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sábado, 11 de setembro de 2010

Frei Beto – Deus é Amor


(Foto: Internet)

Março, 2006

Com o falecimento do Papa João Paulo II, o Colégio Cardinalício, composto por dezenas de religiosos que dedicaram suas vidas ao estudo das questões da fé – alguns, verdadeiros gênios; outros, quase santos – escolheu, com folgada maioria, o Cardeal Joseph Ratzinger para ser o novo Papa. Reações pouco simpáticas pipocaram pelo mundo.

Tudo porque o ex-cardeal Ratzinger, à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, função em que esteve por 24 anos, revelou-se muito leal à teologia da Igreja Católica. Consideravam-no “demasiado ortodoxo”, não alcançando as razões do Arcebispo de Munique, ali onde ele dissera que, às vezes, “a bondade implica também na capacidade de dizer não”.

Esqueciam-se que Ratzinger fora o grande teólogo liberal do Concílio Vaticano II e que o religioso culto e superior que, aos 78 anos, aceitava o desafio transcendente daquela escolha certamente nos reservava um pontificado de paz muito atenta à compreensão e à aproximação entre os povos.

Com efeito, sai agora a Primeira Encíclica de Bento XVI, Deus é Amor. Por respeito aos nossos poucos leitores não ousaremos comentá-la. Quando a seriedade de um assunto esbarra em nossas limitações, a transcrição é mais prudente. Vejam o que sobre a Encíclica escreveu Frei Betto:

“A Encíclica Deus é Amor, a primeira do novo Papa, surpreende positivamente em muitos aspectos, malgrado a linguagem requintada, de difícil comunicação com o público jovem. Bento XVI rompe a retórica majestática, tão ao gosto de papas e cardeais, para falar na primeira pessoa: “Na minha primeira encíclica desejo falar do amor”. E o faz recorrendo não só a autores cristãos, mas também a clássicos pagãos e outros que tiveram suas obras proibidas pela Igreja: Platão, Aristóteles, Virgílio, Gassendi, Descartes e Nietzsche.

O Papado pronuncia-se com novo sotaque. Nada de condenações, escrúpulos, moralismos. O amor é encarado em sua dimensão totalizante, de inter-relação com Deus, o próximo, a coletividade. Não se retrai o autor frente a arroubos poéticos, superando dualismos entranhados na tradição eclesiástica: “O amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma, e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista, todos os demais tipos de amor se ofuscam”. E exalta as “arrojadas imagens eróticas” dos profetas Oséias e Ezequiel e do Cântico dos Cânticos.

Ao criticar a visão platônica, tão freqüente na tradição da Igreja, o Papa faz mea-culpa: “Hoje não é raro ouvir censurar o cristianismo do passado por ter sido adversário da corporeidade; a realidade é que sempre houve tendências neste sentido”. E sublinha: “Nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só deste modo é que o amor - o eros -pode amadurecer até à sua verdadeira grandeza”.

Bento XVI evoca a didática grega para traduzir as dimensões do amor: o eros, a atração arrebatadora que subjuga a razão; a philia, o amor entre amigos; e o ágape, o cuidado do outro, o sacrifício de si, a abertura ao transcendente. Este último plenifica o amor e instaura, não “a imersão no inebriamento da felicidade”, mas o bem do amado. “Sim, o amor é êxtase; êxtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus”. Bento XVI poderia incluir uma quarta dimensão, a mais aviltante: porno, o prazer de um resultando na degradação do outro.

O pontífice recusa a antinomia entre eros e ágape: “Se se quisesse levar ao extremo esta antítese, a essência do cristianismo terminaria desarticulada das relações básicas e vitais da existência humana e constituiria um mundo independente, considerado talvez admirável, mas decididamente separado do conjunto da existência humana”. E enfatiza: “No fundo, o amor é uma única realidade, embora com distintas dimensões; caso a caso, pode uma ou outra dimensão sobressair mais. Mas, quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor”.

A encíclica sublinha a dimensão acentuada pela teologia da libertação: “Jesus identifica-Se com os necessitados: famintos, sedentos, forasteiros, nus, enfermos, encarcerados. Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes (Mt 25, 40). Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo: no mais pequenino, encontramos o próprio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus”.

Numa definição primorosa, o papa afirma que “a natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (liturgia), serviço da caridade (diakonia)”. Pois “a Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário”.

Nessa linha, o documento papal reconhece a pertinência da crítica marxista, que contém “algo de verdade”: “Forçoso é admitir que os representantes da Igreja só lentamente se foram dando conta de que se colocava em moldes novos o problema da justa estrutura da sociedade”. Assim, numa defesa intransigente da autonomia da política e da laicidade do Estado, Bento XVI sinaliza que, na busca da Justiça, “política e fé tocam-se” e deixa claro que “não pretende conferir à Igreja poder sobre o Estado; nem quer impor àqueles que não compartilham a fé, perspectivas e formas de comportamento que pertencem a esta”.

A Igreja não pode pretender confessionalizar o mundo da política, nem este querer reduzir a religião ao âmbito da sacristia: “A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem da luta pela justiça”. Não se faça do exercício da caridade uma tática de proselitismo: “Quem realiza a caridade em nome da Igreja nunca procurará impor aos outros a fé da Igreja. Sabe que o amor, na sua pureza e gratuidade, é o melhor testemunho do Deus em quem acreditamos e pelo qual somos impelidos a amar”.

A encíclica do amor estaria mais completa se contextualizada na atual conjuntura mundial, retomando a crítica contundente que João Paulo II fez do neoliberalismo, da invasão do Iraque, do neocolonialismo consubstanciado no escorchante endividamento dos países pobres, empecilhos à “civilização do amor” sonhada por Paulo VI.”
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(Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, é religioso, escritor e assessor de movimentos sociais. Autor de “Típicos Tipos” (A Girafa), prêmio Jabuti 2005, entre outros livros, foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004))

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