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sábado, 11 de maio de 2013

João Bolinha


Abril, 2013

Nesse turbilhão de incitamentos que é a vida, sempre soube que um dia acabaria contando a história de João Bolinha.

Ressalvo que o “Bolinha”, do João, nada tinha a ver com obesidade. O apelido lhe foi pespegado pela enorme habilidade que demonstrava com uma bola no pé, fazendo “embaixadas”. Produzia de cem embaixadinhas para mais, sem deixar a peteca, no caso a bola, cair. Repetia a façanha com laranjas, tampinhas de garrafa e outros descartáveis sólidos. Daí que, desde os tempos secundários, “pra qualquer um na rua”,  era o Bolinha!

Mineiros do interior, aos dezoito anos buscamos escolas superiores no Rio de Janeiro. Um cortiço na Glória nos protegia das intempéries e fazíamos refeições em restaurante estudantil contíguo à Faculdade Nacional de Filosofia, no Castelo. Aliás, filosofia veio a ser a escolha do Bolinha.

Fisicamente, meu amigo não era alto nem atlético. Mas fazia um sucesso danado com as garotas. O que mais sobressaia nele, além do talento malabarístico com a bola, era a lucidez. Sempre nos passava, a nós seus amigos, a impressão de que aprendera mais, lera mais, informara-se primeiro, sabia tudo.

No restaurante da Faculdade, certa vez, Bolinha protagonizou o incidente notável que pretendo relatar.

Um amplo refeitório, onde cerca de sessenta estudantes almoçavam. Batia forte o verão carioca, naquele recinto agravado por emanações calóricas, multibalsâmicas, vindas da cozinha e pelo burburinho de rapazes e moças manejando talheres em salvas de metal. O famoso “bandejão”.  

Servidas nossas porções, sentamos, Bolinha e eu, na primeira mesa disponível e iniciaríamos o repasto quando uma bolota de papel-toalha, embebida em água, veio espocar dentro da refeição do meu colega, emplastando-lhe de feijão a camisa.

Brincadeira de mau-gosto ou provocação desafiadora?  Conferiu-se logo. Bolinha de um salto pôs-se de pé sobre a mesa e, erguendo a bandeja acima da cabeça, obteve silêncio da plateia liberando um vagido selvagem próximo àquele que, cinco anos depois, o psiquiatra de John Lennon, Arthur Janov, definiria como grito primal.

Fez-se silêncio e ele discursou com superioridade: 
−Colegas, atenção! Alguém arremessou ao meu prato esta bucha de papel molhado... (Pausa) Não vou perguntar qual o filho-da-puta fez isto porque sei que aqui neste espaço de ensino superior não convivemos com bastardos.
Sei que aqui dentro só temos verdadeiros homens!

Então eu pergunto:
− Quem atirou esta bolota na minha comida é HOMEM?

Ih! A respiração geral deu uma travada na expectativa do desdobramento, que veio rápido. Em mesa próxima, um sujeito forte, aparentando ser praticante de lutas marciais, pôs-se de pé e confessou em voz alta:

− João, eu atirei a bola. Nunca fui com tua cara. Falam que tu és inteligente, culto... Mas eu sempre te vi como um bestalhão, metido a ser o tal e a ganhar namoradas de todo mundo. Mas eu gostei da tua reação agora, ô cara. Tu és corajoso e “cabeça” pacas. Não estou mais a fim de briga. Quero ser teu amigo. (E baixando a voz) Peço desculpa pela merda que fiz.

Houve aplausos não muito convictos. Mas João Bolinha teve a elegância de caminhar até o avexado agressor e dar-lhe um abraço. Aí, sim, muitos aplausos.

Por estas e por outras, Bolinha tornou-se líder estudantil e o perdi de vista. Só vim a saber, tempos depois, que se metera na Guerrilha do Araguaia, para onde deslocou-se em 1973, à procura da namorada, Maria Selma, codinome “Ceacé”, guerrilheira e também ex-aluna de Filosofia na UFRJ. Parece que, denunciado por camponeses cooptados pela repressão, João teria sido preso na selva, torturado e entregue ao CIEx.

