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terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Tambor

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Fevereiro, 2009

Dizem que no Brasil o ano começa com o fim do carnaval. Na prática, costuma ser verdade. Pelo menos em um bom número de casos é hábito nacional programar as coisas mais sérias, ou que demandem mais atenção, mais envolvimento, para depois dos feriados prolongados de fevereiro. Feriados esses que, para muitos, se emendam nas férias de janeiro, passadas em algum lugar distante da rotina pleonástica. Realmente, não é grato aos “dispensados do ponto” começar o ano antes do Carnaval.

Isto quer dizer que chegou a hora de encarar 2009. Aos quatro ventos diz a TV que o Salgueiro venceu o carnaval do Rio de Janeiro, num desfile de enredo super original (no carnaval a gente pode falar como falam os jovens) que elegeu para tema sua excelência o Tambor. Ele mesmo, o Tambor: uma caixa e um couro esticado.

Conhecido desde as mais remotas eras da humanidade, ele remonta a nossos ancestrais africanos e pré-colombianos, com seus tantãs de madeira, de tábua, de tronco escavado, feitos e moldados a fogo. Muito simples na construção e na execução, os mais diferentes tambores existem entre quase todos os povos do globo. Não há dúvida de que foi no ressoar de um deles, tocado por mão ou por uma baqueta rústica, que nasceu a primeira manifestação musical no ser humano.

Hoje, com tantas Escolas de Samba oferecendo enredos a cidades e até a estados da federação, como via de publicidade e apelo turístico, eis que o Salgueiro volta seu olhar para o próprio umbigo do samba, para as partes íntimas de sua maravilhosa bateria e extrai de lá esse personagem de todos os tempos, de todos os sambas e de todos os carnavais, que é o Tambor.

Certamente que ao destacá-lo, a simpática vermelho e branco da Tijuca inclui na exaltação genérica todos os componentes da família musical da percussão, de epiderme esticada, como o bongô, o bumbo, o atabaque, o tarol, a caixa, a conga, a cuíca, o pandeiro, o repenique, o tamborim, a zabumba, os timbales – essa etnia rítmica que compõe a bateria. Principalmente uma bateria de Escola de Samba.
A exaltação do Tambor foi um achado criativo do carnavalesco Renato Lage. Com ele, o G. R. E. S. Acadêmicos do Salgueiro conquistou uma vitória bonita, originalíssima, na Sapucaí.

Mas agora o carnaval, de fato, acabou. Temos que acertar o passo numa outra batida. Entrar no ritmo de outras maçanetas, vassourinhas e baquetas. Daquelas que ferem o tambor da vida, que dão compasso à existência que nos trouxe até aqui. Viver é seguir na plenitude harmoniosa desse enredo que Deus compôs para cada um de nós. Um escritor indiano, Togore, disse que a vida se revela ao mundo como uma alegria. Tudo é júbilo no jogo sempre renovado de suas cores, na música de suas vozes, na dança de seus movimentos. Assim, nem a doença nem a morte haverão de impor suas verdades enquanto vibrar em nossos corações a alegria repicada de um tambor de carnaval.

Otimismo faz bem. Então, vamos nessa.
-Olha o Salgueiro aí, gente!
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de fevereiro de 2009)

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