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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Nome de Rua

***
Setembro, 2000

O assunto desta crônica já foi abordado por mim num outro escrito publicado há tempos, mas não faz mal relembrar porque o jornalzinho em que o publiquei estava longe de ter a circulação da Gazeta.

Trata-se do seguinte. Daqui a algumas semanas estaremos todos escolhendo nosso futuro prefeito e nossos dez vereadores para a Câmara Municipal. O voto para prefeito, numa cidade como Leopoldina, não oferece dificuldade: os candidatos são, sempre, pessoas conhecidas. A escolha é fácil, intuitiva.

No caso do Vereador é que a opção às vezes empaca. São muitos os candidatos, consequentemente muitos são bons amigos, às vezes mais de um é parente próximo e, quase todos, pedem o voto invocando esta ou aquela condição. Ora, para quem está pensado, apenas, em escolher um bom candidato, esse tipo de pedido sempre gera o constrangimento de uma negativa franca (sacrifício de uma amizade) ou uma promessa mentirosa.

Sinceramente, não sei como agir em tal situação. Portanto, não tenho conselhos a dar. A única coisa que sei é o que está na constituição. O Vereador é uma pessoa destinada a elaborar as leis do município, a fiscalizar as contas e os atos do Prefeito. Assim sendo, devo escolher alguém dotado de preparo ou experiência mínima para desincumbir-se dessas tarefas.

Sei também que ninguém é melhor que ninguém, que todas as profissões são dignas e indispensáveis. Para ser justo, até a ausência de profissão merece meu respeito num país com o índice de desemprego que o Brasil ostenta. Nem por isto devo escolher aleatoriamente. Não! Isto não. Para consertar a minha geladeira eu chamo um técnico em geladeiras. Paracurar meu gatinho de estimação, eu chamo um veterinário. Ou, dependendo da maneira como a sola dos meus pés toca o chão, posso chamar um benzedor... Mas a escolha será minha, e será consciente.

Não vamos nessa de acreditar que vereador só existe para botar nome em rua. Não é, não. E, mesmo que fosse, até para isto seria bom escolher vereador com alguma réstia de luz intracraniana.

Muito a propósito, a história de Leopoldina registra uma passagem interessante que, sob cultivo de um bom Vereador, poderia dar em nome de rua. Vejam: em 1890 baixou em nossa cidade uma epidemia que matou 561 pessoas. Durou um ano. Na época, Leopoldina tinha apenas 5.000 habitantes. Perdemos, portanto, mais de 10% da população. Os médicos não conseguiram identificar a peste. Uns acreditaram ter sido Febre Amarela, outros a deram como Febre Palustre.

No Brasil de então os Drs. Torres Homem e Martins Costa de Giesenger, médicos respeitáveis que escreveram sobre essas febres tropicais, nada disseram. Aqui, o médico que a todos atendia - ou tentava atender - era o Dr. Octaviano Costa. O certo é que a doença ficou inteiramente fora de controle. Dois terços da população fugiu, com medo, abandonando casas lacradas, sem limpeza e sem desinfecção. O Forum ficou acéfalo, sem juiz, sem escrivão, e com todos os funcionários da justiça sumidos. Na prefeitura o último que pegou a direção de Tebas, procurando lugar seguro, fechou a porta.

Enquanto isto, no Largo do Rosário, em casa cedida por herdeiros do Padre Soleiro, foi improvisada uma enfermaria para indigentes. Só que, para desgraça maior das vítimas, não havia quem se dispusesse a trabalhar de enfermeiro, mesmo com oferta de alta remuneração. Foi quando o Delegado de Polícia, sem mais opções, designou o Praça Ildefonso Penaforte como Enfermeiro, e os condenados Nicolau e Cantagalo comoAuxiliares de Enfermagem...

Consta que tal foi o espírito de solidariedade e humanidade demonstrados por essas três pessoas, com os doentes, naqueles dias dolorosos que o judiciário, no caso dos dois condenados, decidiu pelo perdão de suas penas! Infelizmente, o registro histórico termina aí, não mencionando se o praça, Ildefonso Penaforte, ganhou uma promoção.

Cabe, então, perguntar:
-Alguém sabe dizer onde fica, em Leopoldina, a Rua Ildefonso Penaforte?
-Existe alguma pracinha chamada Praça Auxiliar Nicolau?
-E Rua Auxiliar Cantagalo, existe?

Seria bonito se existissem, não é mesmo? Vejam que, até para colocar nome em rua, é bom que as pessoas tenham alguma coisa dentro da cachola.
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(Publicado na Gazeta de Leopoldina de setembro de 2000)

2 comentários:

  1. Realmente Dr Jose do Carmo,

    isso foi escrito pelo senhor em 2000 e continua o nosso dilema, a dificuldade de escolher os candidatos, em sua maioria só pensam em vantagem própria e no retorno financeiro do cargo político. Mas de qualquer forma, é um alerta pra todos nós eleitores refletirmos para as próximas eleições.

    um abraço

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  2. Você já imaginou, Michel, se o Bill Gates fosse um "democrata" dentro da empresa dele e fizesse uma eleição entre os funcionários para escolher o presidente da Microsoft?
    Ganharia a moça que faz o café, na cantina...

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