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sábado, 28 de novembro de 2009

Minha jujuba

***
Da física, a noção de magnetismo segundo a qual cargas de sinais iguais se repelem, às vezes tem aplicação no cotidiano da vida. Chatice anula chatice, loucura repele loucura, e assim por diante. No meu caso já exorcizei inconveniência meio doida com uma discreta dose de loucura pessoal. Conto direitinho como foi.

Minha mulher desejou fazer compras, com a irmã, no centro de Belo Horizonte onde estacionar um carro em dia útil é impensável. Combinamos então que eu “rodaria” pela Praça Sete e as deixaria lá. Na volta, tomariam um táxi.

Sol a pino, um calor de sucursal do inferno, fizemos o combinado. Deixei a patroa no centro da cidade entregue à tarefa feliz de bem aplicar nossos magros proventos no comércio da capital e voltava para casa na esperança vã de uma ducha fria, reconfortadora. Não imaginava que contratempos conspiravam à minha frente.

Na esquina de Av. Amazonas com Av. Contorno existe um aparatoso sinalizador de trânsito a que nós, brasileiros convencionais, principalmente mineiros e cariocas, chamamos de “sinal” e que os paulistas, goianos e outros, juram que é “semáforo”. Pois é, aquele sinal fechou para mim.

A propósito, alguém conhece aí a canção maravilhosa, do Paulinho da Viola, intitulada “Sinal Fechado”? Um primor, não é mesmo? Vocês já imaginaram se o título daquela inspiradíssima genialidade musical fosse “Semáforo Fechado”? O estrago na letra!

...“Por favor, telefone, eu preciso beber
Alguma coisa, rapidamente.
Pra semana
O semáforo ...
Eu espero você
Vai abrir...
O semáforo!
O semáforo!...”

Tem dó! Ainda bem que a divindade chamada Paulinho da Viola nasceu carioca.

Mas eu dizia que o sinal/semáforo da Amazonas com Contorno fechou à minha frente. Tive que parar o carro. Claro, o cidadão que vinha atrás de mim deveria fazer o mesmo. Só que não fez direito. Enfiou sua bicanca no meu pára-choque traseiro.

Certifiquei-me de que meu pescoço continuava íntegro e desci para ponderar o estrago. Nada que um novo pára-choque não resolvesse. Apertei a mão do desastrado e o tranqüilizei:

- Sem problema, amigo, vida que segue, não vamos colapsar o trânsito de BH. Vá à tua vida que eu vou à minha.

E já me dirigia ao cockpit do meu fórmula-1973 quando, sem que percebêssemos de onde, surgiu a figura grená de um guarda de trânsito:

- Por favor, documentos das “viaturas” e dos “efetivos condutores”!
Os meus – procurei-os quase em desespero! - não estavam nos meus bolsos nem no carro.

- Seu guarda, infelizmente, minha carteira deve ter ficado na bolsa da minha mulher a quem acabei de deixar lá na Praça Sete. Sei que é errado dirigir sem documentos, mas, infelizmente, é o que está me ocorrendo agora. Eles ficaram na bolsa da “efetiva proprietária” do veículo.

- Pelo Código Brasileiro de Trânsito, sou obrigado a realizar a apreensão da viatura – disse o policial.

- Sem problema, seu guarda. Não temos remédio. O senhor deve aplicar a lei. Aliás, para ser sincero, gosto tão pouco deste carro que talvez nem lhe pergunte pelo endereço do depósito do Detran.

O guarda, coitado, mal podia ouvir-me tamanho já se tornara o alarido de ônibus acelerando e do buzinaço de mineiros engarrafados sob a canícula, numa longa cauda em direção ao centro da cidade. Tentava ele um penoso contato com o caminhão guincho, via tijolo eletrônico, preto, do qual pendia uma cordinha trançada.
– Estás me ouvindo? Câmbio!...

Aproximei-me, solidário.

- Grande transtorno lhe causei, hem, amigo! Mil desculpas. Não sei onde ando com a cabeça! Imagine o senhor que até minha jujuba ficou na bolsa da mulher. Minha jujuba! Absurdo! Eu nunca esqueço minha jujuba! Só pode ser carência de fosfato na ideia...

Como eu já contava alguns fios de cabelos brancos – para ser sincero, quase todos – o digno policial há de ter pensado com seus botões:

“Um calorão desgraçado destes e eu perdendo tempo com esse velho maluco, comedor de jujuba!”.

Fui liberado. O trânsito na Amazonas voltou a fluir e centenas de mineiros da capital foram felizes para sempre.

Se eu realmente gostasse de jujuba talvez comprasse, antes de chegar a casa, um pacotinho bem colorido pra comemorar. Mas não. Tenho pé atrás com jujuba. Ninguém sabe do que é feito aquilo.
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(Publicado em 26.11.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/ e no Jornal Leopoldinense)

2 comentários:

  1. Ótima crônica. Bem humorada e leve. Só para complementar: tb detesto jujuba...

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  2. Obrigado pela leitura e pelo comentário, Táo.
    São tantas Marias do Carmo que não foi fácil descobrir que atrás desta Maria do Carmo estava a querida amiga, Táo.

    Abraço,

    José do Carmo.

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