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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Falando de cadeira

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Novembro, 2009

Obama chamando Luiz Inácio de meu louro, Sarkozi no papel de francês simpático, Haiti entregue à nossa responsabilidade, destino político de Honduras nas mãos da diplomacia brasileira e, como se não bastasse, inimigos figadais do Oriente Médio transitando cordiais pelos corredores de Brasília... Sei não.

Confesso que me assustam essas injunções políticas internacionais, como resultado da propalada ascensão do Brasil no concerto das nações. Ainda não me adaptei à ideia. Medo do novo? Talvez. É humano reagir a mudanças. Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futuro. De repente, canhões de luz começam a cruzar os céus e estão dizendo que é o futuro. Que ele chegou, que o Brasil deu certo. E agora?

Se há uma coisa que me apavora é imaginar-me rico. Faz tempo, numa confusão com papeis de aposta, acreditei por alguns minutos que ganhara a Mega Sena acumulada. Entrei em pânico. Teria que mudar de cidade, de país, internar-me numa bolha, providenciar refúgio para meu filho, para meus netos, esconder meus irmãos e suas famílias, arranjar um procurador que fosse ao mesmo tempo brasileiro e honesto para cuidar da minha fortuna, sumir do mapa. Cheguei a eleger Cascais, em Portugal, como meu possível refúgio. Ficaria quietinho lá, entocado naquele pedacinho maravilhoso do mundo, e nem meu vizinho ilustre, Felipe Scolari, jamais saberia de meu passaporte brasileiro. Eu o evitaria, nas ruas e nos restaurantes.

Por alguns minutos vivi esse marajá em apuros. O que pensei ser um jogo premiado era, de fato, o “resultado do concurso”, misturado com meus jogos. A realidade acudiu-me a tempo. Continuei pobre e sem grilos. É muito bom! O Eike Batista não sabe o que está perdendo.

Mas o dado concreto é que, agora, com o Brasil fazendo bonito no mundo e o brasileiro sem motivo para o “complexo de vira-lata” do Nelson Rodrigues, já começo a me situar fora do meu elemento. Não tenho prateleira altiva onde acomodar tantos ufanismos: Brasil campeão na produção de grãos, na produção de carne, nas reservas petrolíferas, na aprovação internacional do nosso guia, no futebol, no vôlei, na tecnologia das águas profundas, nos velejadores das águas rasas, quê mais, quê mais? Esta “potência emergida” está me deixando desnorteado.

Em nome do tal assento permanente na ONU já aceitamos descascar abacaxi no Haiti e esfolar a ética na crise institucional de Honduras... O Obama avisou: liderança internacional inclui responsabilidades. Já vimos que inclui também algumas quizumbas.

Está aí o Shimon Peres querendo amarrotar o tapete do nosso próximo convidado. Adivinhem quem vem para o jantar? O persa Mahmoud Ahmadinejad. Só para vocês sentirem o drama, vejam como escrevem o nome dele lá no Irã: محمود احمدینژاد.

Num riacho assim de piranhas não seria melhor nadar de costas? Sabemos que o Amorim e o Top-Top não são bobos. Porém Alá é mais sábio e podia nos poupar dessas coisas complicadas. Nem bem arredamos pé do Caribe e já vamos assinar o ponto numa pendenga de dois mil anos! Êta cadeirinha danisca, essa do Conselho!

Trasantontem, o repórter Alex Rodrigues da Agência Brasil disse que Nelson Jobim vê como uma estratégia de afirmação da relevância do país no cenário global, a presença de tropas militares brasileiras no Haiti. Disse ele: “é dever de uma nação que tem responsabilidade com a região, e não apenas consigo mesma, e uma necessidade estratégica de relações e de afirmação de um Estado que se pretende protagonista mundial” (...) “se o país almeja integrar o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), deve atuar como protagonista nas Américas”.

Pelo visto a América já não é tudo. E muita fatuidade nos deixa, a nós mineiros modestos, acanhados que só vendo.
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(Publ. em 12.11.2009, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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