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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Carnaval, desengano!

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Fevereiro, 2010

– Teixeira, amigo velho, cumé que vai? Te vi binado aqui no meu “cell phone”, tô retornando. Quê que cê manda, cumpade?
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– Não, Teixeira, é brincadeira, não costumo chamar celular de “cell phone”. É que acabei de ouvir o Bono Vox dizer isto e resolvi imitá-lo. O Bono não é uma pessoa admirável? Um astro, um “performer” planetário do público jovem, que assume publicamente sua espiritualidade de berço. Um homem bom, portanto um homem raro. A conotação publicitária importa menos.
– .........
– Olha, Teixeira, sua companhia nos é sempre muito grata. Etelcira e eu adoramos estar com você e Ormenzinda. Mas desta vez não vai dar. Este ano estamos fugindo do carnaval na praia. Se você quiser, a casa está lá à sua disposição. O governo do Espírito Santo agradece. Nós vamos para Aruba, imagine! Etelcira ganhou passagens aéreas de brinde, comprando verduras, bijuterias e legumes no cartão de crédito.
– .........
Sem falar que Carnaval, hoje em dia, virou programa de doido, não é Teixeira. Gritaria infernal, música baiana aos dercibeisbotões, bateção de caixa, lixo, latas, cacos de garrafa na rua, rapaziada fazendo xixi nas muretas dos jardins, fedentina. A coisa tem piorado muito, companheiro!
–  .........
Não, isto de sexo-a-termo em via pública eu nem ligo. Nunca me incomodei com cães cruzando na rua, nada contra a moçada fazer cover dos bichinhos. O que me incomoda é a falta de educação desses jovens criados em anomia absoluta, avessos a valores, a regras de conduta. Essa coisa terrível, poderosa, que é a falta de educação dos nossos moços! Principalmente jovens do sexo masculino. Da minha varanda eu observo. As mocinhas estão, sim, totalmente liberadas, mas não perderam condição humana. Elas ainda guardam compostura de gente. Já os rapazes, não. A publicidade que manda beber cerveja para alcançar o sucesso está acabando com eles. Viraram bichos: xixi onde dá vontade, despudor, insolência, palavrões, uivos... A impressão é que a espécie humana, machos à frente, iniciou processo de involução ao neolítico.
– .........
Não, não tem mais. Carnaval de clube acabou. Há alguns anos, o Guia Quatro Rodas citou nosso balneário como sede de um ótimo carnaval. Pra quê! Encheu aquilo lá de gente, o clube não teve espaço pra todos, houve quebra-quebra, arrebentaram os vitrais, as portas, as janelas. O que sobrou do prédio está abandonado. Hoje a rapaziada brinca carnaval numa pracinha sinistra onde vale tudo. Na manhã seguinte é aquele chiqueiro. Alguns amanhecem dormindo na lama sapateada de cerveja, urina e sabe-se lá do que mais.
– .........
– É, não demora vai ser o mês de fevereiro inteirinho. Do barulho a gente nem devia reclamar, não é Teixeira. Fomos jovens e também já gostamos disto. Felizmente, no meu bairro o “entrudo” fica distante, uma rua abaixo. Cerrando as janelas e puxando a cortina dá até pra conversar dentro de casa.
– .........
Sei lá o que é entrudo, Teixeira! Parece que foi o primeiro nome que deram ao carnaval. Como é uma palavra esquisita, de acepção obscura, fica disponível para catarses. 
– ......... 
Eu vi no Jornal da Globo. Há uma ideia de ressuscitar as marchinhas carnavalescas. Seria uma boa, não é Teixeira? Além de menos primitivas nas letras, em comparação com o que se ouve por aí, eram um veículo poderoso de crítica social. Já pensou essas figuraças da senatoria pátria estigmatizadas para o resto da vida numa marchinha carnavalesca, daquelas antigas?

As marchinhas poderiam prestar um bom serviço à democracia brasileira. Seria o carnaval fazendo justiça onde os tribunais vacilam.

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(Publicada em 11.02.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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