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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pe. José Ribeiro Leitão

***
Leopoldina

Ao pé da serra serpeava um rio,
Donde o puri, libérrimo e nú,
Ao ver chegar o branco, então fugiu,
p’ra nunca mais voltar ao Feijão-Crú.

Ficou o branco, que aceitou com brio
Vencer o tempo e a onça e o urutu
Tudo mais que lhe fosse desafio,
Até surgir o arraial do Feijão Cru.

Com gerações de gente intemerata,
Virou cidade linda e paladina
De valores e de nobreza grata,

Tão rica no saber que a ilumina,
Atenas, não da Grécia mas da Mata...
Nome que Aquino deu a Leopoldina

(Poucos meses antes de falecer, o Pe. José Ribeiro Leitão mandou ao jornal LEOPOLDINENSE o soneto acima, de sua lavra, escrito nos idos de 50. Na ocasião, Luiz Otávio Meneghite, editor do jornal, solicitou-nos algumas palavras de homenagem ao velho mestre do Colégio Leopoldinense. Com complementos obtidos, pelo telefone, com os amigos, Maria do Carmo Leitão (irmã do homenageado) e seu esposo, Jader Kneipp, residentes em Brasília, preparamos o texto abaixo)

Desprovido de credenciais mínimas para a empreitada aceitei, talvez por vaidade desmedida, o pedido do Luiz Otávio para reunir em rápida assentada alguns dados biográficos do Padre, Professor e Doutor José Ribeiro Leitão. Em verdade, pontificam dentre as lembranças mais gratas que guardo do meu curso secundário no Colégio Leopoldinense as aulas de filosofia do querido mestre, “Padre Leitão” – tal como o chamávamos naquele tempo.

(E o fazíamos corretamente porque padre não deixa de ser padre quando larga a batina, da mesma forma que médico não deixa de ser médico quando para de clinicar, nem advogado deixa de ser advogado porque fechou sua banca. Formação acadêmica não se perde.)

O Pe. José Ribeiro Leitão nasceu em Leopoldina, MG, aos 15 de março de 1928. Primeiro foi Religioso, Professor de Filosofia e Poeta, depois, Juiz Federal e Jurista. É filho de Da. Maria José Ribeiro Leitão e de José Maria Leitão – ex-comerciantes, proprietários da tradicionalíssima “Casa Leitão”, que funcionou, até meados do século XX, na Rua Ribeiro Junqueira, 31, no centro de Leopoldina.

É casado com Da. Regina Coeli de Freitas Ribeiro Leitão, com quem teve os filhos: Rodrigo, já casado e jornalista do “Jornal de Brasília”; Raíssa, solteira, professora em Letras pela U.N.B.; e Rômulo, casado, advogado e desenhista industrial. É avô de quatro netos: dois, filhos de Rodrigo e, dois, filhos de Rômulo.

São seus irmãos, Maria do Carmo Leitão, casada com Jader Kneipp, residentes em Brasília; Terezinha Ribeiro Leitão, solteira, artista plástica, residente em Leopoldina e Kleber Ribeiro Leitão, ex-comerciante nesta cidade, recentemente falecido.

Juiz Federal aposentado e grande cultor do Direito, o Dr. José Ribeiro Leitão é autor de três obras de Direito Processual Civil, incluído o trabalho “Processo Cautelar e Procedimentos Especiais”, Editora Forense, Rio de Janeiro, RJ, ano 1980, de grande aceitação entre advogados e magistrados.

Para os menos familiarizados com a organização judiciária brasileira, explica-se que a Justiça Federal tem por competência o julgamento de ações nas quais a União Federal, suas autarquias, fundações e empresas públicas federais figurem na condição de autoras ou rés e outras questões de interesse da Federação previstas no art. 109 da Constituição Federal, tais como disputa sobre direitos indígenas, crimes cometidos a bordo de aeronave ou navio, crimes praticados contra bens, serviços ou interesses da União, etc.

