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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sobre Drogas

Outubro, 2009


 Desejo repercutir aqui, hoje, abordagens que tenho visto nos jornais sobre o consumo de crack  pela juventude brasileira. Levar informação às pessoas sobre a doença das drogas é quase um ato de caridade porque nem sempre há clareza no que se lê por aí.

Não tenho formação profissional na área da saúde, mas penso ser fundamental que os pais saibam o seguinte:

1. Que a esperança deve presidir a tudo. Em primeiro lugar a família e, em segundo lugar, o adicto decidido a recuperar-se, devem ter esperança na recuperação. Ela virá.

2. A drogadição é uma doença crônica, progressiva, incurável. Ou seja, no estágio atual da medicina, não existe cura definitiva para a dependência química. Controla-se a doença, como ocorre no diabetes, por exemplo.

3. A progressão descontrolada do vício é que pode levar à morte (acidentes, suicídios, overdose, HIV, hepatite, etc.), ao hospício, ou à prisão – nos delitos graves. É que, para conseguir a droga, ou o dinheiro para a droga, o dependente que já possua um componente psicológico de agressividade, é capaz de excessos.

4. Crack é cocaína absorvida no pulmão, pelo que causa uma dependência avassaladora, muitíssimo mais insinuante que a dependência pela absorção da cocaína pela mucosa nasal.

5. Os Hospitais Psiquiátricos não dispõem de meios, não dispõem de programas, nem de pessoal capacitado para tratar dependência química. Podem, apenas, dopar e isolar o doente em crise. Quando ele “ficar bom” terá alta por “não apresentar doença tratável em sanatório”... A falha, a deficiência da Saúde Pública, reside exatamente neste ponto. É certo, entretanto, que as autoridades públicas já começam a se movimentar no sentido do socorro às vítimas desse mal.

6. No caso do adicto em crise aguda, muito instigado a usar, muito alterado, não há melhor solução que interná-lo “à força”, se preciso, num Hospital Psiquiátrico. A lei não proíbe. Ali, sob cuidados profissionais médicos, o doente será sedado por alguns dias, ou semanas, até que a instigação (fissura) diminua e se possa conversar com ele. Não se repreende pessoa drogada, nem se arranca dela promessas de tratamento. Não é ela que está ali; é a droga. Procura-se acalmá-la.

7. Passado o efeito do uso, virá o arrependimento e a depressão. Aí sim, será hora de “negociar” com o doente a ida a um profissional (psiquiatra ou psicólogo) especializado em orientação a dependentes químicos. Esse profissional avaliará o caso decidindo, ou não, pela internação numa “Comunidade de Recuperação de Dependentes Químicos”. Muitas adotam orientação terapêutica pelos chamados “Doze Passos”, mesmo método dos AA (Alcoólicos Anônimos). O preço do tratamento irá variar de acordo com a excelência dos recursos oferecidos e do conforto das instalações. Mesmo com dificuldades burocráticas, já é possível contar com ajuda governamental para essas internações.

8. Após tratamento de alguns meses, o dependente pode voltar ao convívio da família, passando a frequentar, regularmente, um “Grupo de NA” (Narcóticos Anônimos), além do psicólogo. O NA é fundamental. Não dá para imaginar alguém deixando as drogas sem tal apoio.

9. Existem comunidades terapêuticas – gratuitas e quase gratuitas – de orientação religiosa, mantidas por igrejas. Alguns psiquiatras, todavia, entendem que a cura da drogadição via religiosidade, tende a produzir resultados positivos de preferência em pacientes detentores de perfil psicológico “obsessivo”. Estes são mais aptos a substituir a obsessão da droga por uma (talvez) obsessão religiosa. Já outros, sem perfil obsessivo, não se beneficiariam tanto. Uma coisa, entretanto, é certa. A espiritualidade pode ajudar muito na recuperação. Principalmente na aquisição, ou recuperação, de valores morais e na eliminação dos vícios de caráter que a droga sempre acarreta.

10. Não é fácil convencer um indivíduo muito jovem a aceitar tratamento. Deve-se, entretanto, insistir e até forçá-lo, porque o crack é muito lesivo. Mesmo que o jovem venha a recair ao final de um longo período de tratamento, ele, pelo menos, estará livre de intoxicação e de prejuízos orgânicos – perda de neurônios etc.

11. De resto, a insistência no tratamento é muito válida enquanto os pais ou responsáveis aguardam que a idade, o amadurecimento, leve seus filhos, um dia, à avaliação das perdas: o adicto perde amigos, casamento, guarda de filhos, emprego, capacitação profissional. Chegam à idade adulta dependentes dos pais e expostos a doenças fatais.

12. Na maior parte dos adictos, a decisão sincera de enfrentar o duro caminho da abstinência surge quando assumem a consciência das perdas experimentadas. Durante o tempo em que a droga apenas “gratifica” o usuário, com o enorme prazer que proporciona, a decisão de deixá-la não vem fácil. Perdas são, muitas vezes, necessárias. No momento em que as perdas suplantam o “prazer” da droga tem-se o “fundo do poço”. O adicto bate lá, percebe que vai morrer, que acabou com a própria vida, e passa a querer voltar. Por isto, a família precisa orientação para não se tornar “facilitadora”. Além de ajuda profissional, psicológica, os familiares devem frequentar um grupo NAR-ANON, de orientação a pessoas ligadas ao adicto. Ajuda muito! Ensina muito.

13. Por último, é pertinente dizer que não existe diferença importante entre as drogas. Todas levam ao mesmo precipício. O álcool, droga lícita entre nós, é a porta de entrada para todas as outras. Drogadicto é alguém que nasceu com organismo predisposto a viciar-se em elementos químicos. Assim, o jovem que carrega tal predisposição inicia sua “carreira de dependente” no dia em que toma o primeiro copo de cerveja ou experimenta o primeiro baseado. O organismo passa a exigir mais, sempre mais. Quando o “barato” da primeira droga já não é tudo, passa-se a outra droga. Depois a outra, e a outra... Por isto é equívocado dizer que uma droga é pior que a outra.

14. É muito boa, pois, a lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores. Se fosse uma lei com previsão de sanções severas, as quais uma justiça séria fizesse valer, seria melhor ainda.


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(Publ. em 29.10.2009, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

Um comentário:

  1. Muito bom!
    Valeu mesmo. Continuem falando sobre o assunto desta forma q será de grande ajuda!
    Uma mae q gostaia de se identificar, mas o blog nao aceitou meu URL nenhum dos meus nao sei pq vou tentar deixar aq.. leblog@hotmail.com ou khellyinblue@gmail.com Mandem novidades tbm procurarei por aq! Deus abençoe!!

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