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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Galo de Rinha

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Setembro, 2010

Há na política brasileira de hoje um encarte que tanto se aproxima do paradoxo do ovo e da galinha quanto do dilema daquele biscoito que “vende mais porque é fresquinho, ou fresquinho porque vende mais”. O país dá tratos à bola para saber se a corrupção aumentou porque aumentou mesmo, ou se aumentou porque ganhou mais visibilidade.

Há quem diga que nem uma coisa nem outra. A corrupção seria a de sempre. Apenas o hábito de investigá-la para fins políticos ganhou mais adeptos, no governo e na oposição. O país viria se beneficiando, obliquamente, de uma vigilância a serviço da instrumentação de dossiês.

Se já não havia consenso de que a corrupção passou a ser mais combatida no atual governo, bem mais complicado ficou agora diante dos escândalos da Casa Civil, a poucos metros do gabinete presidencial.

Longe de sugerir inclusão ou responsabilidade da mais alta autoridade do executivo nacional, causa apreensão constatar a quão próximo do poder central chegaram os valores morais decompostos, muito embora o governo tenha a seu crédito a liberdade que dá à Polícia Federal.

Mas quando se vê a segunda autoridade do Governo exonerar-se de seu honroso cargo para, em seguida, solicitar demissão das várias outras funções públicas que paralelamente exercia – ao que se supõe, numa considerável soma de vencimentos e vantagens – fica difícil entender o “para quê” de tantas incursões no erro. Se valores éticos a não dissuadiam, notáveis eram os interesses materiais postos em risco! Um mau negócio, portanto.

Será que Maquiavel acertou mais uma vez quando disse que a ambição do homem é tão grande que a vontade presente não lhe permite avaliar o mal que virá depois? Bons tempos quando aos bem situados na vida pública bastava cavar um empreguinho para os filhos. Hoje se concebem catapultas mirabolantes para torná-los milionários. Ainda bem que nem sempre dá certo.

Investigação existe e nossa PF é de fato eficiente. Só uma coisinha ainda pega: é o bom número de casos em que o proveito político pareceu atuar. Suspeitou-se disto no caso Roseana, que teria visado tirá-la (ainda bem!) da disputa presidencial de 2002.

Não ficou claro se, na ausência dos interesses políticos então existentes, aqueles R$1,34 milhões em espécie teriam deixado as gavetas da Lunus. Do mesmo modo como a luta partidária nos presenteou a seu tempo com as demolições do Mensalão, do Escândalo dos Correios, do Mensalão do DEM, do Dossiê dos Petistas, do Boi Barrica e do diabo a quatro.

O ideal, entretanto, seria que o normal funcionamento do Estado de Direito atuasse como inspiração única e suficiente na coibição do erro. Que a justiça não dependesse tanto dessa briga de pescador pelo trecho mais piscoso do rio.

É muito pouco para este Brasil que se moderniza crescer à noite enquanto a pilantragem dorme e crescer só mais um pouquinho ao dia quando eles brigam e escancaram escabrosidades recíprocas.

Galo que morre na rinha sempre melhora a sopa dos pobres. Mas nós merecemos mais.
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(Publ. em 23.09.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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