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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marina

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Outubro, 2010

Os vinte milhões de votos conquistados por Marina Silva nesta eleição de 3 de outubro dão a medida do quanto a população brasileira está consciente da necessidade de uma vida higiênica sobre o planeta.

Desde a primeira infância aprendemos a não fazer xixi na cama em que dormimos, a lavar as mãos, a tomar banho, a separar e a dar destino asséptico ao lixo que produzimos. Nem sempre, porém, nos tornamos adultos suficientemente preocupados com preservação e higiene do ambiente físico em que vivemos.

Somos capazes de amontoar pneus, atar-lhes fogo, ver aquela nuvem negra de fuligem subir, misturar-se ao ar que respiramos, sem a mínima noção do que receberemos de volta em nosso sangue. Assim com as chaminés, assim com as descargas dos veículos. Achamos que tudo vai para longe. A fumaça “vai pra lá”... A bateria jogada no lixo “vai pra lá”... As embalagens plásticas “vão pra lá”... Ou seja, não é problema nosso a pestilência do ar, a infestação dos mananciais, a imundície descartada no mar.

Nas Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, está se formando uma ilha de lixo! Pode virar continente. Mede, por enquanto, uns 50 mil metros quadrados. Encontram-se por lá, além de outras misérias, embalagens plásticas rotuladas em vários países, principalmente asiáticos, latas, borracha, vidros... E animais marinhos engastalhados no entulho, tartarugas enforcadas no arame... Um quadro lastimável!

É urgente nos engajarmos na contramão deste mundo ecologicamente suicida, numa política de preservação da vida no planeta. Quando o presente ameaça o futuro, o presente passa a ser o próprio futuro.

Com a responsabilidade que agora lhe põem nos ombros 20 milhões de brasileiros, a senadora Marina Silva deverá condicionar seu apoio, no Segundo Turno, a quem venha firmar com ela compromissos programáticos. Esperamos que a fragilidade filosófica do incipiente PV não lhe oponha obstáculos.

Bem a propósito, trago para nossa “Conversa” de hoje trecho de discurso proferido por Bob Kennedy, em crítica aos “programadores do futuro” cegos às vítimas do progresso. Disse ele:

“Não encontraremos um fim para a nação, nem para nossa satisfação pessoal, na mera continuação do progresso econômico com exaustão indefinida dos meios terrenos. Não podemos medir o espírito nacional com base nos índices Dow-Jones, nem os sucessos com base no produto interno bruto. Porque o produto nacional bruto compreende a poluição do ar e a propaganda dos cigarros, assim como as ambulâncias para liberar nossas estradas da carnificina. Coloquemos na conta as fechaduras reforçadas que usamos para trancar nossas portas, assim como os cárceres para aqueles que as arrombam. O produto interno bruto compreende a destruição de nossas árvores coníferas e do Lago Superior.
(...) O produto nacional bruto insufla-se com os equipamentos que a polícia usa para conter as revoltas em nossas cidades; embora não diminua por conta dos danos que essas revoltas provocam (...)
E se o produto interno bruto compreende tudo isso, muitas coisas não foram calculadas. Não levam em conta o estado de saúde de nossas famílias, a qualidade da educação delas ou a alegria de suas brincadeiras. É indiferente à decência de nossas fábricas, assim como à segurança de nossas ruas. Não compreende a beleza de nossa poesia ou a solidez de nossos matrimônios, a inteligência de nossas discussões ou a honestidade de nossos funcionários públicos. Não leva em consideração nem a justiça de nossos tribunais nem a justeza das relações entre nós. O produto interno bruto não mede nem a argúcia, nem a nossa coragem, nem a nossa sabedoria, nem os nossos conhecimentos, nem a nossa compaixão, nem a devoção ao nosso país. Em resumo, mede tudo, menos aquilo que faz com que a vida valha a pena ser vivida; e pode informar de tudo sobre a América, exceto se temos orgulho de sermos americanos.”

Com este e outros argumentos, Domenico de Masi, em sua obra “Criatividade e Grupos Criativos”, nos lembra que a dialética social não acontece mais entre um grupo que decide e um grupo que obstrui suas decisões, mas entre um grupo hegemônico que tenta impor o seu projeto de futuro e um grupo antagonista que lhe propõe um projeto alternativo.

Parece até alusão ao impasse que colocou Marina fora do governo Lula. Mas eis que 1/5 do eleitorado brasileiro dá mostras de optar agora por um programa de governo que seja conciliador das duas propostas. Conversar com quem? Claro, com a nova interlocutora: Marina.
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(Publ. em 07.10.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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