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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A Crônica do Nelson Motta


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Não adianta a gente querer começar diferente o Ano Novo. Prometi à amiga Selminha que voltaria às minhas intromissões impostoras no gênero Crônica, agora em janeiro. Pois não foi que a indulgente “Tia Selma” aceitou baixar o nível do seu alinhado Bloghetto e publicar minhas bobices todas as sextas-feiras! É uma maneira dela caçoar de mim, eu sei. Não faz mal. Guardo saltimbancos da Idade Média impressos no DNA.

Um probleminha é que, já para redigir a primeira página, dois constrangimentos quase me dissuadem: o centenário de Rubem Braga, com todas essas homenagens ao maior de todos os cronistas brasileiros mostrando, de dedo em riste, o meu lugar na cozinha, e o mesmismo do noticiário deste janeiro, parco de assuntos inspiradores.

Eu disse mesmismo? Sim, mas garimpei uma exceção. Estava no Nelsinho bom de ler, também conhecido como Nelson Motta, no jornal O Globo, de sexta, 11.

Nelson mandou lá sobre o paradoxo de ações políticas, progressistas, que acabam gerando milhões de reacionários. Lembrou o exemplo da Reforma Agrária de Abraham Lincoln, nos Estados Unidos, em 1862, que, ao distribuir terras governamentais aos pobres, transformou-os na “maioria conservadora” que passou a não querer mudar mais nada naquele país.

Fato análogo estaria acontecendo agora, um século depois, no Brasil: nossa nova classe média, que passou a ter casa, carro, crédito, viagem de avião, e é eleitoralmente decisiva, “parece ser ainda mais conservadora do que a velha”. Ninguém quer perder o que conquistou! Os pobres de ontem viraram os conservadores de hoje.

A análise é sem dúvida instigante, mas pede cuidado. De fato, a discussão entre voto de direita e voto de esquerda perdeu sentido há muito tempo no Brasil. Os últimos esquerdistas brasileiros estão passando dos setenta anos, são contemporâneos da invasão à Baia dos Porcos, em Cuba. Já os últimos direitistas são velhos leitores do Gustavo Corção, que operaram catarata para continuar lendo Olavo de Carvalho. Uns e outros, se ainda não penduraram, estão pendurando as chuteiras ideológicas.

Tem razão o Nelson quando verifica que a ascensão social pode levar ao desejo de instituições sólidas, à disposição de manter (conservar) conquistas, como casa, carro, celular, crédito, viagem de avião, roupinha “de marca”… Podendo, sim, levar ao voto conservador.

Quando falo em “cuidado” no exame da situação é por supor que nem sempre é apenas isto que tem levado ao “voto de direita” no Brasil. Concorrem outras realidades menos edificantes. Vejam, por exemplo, como votam os miseráveis maranhenses e os miseráveis alagoanos… Aquela gente não está “conservando” coisíssima alguma além da própria indigência e interesses de seus respectivos Coronéis da área.

Quando Tim Maia – citado por Nelsinho – diz que “no Brasil, as putas gozam, os cafetões são ciumentos, os traficantes são viciados e os pobres são de direita”, a charada proposta é tão verdadeira quanto complexa.

A ascendência de nossos derradeiros coronéis interioranos sobre a massa miserável a eles jurisdicionada, e a capacidade que ainda possuem de afrontar as próprias instituições, tem peso importante em qualquer análise política ou sociológica que se faça no Brasil.

Na frase lapidar do criador de Sossego ainda caberia, por exemplo, uma sacada a mais de reproche a CPI encerrada às pressas quando deu de desenterrar bandidos intocáveis.

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(Publicada em http://www.bloghetto.com.br/ a 18.01.2013)

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