Passou à história como desaparecido político. 

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(Publicado a 03.05.13 em http://www.bloghetto.com.br/ )

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A faquinha do Jeca


***
Era domingo, dia final da Exposição Agropecuária da cidade mineira de Santana da Piedade. Na praça principal algumas pessoas presenciavam o embarque dos animais expostos, de volta às suas respectivas fazendas. Proprietários rurais e tratadores, orgulhosos de seus touros, de suas vacas e de seus cavalos, procuravam acomodá-los com desvelos de enfermeiros nos caminhões adaptados ao transporte dos preciosos puro-sangue.
Carlinhos de Abaíba, fazendeiro tão abastado quanto apaixonado por seu gado, ostentava no próprio cangote a reluzente medalha de ouro, suspensa por uma fita amarela e verde, que no dia da premiação foi deferida ao pescoço de seu campeoníssimo touro, Baobá.
Boi “esquentado” na presença de muita gente – dizia − Baobá pode irritar-se e danificar o troféu numa cabeçada azarada. Orgulhoso de seu Nelore, Carlinhos se gabava de como acabara de recusar quatro milhões de reais pelo campeão.
− O Gaúcho realmente me ofereceu quatro  “pernas” pelo boi, mas eu disse pra ele: “Quatro milhões de reais, meu amigo, é boa grana. Dinheiro grosso, sim, mas é fortuna que muita gente, por aí, possui. Já um touro como o Baobá, nesse Brasilzão de meu Deus, só eu posso dizer que o tenho! E vou continuar dono dele.”
Assim, com a altivez dos ungidos, seguia na assistência ao embarque de seu portentoso exemplar, o qual, naquele instante, regateava um pouco ao esforço dos peões de fazê-lo galgar a rampa de madeira e entrar no acolchoado caminhão-baú que o levaria de volta às suas fêmeas de elite.
− Vamos, Baobá! Ôôôô! Sobe, Baobá! Sobe, Baobá!… Justo nesse momento crítico do embarque, eis que um vira-latas de rua, julgando-se convocado pelo vozerio de homens com os quais sua espécie é solidária há quatorze mil anos, resolve desincumbir-se de sua missão no mundo, que, naquele instante, seria “ajudar” os boiadeiros. Parte para cima do colossal zebuíno com rosnados e latidos arrogantes, indo aplicar uma dentada bem no prepúcio róseo do Baobá.
Ah, pra quê! O touro entrou em dia de fúria. Arrebentou o cabresto, jogou a volumosa carcaça vacum sobre o frágil cercado que guarnecia o embarcadouro e, liberto, estourou, enfurecido, pela praça. Meninos subiam nas árvores, homens e mulheres se refugiavam nas casas, entalando-se portas adentro. Um Deus nos acuda. O largo central de Santana da Piedade ficou às moscas.
Apenas, no meio da praça, sentado sobre o ornato histórico de um antigo carroção de madeira de quatro rodas, um homem magro de pele tostada, chapéu surrado, camisa xadrez, calça cáqui e botina chapiscada de esterco – alheio a tudo − preparava seu cigarrinho de fumo de rolo. A palha de milho já aparada, atrás da orelha, esfarelava ele as fibras do tabaco na palma da mão, com sua indefectível faquinha de ponta presa entre os dedos.
Bufando e correndo em círculos, cauda recurvada para cima, o touro enfurecido não demorou muito a dar com o apalermado cidadão e partir para cima dele. Coitado do Baobá! Sabia pouco de matuto mineiro. Levantando as pernas para livrá-las das poderosas aspas do animal, o roceiro jogou-se para trás, deixando a madeira lateral do pesado carroção livre para a poderosa testada do Baobá. O bicho chegou a cambalear, acusando a pancada.
A segunda investida viria mais raivosa. O jeca, porém, já rolara para debaixo do carroção, agarrando-se ao eixo de ferro roliço, de tal sorte que, para onde fosse aquela geringonça ao sabor das cabeçadas do Baobá, para lá também iria ele, inteiramente protegido.
A fúria do animal  parecia aumentar. Ávido por alcançar o tinhoso tabaréu debaixo da carruagem, passou o touro a aplicar chifradas sob ela, ameaçando virá-la de rodas para o ar. Não imaginava o boi que, ao abaixar demais a cabeça, oferecia ao “inimigo” o ponto nevrálgico por onde todo boi morre nas arenas hispânicas e nos matadouros do mundo: a nuca. O erro lhe seria fatal.
Numa arremetida dessas a faquinha do jeca espetou de morte a nuca do Baobá, que, para desespero do dono, aquietou no chão suas vinte e oito arrobas de carne de primeira. Mortinho da silva.
Carlinhos de Abaíba, num alpendre fronteiriço, ameaçou perder o fôlego e teve que ser abanado com chapéu de palha. Adeus, filhotes de alto pedigree! Quinhentos  reais para cada cobertura de vaca no cio, nunca mais! E os quatro milhões recusados ao Gaúcho, ali estendidos no chão em cotação de açougue!
Quando o matuto saiu de sob o carroção a plateia pôde constatar que não se tratava de nenhum atleta. Meio corcundinha, de certa idade, até mancava da perna direita − possível artrose sexagenária. E foi manquitolando que ele se dirigiu à parte traseira do Baobá, segurou firme com as duas mãos a vigorosa bolsa escrotal do aristocrático reprodutor, esticou-a o quanto pôde e, bem rente ao corpo do bicho, decepou-a com a faquinha de ponta.
Dirigindo-se à assistência, abriu um sorriso falho nos dentes e deu testemunho da simplicidade perigosa em que Baobá se danou:
-Vou levar a borsa dele. Se inxiste uma coisa que eu apricêio dum tanto é testico de boi, greiado no fogão de lenha.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪                                                                                                                          (Publicada em http://www.bloghetto.com.br/ a 22.02.2013)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Evito Remédios


