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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Augusto Timbira (Augusto Lima de Brito)


Foto: Do Certificado do Consulado Geral de Portugal, no Rio de Janeiro, expedido em 12.07.1937
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Fevereiro, 2011

“Augusto Timbira” era como chamavam, na primeira metade do século passado, ali pela região da Onça, Boa Sorte, Constança, Paraíso e adjacências, o comerciante português, Sr. Augusto Lima de Brito. Era ele o dono da “Casa Timbiras”, situada no Bairro da Onça, no início da estrada que demanda a Boa sorte. A “casa da venda” ainda existe, com a frente íntegra. Pertence, hoje, a herdeiros de Francisco Monteiro de Resende.

O Sr. Augusto, que conheci quando criança (entre os anos de 1944 e 1950) e fazia compras para minha mãe, em sua “venda”, a “Venda do Timbira”, era um cidadão português alto, claro, já um tanto calvo por aquele tempo em que contava uns 55 anos, falava com acento lusitano bastante pronunciado, era sublinhadamente bom, amigo, prestativo, correto, atencioso e querido de todos que com ele lidavam, principalmente por seus empregados. Jamais se ouvia uma restrição ou queixa em relação à pessoa do “Sô Augusto”.

Como por aqueles tempos os Armazéns de Secos e Molhados – como a “Casa Timbiras” – tinham, nas comunidades rurais e fazendas, uma função adicional bastante similar à de uma Casa Bancária, o pressuposto da confiança no comerciante assumia importância fundamental. Era ele o comprador ou depositário de parte ou da totalidade da safra dos sitiantes, com os quais mantinha uma relação de Haver e Débito, em caderneta, possibilitando aos proprietários realizar suas compras domésticas sem uso da moeda (de módica circulação, aliás) ou mesmo remunerar seus empregados através do caixa da casa comercial.

De seu Certificado de Inscrição nº22920, do Consulado Geral de Portugal no Rio de Janeiro, expedido em 12 de julho de 1937 - cujo original me foi cedido, para cópia, pelo filho Daniel Lima de Brito - constou ter Augusto Lima de Brito 1,78m de altura, rosto oval (era normalíssimo), cabelos e olhos castanhos, nariz e boca regulares, barba raspada e cor branca; ser solteiro, comerciante, nascido em 13 de fevereiro de 1890, na freguesia de Nespereira, “concelho” de Sinfães, distrito de Viseu, na República Portuguesa - filho de Joaquim Pereira de Brito e de Olívia Joaquina Lima.

Pelo mesmo documento acima consta ainda ter chegado ao Brasil em 12 de dezembro de 1903 – com apenas 13 anos, portanto (O que leva a supor ter emigrado com seus dois irmãos mais velhos, Manoel Lima de Brito, que foi comerciante em Além Paraíba, e Joaquim Lima de Brito, estabelecido como contador no Rio de Janeiro). Lê-se também que à data de expedição do aludido Certificado, Augusto forneceu como seu endereço a Rua Paula Matos, 134, no Rio de Janeiro, e a cidade de Leopoldina, Minas. O endereço da Rua Paula Matos, no Rio, poderia perfeitamente ser o domicílio de seu irmão Joaquim.

A localidade da Onça era, nos anos 40 e 50 (e certamente antes), de muitos sitiantes com seus empregados de roça, basicamente gente pobre, de pés descalços, que vivia de uma incipiente produção agrícola e pecuária. Ainda não se falava de Carteiras de Trabalho, nada de Previdência Social, nada de Salários fixos. Roupinhas simples de panos “da Fábrica” (CFTL – Cia. De Fiação e tecidos Leopoldinense), botinas e sapatos reservados para ocasiões festivas ou religiosas, mesmo assim para poucos.

Era nesse universo de diminuta circulação de moeda que Augusto Lima de Brito tocava sua “venda”, seu pequeno retiro (de leite), sua beneficiadora de arroz e sua criação de porcos. A casa comercial, espaçosa, de bom padrão construtivo e várias portas com arcadas superiores, dispunha de telefone e rádio – únicos ao alcance de toda a região da Onça, Boa Sorte e Constança.

Do escritório do Sô Augusto, na parte anterior da loja, é que as pessoas desse meio rural, que só dispunham de estrada de terra, podiam chamar médicos para visitas domiciliares nos momentos aflitos, ou o “carro de praça” (táxi), nos casos de pronta remoção para o hospital. Os meios de transporte disponíveis eram: cavalo, charrete, carro de bois e, uma vez pelas manhãs, o caminhão que apanhava o leite para a Cooperativa Leopoldinense.

O prestativo Augusto Timbira fazia de seu telefone particular o “telefone público” da região. Com igual desprendimento cedia seus reprodutores suínos, por empréstimo, a sitiantes que não podiam manter em seus chiqueiros um animal com fim exclusivo de reprodução, quando não possuíam mais que uma ou duas fêmeas - tratadas com restos de comida da casa, algum fubá e milho.

Sabia-se que Sô Augusto teve um sócio na Casa Timbiras, o Sr. Elias Veiga, seu grande amigo, que teria vendido sua parte no negócio (antes de 1944, quando os conheci) e montado sua loja exclusiva, de secos e molhados, na cidade, na Rua João Neto, mesmo local onde ainda hoje, reside sua neta Helena Maria Ferraz Veiga, filha de Ruimar. Aliás, após o falecimento do Sr. Augusto, em outubro de 1952, seus filhos, Daniel e Abel, já órfãos de mãe, foram acolhidos, até a maioridade, na residência do Sr. Elias. Abel, nascido em 1936, contava apenas 16 anos. Daniel, o mais velho, também era menor.

