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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

No Hotel Fazenda


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Pirandello disse que as mulheres, assim como os sonhos, nunca são como a gente gostaria que fossem. Não sei, não. Politicamente mais correto é Pitigrilli que diz serem as mulheres o cristal colorido através do qual olhamos a vida. Uma boa verdade é que não se deve discutir com elas. Quando mulher diz uma coisa convém concordar. É que os fatos costumam conspirar a favor das previsões femininas, mesmo quando fundadas em raciocínio duvidoso. Vindo a acontecer o previsto por elas, o cara vai ouvir.

Foi mais ou menos o que se deu. Ela avisou pra ele que aquele Hotel Fazenda não estava com nada. Mas é pão-duro, insistiu... Deu no que deu. Ele sabia que uma diferencinha boba em diária de hotel pode ser decisiva entre salvar ou estragar um passeio. Não quis ouvir a mulher...

O certo é que a bronca comia solta dentro do carro, assim que deixavam o Hotel, no final precipitado das férias.
– Deus me perdoe – recriminava ela − fazer malas às pressas e ainda sair do hotel vomitando! Do “hotel”, não, dessa espelunca que você escolheu!

– Minha querida, nós já estivemos aqui outras vezes e deu tudo certo. O feijão tropeiro deles é de primeiríssima, a galinha com quiabo parece santificada... E o tutu à mineira? E a vaca atolada? E o arroz com pequi?... Infelizmente, tivemos problema desta vez, mas a culpa pode não ter sido deles. Corre um riacho bem sob a janela do quarto que ocupamos. Natural que em qualquer córrego apareça um rato morto, um gambá, uma ave. Acontece.

– Você fala de bicho pequeno. Aquela fedentina poderosa é de boi ou elefante podre. Meu estômago continua revirado. Melhor nem continuarmos o papo... É como se aquele odor repulsivo ainda estivesse impregnando meu nariz. Não vai embora! Cruzes! Nem com janela fechada e condicionador de ar ligado a coisa parava de feder. Um horror! Eles tiveram três dias para resolver! Foi inútil reclamar. Nunca pensei terminar um passeio com tanto mal-estar, tanta náusea. E olha que sou acostumada com seu cachimbo fétido, responsável, aliás, por você mal ter atinado com a atmosfera conspurcada daquele quarto.

– Veja, amor, reconheço que estes últimos dias foram péssimos, com o surgimento do problema. Você há de convir, entretanto, que os muitos dias anteriores foram reconfortantes, saudáveis, de boas caminhadas a cavalo. Sem falar nas compras de artesanato que você adorou fazer. Tudo bem que o nível baixo do reservatório da hidrelétrica melou minha pescaria. Fazer o quê? Fica para a próxima vez. Aliás, perdi meus dois quilos de iscas de camarão, mas isto não vem ao caso.

– Perdeu o quê?                                   

– Querida, você não me viu comprar as iscas no entreposto, no dia em que saímos de férias!

– E onde estão elas?

– No isopor com gelo, claro.

– E cadê o isopor?

– Óbvio que minha adorável esposa deve tê-lo colocado ali atrás, na mala do carro, ao deixarmos o Hotel há pouco.

– Vou tentar compreender: Há vinte dias você comprou iscas e supõe que o gelo continua sólido, durinho, pedrinhas vitrificadas, conservando crustáceos refugados na peixaria. Eu, sua “retardada esposa”, obrigada a estar atenta a lugares onde você maloca troços assim, os teria colocado de volta na mala do carro, minutos atrás, quando nos batíamos em precipitada fuga do hotel...

–Onde foi que você colocou suas iscas podres, seu doido?

– Perdão, amor: atrás do frigobar.

– Não acredito! Só um desmiolado guardaria camarão gelado no lugar onde todo mundo seca sapatos! Temos que ligar para o hotel e alertá-los.

– É, foi mal... Mas talvez não precisemos ligar. Os urubus já devem estar forçando a janela.

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(Publicada em http://www.bloghetto.com.br/ a 25.01.2013)

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