José Ribeiro Leitão lecionou Religião e Filosofia do Colégio Leopoldinense, depois Colégio Estadual Botelho Reis, de Leopoldina. Foi professor universitário em Belo Horizonte e professor de Direito Processual Civil na Universidade do Distrito Federal - UDF.

O início de sua preparação intelectual e religiosa se deu no Seminário Menor de Mariana, depois no Seminário Maior, também de Mariana. Formou-se em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, tendo recebido tonsura aos 2 de setembro de 1948 e se ordenado Padre na Catedral de São Sebastião, de Leopoldina, por nosso primeiro Bispo Diocesano, Dom Delfim Ribeiro Guedes, no dia 15 de agosto de 1953. Cursou Direito na Universidade Estadual do Rio de Janeiro e licenciou-se em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco, de São João del Rey.

Na vida sacerdotal, muitos foram os cargos que exerceu: Vice-Chanceler do Bispado; Prefeito de Estudos do Seminário Diocesano; Prefeito Geral do Seminário Diocesano; Reitor do Seminário Diocesano; Chanceler do Bispado; Censor Eclesiástico; Promotor de Justiça; Defensor do Vínculo; Membro da Comissão de Arte Sacra; Membro do Conselho de Administração da Diocese; Cônego Honorário do Cabido Diocesano, aos 20 de agosto de 1954; Diretor Diocesano da Federação das Congregações Marianas da Diocese; Assistente Diocesano da A. C.; Cerimoniário da Catedral; Examinador Sinodal; Vigário Geral; Visitador Diocesano; Pároco da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, de Leopoldina, de 30.7.57 a 15.11.59, ocasião em que organizou a Juventude Estudantil Católica; Capelão e Professor, em Belo Horizonte, MG, em 1959.

Ausentou-se da Diocese aos 17 de novembro de 1959 e secularizou-se. Mediante indulto da Santa Sé casou-se, no cível e no religioso, com Regina Coeli Freitas Ribeiro Leitão, nascida na cidade de Tocantins, MG. Hoje, aposentado como Juiz Federal, de Brasília, reside no aprazível balneário de Guarapari, no Espírito Santo, onde – como ele mesmo diz – vive seu Otium cum Dignitate (Ócio com dignidade). Aliás, merecidamente - dizemos nós.

Poeta desde 1946 quando ainda cursava filosofia no Seminário de Mariana, confessa ter em seu “velho baú” mais de mil sonetos, a maioria inédita. Mais dois deles merecem transcrição: “BONANÇA”, extraído do site “sonetos.com.br”, e “CRUZEIRO”, um culto ao Morro do Cruzeiro, de Leopoldina, poema citado por Pedro Wilson Carrano Albuquerque em bela crônica publicada no Jornal Leopoldinense, de 31 de outubro de 2006, quando do falecimento do autor.

BONANÇA

Não mais no leito canta o rio e escorre;
nem mesmo o vento abana os coqueirais.
Nas veredas, o gado mole corre
e molemente busca os areais.

De um canto a outro o bravo sol percorre
crestando os densos verdes capinzais.
Um bafo ardente estala, apaga e morre,
nas feias folhas secas dos mangais.

Cinzentas nuvens rondam o ar soturno;
ruído algum belisca o céu profundo,
só, na tronqueira, geme o sabiá.

Barulho imenso rasga o véu noturno;
o temporal estruge num segundo;
daqui a pouco o sol já brilhará!


CRUZEIRO

No oculto escaninho da lembrança
revivi uma imagem esvaída,
tão grata, de meu tempo de criança.
Era um passeio de íngreme subida.

Após “Pedra Pinguda” e que avança,
escalavrando o pé numa ferida
que para de doer quando se alcança
cume do morro ou alma embevecida,

por ver de cima a bênção do Cruzeiro,
e em baixo a minha rua, numa rede
de gente formigando num terreiro.

