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sábado, 7 de novembro de 2009

Conversa Puxa Conversa

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Maio, 2003

Podemos enrolar um cigarrinho de palha e começar falando mal deste teclado. Lá por 1957 a gente aprendia datilografia, em Leopoldina, com o Prof. Haroldo J. B. Freire numa velha Remington 30 que não corrigia erros nas batidas. Ao contrário, até os estimulava. Já neste computador o Word acusa as batatas, mas só quando plantadas em minúsculas. Se você escreve, por exemplo, PUCHA em maiúsculas o programa ignora o erro, deixando você conjugar o verbo puchar, com ch, como quem bebe caxaça, ou melhor, cachaça. Descobri que o segredo está na tecla Caps Lock que, uma vez acionada, desativa avisos ortográficos. Desatento como sou, só me sinto seguro redigindo tudo em minúsculas para, depois, comandar as caixas altas.

Sou distraído demais. Uma vez, lá pelos quinze anos de idade, cheguei a jogar fora uma pequena fortuna “em moeda corrente do país”, dinheirinho suado de meu pai destinado à minha mensalidade escolar. O Colégio Leopoldinense, na época era uma escola particular, da Diocese Leopoldinense. Por azar coloquei o dinheiro no bolso junto com o sanduíche de mortadela da hora do recreio, mas que veio sendo devorado antes da hora e aos beliscões, no lombo do cavalo que me trazia às aulas.

Naquele dia a merenda acabou pelo caminho, ali nas proximidades do Caiçaras, onde fica hoje a Polícia Rodoviária Federal. Incomodado com o papel gorduroso no bolso, joguei tudo no mato - naquele lugar tudo era mato na década de 50 - o embrulho do sanduba e, com ele, os haveres do Bispado.
Assim, aquele Posto Policial que leva o nome de um antigo engenheiro do DNER, tem capital do meu pai enterrado nos alicerces. Passo por ali com ânimo de exumação hereditária.

Coincidência é que, indo depois de moço para o Rio de Janeiro naquelas mesmas condições lamentáveis descritas numa bela canção, pelo cantor Belquior, isto é, “sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes...”, num lance de mera coincidência, acabei conhecendo, ainda que rapidamente, o Dr. Régis Bittencourt, cujo nome, grafado no Posto da Polícia Rodoviária como lá está, serve de epitáfio à referida desova monetária.

Mas conversa puxa conversa e essa emblemática canção do Belquior me lembra outra história, também dos fins dos anos 50. Aconteceu com um contemporâneo nosso. Ele era apenas um rapaz leopoldinense, amigo meu, e trazia de cabeça, não uma canção do rádio, mas um histórico bilhetinho que o estimado farmacêutico, Sô Lilíu (Osmar Lacerda França) - pessoa das mais distintas, bondosas e solidárias que Leopoldina jamais conheceu - ofereceu para que ele, com 19 anos e sem recursos mínimos para seguir estudando, pudesse tentar alguma coisa no Rio de Janeiro.

Não interessa o nome do figurão a quem o bilhete do Sô Lilíu foi dirigido. Basta dizer que ele presidia uma das muitas autarquias federais, da época. Era comum naqueles tempos o suprimento de vagas no serviço público pela via política. Aliás, era quase a regra. Empresas públicas e Autarquias não passavam de feudos partidários (Sei que isto não mudou muito!). O próprio embaixador, economista e senador Roberto Campos confessa, em suas memórias, que na juventude saiu do Seminário de Guaxupé, para o Rio de Janeiro, levando carta de um parente apresentando-o a Filinto Müller, o todo-poderoso chefe de polícia do Getúlio. E ressalva: “Naqueles tempos, o sonho dos matogrossenses que aportavam ao Rio era (...) entrar no Exército ou arrumar uma colocação com o Filinto”.

Mas no caso do rapaz leopoldinense o bilhete do Sô Lilíu não funcionou. Foi rispidamente recebido pelo poderoso homem público, um tipinho vaidoso, prepotente, áspero no trato, que só faltou dar um ponta-pé no traseiro do jovem rurícola, já de si aparvalhado com o portento de um gabinete de marajá espraiado num sétimo andar da Esplanada do Castelo.

Por sorte o jovem não se abateu. Saiu dali disposto a enfrentar todos os concursos que aparecessem. Era governo JK, com fartas oportunidades de emprego. Tantas oportunidades que ele veio a ser aprovado em quatro seleções distintas. Escolheu o que achou melhor e fez vitoriosa carreira.

Muitíssimos anos depois, já maduro, esse ex-quase protegido do Sô Lilíu me conta que no exercício de uma alta chefia no governo recebeu certo dia em seu gabinete um cidadão que voltava de um exílio de 18 anos na Europa. Um beneficiário da Lei da Anistia, que se reincorporava ao serviço público para completar tempo de aposentadoria. Esbanjou humildade, o adventício:

- Doutor, ingressei-me neste serviço quando moço, sem concurso, por empenho de meu falecido pai, homem do getulismo. Fui admitido aqui como Assessor, mas jamais exerci qualquer função. Principalmente agora, depois de duas décadas de exílio, faltam-me condições mínimas para sequer redigir um ofício. Peço-lhe, encarecidamente, que o senhor me tolere aqui, pelo menos por alguns meses, para que eu complete meu tempo. Tenho família, preciso aposentar-me em condições melhores.

Encurtando conversa. O anistiado da Ditadura Militar era simplesmente filho do antigo poderoso homem público. O mensageiro do Sô Liliu, destratado 30 anos antes, estava agora em condição de fazer alguma coisa pelo filho do empedernido figurão. E o fez, magnânimo. Fingiu desconhecer-lhe a filiação. Em vez de apenas tolerá-lo em humilhante ociosidade, optou por ensinar-lhe, pessoalmente, a prática de alguns controles. Com isto ele se aposentaria em paz e com a dignidade preservada.

Como de fato aposentou-se. Sem jamais ter ouvido falar, entretanto, no canhestro episódio protagonizado por seu falecido pai.
O mundo dá voltas!
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(Publicado na Gazeta de Leopoldina de 26.05.2003)

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