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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Por Obra dos Cachorros

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Fevereiro, 2011



Se o título acima remeter meus escassos leitores àquela fotografia lírica do Carlitos sentado à soleira de uma porta na comovente companhia de um cachorrinho, me desculpem. Não é deles que falo. Também não abordo peripécias de deputados, senadores, governadores e prefeitos apanhados na carrocinha “aparatosa” da Polícia Federal. Seria bom que falasse, mas também não falo daquela página maravilhosa de Eugene O'Neill, “Testament of a Very Distinguished Dog” (Testamento de um Cão), verdadeiro mimo à sensibilidade de qualquer leitor.
Falo de cachorro em sentido lato, esses vagabundos de quatro patas que me deixam possesso toda vez que piso na “besteira” deles, como me aconteceu hoje.
Na verdade, nunca foram boas minhas relações com esse tal melhor “inimigo” do homem. Sei que tem gente que gosta, e muito, de seu cãozinho, mas, como dizem no erudito espaço rural em que nasci e me criei, “eu nunca se dei bem com esse bicho”.
Claro, não sou insensível e acho alguns até bonitinhos, principalmente quando fotografados no colo de uma jovem atriz de cinema ou seguindo o requebro artificial de uma top model. O problema é que mesmo os bonitinhos são dados a defecar, ao menos três vezes ao dia, e cocô de cachorro, sob o ponto de vista... ou melhor, sob o “ponto de olfato” das minhas narinas, fede muito além do tolerável.
Conheço coisas que fedem, neste mundo: conheço o manguezal de Ramos, no Rio, o Tietê, em São Paulo e uma fábrica de geleia de mocotó na Baixada Fluminense. Mas a tal “obra” de cachorro, exala, dissemina, uma fedentina campeoníssima.
Poderia dizer imensurável porque ainda inventaram uma unidade de medida para fetidez. Andei pensando no UOLF – sigla para Unidade Olfativa.
Poderíamos convencionar, por exemplo, para 666 gramas de excremento canino (fede como a “besta apocalíptica”), a equivalência padrão de 1000 uolfs (mil unidades olfativas), no topo da escala. No ponto diametralmente mais baixo, ou seja, no menos gravoso dos (mal) odores, teríamos o hálito de uma mulher bonita, porém fumante: 1 uolf. Sendo esta a mais tolerável de todas as afrontas ao olfato (Perdoem-me as mulheres que fumam, mas um uolfzinho não ofende ninguém e ainda funciona como alerta).
Distribuídos entre 1 e 1000 estariam os outros molestamentos às papilas olfativas como, por exemplo, 666 gramas de bacalhau: 50 uolfs; um par de tênis usado por adolescente: 200 olfs; um ovo podre: mesmo valor do par de tênis: 200 olfs; um gambá atropelado: 900 uofs, e assim por diante.
O importante é que o cocô de cachorro ocupe seu devido lugar. Pirraça antiga? Sim. Cresci num sítio próximo à cidade, onde meu pai lidava com criação e abate de suínos, fabricação de queijos, soro e manteiga – atividades propiciadoras de restos malcheirosos cuja antifragrância as narinas intermunicipais dos caninos captavam de longe.
O resultado era que um número absurdo de cães vadios vivia rondando nosso quintal. A maioria, cachorro da roça, caipiras como nós mesmos, mas apareciam também cães “gente fina”, sem carrapicho nas patas, focinho empinado, tirando onda de “morar bem”, no perímetro urbano. Chegavam principalmente à noite para filar comida no cocho dos porcos, deglutir ovos frescos nos ninhos das carijós e segurar velas, com latidos invejosos, nos  miados nupciais dos gatos.
Alarido e intromissão. Meu pai, coitado, precisando dormir depois de um áspero dia de trabalho no campo, às vezes rolava na cama ponderando entre o prejuízo e o sono. Só que ele também tinha seus “dias de cão”. Era quando saltava da cama, furioso, abria uma janela alta que dava para a manga dos porcos e queimava o filme dos penetras com os relâmpagos de sua Cartucheira-24, carregada com sal grosso no lugar do chumbo – para arder sem matar. A bicharada caçava rumo: caim!, caim!, caim! E nós, meninos, torcedores da cartucheira, íamos adivinhando, da cama, a rota dos fugitivos até que o caim, caim, caim sumisse lá longe, na noite incógnita que começava depois da porteira.
Apesar de tudo, não fui nesta vida um “sem cachorro”. Cheguei a ter dois cães. Quando menino, o Socorro, um vira-latas branquinho, saudável, esguio, tamanho médio, titular absoluto do quintal da fazenda. Área enorme, de penosa demarcação urinária, Socorro tinha que balizar marcos de xixi com extrema parcimônia par evitar pane seca. Um esguichinho mínimo aqui, outro ali.
Do Socorro tenho muita saudade. Se “obrava” fedido nem me lembro. O fazia para lá. O inesquecível, o emocionante, era vê-lo uivar para a lua cheia. Jamais saíram da minha cabeça as noites enluaradas quando Socorro, em frente à nossa varanda, de cócoras na grama qual escultura de louça muito branca, patinhas dianteiras eretas, o focinho apontado para uma lua enorme de queijo minas, uivava alongadamente qual lobo apaixonado: – Uúúúúúú! Uúúúúúú!!!
Imagem linda, meu Deus! Olha, se alguém quiser dispor de um cãozinho branco, esguio, que saiba uivar para a lua cheia, manda pra mim: o preço, a gente combina...
Meu segundo cãozinho, foi Billy the Kid, um Basset com certidão de nascimento e tudo. Ganhei-o de um amigo do TJRJ. O “acórdão” era que ele me prestasse serviços inerentes aos de sua espécie, zelando pela frente da minha casa, em Petrópolis, quando lá residi nos anos 70.
Billy the Kid era carioca da zona sul e, talvez por inadaptação à umidade serrana, latia neuroticamente para tudo e para todos (um prolixo!) e demarcou uma área bem abaixo da janela do meu quarto para consignar seus depósitos fecais. Não fiquei com ele dois meses. Felizmente, era “de raça” e tinha um sósia famoso na TV. Foi fácil passar adiante meu reclame de amortecedores Cofap.
Fique claro, entretanto, que mesmo não sendo chegado aos canídeos – segundo o Aulete, variedade doméstica do gênero canis, da qual o lobo, o chacal e a raposa são espécies selvagens – admiro muito sua longa história ao lado dos hominídeos da família sapiens sapiens. Consta que os cães foram por nós domesticados há mais de dez mil anos, como demonstram pinturas pré-históricas em grutas da Espanha, onde se veem cenas de caçada com ajuda de cães.
A convivência é, portanto, milenar. Nosso respeito pelo cão é que não faz jus ao tempo. Apesar de tê-lo como nosso “melhor amigo”, não há quem não queira ver morto um Pitbull, quando exímio intérprete dos defeitos de caráter de certos donos; nordestinos referem-se a satanás como “o cão”; indivíduos crápulas são chamados de “cachorro”; para hebreus e indianos o cão é um animal impuro; para um maometano não há insulto mais aviltante do que ser chamado de cão.
Vai ver o cachorro nos esteja proporcionando tratamento à altura, quando nos faz chapinhar seus descartes, nas praias e nas calçadas.
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(Publicada a 24.02.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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