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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Caso da Mina

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Foram quase quatro décadas sem topar com Valdemar, meu companheiro de infância. Crescemos juntos nas quebradas das gerais, num aglomerado humano besteiro, um “comerciozinho” meio chegado ao imaginário baiano do dramaturgo Dias Gomes.

Ele, filho de peão, aos oitos anos já recebera da mãe a dura incumbência de prover de água potável sua casa, buscando-a num balde, de uma despencada nascente, lá no fundo da grota, na raiz do morro. Sá Joana, a mãe de Valdemar, vivia resmungando:

-O governo devia mudar essa mina de lugar! Não fossem as pernas finas do meu Vademaro o que seria de mim! E clamava por mais água:
-Vademaro, meu bombeiro d'água!

A queixa ingênua de Sá Joana e seu grito, sempre que precisava ajuda do filho, mantiveram para sempre o menino Valdemar presente em minhas lembranças da roça. Até hoje não posso ver alguém com uma vasilha d'água, um pote, uma lata, o que for, sem que me venha à memória a súplica de Sá Joana:
- Vademaro, meu bombeiro d'água!

A vida nos separou na adolescência. Peguei estrada muito jovem rumo à capital, pela mesma época em que também a família do bom Valdemar caiu na corrente migratória rural em busca de vida menos áspera na cidade.

Fiquei feliz, anos depois, quando soube que Valdemar, cérebro dotado, lograra completar o secundário e ganhara bolsa para o curso de engenharia. Êxito merecido que confirmei, há uns quatro anos, quando cruzamos caminho numa sala do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Era, sim, engenheiro vitorioso, andava por perto e não disfarçava pretensões políticas muito concretas em nossa região. Na verdade já compunha "quadros" de uma certa liderança oposicionista meio estabanada, mas em alta eleitoral bastante promissora.

Tanto que voltamos a nos ver, não muito tempo depois, nas andanças dele para eleger-se deputado estadual. Sua base eleitoral era a capital, mas passou por nossa terra e esteve em minha casa. Foi quando me manifestou queixas dos hábitos políticos locais. Chegou a falar muito mal de alguns amigos meus, da província.

Contou que, deflagrada a campanha, procurou líderes oposicionistas locais, buscando composição que o favorecesse na soma dos votos proporcionais. Trazia incenso e mirra: era amigo do (talvez) futuro Governador que, se viesse a ganhar (o que parecia provável), o posicionaria tão bem no governo que a aldeia haveria de comer com ele, no mesmo pires, pão e mel de sonhos mirabólicos.

Só que este discurso já não impressionava. Antes dele cá estivera outro candidato, um tal Cayo Fagundes, que simplesmente ofereceu à liderança oposicionista, pelo mesmo empenho, uma cornucópia regurgitante de moedas-de-troca... por votos.

A situação foi posta em termos muito claros: ele, Valdemar, teria que cobrir o lance em espécie, ou o apoio seria inviável. Valdemar não tinha como cobrir. Sua moeda era outra, do tipo in natura, ou seja, o prestígio! Era homem do futuro governador, e isto nunca foi pouca coisa.

Sopitou no peito a indignação dos justos, aconselhou-se no antigo provérbio que recomenda silêncio ao bom cabrito e optou por "dar o troco": regressou, semanas depois, já então com endereço e CPF dos situacionistas. Boa formação nas exatas, guardava de um velho mestre da física uma lição preciosa: dê-me uma alavanca e moverei o mundo. Alavancou-se na companhia abonadora de um irmão do próprio futuro Governador. Ou seja, trouxe o aval no banco do carona.

Nem isto deu certo. A situação na província também estava fechada com outro candidato de moedas sonantes, em montante suficiente para todas as despesas publicitárias do projeto continuísta do prefeito atual. Neste segundo caso, nem dava para discutir a cobertura do lance porque parte da ajuda já viera em moeda forte e já se espargia pelas ruas numa nuvem de santinhos impressos dando piruetas nas sarjetas.

Business! Business! De novo a moeda se interpondo aos planos de Valdemar. Aquela coisa sonante, monetálica, circulariforme, concreta, denária, burra, contada e achada certa!

Consumia-se Valdemar em ódio e suscetibilidades. Jurou que aqueles usurários haveriam de pagar-lhe. Se o guru deles eram os financiadores de campanha, faltava-lhes conhecer um aluno de Maquiavel. Era só o Governador ganhar e armá-lo cavaleiro.

Não deu outra. O Governador, como previsto, venceu a eleição. E adivinhem onde meteu o "quadros" Valdemar? No vice-reinado municipalístico das águas e dos esgotos. E o Vice-Rei não perdeu tempo. Mal tomou posse no cargo, mandou ver medida administrativa que, lacônica, dizia apenas: "Ficam transferidos os olhos d'água. A partir da publicação desta lei, arredam-se as bicas das nascentes para 70 km a oeste do ponto onde originalmente brotam”. Pronto! As águas foram irrigar outro município.

Numa penada exaustiva, Valdemar resolveu dois problemas em sua vida. Realizou o velho sonho de Sá Joana, de ver o Governo mudando mina de lugar, e aplicou um corretivo exemplar nos Milton Friedmans de cidadezinha qualquer, que não souberam avaliar a extensão de seu prestígio.

A vingança estava consumada. O sonho seguinte seria garantir a próxima eleição com votos dos beneficiados pelas nascentes remanejadas. Não sei se deu certo. Minha torcida ele sempre terá.

Quanto à saudosa Sá Joana, certamente já não vive. Mas posso ouvi-la, vitoriosa, lá no poço fundo dos tempos:

- Vademaro, meu bombeiro d'água!
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(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 15 de outubro de 2009)

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