Como “Caixeiro” de seu armazém teve Augusto Timbira, por muitos anos, a auxiliá-lo no balcão, o Sr. Antonio do Couto, casado com Da. Terezinha. Este casal tinha um único filho, Expedito. Um rapaz muito claro e alto. Antonio do Couto residia em boa casa, próxima à sede da confrontante, Da. Cecília Pedroso, dentro, entretanto, das terras do Timbiras. Bem próxima, também, do lado oposto ao riacho, era a casa do retireiro, Trajano.

Pouco antes do Sr. Augusto vender tudo o que tinha e acabar com a Casa Timbiras, por volta de 1950, Antonio do Couto mudou-se. Constou, na ocasião ter ido, com a família, para o Paraná. O certo é que não mais apareceu. Antes de Antonio do Couto, fora caixeiro de Augusto Timbira, na Onça, o depois conhecidíssimo comerciante de Leopoldina, “Zequita”, que passaria a possuir, já nos anos 50, um armazém na Praça da Bandeira, no mesmo imóvel em que ainda hoje residem seus descendentes.

Operava a beneficiadora de arroz da Casa Timbira, o Sr. Manoel Isidoro, cuja residência ficava um pouco afastada da sede, na subida do morro fronteiriço à propriedade herdada por Odilon Tavares Machado de seus pais, Severino Machado e Afrânia Tavares Machado, na margem superior da estrada de terra, antiga, que demandava à Constança e à Serra da Vileta.

Muitíssimo mais distante, num pequeno sítio de alqueire e meio, no alto da Serra dos Puris, divisa da propriedade dos herdeiros de Totônio Rodrigues com a Fazenda da Floresta, residia um outro empregado (ou parceiro agrícola) de Augusto Timbira, o Sr. Francisco Tigre, sempre referido como “Chico Tigre”. A esposa de Chico Tigre era a famosa “Sá Joana”, a parteira de toda a região. Suas filhas eram mulatas altas, simpáticas, muito bonitas. Também altos e elegantes eram os filhos, Manoel Tigre, Antonio Tigre e José Galdino. Descendentes de Manoel Tigre residem, hoje, próximo à Capelinha de Santo Antonio, da Onça, bem em frente ao Posto de Gasolina “Puris”.

A venda do Timbira era o ponto de encontro da comunidade rural, nos fins de semana. Como ao lado da venda funcionava a indústria de tamancos e vassouras de piaçaba, pertencente a Geraldino Campana, muitas toras de madeira eram depositadas no largo espaço fronteiriço à venda. Nessas toras os homens se sentavam para conversar e ouvir rádio. Isto mesmo: era mais um “serviço público” do Sr. Augusto à população local: bem sobre o arco superior da porta do meio da venda, pelo lado de fora, havia um alto-falante redondo, qual pequeno “tamborim” branco, que trazia para fora o som do rádio do Sô Agusto.

Augusto Lima de Brito faleceu em 04.10.1952, já viúvo e tendo vendido todos os seus bens, móveis e imóveis, deixando dois filhos de sua união com Da. Maria Luíza Eleutéria: Daniel e Abel, residentes no Rio de Janeiro. Ambos possuem, entretanto, casa em Leopoldina, onde costumam passar fins de semana. De união anterior, Da. Maria Luíza tivera também o filho José, portador de distúrbios mentais graves que o tornavam absolutamente incapaz. José faleceu ainda rapaz, internado numa clínica de repouso, segundo constou na época, ao final dos anos 40.

A historiadora Nilza Cantoni anota que na lápide do túmulo em que está sepultado Augusto Lima de Brito, no cemitério de Leopoldina, a data de nascimento que consta é 10.02.1890. Não será provável, não obstante, que a data inscrita no túmulo por terceiros, não parentes de Augusto, esteja mais correta que a do Consulado de Portugal, no Rio. Observa também, Nilza, que no mesmo túmulo encontram-se sepultados Francisco José P. Fernandes, Francisco Martins Fernandes e Julia Fernandes, falecidos entre 1889 e 2007. Os Fernandes eram portuguêses e tiveram propriedade no alto da Serra dos Puris. Vizinhos, portanto, e certamente amigos do "patrício" Augusto Timbira. São muitos os descendentes da patriarca, Da. Rosa Fernandes, ainda hoje residentes em Leopoldina.

Assim foi a pessoa (e também a “Venda”) do Augusto Timbira, que conheci entre meus 6 e 14 anos, de 1944, quando nos mudamos da Vargem Linda para a Onça, e outubro de 1952, quando, já tendo vendido todos os seus bens, o Sr. Augusto veio a falecer, vítima de câncer, residindo em uma casa do Sítio Puris, que lhe cedeu meu pai, e se situava em frente ao atual marco 771 da Rodovia BR-116, à direita de quem segue no sentido Rio/Leopoldina, cinqüenta metros antes da ponte. Morreu em casa, tendo meu pai como sua única companhia até o derradeiro instante.

Augusto Lima de Brito reuniu em vida todos os atributos de um cidadão indispensável, de um homem honrado e bom.
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