*** 

Ah, isto eu evito. Sei que escribas hipocondríacos, os mais diversos, já abriram suas almas em público, esquecidos da elegância de Castilho ao dizer “tediosa e impolida coisa é falar homem de si próprio”. Em todo caso, cada caso é um caso e, no meu caso, avança o barco na contramão dos maníacos por remédio. Sou e sempre fui avesso ao mundo medicamentoso.

É bem verdade que, há alguns anos, certo angiologista, depois de bem examinar o fluxo sanguíneo em minha carótida, convenceu-me a ingerir, todos os dias, um comprimidinho de AAS, às refeições e, à noite, rebater com outro, chamado Sinvastatina.

Explicou-me o versado em carótida (Honni soit qui mal y pense) que o Ácido Acetil Salicílico inibe a agregação de plaquetas evitando formar trombos nas veias e artérias. Já as Estatinas são inimigas mortais do LDL (o colesterol escroto), perito em obstruções arteriais. Ante tão doutos argumentos, aquiesci nessas duas exceções, mas, como disse, evito tomar remédios.

Não posso negar também – minha honestidade exige a ressalva − que, há uns cinco anos, ouvi de meu cardiologista que pressão acima de 14 é “pressão alta”. São novos parâmetros, diz ele, adotados no mundo da prevenção de infartos e AVCs. Dando-se que minha pressão é useira e vezeira em alcançar os 15, principalmente quando fico “pê” da vida com alguma coisa, recomendou-me ele dois comprimidinhos diários de Losartana Potássica.

