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quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Carrapatinho Carijó #

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Agosto, 2006

Tanto como ainda hoje ocorre, minha terra mineira sempre contou com bons médicos. Um desses, de agradável companhia, adora contar histórias da medicina local. É bem recente a passagem que ele me relatou, de episódio invulgar ocorrido no Pronto Socorro da cidade.

O plantonista da noite era o Dr. Neco Dutra, grande proprietário de imóveis, homem prático, visão aguda para negócios que, apesar da idade provecta e da ótima situação financeira, jamais dispensou o adicional dos plantões noturnos. Construiu grande fama menos pelo talento profissional, que não chegava a superlativo, que pelo carisma pessoal alimentado em torno de sua visão pragmática do sacerdócio hipocrático... Um médico bastante chegado ao dinheiro.

Aliás, no interior, observo um fenômeno curioso. As pessoas admiram muito e adoram rir escondido desses “pães-duros”, munhecas paralíticas, desses ricos folclóricos que jamais pagaram um único cafezinho na vida e só vieram ao mundo para ganhar dinheiro. Viram piada, tornam-se carismáticos. Alguns são pessoas adoráveis... Claro, para quem não precisa negociar com eles. Mais ou menos por aí, o perfil do Dr. Neco Dutra.

Vamos ao caso. Numa certa madrugada o cochilo do médico plantonista, do PS, foi interrompido pela chegada de um paciente, aparentando sessenta anos, aos gritos, com um incômodo raro em sua faixa etária: “Disfunção erétil positiva, severa”, que o jargão médico também define como “priapismo” − de Priapo, o Deus da fertilidade na mitologia grega. Ou seja, ereção peniana violentíssima, dolorosa, irrefreável, sem qualquer razão aparente.

Irrompeu o desesperado consultório adentro, dizendo que já passava de quatro horas aquela rigidez maluca, causando-lhe dores lancinantes como algo prestes a rachar. Que sua esposa, coitada, já fizera “a parte dela” por umas quatro vezes, só naquela noite, e nada do troço voltar à normalidade!
- Por piedade, doutor, me acode − clamava! Não sei como isto me aconteceu. Não suporto mais a dor!

Mal acreditando no que via o médico prontamente conduziu o paciente à mesa de exames, passando a verificar a − digamos − região afetada. Afora o severo órgão em riste, tudo o mais aparentava normalidade.

Em todo caso, observou o clínico que na parte superior do órgão genital havia um minúsculo (quase microscópico) pontinho negro, o qual, melhor observado com o auxílio de uma lente, revelou-se pintadinho de preto e branco...
-Hummm, sim, resmungou o médico. Interessante! Um carrapatinho carijó... E comentou com o paciente:
-Pelo visto o senhor esteve com seu cachorrinho no colo. Ele deixou uma “visitinha” aqui.

Longe, porém, de imaginar que aquilo pudesse ter alguma relação com o desespero do doente, foi logo retirando o insignificante aracnídeo com uma pinça. Mas eis que, no exato momento em que o ácaro é extraído, o paciente imprime um brusco movimento de descompressão e alívio, liberando um brado de desafogo que chega a assustar o médico.
- Ahhh! Obrigado, doutor! Obrigado, doutor! O senhor conseguiu? Que alívio! Louvado seja nosso...

E tantos suspiros e agradecimentos verberava que mal deu conta de que o doutor, de bruços no chão e com uma enorme lente em punho, pesquisava desesperadamente a área do piso onde o carrapatinho havia caído quando o solavanco do paciente lhe fez soltar a pinça.

- O senhor procura alguma coisa, doutor?

- Não interessa. Você pode ir embora, está curado. Não precisa assinar nada. Cuidado pra não pisar aqui!
- Como?
- Já disse: pode ir embora. Estou procurando o carrapatinho!

Tava na cara! O ladino Dr. Neco já trabalhava num projeto de ganhar dinheiro grosso no cultivo e aplicação do carrapatinho milagroso. Descobrir o tempo ideal de aplicação do micuim para obter a medida certa de “entusiasmo”, em cada paciente, seria questão de alguns experimentos.

Claro que ele encontrou o bichinho, colocando-o primeiramente num tubo asséptico, para depois, mesmo ciente de que carrapato pode viver até dois anos sem alimento, transferi-lo ao corpo de uma cobaia à qual teve a pachorra de extrair os dentes e as unhas.

O plano talvez funcionasse se o paciente não saísse contando a história para Deus e o mundo. Não demorou muito e o doente da véspera estava cercado de advogados a abrir-lhe os olhos para o tesouro colocado nas mãos avarentas do Neco Dutra!

Não deu outra. O caso foi parar na justiça e ainda rola. A cobaia e seu hospedeiro permanecem custodiados a sete chaves na delegacia local, à disposição da justiça.

O processo, em grau de recursos, tramita por Brasília, onde, aliás, clamores gerais não sensibilizam as Cortes Superiores para a alta relevância dos interesses “difusos” envolvidos na questão.

A “sede” da questão – explicam os juristas – está num certo artigo da lei, de redação meio anfíbia, que garante ao proprietário do “prédio” a inteira propriedade do “tesouro” por ele achado em seu território.

Virem os tribunais a aplicar ao fantástico carrapatinho o conceito de “tesouro” será algo de absoluta coerência se considerarmos a fortuna incomensurável amealhada pelo laboratório Pfizer com a descoberta, também acidental, da sildenafila − a droga comercializada como Viagra.

Questão um pouco mais tormentosa talvez venha a ser a adoção analógica de “prédio” para as partes baixas do corpo humano. Mas tudo é possível. A justiça costuma ser bastante complacente com a abrangência das palavras e dos princípios.
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(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE a 31.08.2006 e, a 22.07.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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