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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Mega Sena – O Ganhador que não Levou #

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Dezembro, 2008


O cronista é um garimpeiro de irrelevâncias. Igual ao lustrador de móveis velhos, quanto mais encanto ele puder extrair do tosco objeto de sua empreita, melhor. Escrever crônica é trabalhar com duas pirâmides invertidas: a da relevância dos temas, na qual interessa o vértice rarefeito; e a pirâmide da criatividade possível, em cuja base espaçosa se afirma o maior ou o menor engenho.

Uma das conseqüências disto é que nos dias de pouco alento o croniqueiro dá de apelar para assuntos badalados. Foge das insignificâncias fecundáveis para algum fato momentoso, carregado de pirotecnia que lhe dê a mão.

Mais que encher espaço, o rodeio acima me ajuda a entrar num papo requentado, notícia bastante repetida na TV e nos jornais: mataram, há poucos dias, mais um ganhador da Mega Sena. Suspeitas iniciais recaíram sobre um sócio contumaz do bolão sorteado que, não tendo pingado os cinco reais da aposta, fora excluído do rateio do prêmio. A investigação, entretanto, evoluiu para latrocínio simples, que se confirmou.

Já outro assassinato, ocorrido há uns cinco anos, revelou-se obra do segurança que recebia salário exatamente para proteger a vida da vítima. As investigações apuraram laços afetivos e de cumplicidade do bandido com a fiel esposa e herdeira do ingênuo milionário.
Nos dois casos, duas constantes: os ganhadores, pessoas humildes, continuaram a residir em suas comunidades, após o recebimento do prêmio.

Agiram de forma temerária e morreram por isto. Não há como alguém tornar-se milionário da noite para o dia e seguir residindo numa pequena localidade onde todos o conhecem. É suicídio. Dinheiro é coisa importante demais, útil demais, e os interessados nele só querem saber com quem ele está. Felizardo de loteca tem é que sumir.

Passo, então, da frivolidade ao conselho. Se você gosta de Leopoldina, não abre mão da convivência familiar, se não consegue imaginar-se longe dos amigos, se é amarrado num papo e numa cervejinha no bar do Chico, do Tirrisquei, da Praça do Urubu, da Getúlio Vargas, do Shopping Lac, por aí, não queira, jamais, ganhar uma acumulada. Gosta de jogar por esporte? Jogue pra perder. Marque número que não vai dar... Ganhar vai estragar sua vida. Na melhor das hipóteses resultará numa solidão de frente pro mar, num apartamento enorme da Avenida Vieira Souto, no Rio.

Como dizia o Professor Raimundo, do Chico Anísio, “eu não devia, mas vou lhe ajudar” no raciocínio. Há uns dois ou três anos, passei novembro e dezembro fora de Leopoldina. Quando voltei, em janeiro do outro ano, a cidade estava um rebuliço. Alguém acertara os milhões da Mega Sena e não aparecera pra receber o prêmio. Em algum lugar o papelzinho estava. A cidade virava os bolsos pelo avesso, sacudia livros, devassava gavetas. No lixão da Volta da Cobra, urubus e cachorros, estressados, fuçavam o entulho atrás do miserável canhoto.

Foi nesse clima de ansiedade municipal que meu tranqüilo polegar direito levantou na carteira, sem querer, um recibinho de aposta agarrado entre os documentos. Imaginem! Aposta feita antes da viagem. Em novembro!... Fiquei trêmulo.
-Meu Deus, o ganhador abestalhado que não aparece sou eu. E agora?

Amigos, tanta coisa passou pela minha cabeça, mas - juro! - não me veio um único instante de alegria, de reflexão positiva em relação à fortuna que chegava. Só pensei em confusão na minha vida, em transtornos para mim e para meus familiares, em mudança urgente (na verdade, fuga) para Rio de Janeiro, São Paulo... Enfim, transitei pelo purgatório dos ricos.

Felizmente, por pouco tempo. Esperto o bastante para não ir à casa lotérica apanhar resultado do badalado concurso, conferi meu jogo na Internet. Bem examinado, nem uma trinca eu fizera!
Imaginem agora minha reação de perdedor. Creiam: foi de alívio. De muito alívio, minha gente.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de dezembro de 2008)

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