A explicação é que a droga impede a retenção de sódio e água no organismo, evitando hipervolemia e a consequente hipertensão arterial. Mesmo boiando no que fosse “hipervolemia”, assustado com algumas sequelas de AVC que já vi por aí, decidi abrir mais uma exceção. O café da manhã vem me ajudando a engolir também esses dois comprimidos. Sem prejuízo, claro, de minha obstinada posição de abominar os fármacos. 

Certamente ficaria nisto não fosse a tendência que tenho à deprê ante as falsetas da vida. E foi num desses dias de alma estomagada que procurei psiquiatra e ele me provou, por “a” mais “b”, que depois de uma “certa idade” as inquietações do espírito são naturais e que, todos, devíamos tomar, de preferência à noite, uma inofensiva cápsula de Cloridrato de Sertralina.

Foi mais longe o esculápio. Disse que as Secretarias de Saúde deveriam colocar Cloridrato de Sertralina nas caixas d`água de todos os contribuintes do IPTU com mais de quarenta anos. É que o miraculoso fármaco inibe a “recaptação da serotonina” – boiei de novo − mandando tudo que é angústia às favas.

Serei injusto com o generoso princípio ativo se negar que, por obra de sua ingestão, venho conciliando velhos sonhos condoreiros da juventude com minha pífia realidade hodierna. Sem abandonar, todavia, meu direcionamento básico, o leitmotiv wagneriano, sagrado, de fugir à química laboratorial. 

Exatamente por isto, enorme foi minha apreensão quando uma terrível dor no joelho passou a crispar meu semblante sempre que me erguia de uma simples cadeira.  O ortopedista diagnosticou artrose avançada, com indicação de prótese no meu joelho direito. Diante do pavor que manifestei por um gonzo metálico dans mon genu, aconselhou-me ele – sem muito entusiasmo − a usar Sulfato de Condroitina associado à Glucosamina, para tentar reconstituir a cartilagem gasta.

Tratamento longo e resultado duvidoso − ressalvou. Pois mesmo esse prognóstico pessimista me pareceu mais simpático que serrar o joelho, jogá-lo aos cães qual mocotó de jegue, substituindo-o por uma dobradiça estilizada. Passei a tomar, todos os dias, às refeições, uma drágea de Condroitina com Glucosamina. Decisão detestável, já se vê, considerada minha rígida resistência a remédios.

Infelizmente, nada evita aquela quadra da vida em que reinam as preocupações. Quando não é com filho é com neto, com esposa, com irmãos, cunhados, amigos virtuais ou companheiros de golo. Um inferno astral. Quando não se perde o sono, perde-se a tranquilidade do sono.

Certa noite o socorro veio pelo telefone. Não paguei consulta. “Não se mate Carlos” − disse-me, drumondianamente, meu cunhado médico. Tome um Olcadil todas as noites, ao deitar-se. É ticket to ride para a paz dos travesseiros! – prescreveu.
Não é que resolve! Não seria um simples Olcadil 2mg que iria comprometer meu propósito inabalável de sempre fugir às medicações.

Transgressões outras não pratico, afora o hábito salutar, herdado de minha mãe, com relação à homeopatia. Considero que Homeopatia escapa ao conceito geral de droga. Similia similibus curantur – são semelhantes curando semelhantes. Para febre, faço uso de Aconitum e Briônia e, para dores lombares,sirvo-me de Acheflan ou Flexive, sendo estes dois últimos da classe dos fitoterápicos, para os quais não vejo razão para minha costumeira intransigência.

O mais importante na vida é escapar com ela. 

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(Publicada  em http://www.bloghetto.com.br/ a 15.03.2013)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Elvira está bem


***                                   

É isto aí, Ascânio. Imagine que hoje pela manhã, ainda à mesa do café, Jalcira e eu falamos de você e Elvira. Principalmente daquele passeio que vocês nos proporcionaram ao litoral do Espírito Santo. Impossível esquecer a praia rasinha de Piúma, onde a gente entrava no mar e ia andando toda a vida na direção do continente africano e nada de molhar o joelho. Água apenas nos tornozelos.

