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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Meu Cunhado, Roni



Foto: Roni, praia de Iriri - anos 80.

***
Dezembro, 2003

Se este jornal fosse lido lá em cima, Roni iria adorar o título deste artigo porque uma das minhas certezas absolutas sobre o amigo Azevedo é que ele amava os de casa. Certamente abriria, lá dos celestiais recessos, um sorriso largo e conivente para este enfático “meu cunhado” do título.

Todos na minha família sabem. Perdemos, no dia 27 de agosto, nosso querido Roni. Lembrar aqui que ele não cuidava muito do diabetes, que poderia ter sido diferente, deixa de vir ao caso. Sob perspectiva divina certamente não faça diferença alguns anos a mais, alguns anos a menos, ante o incomensurável privilégio da vida. Por si só - diz Bandeira - a vida é o milagre.

Além de pai do meu maravilhoso sobrinho Andrei, Roni era neto do teatrólogo Artur Azevedo, autor de mais de 70 peças teatrais (O Mambembe, O Dote, etc.), homem que consolidou a Comédia de Costumes no Brasil e, ao lado de Martins Pena, considerado o fundador da dramaturgia nacional.
Neto de Artur, logo, sobrinho-neto do romancista Aluísio Azevedo (O Cortiço, Casa de Pensão, O Homem, etc.).

Herança de família, portanto, aquele discernimento fácil, a lucidez solar, aquela vocação cultural aguda, o banco-de-dados que era o cérebro do Roni. Cinéfilo, falava de filmes com a autoridade de um crítico. Lia tudo. Um dia, em nossa casa de Iriri, ES, não encontrando em casa livro ou revista, esticou-se no sofá e começou a ler a lista telefônica do Espírito Santo.

Não desfrutou completamente de um lar, na juventude. Perdeu o pai antes dos dois anos de idade e, sem melhor relacionamento com o padrasto, passou por internatos e hotéis.

Com o irmão recentemente falecido, e com a meia-irmã que o sobrevive, seu relacionamento não era diário. Talvez por isto, ao casar-se adotou a família da esposa, Leísa. Seu coração brando, generoso e companheiro, deixava claro que ele nos elegera, assim, também seus irmãos. Nós os genros, filhos e noras de seus sogros, Dr. Lélio e de Da. Laura.

Esta a minha percepção desde os bons tempos do campo de vôlei no quintal da rua Aristides Duarte, em Belo Horizonte, das festas anuais do Natal, das férias em Iriri e de cada churrasco regado, do Bar do Veio.

-Tanto penso assim, querido Roni, que até me preocupa se não lhe teríamos faltado com reciprocidade mínima. Se isto aconteceu, queira nos perdoar. A vida é desatenta e estrábica, leva a gente de roldão sem que mal atinemos com a realidade sob nossos olhos. Mas esteja certo de que, à maneira de cada um, foi enorme o carinho que todos tínhamos por você.

De minha parte confesso também uma admiração que beirava a inveja. Uma inveja benigna do seu inglês (o danado fluía também no francês, no italiano e no espanhol), da sua postura de otimismo diante dos problemas, do seu fair-play e, acima de tudo, daquele seu dom de sorrir tão prodigamente.


-Você ria até de piada sem graça, Roni!

Ainda ouço suas gargalhadas do dia em que lhe expliquei a palhaçada de um jogo de baralho chamado Caxanga, que um pilantra mexicano levou aos cassinos de Tegucigalpa. (Piada do José Vasconcelos) Nunca vi ninguém rir tanto! “Tegucigalpa” entrou para o seu ideário cômico.

Claro que aquele seu sorriso largo, sempre esticado para além do que merecia o dito, era seu artifício inconsciente de repartir coração com os amigos.

Nunca me esquecerei, Roni, daquela noite, lá no meu sítio de Leopoldina, quando você e meu irmão, Ladinho, abriram disputa sobre qual dos dois teria passado por maiores tropeços na vida. Com um pouco de exagero de lado a lado, a contenda ficou muito divertida.

Ladinho deu a partida dizendo que, na juventude, engraxara sapatos; você retrucou com equivalente agrura da infância; Ladinho devolveu lembrando que, quando jovem, fora empregado num boteco onde se escrevia jogo do bicho; você empatou a peleja dizendo que tinha experiência de crupiê em cassino europeu; Ladinho alegou ter colaborado num escritório de contabilista pilantra; você lembrou sua feirinha de legumes onde se passavam tomates amassados; Ladinho perdera uma beneficiadora de arroz; você se deu mal com engarrafamento de cachaça em noz de coco; Ladinho arriscou construir casas populares; você arriscou fazer, com fibra de vidro, barcos e orelhões de telefone...

A brincadeira ia longe, muito engraçada, até que você deu o xeque-mate:


-Eu já lavei prato em restaurante de Londres.


Aí o Ladinho, que nunca saíra do Brasil, jogou a toalha.

Só não sei se no desdobramento da vida, Roni, depois daquele dia inesquecível, meu mano não terá vencido, às avessas, nos trágicos desafios que vocês dois viveram. Você se foi aos 60 anos, de morte natural, como funcionário da Prefeitura de Belo Horizonte, depois de fechar uma pequena indústria metalúrgica. Ladinho já havia sido assassinado, aos 42 anos, como advogado de posseiros numa região primitiva do Mato Grosso, depois de deixar o cargo de Delegado de Polícia.

De uma forma e de outra, vocês dois foram meus irmãos muito queridos que, embora distantes, também foram irmãos entre si, nos muitos percalços de suas existências breves, porém corajosas.

Há quem morra por nada; há quem morra pelo país; há quem morra por uma ideia. Vocês morreram pela ideia de não ter medo, pela idéia de deixar os sonhos irem dando cordas à vida.

Por último, Roni, vou registrar aqui, para o pessoal, sua viagem de solteiro à Europa.
Já noivo e contrariando todas as expectativas de casamento breve, você, um durango kid sem vintém no bolso, entendeu de ir ganhar a vida na Inglaterra. Torrou seu único patrimônio, um fusquinha maneiro e comprou as passagens.

Cabendo a mim levá-lo ao Aeroporto Internacional do Rio, você apareceu lá em casa no dia do embarque, quando Leila e eu ainda morávamos num apartamentinho de Santa Tereza, abraçado a uma velha mala, puída, esfolada e sem fechos. Para obrigar a tampa da mala a permanecer fechada você a amarrou com um fio elétrico, parcialmente desencapado, que dava duas voltas no volume.

Nossa intimidade, na época, era pouca, mas não contive o espanto e perguntei:
- Vais tomar um vôo internacional, para Londres, com esta mala?
Ao que você retrucou:
- Qual o problema?
E eu contra-ataquei:
-Vá ter personalidade assim na puta que o pariu!

Pois é, você viajou, deu uma cubada no submundo londrino, voltou, casou-se e veio a ser, por todos esses anos, o adorável Roni que acabamos de perder. Se é perda para sempre, só Deus sabe, amigo. Até porque, sobre a morte há deste nosso lado de cá muito mais dúvidas do que certezas.

Perdão por interferir no seu silêncio. Sei que você está com Deus.
Quanto a nós, vamos seguindo por aqui na esperança de que, quando também virarmos lembranças gratas, alguém possa até sorrir e puxar por lembranças felizes como estas tantas que você deixou para nós, inesquecível companheiro Ronaldo Azevedo. Roni, para os amigos... Ou seja, pra todo mundo.
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(Publicada no jornalzinho CHAMA de dezembro de 2003)

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