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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os Grilos do Agenor #

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Novembro, 2010


Sempre soube que a vida do meu amigo, Agenor da Isaura, é lidar com fantasmas imaginários. Hipocondríaco ou portador de complexidades outras, sofre demais com as doenças da moda. Claro, sem precisar contraí-las. Nisto o noticiário da TV tem sido fundamental em sua vida. Sempre o provê de inquietações com uma nova influenza matando gente na Micronésia, de uma febre insidiosa oriunda do feno ingerido pelo gado no norte da Europa, gripe nos frangos asiáticos, nos suínos mexicanos, nos cavalos de Abaíba.

Há cuidados urgentes a serem tomados contra a obstrução das coronárias, contra obesidade, contra hipertensão, anorexia, bulimia, depressão, seqüelas de traumas da infância e – ai, meu Deus! – com as tais doenças pelvianamente transmissíveis. E tome literatura científica: “Cura-te pelo Limão”, “Dieta do Abacaxi”, “Sete Chaves da Cura pela Cor”, “Terapia de Vidas Passadas”, “Saúde pelos Alimentos”, “Mastigue à Exaustão”...

Complicado, o Agenor! Seu autodiagnóstico atual é TOC, aliás, outra enfermidade da moda. É chic sofrer de TOC! Mas não é onda dele, não. As Revistas de Domingo têm razão: o homem parece, de fato, acometido do charmoso incômodo.

Para quem anda por fora de doença fashion, não custa lembrar que TOC, são as iniciais de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, velha frescura que nossos pais e avós, menos dados ao politicamente correto, chamavam de mania ou ideia de jerico.

Os médicos resolveram dourar a pílula, ou desagravar a demência, rebatizando a encrenca como TOC. Explicam ser obsessão ou compulsão que levam a comportamentos às vezes grotescos ou estranhos à própria pessoa, sem que ela, mesmo consciente do grilo, consiga deixar de ser besta.
-Lembram do Mr. Udall, interpretado por Jack Nicholson no filme Melhor Impossível? Talvez o mais primoroso e hilariante exemplo de TOC.

Sabendo que Agenor é mineiro e cruzeirense, convidei-o ontem para comemorar em minha casa as promissoras chances de rebaixamento do Galo à segundona do brasileirão. Bebemos, entre oito da noite e a madrugada de hoje, duas garrafas de Whisky de boa procedência. Agenor da Isaura foi pra casa troncho que só vendo.

Hoje me telefonou agradecendo a água. Disse-me que há mais de quarenta anos não conseguia dormir sem conferir o trinco de todas as portas da casa, sem olhar debaixo das camas e sem fazer uma oração pelas almas do purgatório. Se adormece antes do cumprimento de uma dessas “obrigações” é logo acordado pelo “subconsciente” para desincumbir-se do compromisso.

-Como se eu fosse um sentenciado - disse - obrigado a pagar todas as noites um pedágio para merecer o sono. Sem saber, você me libertou! Chumbado com seu whisky milagroso, cheguei em casa já tropeçando na reta da cama. Se no impacto acordei Isaura, não deu para ouvir a bronca... Mergulhei de pronto em lacuna de mim mesmo.

De regresso ao mundo, hoje pela manhã, era quase “meidia”, entrava pela janela um céu azul de Copacabana, ouviam-se pássaros canoros de São Tomé das Letras, uma sensação gostosa de corpo agradecido e – mais importante – em sede de egotrip nenhum sentimento de dívida pendente com as almas do purgatório.

Acredite, cara, dormi sem rezar! Não sei como será amanhã, mas pelo menos hoje está me pintando uma convicção muito clara de que meu mal foi nunca ter tomado o remédio certo...
E completou:
-Eita whiskynho porreta aquele seu, hem!

Beba com moderação, Agenor.
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(Publicada a 11.11.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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