Ora, se me lembro! Vocês foram ótimas companhias. Elvira e eu adoramos aqueles dias agradáveis com jogo de canastra entrando pela madrugada, cerveja e Peroá com mandioquinha frita na praia. Pena que não bisamos a oportunidade.
É a vida moderna, essa desagregadora de afinidades!

Quanto à Elvira, não poderia estar melhor. Foi recepcionada, ontem, por uma grande amiga de solteira, a Antonela, em cerimônia linda, segundo acaba de me relatar o Lulu Batuta.

− Ah, sim, conheço, o seu chofer.             

Exato. Lulu Batuta é baiano do interior que, muito ao contrário do estereótipo atribuído aos baianos, nunca foi chegado a festas, a coisas estrepitosas. Cara circunspecto, sempre na dele, que nem conhece a buliçosa Salvador. Pois foi este homem que ficou fascinado com a toarda que fizeram, ontem, em homenagem a Elvira. Aquela pá de gente ligada, alegre, cantando, dançando... Todo mundo de Abadá branco!  

Claro que a mais empolgada na recepção foi a mãe dela, Da. Lilá, a responsável, aliás, por verdadeiro tributo à pessoa da filha. Incrível, cara! Festa regada a espumantes requintados e canapés da mais erudita facção culinária.

Sinta a criatividade da Sogrona. No auge da confraternização, que até poderia ser dada como fashion – traço incorrigível da personalidade de Da. Lilá −  surgiu ela com uma surpresa. Erguendo, com a mão direita, a toalhinha de linho que cobria uma bandeja de prata espalmada na mão esquerda, descerrou bem na face de Elvira sua tradicional Broa de Fubá feita com banha de porco e erva doce − a guloseima que minha adorável esposa ama de paixão!  

Apoteótico! Não tem outra palavra:  Apoteótico! Todos os convidados batendo palmas, cantando o “Parabéns pra você”, o “Com quem será”... De arrepiar! Do jeito que o Lulu Batuta me contou, cheguei a me emocionar. Verdade, cara, a me emocionar!

− Sabe que, em mim, Broa de Fubá dá azia?

Em mim também, mas Elvira sempre foi vidrada em Broa de Fubá. Criada na fazenda, não é...  Como disse o Batuta, não tinha pra mais nada.

− Pera aí, Ascânio. Vamos chamar nossa conversa à ordem. Pode não ser o que você realmente disse, mas estou entendendo que seu chofer, o Lulu Batuta, teria conduzido Elvira, sua esposa, a um passeio à Bahia, onde atualmente residiria sua sogra. Isto me deixa muito feliz, meu velho!  Apenas confuso porque a notícia recebida lá na repartição é que sua esposa, Elvira, faleceu ontem, de disparada cardíaca, e que o enterro seria daqui a meia hora, exatamente neste cemitério onde estamos.

Não por outro motivo, aliás, aqui estou – pelo visto trazendo condolências precipitadas, por mim e pelos colegas que não puderam vir. Ao chegar, há pouco, não tive dúvida de que  esta seria a mesma razão de sua presença neste velório. Sepultamento que de agora em diante passo a não imaginar de quem seja. Não obstante, contratempos à parte, é um alívio saber que sua mulher está viva, bem de saúde e a passeio na terra de Ivete Sangalo.

Não exatamente viva. Não exatamente na terra de Ivete. Sob  visão profana, sim, Elvira faleceu ontem e nós levaremos seu corpo à sepultura daqui a pouco. O que acabo de lhe passar é a alegria que experimentei, há poucos minutos, ao saber, pelo relato de Lulu Batuta, que minha companheira de tantos anos, apesar de formalmente morta, continua consciente, feliz, em animadas companhias lá no outro plano da existência.

Não pode haver conforto maior, cara. Sempre digo que o ser humano não se conhece; sabemos muito pouco do que somos e do que podemos. O Batuta não me contou de ouvir falar: ele teve uma  visão pessoal da chegada de Elvira aos umbrais do Paraíso!