Hoje triste a dizer: amigo, vede!
Aquela antiga cruz, nosso luzeiro
- falou Drummond - é quadro na parede

Conheci o Dr. José Ribeiro Leitão, como dito acima, no final dos anos 50, nosso professor de Religião e Filosofia no Colégio Leopoldinense. Com o “Manual” do Theobaldo Miranda dos Santos à mão ele nos orientou, com sabedoria e paciência, nos primeiros passos do “conhecimento das coisas, pelas últimas causas, mediante a luz da razão”. Metafísica platônica e o racionalismo aristotélico conciliados à fé por Santo Thomás de Aquino, firmando em nossas cabecinhas vacilantes a originalidade do ser humano, a transcendência da alma sobre a matéria corporal. Moral tomista, imanência essencial da natureza humana que são traços da essência Paterna, vestígios das mãos de Deus na idealização e concertação do mundo.

Atuar moralmente igual a agir racionalmente, em harmonia com a natureza racional do homem, sem jamais tomar a razão como estranha ou oposta à fé, porquanto procedente, ambas, da mesma volição divina, original. Internávamos, meio sem o saber, que o mundo das nossas buscas pela compreensão da realidade humana passaria a depender muito do que era dito pelo bom mestre Pe. Leitão na acanhadinha Sala-2, do Ginásio.

Os caminhos da idade adulta que viriam logo depois, as opções de penosa escolha, as decisões forçadas por uma necessidade premente de ganhar a vida, relegaram filosofia à prateleira baixa dos guardados ginasiais. Mas bem plantadas no espírito ficariam as sementes de uma curiosidade insopitável à qual não escapariam os grandes mestres e, como convinha à filosofia do Direito, reverências às “Críticas” de Kant, ente superior em cujo cérebro o discernimento humano terá alcançado seu vôo mais alto.

Mestre José Ribeiro Leitão era um professor de aguda percepção, atento até às mais insuspeitadas dificuldades pessoais de seus alunos. Vou contar uma história.

Havia entre nós um garoto de periferia, menino arredio, tímido, ostentando desvantagem na desenvoltura e na sociabilidade com os companheiros. A origem modesta - sem rádio, cinema, TV, revistas, jornais – não lhe propiciava informações para entrosamento com os de sua idade. Como resultado, era deixado meio de mão pela turma. Nas carteiras de dois lugares, o menino sentava-se sempre só.

Correram uns seis anos até que “Filosofia” entrasse na grade curricular para o Professor José Ribeiro Leitão, logo nas primeiras aulas, dar pela maçada.

Entra em cena, então, a atitude de um verdadeiro mestre: seguro, certo dia, de que o aluno assimilara um conceito qualquer, formulou-lhe, a queima-roupa, a pergunta correspondente. A resposta veio correta. Foi o suficiente: tantos elogios fez, tanto valorizou diante da turma a “resposta inteligente” do garoto que este, com a auto-estima nas nuvens, logo encontrou coragem para romper a timidez e balbuciar: “Obrigado, Padre.”.

Daquele dia em diante o novo “gênio” passou a ter colegas de “banco escolar”. Até as meninas já o viam de outra maneira!
Ouvi esta história da boca do próprio aluno, anos depois, e a declaração emocionada: “Devo ao Padre Leitão minhas primeiras alegrias de rapaz.”

Por esta e por outras, nas muitas frentes em que atuou na vida, o Dr. José Ribeiro Leitão foi um exemplo marcante. Pode ser que, como Juiz, seus colegas lhe dispensem os cânones: magistrados levam mais fé em normas substantivas, adjetivas, íntegra de acórdãos, decisões sumuladas. Pode ser que, como Jurista, também a vaidade cultora do direito considere despicienda sua valiosa contribuição: só os sábios bebem da experiência alheia, aos vaidosos agrada tropeçar nos próprios equívocos. Pode ser que, como Religioso, seus exemplos não superem dados da fé sobre os fenômenos da natureza e da vida que os religiosos exaltam, em torno de um totem, de um túmulo ou de um altar. Pode ser que, como Poeta, ele também não impressione a outros trovadores: os poetas são indispostos a influências externas porque é da natureza deles o diálogo direto com as estrelas.

