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sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Paquera do Cordeiro

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Julho, 2010

Sabe-se que aparência frívola, leviana, pode abrigar uma alma que é apenas ingênua. Isto me lembra o Cordeiro, talvez o mais típico dos cariocas que conheci. Aprontava demais, mas sempre de bem com a vida. Por causa dele aqui está, hoje, mais uma história ambientada no Rio de Janeiro.

Cordeiro era habitué do vôlei de duplas na praia de Ipanema. Só nos encontrávamos em fins de semana esporádicos, quando fazia sol. Possível beneficiário de aposentadoria prematura, constava ser solteirão e morar num apartamento pequeno ali pelas proximidades de Ipanema com o Posto 6. Passava dos cinquenta anos, era baixo, bem feinho, cabelos e bigode pintados. Tinha o rosto inexpressivo de um retrato falado. Apesar disto, afoito com mulheres. Dá pra entender?

Não lhe negaria o rótulo de “boa pessoa”, apesar dos hábitos que faziam dele uma companhia um tanto cansativa: como jogador de vôlei, reclamava muito; como frequentador da praia azarava mulher o tempo todo. Bota inconveniência nisto. Vez ou outra rendia uma história.

Certa manhã, os saques do Cordeiro começaram a ficar na rede. Percebemos que a atenção dele estava ligada numa garota linda, com idade para ser sua filha. Contemplava a moça e sussurrava chatíssimo: “Estou no céu, me belisca, ela sorriu pra mim...”

Mestre na arte de dispensar apresentações, logo, logo, estava lá o bicão, agachado na areia ao lado da menina. Soubemos que a conversa rendeu. Cordeiro foi convidado para ouvir música no apartamento dela. Aquilo – confessou ele, realista – “me pareceu cereja demais no meu coquetel, mas um homem na minha idade acredita em tudo...”

Dizendo-se vidrada em Michael Jackson, a mocinha sugeriu que ele a presenteasse com o álbum “Thriller”, que explodia nas paradas mundiais da época. Se conseguisse comprar o disco, “poderia até visitá-la amanhã mesmo, domingo, às 15 horas...”
– Meu prédio – explicou ela – é o de tijolinhos cor de cerâmica na portaria, bem no início da Rua Madre Euzébia, no Leblon.

Corte rápido para lá. No domingo, pouco antes da hora combinada, na porta do prédio, um lobo na pele do Cordeiro ponderava sua caça. Que, pontualíssima, logo apareceu ao predador pedalando sua bike, em traje de malhação. Delicada e afável aplicou dois beijinhos nas faces do garboso meia-idade e, com um sorriso bom, abriu o envelope que abrigava o precioso LP.

-Humm! Lindo! Este mesmo, valeu! Obrigada. Vamos subir.

Com um braço dado ao Cordeiro e o outro empurrando a bicicleta, conduziu o “convidado” pela galeria de acesso ao elevador e ordenou:
-Suba na frente. O apartamento é o 801, a porta está apenas encostada. Entre e espere um pouco. Rapidinho eu guardo a bike na garagem e subo.

Já no elevador um pequeno transtorno: não havia tecla para marcar oitavo andar... O Cordeiro tremeu nas pernas, mas exorcizou pensamentos negativos.
-Bobagem, o que mais tem no mundo é prédio em que o elevador não vai ao último andar. Certamente que, do sétimo ao oitavo, a subida é pela escada.

Apertou o “sete” e chegou lá. Cadê escada pro oitavo andar? Não tinha!
– Será que a menina se enganou com o número do próprio apartamento? – quis acreditar. Ela disse 801... Posso não ter ouvido bem. Vai ver é o 701, o 601, o 501...  

Desceu a pé conferindo os apartamentos “01” de todos os andares. Nenhuma porta “apenas encostada”. Desiludido,  chegou ao hall de entrada e viu que a galeria dava passagem para a outra rua...
– Exatamente por onde a danadinha se escafedeu  – concluiu desolado.

Foi o dia da caça. O caçador que se virasse com os momentos de esperança malandra que certamente viveu. De preferência conformado, porque a esperança é assim mesmo. Até as mais honestas e legítimas às vezes trapaceiam.
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(Publicada em 08.07.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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