− O motorista.

Sim, o Lulu Batuta. Ele é também Pai de Santo, entende, num terreiro muito bem frequentado – inclusive por advogados e militares reformados − ali em Vila Narjara. O que ele diz você pode escrever, Galdino.

− Claro, claro.

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(Publicada no LEOPOLDINENSE online e em http://www.bloghetto.com.br/ a 08.023.2013)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Rigor em Santa Maria


***
Não vejo como tripúdio ou falta de comiseração com as jovens vítimas e seus familiares, comentar a tragédia de Santa Maria numa crônica. Ressalvo isto porque já li, em mais de duas oportunidades, restrições de leitores à abordagem circunstancial do tema.

Bem ao contrário, entendo que o episódio deva ser exaustivamente debatido. Não há melhor forma de influir na prevenção de novos desastres. Não faz mal que mesmo opiniões equivocadas lambuzem papel de imprensa e desperdicem o tempo de quem lê. 

Para mim, ocorrências de tal gravidade dispensam até maiores zelos com reputações.
Aguardar que um “rigoroso inquérito” aponte os verdadeiros culpados é lenga-lenga! Quem não é cego ou simplório já viu e entendeu o acontecido. E anseia por justiça! Justiça que, na senda exemplarmente aberta pelo STF, com o processo nº470, siga revendo o afrouxamento de valores que sempre infelicitou este país.

O teto da boate foi recoberto com material inflamável? Sim. Logo, os irresponsáveis que construíram e os irresponsáveis que deveriam ter fiscalizado, e não fiscalizaram ao emitirem Alvarás, precisam ser condenados e presos. A porta de escape foi insuficiente para que centenas de jovens fugissem do fogo e da fumaça? Claro que foi. Logo, os irresponsáveis que construíram ou adaptaram o prédio para funcionar como uma casa de espetáculos devem ser responsabilizados e, com eles, as autoridade que se omitiram.

Extintores não funcionaram? Pessoas morreram nos banheiros por falta de luzes indicadoras visíveis sob fumaça? Funcionários imbecis barraram a saída de jovens em desespero supondo tentativa de “beiço” nas comandas? Efeitos especiais com fogos de artifício foram praticados em ambiente fechado? Processo, condenação e cadeia em quem assumiu o risco de matar gente.

Não vem ao caso se acidentes iguais já ocorreram pelo mundo. Não é prova de que não possam ser evitados. Responsabilidade é a palavra. E nada estimula mais a responsabilidade que o temor à lei. A certeza num judiciário que funcione. Todo cidadão precisa temer a Justiça, quando incapaz de cumprir a lei por hábito de cidadania. O Brasil precisa que seus operadores do Direito implantem neste país, de uma vez por todas, o império da legalidade.

Aqueles meninos universitários integravam a nata da juventude brasileira. Será muito injusto que tenham morrido em vão. Afaste-se de vez a ideia de que foram vítimas de uma fatalidade, de um caso fortuito. Não, não foram! Eles morreram por obra de irregularidades e ilegalidades cometidas  por quem estava ganhando dinheiro com a festa: teto inflamável, falta de portas de escape, falta de luzes indicativas de saída, falta de equipamento de segurança funcionando, estupidez humana e omissão de autoridades fiscalizadoras.

Portanto, Senhores Juízes, o Brasil espera de seus Tribunais uma decisão exemplar para este caso. Com serenidade, sim, mas com extremo rigor. Não se está clamando por recuo no estágio civilizatório a que chegamos, pelo primitivismo da reciprocidade taliônica... Nada disto. O clamor é por um endurecimento de vértebras num judiciário que aos olhos do público sempre se mostrou leniente.

