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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ormeo Junqueira Botelho

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(Publicado em abril de 1997 no Jornal Equipe, de Leopoldina)
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Em “Sociedade Afluente”, John Kenneth Galbraith generaliza conceituação negativa sobre a origem das grandes fortunas pessoais da América, apontando a regra invariável da venalidade em suas origens. Não poupa, o ilustre economista contemporâneo, restrições aos Rockefellers da Standard Oil, aos Vanderbilts e a outros êxitos espaciais subjacentes aos trilhos e dormentes das primeiras ferrovias americanas. No livro “A Era da Incerteza”, a explicitude do autor é de molde a agravar reputações em descendentes mais sensíveis. O livro vendeu horrores! Falar mal de rico dá Ibope até no primeiro mundo.

O referencial de grande êxito econômico em nossa província mineira se chamou Ormeo Junqueira Botelho. Conheci-o desde criança, nesta terra íntima onde as pessoas se chamam pelo primeiro nome, mas uma diferença de idade de meio século e minha vida profissional sempre distante de Leopoldina, nos manteve desconhecidos.

Dr. Ormeo, como se sabe, foi um líder de projeção nacional cuja vida e cujas obras espraiaram-se pelo conhecimento público neste país. Grande industrial, fazendeiro, político (foi Deputado Federal), sempre acatado e bem referido por seus conterrâneos, impunha-se pela sabedoria mas, acima de tudo, por suas qualidades extraordinárias de homem realizador, discreto, afável e cordial.

Lembro-me, ainda criança, poder identificá-lo logo que apontava em qualquer rua da cidade, elegante, dirigindo sua “Mercury” verde-claro. Importa pouco se a cor não fosse exatamente esta, e o importado de outra marca. Vale a fotografia decalcada na memória.

Era homem simpático, muito querido, mas era um notável. E as pessoas notáveis não escapam do folclore. Benemérito de todas as grandes obras sociais da cidade, ainda assim havia quem fizesse troça, dizendo que era “pão duro”, um “mão fechada”. A “prova” – observavam os piadistas - é que ele apura trocados vendendo verduras de sua horta da Fazenda Laranjeiras!

E não é que, certo dia, eu ainda rapazinho, realmente o vi retirar da mala do carro uma cesta cheia de alfaces, e entrar com ela no Mercado da Rua Carlos Luz. Não sei se levava verduras à venda. Sei que, fosse para vender ou para doar, serviçais poderiam fazê-lo por ele. Logo, o essencial para mim estaria nos valores que permitiam àquele homem milionário – dono de vastíssimas fazendas e hidrelétricas em alguns estados do país - lidar em público com suas hortaliças, produzindo uma eloqüente lição de humildade.

Em 1958, aos dezenove anos, fui para o Rio de Janeiro ser vestibulando e bancário, no centro da cidade. Como residia na Glória, meu Bonde de ir para o trabalho era o “Nº3 - Águas Férreas / Tabuleiro da Baiana”.
Não é que o Dr. Ormeo, uma ou duas vezes, foi (sem o saber, claro) minha ilustre companhia naquele Bonde! Lembro-me dele sentado bem à frente, no banco próximo ao motorneiro. O Rio de então era pacífico e mesmo o presidente da Cia. Força e Luz Cataguases Leopoldina podia eventualmente dispensar o motorista e optar por um agradável percurso de Bonde, do Largo do Boticário ao Largo da Carioca. Bastava ter na alma o toque das coisas simples, amar o frescor das manhãs, da paisagem e das pessoas.

Vinte anos depois, em 1978, um anúncio de jornal colocou-me - por absoluta obra do acaso - ao telefone com o Dr. Ormeo. Foi a única vez em que nos falamos. Deu-se do seguinte modo: andava eu revirando jornais de anúncios classificados à procura de apartamento à venda no bairro Laranjeiras. Queria morar lá. Copacabana já não era a mesma e a ideia era encontrar um teto mais próximo do trabalho, no centro.

Recorta aqui, assinala ali, e num do muitos telefonemas para clarear simplificações de anúncio, quem atende do lado de lá? Um proprietário que, antes de falar sobre o imóvel anunciado, desejava dados do pretenso comprador. Identifiquei-me. Ele garimpou mais fundo e seguiu apurando minha procedência Leopoldinense, apurando onde eu trabalhava, apurando o nome do meu pai, do meu sogro... Êpa! Estacou aí. Conhecia meu sogro. Era seu companheiro de Rotary, em Leopoldina.

De minha parte, certamente não disfarcei timidez na voz ao descobrir que, do lado de lá, estava o Dr. Ormeo. Foi cordialíssimo. Não disse o preço do imóvel, claro. Nós, mineiros, nunca escancaramos essas coisas logo de saída. Mas articulou, ao despedir-se, uma pergunta que me pareceu sublinhada: “-Você anotou direito a metragem quadrada do apartamento?” (O apartamento era enorme) Anotei sim, Dr. Ormeo.

Desliguei intrigado com a pergunta. Estaria ele sugerindo que minha família - minha mulher, eu e um filho - lhe parecia pequena demais para o apartamento? Ou que o apartamento seria grande (e caro) demais para a bolsa do jovem bancário que eu era? O diabo é que nas duas alternativas ele acertaria na mosca. Tanto assim que eu desisti do negócio.

Meu sogro sempre mencionava, com entusiasmo de grande admirador, as virtudes do Rotariano, Ormeo. Sem dúvida, uma admiração cultivada em atenções recíprocas. Em minha casa vai resistindo às trepidações de mais de meio século de casados, uma bela fruteira de porcelana que nos foi dada pelo Dr. Ormeo como presente de casamento.

Agora, no início de 1997, esse grande filho de Leopoldina recebe uma justa homenagem de seus concidadãos. O prefeito Márcio Freire assinou decreto dando nome de “Dr. Ormeo Junqueira Botelho” à pracinha situada em frete à Catedral de São Sebastião.

O prefeito Márcio não poderia iniciar este seu segundo governo de forma mais feliz, eternizando naquele recanto poético o marco do centenário de nascimento deste grande benemérito de nossa região. O engenheiro, Ivan Botelho, filho do homenageado, em palavras de agradecimento, vinculou a sensibilidade de Márcio Freire à sua origem paterna em outro grande Leopoldinense, o Dr. José Bastos Faria Freire.

De Dr. Ormeo o mínimo que se pode dizer é que foi um empresário vitorioso, um homem de posses, um homem de amigos, um homem popular e um grande cidadão. Mas, acima de tudo, uma pessoa que excedeu em valores humanos a soma de suas conquistas temporais. Líder político lúcido e útil à sua gente, foi cidadão de conduta exemplar, um arquiteto que deixou a marca indelével de seu talento em obras fundamentais em Leopoldina. E, paradoxalmente aos exemplos colhidos pelo autor de "Sociedade Afluente", um homem vitorioso cujo sucesso material se explica unicamente pelo trabalho.
Talvez Galbraith não o reconhecesse.
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