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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Rod Ash, um caso de ódio

***
Ano, 1969

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!”
(Edgar Allan Poe)



No dia em que nasceu certo inquisidor anunciado como Rod Ash, toda ficção em torno da crueldade e do desamor perdeu autenticidade e resvalou para o real. Conheci-o num dia feio de tortura dissuasiva, em 1969, quando me arrostou sua presença abominável. Martirizou-me então, a contingência de ouvi-lo até o fim, sorver gota a gota o copo duplo de sua bile amaríssima.

Já as primeiras palavras de Rod deram-me a medida surpreendente do espécime maldito, da aberrante variação animal com que me deparava. Sua preleção bestial escoiceava com impiedade o íntimo da condição humana.

Eu, um jovem sob ameaça, desci ao transe da perplexidade, à insegurança mais aflita.

– Deus, Rod Ash não pode existir! Onde alguém o terá suportado antes de mim?

Compulsei, de memória, precedentes do espécime na Satânica Inquisição, no limbo dos demônios apocalípticos, revirei bestas-feras, príncipes tártaros das trevas – e, à minha frente, a variação humaniforme seguia propondo sua excepcionalidade.

Procurei no inferno de Dante, num pesadelo de Poe, pela umidade mofada dos sótãos, nos alforjes das três deusas parcas, na Transilvânia de Vlad Tepes – esquadrinhei por igual criatura, mas a réplica danada ali presente mais me assaltava os olhos e à razão, insinuando-me, a dois palmos da testa, a certeza de sua realidade infame.

– Como pôde a natureza, quase sempre sábia, dar forma humana a tão abjeta mutação?

– “Tua alma, ó vil Iscariotes, atirada a um monturo causaria nódoa” – ocorreu-me o vinagre do poeta.

Ao fim do longo martírio dei-lhe as costas furtando-me ao contágio. Rod é mensageiro e comensal das trevas, é miséria contra a qual se previna! Será bom que escape à compreensão terrena para prestígio da humanidade e do bem.  

Arquive-se, todavia, o testemunho de sua existência e o mundo seguirá mais seguro.

Alvíssaras ao dia em que a justiça triunfar, derradeira, povoando cemitérios. Haverá suspense de quinta sinfonia e os jornais anunciarão, em título de oito colunas, o trânsito de Rod Ash ao vazadouro abissal das carcaças putrefatas.

Vertido ao fel e ao estrume, Rod habitará a perversão de seu destino. Honrará para sempre o ventre canídeo que o pariu ao rubro, para que satanás jamais perdesse de vista um congregado.

Aves de mau agouro, na orfandade do extinto, crocitarão na tarde cinzenta sobre o monturo baldio apropriado à aflição de seus restos. O espírito de Rod Ash se entocará nas trevas, na escuridão contaminada de si próprio, no seio gótico do mal. Uma serpente recém-nata alcançará uma fresta no espinhaço vulcânico onde sepultar para sempre sua aversão à vida e à luz.

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(Publicada a 14.02.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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