Clamor por uma resposta aceitável às famílias enlutadas, antídoto certeiro a que outro drama como o de Santa Maria jamais voltará a acontecer.
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(Publicada no LEOPOLDINENSE e em http://www.bloghetto.com.br/ a 25.01.2013)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

No Hotel Fazenda


***

Pirandello disse que as mulheres, assim como os sonhos, nunca são como a gente gostaria que fossem. Não sei, não. Politicamente mais correto é Pitigrilli que diz serem as mulheres o cristal colorido através do qual olhamos a vida. Uma boa verdade é que não se deve discutir com elas. Quando mulher diz uma coisa convém concordar. É que os fatos costumam conspirar a favor das previsões femininas, mesmo quando fundadas em raciocínio duvidoso. Vindo a acontecer o previsto por elas, o cara vai ouvir.

Foi mais ou menos o que se deu. Ela avisou pra ele que aquele Hotel Fazenda não estava com nada. Mas é pão-duro, insistiu... Deu no que deu. Ele sabia que uma diferencinha boba em diária de hotel pode ser decisiva entre salvar ou estragar um passeio. Não quis ouvir a mulher...

O certo é que a bronca comia solta dentro do carro, assim que deixavam o Hotel, no final precipitado das férias.
– Deus me perdoe – recriminava ela − fazer malas às pressas e ainda sair do hotel vomitando! Do “hotel”, não, dessa espelunca que você escolheu!

– Minha querida, nós já estivemos aqui outras vezes e deu tudo certo. O feijão tropeiro deles é de primeiríssima, a galinha com quiabo parece santificada... E o tutu à mineira? E a vaca atolada? E o arroz com pequi?... Infelizmente, tivemos problema desta vez, mas a culpa pode não ter sido deles. Corre um riacho bem sob a janela do quarto que ocupamos. Natural que em qualquer córrego apareça um rato morto, um gambá, uma ave. Acontece.

– Você fala de bicho pequeno. Aquela fedentina poderosa é de boi ou elefante podre. Meu estômago continua revirado. Melhor nem continuarmos o papo... É como se aquele odor repulsivo ainda estivesse impregnando meu nariz. Não vai embora! Cruzes! Nem com janela fechada e condicionador de ar ligado a coisa parava de feder. Um horror! Eles tiveram três dias para resolver! Foi inútil reclamar. Nunca pensei terminar um passeio com tanto mal-estar, tanta náusea. E olha que sou acostumada com seu cachimbo fétido, responsável, aliás, por você mal ter atinado com a atmosfera conspurcada daquele quarto.

– Veja, amor, reconheço que estes últimos dias foram péssimos, com o surgimento do problema. Você há de convir, entretanto, que os muitos dias anteriores foram reconfortantes, saudáveis, de boas caminhadas a cavalo. Sem falar nas compras de artesanato que você adorou fazer. Tudo bem que o nível baixo do reservatório da hidrelétrica melou minha pescaria. Fazer o quê? Fica para a próxima vez. Aliás, perdi meus dois quilos de iscas de camarão, mas isto não vem ao caso.

– Perdeu o quê?                                   

– Querida, você não me viu comprar as iscas no entreposto, no dia em que saímos de férias!

– E onde estão elas?

– No isopor com gelo, claro.

– E cadê o isopor?

– Óbvio que minha adorável esposa deve tê-lo colocado ali atrás, na mala do carro, ao deixarmos o Hotel há pouco.

– Vou tentar compreender: Há vinte dias você comprou iscas e supõe que o gelo continua sólido, durinho, pedrinhas vitrificadas, conservando crustáceos refugados na peixaria. Eu, sua “retardada esposa”, obrigada a estar atenta a lugares onde você maloca troços assim, os teria colocado de volta na mala do carro, minutos atrás, quando nos batíamos em precipitada fuga do hotel...

–Onde foi que você colocou suas iscas podres, seu doido?

– Perdão, amor: atrás do frigobar.

– Não acredito! Só um desmiolado guardaria camarão gelado no lugar onde todo mundo seca sapatos! Temos que ligar para o hotel e alertá-los.