Mas o Dr. José Ribeiro Leitão foi também modelo de Professor. E, como Professor, ele será sempre referencial porque para muito além dos limites pedagógicos deu mostras de que o educador tem a missão de ser pai, mãe, irmão mais velho, assistente social e ombro amigo.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de 15.03.2006)

NOTA POSTERIOR À PUBLICAÇÃO DESTA CRÔNICA: Faleceu o Dr. José Ribeiro Leitão a 6 de outubro de 2006, em Brasília, estando sepultado no Cemitério Campo da Esperança, daquela cidade. Fizemos, para o LEOPOLDINENSE, a nota abaixo:

José Ribeiro Leitão (Pe.) NOTA DE FALECIMENTO

Vítima de complicações cardíacas desaparece, aos 78 anos de idade, o jurista e juiz federal, Dr. José Ribeiro Leitão. Tendo passado mal, dias antes, na cidade de Guarapari, em sua residência, optou por buscar tratamento em Brasília, onde, infelizmente, veio a falecer, no dia 6 de outubro corrente.

O extinto era leopoldinense de nascimento, filho de Da. Maria José Ribeiro Leitão e de José Maria Leitão – ex-comerciantes e proprietários da tradicionalíssima Casa Leitão, que funcionou, até meados do século XX, na Rua Ribeiro Junqueira, 31, no centro de Leopoldina.

Deixa viúva, a Sra. Da. Regina Coeli de Freitas Ribeiro Leitão, com quem teve os filhos: Rodrigo, já casado e jornalista do “Jornal de Brasília”; Raíssa, solteira, professora em Letras pela U.N.B.; e Rômulo, casado, advogado e desenhista industrial. Deixa, ainda, quatro netos: dois, filhos de Rodrigo e, dois, filhos de Rômulo.

São seus irmãos, Maria do Carmo Leitão, casada com o leopoldinense, Jader Kneipp, residentes em Brasília; Terezinha Ribeiro Leitão, solteira, artista plástica, residente em Leopoldina e Kleber Ribeiro Leitão, ex-comerciante desta cidade, recentemente falecido.

De formação religiosa e homem de letras, tendo cursado direito, o Seminário de Mariana e a Universidade Gregoriana de Roma, o Dr. José Ribeiro Leitão contava com sólida e abrangente cultura humanística. Lecionou Filosofia no Colégio Leopoldinense e em Belo Horizonte, foi professor da Universidade de Brasília, sendo lembrado por todos os que com ele conviveram como mestre de grande bondade e empatia com seus alunos.

Lega-nos apreciável acervo poético e três obras de Direito Processual Civil, incluído o trabalho “Processo Cautelar e Procedimentos Especiais”, Editora Forense, Rio de Janeiro, RJ, ano 1980, de grande acolhida entre advogados, magistrados e cultores do Direito.

A seu sepultamento, ocorrido também em Brasília, estiveram presentes, amigos, parentes e inúmeros magistrados, colegas seus, unânimes na exaltação de suas qualidades profissionais, morais, éticas, de caráter e honradez no exercício da magistratura, descendo o féretro à sepultura sob as palavras emocionadas de seu filho, o jornalista Rodrigo Leitão. Na oportunidade foi lembrada frase lapidar por ele passada ao filho Rômulo, como síntese de sua afabilidade e brandura na faina de educar: “As palavras voam, os exemplos arrastam-se.”

O Dr. José Leitão era assinante e entusiasta deste jornal, pelo que a família do Grupo LEOPOLDINENSE de Notícias, lamentando tão irreparável perda, une-se à Sra. Regina Coeli, a seus filhos e aos irmãos, Maria do Carmo e Terezinha, num abraço comovido de grande pesar. (JCR)
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