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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Bilhete ao Colégio Leopoldinense #

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Junho, 2008


Prezado Ginásio,

O três de junho vem aí e, como de costume, você tem minha saudação. Desta vez, neste adiantado ano de 2008 – o tempo passa, amigo – dirijo-me a você neste simples bilhete, sinal do pouco valor que dou às minhas próprias queixas.

Um desabafo pessimista que até me constrange, só me animando, caro Colégio, a quase certeza de que você não o receberá. O correio deverá devolvê-lo com um carimbo: “Destinatário não encontrado. O Colégio não existe mais.”

Aliás, no secundário que me deste, aprendia-se muito francês com a empertigada professora Da. Regina. Longe de simpática (abusava da nota zero e ensinava verbos mandando copiá-los “n” vezes) Da. Regina alcançava unanimidade no ódio geral, embora saísse todo mundo por aí afora tirando 10 no francês dos vestibulares e dos concursos públicos.

Imagino a Regina carimbando meu bilhete no desplante de seus achaques belle époque: “NPAI” (N´habite plus à l'adresse indiquée). Seu colégio já era, neném!

É que você, meu Ginásio, mudou para melhor, mas mudou demais. Trocou duas vezes de nome, não tem mais Monsenhor Guilherme, não tem Machado, não tem Da. Judith, João Batista, padre Leitão! Agora, acaba de partir também o Bertochi.
Assim não dá!

A criançada já não desembesta na Praça de Esportes lisinha, com quadra de vôlei, de basquete, barras paralelas, traves para se subir nas cordas, caixote de areia para saltos, pista atlética, campo de futebol pra se fuzilar o barranco e fazer uma avalanche descer!

Cadê a ponte por onde a gente transitava, livremente, entre o galpão, a praça de esportes e o Arranca Toco? Nunca engoli aquele haraquiri urbano que é a “Rua da Bomba” atravessada, qual espada de samurai, no ventre das minhas lembranças de moleque. Ora bolas, queriam ganhar o outro lado da história fizessem um elevado, um túnel. Ficava caro? Azar. Cruzar uma rua dentro da “minha” praça de esportes foi uma violência iconoclástica!... Não quero nem saber qual prefeito teve aquela ideia.

Outra coisa, e os Regentes, ainda existem? As turmas entram em forma no galpão, ao primeiro toque da sirena? Depois seguem em fila para as salas de aula nos calcanhares do Badu, do Elmo, do Cézar Pelante?

As broncas do Machado ainda trovejam pelos corredores interrompendo a tecelagem das aranhas "ao teto", recolhidas ao nicho? No intervalo da última aula da manhã, ainda se respira no Galpão o aroma/covardia de bife na cebola, vindo da cozinha? E o porteiro Baltazar? Como pôde sumir o Baltazar, sentado na portaria, sob vigia dos dois olhos cambiantes da imagem de Dom Bosco? E o roupeiro Blackout, de calção preto e sem camisa? Procurem, procurem! Durante as manhãs "é quando melhor podem ser pesquisados"...

Alguma notícia do Ormeu Cerqueira, o chefe de disciplina (no grito), que um dia me mandou cortar o cabelo? (Ele estava certo. Faltam regras para a juventude de hoje. O resultado, todo mundo sabe.) E o Sô Botelho, técnico da Liga Esportiva do Colégio Leopoldinense, incrivelmente torcedor do São Cristóvão do Rio de Janeiro? Os alunos ainda fazem rodinha em torno dele pra discutir futebol e morrer-de-rir das tiradas espirituosas (“montadas”) com que ele desancava os sabichões?

Dispenso respostas, meu bom Colégio Leopoldinense. As coisas mudam, as pessoas passam. Meio século é tempo à beça. O remédio é ir assumindo, uma a uma, as perdas e as transformações. Perdas até de colegas muito queridos que, indevidamente, se adiantaram para lá: Custódio, Bizuca, Dilton Godinho, Geraldo Joel, Pedro Augusto, Zé Vilas, Zé Lourenço...

Duro é passar pela pracinha Botelho Reis e sentir tudo isto despencando, de uma só vez, no ombro da gente. Mesmo assim, feliz três de junho.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE 1º de junho de 2008)

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