– É, foi mal... Mas talvez não precisemos ligar. Os urubus já devem estar forçando a janela.

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(Publicada em http://www.bloghetto.com.br/ a 25.01.2013)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A Crônica do Nelson Motta


***
Não adianta a gente querer começar diferente o Ano Novo. Prometi à amiga Selminha que voltaria às minhas intromissões impostoras no gênero Crônica, agora em janeiro. Pois não foi que a indulgente “Tia Selma” aceitou baixar o nível do seu alinhado Bloghetto e publicar minhas bobices todas as sextas-feiras! É uma maneira dela caçoar de mim, eu sei. Não faz mal. Guardo saltimbancos da Idade Média impressos no DNA.

Um probleminha é que, já para redigir a primeira página, dois constrangimentos quase me dissuadem: o centenário de Rubem Braga, com todas essas homenagens ao maior de todos os cronistas brasileiros mostrando, de dedo em riste, o meu lugar na cozinha, e o mesmismo do noticiário deste janeiro, parco de assuntos inspiradores.

Eu disse mesmismo? Sim, mas garimpei uma exceção. Estava no Nelsinho bom de ler, também conhecido como Nelson Motta, no jornal O Globo, de sexta, 11.

Nelson mandou lá sobre o paradoxo de ações políticas, progressistas, que acabam gerando milhões de reacionários. Lembrou o exemplo da Reforma Agrária de Abraham Lincoln, nos Estados Unidos, em 1862, que, ao distribuir terras governamentais aos pobres, transformou-os na “maioria conservadora” que passou a não querer mudar mais nada naquele país.

Fato análogo estaria acontecendo agora, um século depois, no Brasil: nossa nova classe média, que passou a ter casa, carro, crédito, viagem de avião, e é eleitoralmente decisiva, “parece ser ainda mais conservadora do que a velha”. Ninguém quer perder o que conquistou! Os pobres de ontem viraram os conservadores de hoje.

A análise é sem dúvida instigante, mas pede cuidado. De fato, a discussão entre voto de direita e voto de esquerda perdeu sentido há muito tempo no Brasil. Os últimos esquerdistas brasileiros estão passando dos setenta anos, são contemporâneos da invasão à Baia dos Porcos, em Cuba. Já os últimos direitistas são velhos leitores do Gustavo Corção, que operaram catarata para continuar lendo Olavo de Carvalho. Uns e outros, se ainda não penduraram, estão pendurando as chuteiras ideológicas.

Tem razão o Nelson quando verifica que a ascensão social pode levar ao desejo de instituições sólidas, à disposição de manter (conservar) conquistas, como casa, carro, celular, crédito, viagem de avião, roupinha “de marca”… Podendo, sim, levar ao voto conservador.

Quando falo em “cuidado” no exame da situação é por supor que nem sempre é apenas isto que tem levado ao “voto de direita” no Brasil. Concorrem outras realidades menos edificantes. Vejam, por exemplo, como votam os miseráveis maranhenses e os miseráveis alagoanos… Aquela gente não está “conservando” coisíssima alguma além da própria indigência e interesses de seus respectivos Coronéis da área.

Quando Tim Maia – citado por Nelsinho – diz que “no Brasil, as putas gozam, os cafetões são ciumentos, os traficantes são viciados e os pobres são de direita”, a charada proposta é tão verdadeira quanto complexa.

A ascendência de nossos derradeiros coronéis interioranos sobre a massa miserável a eles jurisdicionada, e a capacidade que ainda possuem de afrontar as próprias instituições, tem peso importante em qualquer análise política ou sociológica que se faça no Brasil.

Na frase lapidar do criador de Sossego ainda caberia, por exemplo, uma sacada a mais de reproche a CPI encerrada às pressas quando deu de desenterrar bandidos intocáveis.

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(Publicada em http://www.bloghetto.com.br/ a 18.01.2013)