que a felicidade vem da terra, por pouco não acabamos de vez com o analfabetismo remanescente, legalizando a verbalização das batatas...

De que “ficamos ricos”, até dispensaríamos a prova dos nove, mas ela veio com a velha Europa às voltas com uma crise econômica contagiosa, sendo que, caprichosamente, pelo menos até agora, não se mostrou suficientemente idônea para nos afetar.

Não é de eriçar vaidades? É sim. Os de minha geração que morrerem hoje, morrem realizados. Vimos tudo o que sonhamos ver! Não importa se com os pés um pouquinho descolados da realidade. Mas que vimos, vimos.

Pena que velho vive levando susto da juventude. Quando foi que nós, os encanecidos de hoje − que nos escondíamos de nossos pais para fumar um cigarrinho de tabaco, filado na rua – iríamos imaginar nossos netos invadindo uma Reitoria, em protesto pelo direito, que acreditam ter, de traficar e usar drogas ilícitas dentro do campus da maior Universidade da América Latina?

Ainda bem que não será a essa minoria descartável que a atual geração de “coroas” irá entregar um país, tornado viável e respeitável. As notícias dão conta de que, para a maioria dos estudantes, as aulas na USP seguiram normalmente.

Ótimo, é o Brasil preparando seus herdeiros.
  
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(Publ. a 10.11.2011,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

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