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sábado, 11 de maio de 2013

João Bolinha


Abril, 2013

Nesse turbilhão de incitamentos que é a vida, sempre soube que um dia acabaria contando a história de João Bolinha.

Ressalvo que o “Bolinha”, do João, nada tinha a ver com obesidade. O apelido lhe foi pespegado pela enorme habilidade que demonstrava com uma bola no pé, fazendo “embaixadas”. Produzia de cem embaixadinhas para mais, sem deixar a peteca, no caso a bola, cair. Repetia a façanha com laranjas, tampinhas de garrafa e outros descartáveis sólidos. Daí que, desde os tempos secundários, “pra qualquer um na rua”,  era o Bolinha!

Mineiros do interior, aos dezoito anos buscamos escolas superiores no Rio de Janeiro. Um cortiço na Glória nos protegia das intempéries e fazíamos refeições em restaurante estudantil contíguo à Faculdade Nacional de Filosofia, no Castelo. Aliás, filosofia veio a ser a escolha do Bolinha.

Fisicamente, meu amigo não era alto nem atlético. Mas fazia um sucesso danado com as garotas. O que mais sobressaia nele, além do talento malabarístico com a bola, era a lucidez. Sempre nos passava, a nós seus amigos, a impressão de que aprendera mais, lera mais, informara-se primeiro, sabia tudo.

No restaurante da Faculdade, certa vez, Bolinha protagonizou o incidente notável que pretendo relatar.

Um amplo refeitório, onde cerca de sessenta estudantes almoçavam. Batia forte o verão carioca, naquele recinto agravado por emanações calóricas, multibalsâmicas, vindas da cozinha e pelo burburinho de rapazes e moças manejando talheres em salvas de metal. O famoso “bandejão”.  

Servidas nossas porções, sentamos, Bolinha e eu, na primeira mesa disponível e iniciaríamos o repasto quando uma bolota de papel-toalha, embebida em água, veio espocar dentro da refeição do meu colega, emplastando-lhe de feijão a camisa.

Brincadeira de mau-gosto ou provocação desafiadora?  Conferiu-se logo. Bolinha de um salto pôs-se de pé sobre a mesa e, erguendo a bandeja acima da cabeça, obteve silêncio da plateia liberando um vagido selvagem próximo àquele que, cinco anos depois, o psiquiatra de John Lennon, Arthur Janov, definiria como grito primal.

Fez-se silêncio e ele discursou com superioridade: 
−Colegas, atenção! Alguém arremessou ao meu prato esta bucha de papel molhado... (Pausa) Não vou perguntar qual o filho-da-puta fez isto porque sei que aqui neste espaço de ensino superior não convivemos com bastardos.
Sei que aqui dentro só temos verdadeiros homens!

Então eu pergunto:
− Quem atirou esta bolota na minha comida é HOMEM?

Ih! A respiração geral deu uma travada na expectativa do desdobramento, que veio rápido. Em mesa próxima, um sujeito forte, aparentando ser praticante de lutas marciais, pôs-se de pé e confessou em voz alta:

− João, eu atirei a bola. Nunca fui com tua cara. Falam que tu és inteligente, culto... Mas eu sempre te vi como um bestalhão, metido a ser o tal e a ganhar namoradas de todo mundo. Mas eu gostei da tua reação agora, ô cara. Tu és corajoso e “cabeça” pacas. Não estou mais a fim de briga. Quero ser teu amigo. (E baixando a voz) Peço desculpa pela merda que fiz.

Houve aplausos não muito convictos. Mas João Bolinha teve a elegância de caminhar até o avexado agressor e dar-lhe um abraço. Aí, sim, muitos aplausos.

Por estas e por outras, Bolinha tornou-se líder estudantil e o perdi de vista. Só vim a saber, tempos depois, que se metera na Guerrilha do Araguaia, para onde deslocou-se em 1973, à procura da namorada, Maria Selma, codinome “Ceacé”, guerrilheira e também ex-aluna de Filosofia na UFRJ. Parece que, denunciado por camponeses cooptados pela repressão, João teria sido preso na selva, torturado e entregue ao CIEx.

Passou à história como desaparecido político. 

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(Publicado a 03.05.13 em http://www.bloghetto.com.br/ )

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