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domingo, 27 de novembro de 2011

O Navegante Negro

***
Novembro, 2004
Arte: Luciano Baia Meneghite (LUC)

Faz muito tempo! Noventa e quatro  anos! Em novembro de 1910, mais de dois mil marujos, liderados pelo marinheiro João Cândido, apoderaram-se dos navios de guerra ancorados na baia da Guanabara e apontaram os canhões para os principais prédios públicos da capital, exigindo o fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil.

O governo gastara uma fortuna para modernizar a Esquadra, fazendo do Brasil uma das maiores potências navais do mundo, mas o Código Disciplinar da Armada continuava o mesmo da monarquia ... Foi a chamada Revolta da Chibata.

Na noite de 22 de novembro explodiu o movimento com o marinheiro João Cândido, o “Almirante Negro", assumindo o comando do Minas Gerais. Morreu na luta o Comandante Batista das Neves, alguns oficiais e vários marujos. Sem saída, Hermes da Fonseca que assistia a uma ópera quando começaram os canhonaços, encomendou rápido um projeto a Rui Barbosa (que, aliás, tinha apoiado a reinstauração dos castigos) pondo fim aos açoites e concedendo anistia aos revoltosos.

Só que o troco do governo viria depois. "O negro que violentou a história do Brasil", segundo Gilberto Amado, foi preso com mais 17 marinheiros numa masmorra da ilha das Cobras. Quinze morreram sufocados. João Cândido sobreviveu e foi mandado para o Hospital de Alienados, onde os médicos negaram que estivesse louco. Foi a julgamento e absolvido em novembro de 1912, porque a jovem república brasileira já começava a ficar bonita, exatamente pela ação de bravos como ele.

Tanto que “a história não o esqueceu”. João Cândido, com sua Revolta da Chibata, inspirou João Bosco e Aldir Blanc na belíssima canção, "O Mestre-Sala dos Mares". Lembram-se da Ellis Regina?

-Há muito tempo, nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu.
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu.
Conhecido como Navegante Negro,
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar para o mar, na alegria das regatas,
Foi saudado no porto, pelas mocinhas francesas,
Jovens polacas e por um batalhão de mulatas!
Rubras cascatas jorravam das costas dos negros
Entre cantos e chibatas,
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do marinheiro gritava: Não!
Glória aos piratas, às mulatas,
Às sereias!
Glória à farofa, à cachaça,
Às baleias!
Glória, a todas as lutas inglórias
Que através de nossa história
Não esquecemos jamais!
Salve, o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais...
(Mas faz muito tempo!...)

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(Publicado em 19.11.2004 no jornal LEOPOLDINENSE)

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