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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Uma Cutucada

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Julho, 2010


Vivemos um momento no país em que princípios morais postos ao alcance de nossa juventude, e mesmo da população adulta carente de melhores valores, andam em crise. Nem falemos aqui do comportamento de certos ídolos de massa que, de uma hora para outra, passaram a dar mostras do “Coisa Rúim” incorporado. Imaginem que, anteontem, meu sobrinho de nove anos, chorando, disse para a mãe que não quer mais “ser flamengo”.

É claro que, nesses casos, o estrago provém de tragédias pessoais que apenas por coincidência se precipitaram ao mesmo tempo e num mesmo lugar, para estupefação e mal-estar de um grande segmento de público. Infelizmente, a civilização não produziu ainda o antídoto da barbárie humana inaugural. 

Mas desejo falar de outra inquietação, que também é nacional. Esta que os dois candidatos mais cotados à presidência da república vêm causando a todos nós: a sua (deles) sistemática insubordinação às leis em vigor.  

Se o brasileiro fosse um povo politicamente mais sofisticado, mais intransigente na cobrança das regras de convivência social – como acontece, por exemplo, com o povo americano – Lula, Dilma e Serra não iriam tão longe no desprezo à lei. O tribunal das urnas os condenaria.

É verdade que a Lei Eleitoral fixa com bastante impropriedade o prazo da propaganda permitida. Seria o caso, então, de buscar-se o aperfeiçoamento da lei, nunca o seu descumprimento sistemático. O candidato que ignora a lei passa um exemplo muito ruim ao eleitorado. Dizer que o adversário também o faz, ou o fez, não justifica. Dizer que a lei não presta, também não.

Nem seria este o caso do Digesto Eleitoral que apenas deixa a desejar ao estabelecer sanções diminutas. O resultado está no noticiário recente:

Dilma Rousseff, foi multada pela quarta vez pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por propaganda eleitoral antecipada. A ministra substituta Nancy Andrighi definiu a multa em R$ 6 mil – maior valor aplicado até agora – pois considerou que houve  'reiteração da conduta infracional'...”

Este outro:
O Ministério Público Eleitoral ajuizou Representação contra o candidato à presidência, José Serra e seu partido, o PSDB, pedindo aplicação de multa de R$ 5 mil a R$ 25 mil e a cassação do direito de transmissão da propaganda partidária no primeiro semestre de 2011. O MPE alega que o partido aproveitou a transmissão para difundir a experiência política do candidato, dando ênfase para os cargos que ocupou e o trabalho que realizou em sua vida pública”.

– Qual o problema, para os transgressores, pagarem essas  ínfimas multas (para eles) e seguirem afrontando a lei, já que em matéria ética a sintonia fina do eleitor nada irá captar?
– Nenhum problema e que venham novas multas! Está em jogo, pois, uma relação custo/benefício inteiramente favorável aos infratores.  

A lei é razoável? Claro que não. Nem por isso os candidatos deveriam arrostá-la com tanta desfaçatez. São atitudes que informam aos brasileirinhos simples padrões éticos e de cidadania absolutamente inadequados. Já lhes basta nascer e crescer em comunidades dominadas pelo crime e pelos valores invertidos.

Tenha paciência, gente! O povo é projeção de seus líderes e de seus ídolos. Ninguém coloca no prumo a sombra da Torre de Pizza. Não estraguem nossas crianças.

Há um provérbio antigo que diz: O povo se regula pelo exemplo do rei. Nossos reis, nos estádios e nos palanques, andam muito desatentos. Vale a cutucada. 


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(Publicada aos 15.07.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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