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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um Fastio

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Dezembro, 2006


Preocupa o quadro mórbido-depressivo do cidadão J. Fastídio. Justo ele que jamais havia denotado nó psicopático hereditário a demandar alienísticos, contenção ou eletrochoque!

De verdade, os incômodos que lhe mortificam o espírito seriam entulhos do quotidiano de quem simplesmente está vivo quando, com toda razão, preferiria estar morto. Viver no mundo de hoje parece ser o grande problema do potencial suicida.

É certo que o vereador/médico que o assiste em consultas pelo SUS, ou seja, sem colocar o ouvido nas costas dele e mandar dizer "trinta e três", não cansa de diagnosticar-lhe piti. O “dado concreto”, porém, para usar expressão erudita de conhecido filósofo do ABC paulista, é que J. Fastídio anda de saco cheio com a própria existência e deseja passar para o lado de lá. Morrer. Regressar ao éter da vastidão sideral, num salto espetacular pelas laterais do planeta.

No toalete de rodoviária onde talvez rabisque seu derradeiro bilhete, haverá de declarar-se rompido com os estorvos da vida civilizada que tanto lhe molestam a existência:

Fundo musical de vídeo game; música baiana; ligações de telemarketing; novela das sete, com atores sem camisa; cocô de cachorro na praia e na rua; favor concedido a quem não larga mais do seu pé; check in feito uma hora antes do atraso de quatro horas nos aeroportos; empurrômetro de Seguro na gerência dos Bancos; processo judicial pra receber sinistro das Seguradoras; controle de araque, da Anatel, sobre as empresas de telefonia; saber que todas essas Agências Controladoras não passam de autarquias de caracacá mantidas pelas próprias empresas controladas; reportagens fotográficas da Revista Caras; anuidades de Conselhos Regionais disto e daquilo, na verdade sinecuras malandras sem nenhuma atuação prática em favor das pessoas e das empresas das quais vivem a extorquir anuidades; voto vendido por eleitor semi-analfa; ética de empreiteiras; DNA de 80% dos brasileiros, portadores da sina atávica da corrupção e do furto (quem achar alto o percentual, esqueça por cinco minutos qualquer objeto na soleira de uma janela baixa); falta de profissionalismo e de respeito no atendimento ao contribuinte em balcões de órgãos públicos; morosidade da justiça; arrogância de quem se supõe superior; moscas ou cheiro de barata no restaurante eleito para o almoço do domingo; gente que não consegue ficar calada, vertendo perdigotos sobre a comida no self service; horário político na TV; habeas corpus para bandido de colarinho branco; pilantra mau-pagador requerendo danos morais em juizado especial contra quem simplesmente lhe cobrou uma dívida; povão andando acintosamente na frente dos carros no intento de descolar uma invalidez permanente; correntes, enviadas por carta ou por e-mail com ameaça de castigo divino; pedidos de colaboração para obra caritativa lá no raio-que-os-parta; notícia de recrudescimento do conflito no Oriente Médio; notícia de novo escândalo político e nome da correspondente operação da Polícia Federal; promessa de rigoroso inquérito; vinhetas do próximo Big Brother; locutor de microfone à mão, com voz pastosa, anunciando produtos na porta de loja comercial; ouvir comerciante dizer que “vai ficar te devendo” o que você foi comprar e ele não tem...

Não sei se suicídio resolve. A informação que tenho é que J. Fastídio está decidido a morrer por todos nós.


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(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 15 dezembro de 2006)

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